A cheia não se ficou pelas infiltrações. O pequeno café do filho, mesmo ao lado, ficou inutilizado. “Estragou-se tudo. O fogão, a máquina do café, a torradeira, já foi tudo.” O filho, solteiro, enfrentou um cancro há 12 anos e vive hoje com uma doença cardíaca que o impede de fazer esforços. “Não se pode agachar para ajudar a nada.” Segunda-feira volta a Setúbal para mais tratamentos. “E com esta idade…”, suspira.
Quando a água subiu, foram os bombeiros que os retiraram de casa. O filho acabou no hospital, onde passou o dia a receber tratamentos. No dia seguinte voltou. “E a gente tem as coisinhas”, diz, numa frase que mistura apego e resistência.
Naciolinda recebe pouco mais de 300 euros de reforma. Não chega para grandes reparações. “O que é que eu faço para a minha vida com uma reforma tão pequenina que eu tenho?” À porta, as botas altas de borracha recordam até onde a água chegou: “Passou dois degraus.” Em 53 anos naquela casa, nunca viu nada semelhante. “Nunca me lembro de mão cheia assim.”
Natural de Grândola, foi em Alcácer do Sal que construiu a vida. Juntou-se cedo, ficou viúva aos 24 anos e criou dois filhos praticamente sozinha. Trabalhou onde houvesse sustento — nas mondas do arroz, nos ranchos, no que aparecesse. “Ia para ganhar, para comer mais, para dar aos meus filhos.” Viveu sempre com pouco. E conseguiu que chegasse.
Tem tido ajuda. “Umas raparigas, uns rapazes que têm vindo aí trazer um sumozinho, uma água, uma frutazinha, um docezinho.” A câmara municipal já passou, tirou fotografias. “Agora estamos à espera.” Não há ainda indicação de prazos nem de apoios. A senhoria sabe. O filho já ligou várias vezes. A resposta não chega. No meio da incerteza, a comunidade move-se como pode. “As pessoas são muito amigas umas das outras, andam sempre a vigiar, se precisa disto, se precisa daquilo.”