Naciolinda abre guarda-chuvas dentro da sala para aparar a água. “Tudo conforme esta terra me deu, assim me tirou”

Aos 83 anos, Naciolinda Paulino nunca se lembra de ver o Sado subir assim. O vento levantou o telhado da casa arrendada onde vive há mais de meio século, a água entrou dois degraus acima da porta e, na sala, os guarda-chuvas passaram a substituir o teto. O café do filho, doente cardíaco e sobrevivente de cancro, ficou destruído.

13 fev, 2026 - 16:19 • Beatriz Lopes



No meio da sala de Naciolinda, guarda-chuvas abertos ao contrário fazem de proteção improvisada. Foto: Beatriz Lopes/RR
No meio da sala de Naciolinda, guarda-chuvas abertos ao contrário fazem de proteção improvisada. Foto: Beatriz Lopes/RR

À porta, Naciolinda mantém uma vigilância muda ao rio, esse vizinho antigo que ora dá sustento, ora reclama território. “Temos muitos estragos”, diz, apontando para o telhado. Fala das paredes — “tudo negro da água” —, do vento que levantou as telhas, da senhoria que ainda não respondeu. A casa fica mesmo na baixa de Alcácer do Sal, em frente ao rio. Perguntamos se passa os dias sozinha. “Eu passo.” E acrescenta: “Sinto-me bem, sim, porque já estou habituada a esta vida.”

Dentro de casa, o forro de madeira está marcado pela água. A superfície, que há poucos anos tinha sido arranjada, exibe agora manchas escuras e pequenas ondulações onde a humidade se instalou. No meio da divisão, guarda-chuvas abertos fazem de proteção improvisada. “Ponho os guarda-chuvas grandes… e eles aparam a água.” Lá dentro, as folhas de jornal vão ficando pesadas. Quando já não seguram mais, troca-as por outras.

A casa, arrendada, pertence a uma senhoria que vive no Porto. “Já telefonámos umas poucas vezes para ela cá vir. Ainda não deu resposta à gente.” A renda é antiga, “daquelas rendas baratas”, porque antes ali morava a sogra. Naciolinda mudou-se para a casa há mais de meio século para cuidar dela, quando adoeceu e não queria ir para um lar. Ficou. Criou ali os filhos. Agora vê a água atravessar o teto que mandou forrar “há uns quatro ou cinco anos”, numa tentativa de manter a casa de pé.


Nas paredes está “tudo negro da água”, lamenta Naciolinda. As infiltrações deixaram marcas em vários pontos da casa. Foto: Beatriz Lopes/RR
Nas paredes está “tudo negro da água”, lamenta Naciolinda. As infiltrações deixaram marcas em vários pontos da casa. Foto: Beatriz Lopes/RR
Quando a água subiu, foram retirados de casa pelos bombeiros. A idosa vigia o Sado a toda a hora, receando novas cheias. Foto: Beatriz Lopes/RR
Quando a água subiu, foram retirados de casa pelos bombeiros. A idosa vigia o Sado a toda a hora, receando novas cheias. Foto: Beatriz Lopes/RR


“Agora eu tenho medo, muito medo”, admite Naciolinda. Não é o medo da água em si, mas da repetição. “Dizem que ela esta noite ainda sai cá fora.” Foto: Beatriz Lopes/RR
“Agora eu tenho medo, muito medo”, admite Naciolinda. Não é o medo da água em si, mas da repetição. “Dizem que ela esta noite ainda sai cá fora.” Foto: Beatriz Lopes/RR

A cheia não se ficou pelas infiltrações. O pequeno café do filho, mesmo ao lado, ficou inutilizado. “Estragou-se tudo. O fogão, a máquina do café, a torradeira, já foi tudo.” O filho, solteiro, enfrentou um cancro há 12 anos e vive hoje com uma doença cardíaca que o impede de fazer esforços. “Não se pode agachar para ajudar a nada.” Segunda-feira volta a Setúbal para mais tratamentos. “E com esta idade…”, suspira.

Quando a água subiu, foram os bombeiros que os retiraram de casa. O filho acabou no hospital, onde passou o dia a receber tratamentos. No dia seguinte voltou. “E a gente tem as coisinhas”, diz, numa frase que mistura apego e resistência.

Naciolinda recebe pouco mais de 300 euros de reforma. Não chega para grandes reparações. “O que é que eu faço para a minha vida com uma reforma tão pequenina que eu tenho?” À porta, as botas altas de borracha recordam até onde a água chegou: “Passou dois degraus.” Em 53 anos naquela casa, nunca viu nada semelhante. “Nunca me lembro de mão cheia assim.”

Natural de Grândola, foi em Alcácer do Sal que construiu a vida. Juntou-se cedo, ficou viúva aos 24 anos e criou dois filhos praticamente sozinha. Trabalhou onde houvesse sustento — nas mondas do arroz, nos ranchos, no que aparecesse. “Ia para ganhar, para comer mais, para dar aos meus filhos.” Viveu sempre com pouco. E conseguiu que chegasse.

Tem tido ajuda. “Umas raparigas, uns rapazes que têm vindo aí trazer um sumozinho, uma água, uma frutazinha, um docezinho.” A câmara municipal já passou, tirou fotografias. “Agora estamos à espera.” Não há ainda indicação de prazos nem de apoios. A senhoria sabe. O filho já ligou várias vezes. A resposta não chega. No meio da incerteza, a comunidade move-se como pode. “As pessoas são muito amigas umas das outras, andam sempre a vigiar, se precisa disto, se precisa daquilo.”


À porta, as botas altas de borracha recordam até onde a água chegou: “Passou dois degraus.” Foto: Beatriz Lopes/RR
À porta, as botas altas de borracha recordam até onde a água chegou: “Passou dois degraus.” Foto: Beatriz Lopes/RR

Mas o medo instalou-se. “Agora eu tenho medo, muito medo.” Não é o medo da água em si, mas da repetição. “Dizem que ela esta noite ainda sai cá fora.” Trabalhou uma vida inteira para “não andar às tensas de ninguém” e, de um dia para o outro, vê o pouco que tem ameaçado. “É uma trabalheira que a gente trabalha uma vida inteira para ter, pelo menos para comer… e depois, no fim, vai-se tudo embora.”

No quarto, as paredes estão “todas passadas”, as gretas abertas como marcas recentes. “Não se safa uma parede. Tem de ser tudo rebocado de novo.” A cristaleira mantém a porcelana intacta, alinhada como sempre esteve. Naciolinda senta-se, ajeita as botas compradas “para ver se conseguia” enfrentar a água, e encolhe os ombros. “Nós somos gente pobre.”

Falamos-lhe de esperança. Naciolinda hesita. “Nem sei o que é que hei de dizer… Só queria que a gente tivesse sorte. Que não se fosse embora mesmo o poucochinho que a gente tem para viver.”

Desde a cheia, quase não sai de casa. Fica por perto, à espera — não vá a sirene da Proteção Civil voltar a tocar e ter de sair outra vez. Olha para o rio, como tem feito nos últimos dias, e acrescenta: “Tudo conforme esta terra me deu, assim me tirou.”


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