Nem a rádio chega a algumas aldeias de Pombal, sem luz nem comunicações há mais de duas semanas

Depois da tempestade, faltou a luz, falharam as comunicações e até as rádios locais - muitas vezes a única ligação à comunidade. Nesta sexta-feira em que se assinala o Dia Mundial da Rádio, há aldeias no concelho de Pombal onde a informação quase se apagou.

13 fev, 2026 - 06:30 • Lara Castro



Nem a rádio chega a algumas aldeias de Pombal, sem luz nem comunicações há mais de duas semanas. Foto: Lara Castro/RR
Nem a rádio chega a algumas aldeias de Pombal, sem luz nem comunicações há mais de duas semanas. Foto: Lara Castro/RR

Ouça aqui a reportagem de Lara Castro nas aldeias de Pombal sem luz há duas semanas.

Por estes dias, os geradores e as pingas da chuva são a banda sonora das aldeias de Pombal. Eugénio e Fátima estão sentados no quintal de casa, abrigados pelo chão da varanda do segundo andar. Quando vêem o carro da Renascença chegar à pequena localidade da Loureira, para onde se mudaram há sete meses vindos de Lisboa, rapidamente surge um convite para entrar. Há duas semanas que estão sem luz, “ao fim de uma data de dias” viram-se obrigados a comprar um gerador. São cuidadores de duas crianças, uma com autismo e outra com paralisia cerebral. O aparelho é ligado “quando regressam da escola”, que retomou esta terça feira.


Eugénio e Fátima são cuidadores de duas crianças, uma com autismo e outra com paralisia cerebral. Foto: Lara Castro/RR
Eugénio e Fátima são cuidadores de duas crianças, uma com autismo e outra com paralisia cerebral. Foto: Lara Castro/RR

É Eugénio que vai buscar gasolina à bomba mais próxima para alimentar os poucos geradores partilhados entre vizinhos. Apesar do cenário, reforçam que não se sentem sozinhos — a Junta de freguesia e a Câmara de Pombal têm estado em contacto com a população.

O rádio a pilhas tem ajudado a mantê-los informados, mas só “quando apanham”. Nos primeiros dias, ouviam “mal as nacionais” e continuam sem apanhar rádios locais.

“Não há emissão” conta Gonçalo Santos, enquanto procura no rádio do carro a 87.6 FM. Encontra a estação que corresponde à rádio Cardal, mas só se escuta o som da estática nas colunas.


 No dia da tempestade Kristin, na consequência da queda da antena de uma empresa, a torre de transmissão da rádio Cardal ficou destruída. Foto: Gonçalo Santos/Rádio Cardal
No dia da tempestade Kristin, na consequência da queda da antena de uma empresa, a torre de transmissão da rádio Cardal ficou destruída. Foto: Gonçalo Santos/Rádio Cardal

Gonçalo é o único jornalista desta rádio local, onde trabalha há 30 anos. No dia da depressão Kristin, quando ligou o rádio percebeu que “não estava a funcionar”. Mal chegou à serra viu que “o posto emissor tinha caído”.

Na consequência da queda da antena de uma empresa, a torre de transmissão da rádio Cardal ficou destruída, e por isso "a empresa assumiu completamente os estragos”.

Sem posto emissor, a rádio online manteve-se e Gonçalo faz o que pode para continuar a informar os locais. Quando sai do estúdio leva um tripé, o telemóvel e um micro. O jornalista “tem feito um périplo pelas freguesias” para falar com todos os presidentes de Junta, de modo a “fazer um rescaldo daquilo que aconteceu até ao momento”. Cada entrevista é publicada na íntegra nas redes socias e entra nos noticiários da rádio.


A primeira paragem daquele dia é na freguesia de Almagreira, quando sai do estúdio leva um tripé, o telemóvel e um micro. Foto: Lara Castro/RR
A primeira paragem daquele dia é na freguesia de Almagreira, quando sai do estúdio leva um tripé, o telemóvel e um micro. Foto: Lara Castro/RR

O jornalista “tem feito um périplo pelas freguesias” para falar com todos os presidentes de Junta. Foto: Lara Castro/RR
O jornalista “tem feito um périplo pelas freguesias” para falar com todos os presidentes de Junta. Foto: Lara Castro/RR
“Não há emissão” conta Gonçalo Santos, enquanto procura no rádio do carro a 87.6 FM. Encontra a estação que corresponde à rádio Cardal, mas só se escuta o som da estática nas colunas. Foto: Lara Castro/RR
“Não há emissão” conta Gonçalo Santos, enquanto procura no rádio do carro a 87.6 FM. Encontra a estação que corresponde à rádio Cardal, mas só se escuta o som da estática nas colunas. Foto: Lara Castro/RR


A primeira paragem daquele dia é na freguesia de Almagreira, que visita pela primeira vez desde o comboio de tempestades. Numa entrevista ao presidente da junta que dura cerca oito minutos, Humberto Margarido Lopes começa por agradecer à comunicação social pela oportunidade de divulgar informação. Ele próprio conta à Renascença que inicialmente sugeriu às entidades da região “utilizar as rádios locais para difundir a informação”.

Quando percebeu que também a rádio tinha sido afetada sentiu “uma lacuna desde a primeira hora.”


O presidente da junta da Almagreira, Humberto Margarido Lopes agradeceu à comunicação social pela oportunidade de divulgar informação. Foto: Lara Castro/RR
O presidente da junta da Almagreira, Humberto Margarido Lopes agradeceu à comunicação social pela oportunidade de divulgar informação. Foto: Lara Castro/RR
Quando percebeu que também a rádio local tinha sido afetada sentiu “uma lacuna desde a primeira hora.”Foto: Lara Castro/RR
Quando percebeu que também a rádio local tinha sido afetada sentiu “uma lacuna desde a primeira hora.”Foto: Lara Castro/RR


45 concelhos, em Portugal, não têm qualquer meio de comunicação local ou cobertura jornalística. São cerca de 245 mil pessoas sem informação de proximidade. Foto: Lara Castro/RR
45 concelhos, em Portugal, não têm qualquer meio de comunicação local ou cobertura jornalística. São cerca de 245 mil pessoas sem informação de proximidade. Foto: Lara Castro/RR

“Grandes grupos estão a matar as rádios locais”

O mau tempo encurtou o alcance das rádios locais, mas há outras circunstâncias que as têm vindo a calar de forma mais estrutural. Em 2025, havia 138 municípios com ausência ou escassez de rádios locais (44,81%). As conclusões são do relatório Desertos de Notícias Europa 2025, coordenado em Portugal pelo Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior.

De acordo com o estudo, existem 45 concelhos sem qualquer meio de comunicação local ou cobertura jornalística. São cerca de 245 mil pessoas sem informação de proximidade. O problema agrava-se ao verificar-se que mais de metade do território nacional — aproximadamente 1,7 milhões de habitantes — está em elevado risco de não dispor de fontes regulares e fiáveis sobre a realidade do seu próprio concelho.


O risco de desertos de notícias — localidades sem qualquer tipo de cobertura jornalística credível, regular e local — está a aumentar, em Portugal. Gonçalo Santos acredita que “os grandes grupos estão a matar as rádios locais porque a lei o permite”. O jornalista alerta por isso para a importância da alteração da lei, como forma “proteger as rádios locais.”

“Bichinho da rádio” e publicidade: a gasolina das rádios locais

No terceiro andar de um edifício no centro de Pombal estão os estúdios da rádio Cardal, ainda ao estilo dos anos 60. Em 1986, ano em que nasceu, a emissão era feita num sótão, à semelhança de muitas rádios piratas criadas nessa altura. Atualmente, “a rádio tem três funcionários a tempo inteiro: um comercial, um jornalista e um animador”. O resto do trabalho é assegurado por dez colaboradores movidos pelo “bichinho”.


Atualmente, “a rádio tem três funcionários a tempo inteiro: um comercial, um jornalista e um animador”. Foto: Lara Castro/RR
Atualmente, “a rádio tem três funcionários a tempo inteiro: um comercial, um jornalista e um animador”. Foto: Lara Castro/RR
Sónia Simões é animadora na rádio Cardal há sete anos, há 35 anos que trabalha em rádios locais. Foto: Lara Castro/RR
Sónia Simões é animadora na rádio Cardal há sete anos, há 35 anos que trabalha em rádios locais. Foto: Lara Castro/RR


No terceiro andar de um edifício no centro do Pombal estão os estúdios da rádio Cardal, ainda ao estilo dos anos 60.Foto: Lara Castro/RR
No terceiro andar de um edifício no centro do Pombal estão os estúdios da rádio Cardal, ainda ao estilo dos anos 60.Foto: Lara Castro/RR

O cenário é semelhante na Rádio Clube de Pombal (RCP). Estávamos em meados de 1986 quando Miguel Valentim montou um estúdio de rádio em casa. Hoje, com estúdios no 31 da Rua Bombeiros Voluntários, paga para trabalhar.

“Eu pago para vir trabalhar, literalmente, não ganho nada, tenho o meu emprego.”

Das 9h00 às 17h00 é bancário, ao fim do dia anima o regresso a casa daqueles que ouvem a 97 FM da Rádio Clube de Pombal, uma cooperativa sem fins lucrativos.

O animador e produtor assume que o “bichinho da rádio” e “uma vida financeiramente estável” são a motivação “para dedicar tempo gratuito” ao projeto.


Estávamos em meados de 1986 quando Miguel Valentim montou um estúdio de rádio em casa. Hoje, com estúdios no 31 da Rua Bombeiros Voluntários, paga para trabalhar. Foto: Lara Castro/RR
Estávamos em meados de 1986 quando Miguel Valentim montou um estúdio de rádio em casa. Hoje, com estúdios no 31 da Rua Bombeiros Voluntários, paga para trabalhar. Foto: Lara Castro/RR
A publicidade de “pequenas e médias empresas”, “alguns eventos” e o “controlo de custos”,afirma Paulo, são o que mantem ambas as rádios de pé. Foto: Lara Castro/RR
A publicidade de “pequenas e médias empresas”, “alguns eventos” e o “controlo de custos”,afirma Paulo, são o que mantem ambas as rádios de pé. Foto: Lara Castro/RR


Tal como Miguel, Paulo Delfim, responsável pela parte financeira, é economista durante o dia e nas horas vagas dedica o seu tempo à rádio local, que conta com três trabalhadores a tempo inteiro: dois jornalistas e uma locutora/produtora. E como se sustenta financeiramente? “Com publicidade e controlo de custos”, afirma Paulo.

A publicidade de “pequenas e médias empresas”, “alguns eventos” e o “controlo de custos”,afirma Paulo, são o que mantem ambas as rádios de pé. O economista vê com bons olhos o futuro da rádio e acredita que “andar colados às tendências” é a única forma de “chegar a todos os escalões da população.”


 Paulo Delfim, responsável pela parte financeira, é economista durante o dia e nas horas vagas dedica o seu tempo à rádio local, que conta com três trabalhadores a tempo inteiro. Foto: Lara Castro/RR
Paulo Delfim, responsável pela parte financeira, é economista durante o dia e nas horas vagas dedica o seu tempo à rádio local, que conta com três trabalhadores a tempo inteiro. Foto: Lara Castro/RR

Mas afinal, qual é a importância das rádios locais?

À hora certa, depois do noticiário, Miguel Valentim abre a via e entra no ar. Antes do “pedido da Inês de tocar os GNR”, avisa os ouvintes da criação de uma bolsa de advogados voluntários para apoiar cidadãos e empresas afetadas pela depressão Kristin.

Em casos como este, “embora as rádios nacionais estejam a cobrir o que aconteceu a nível nacional, raramente dão informação local”.

“O que se passa? Quando vem a luz? Quando há uma reunião de câmara?” Miguel acredita que é para estas questões que a comunidade local procura resposta.

Gonçalo Santos, jornalista da Rádio Cardal, também acredita que o seu trabalho é “importante para toda a comunidade”, tendo em conta que “a imprensa e rádios locais são fundame


Miguel Valentim tem 53 anos, das 9h às 17h é bancário, ao fim do dia anima o regresso a casa daqueles que ouvem a 97 FM da Rádio Clube de Pombal. Foto: Lara Castro/RR
Miguel Valentim tem 53 anos, das 9h às 17h é bancário, ao fim do dia anima o regresso a casa daqueles que ouvem a 97 FM da Rádio Clube de Pombal. Foto: Lara Castro/RR

Sem energia elétrica na maioria do concelho, a rádio seria a única forma de saber o que se passa. Ao dia de hoje, segundo informações a que a Renascença teve acesso, 10% da população Pombalense ainda está sem luz.

Sem luz e sem pilhas. E agora?

Num cenário sem energia elétrica, a ideia de incluir um rádio a pilhas noskits de emergência para 72 horas é útil e faz sentido. Efetivamente, o rádio tende a ser o sistema de comunicação mais simples e resiliente. Mas o que acontece quando há localidades sem energia há mais de duas semanas?


“As pilhas que os rádios têm davam para 4/5 dias” e as lojas “onde habitualmente se compram não têm”, alerta Miguel Valentim da Rádio Clube de Pombal. Além disso, “grande parte das pessoas está mais preocupada em tapar telhados e janelas”.

“Há muitas pessoas que nos ouviam, que agora não conseguem ouvir por falta de pilhas para os seus rádios”, afirma Miguel.

Numa volta por várias aldeias de Pombal, num dia chuvoso, poucos eram aqueles que se aventuravam a passear pelas ruas — depois de almoço, pequenos grupos aglomeravam-se nos cafés, mas o som da rádio não se ouvia em canto nenhum.


A freguesia de Abiul, em Pombal está sem comunicações há mais de duas semanas. Foto: Lara Castro/RR
A freguesia de Abiul, em Pombal está sem comunicações há mais de duas semanas. Foto: Lara Castro/RR

Sabrine é dona de um café à entrada da freguesia de Abiul — que está sem rede móvel há 15 dias, não tem multibanco disponível — e aponta num caderno de argolas os pedidos diários dos clientes. No café, os fregueses reúnem-se para saber o que se passa na vila.

Uns metros à frente, num outro café o cenário repete-se, a diferença é que há televisão a funcionar. Enquanto bebe café, Jorge Ferreira afirma que “não há telefone, nem internet” e quanto à rádio vai tentando “procurar a que dá melhor”, mas prefere vir ao café para ter informação.


Sabrine é dona de um café à entrada da freguesia de Abiul — que está sem rede móvel há 15 dias e não tem multibanco disponível. Foto: Lara Castro/RR
Sabrine é dona de um café à entrada da freguesia de Abiul — que está sem rede móvel há 15 dias e não tem multibanco disponível. Foto: Lara Castro/RR
Há mais de duas semanas que Sandrine aponta num caderno de argolas os pedidos diários dos clientes. Foto: Lara Castro/RR
Há mais de duas semanas que Sandrine aponta num caderno de argolas os pedidos diários dos clientes. Foto: Lara Castro/RR


A Junta de Freguesia, “mesmo às escuras e sem comunicações, esteve e está de porta aberta” e, no curto espaço de tempo em que a Renascença lá esteve, vários foram aqueles que se deslocaram ali para tirar dúvidas — e partilhar os danos causados pelas tempestades.

“O que preciso para receber o apoio do governo?” A pergunta é feita vezes sem conta ao longo do dia a Patrícia Terceiro que está na secretaria da junta de freguesia. Àqueles que chegam com a questão entrega um papel onde estão escritos todos os documentos necessários.


A Junta de Freguesia, “mesmo às escuras e sem comunicações, esteve e está de porta aberta". Foto: Lara Castro/RR
A Junta de Freguesia, “mesmo às escuras e sem comunicações, esteve e está de porta aberta". Foto: Lara Castro/RR
Na secretaria da junta é entregue um papel com todos os documentos necessários para pedir ajuda do governo. Foto: Lara Castro/RR
Na secretaria da junta é entregue um papel com todos os documentos necessários para pedir ajuda do governo. Foto: Lara Castro/RR


Numa freguesia como Abiul, onde grande parte da população é idosa, Patrícia informa, mas sobretudo escuta quem entra pelas portas da junta. Foto: Lara Castro/RR
Numa freguesia como Abiul, onde grande parte da população é idosa, Patrícia informa, mas sobretudo escuta quem entra pelas portas da junta. Foto: Lara Castro/RR

Numa freguesia como Abiul, onde grande parte da população é idosa, Patrícia informa, mas sobretudo escuta quem entra pelas portas da junta — e repete a urgência que se ouve um pouco por todo o concelho: “O que mais falta é mão-de-obra”.

Pelas várias aldeias de Pombal por onde a Renascença passou, as histórias de destruição repetiam-se e os pedidos de ajuda multiplicavam-se.

Ao final do dia, num zapping pelas frequências da região, o 87.6 FM da Rádio Cardal já voltava ao ar — com algumas falhas, mas dentro de uma aparente normalidade. Depois da tempestade, a informação tenta voltar a ligar estas comunidades.


Artigos Relacionados