"Ainda há humanidade". Sem casa e sem dinheiro para as obras, Carina acredita na reconstrução

No último mês, várias organizações da Igreja têm-se mobilizado para apoiar as populações mais afetadas pela tempestade Kristin. Além de apoio na reconstrução das casas, distribuíram cabazes alimentares, percorreram as ruas e ajudaram a identificaram telhas. “Ainda há humanidade”, diz Carina Ferreira que viu o vento levar a única casa que tinha.

27 fev, 2026 - 20:55 • Ana Catarina André



"Ainda há humanidade". Sem casa e sem dinheiro para as obras, Carina acredita na reconstrução

Carina Ferreira teme que o que sobrou da casa onde, até há um mês, vivia com os dois filhos, na freguesia de Monte Real, Leiria, possa ainda ceder.

As paredes estão instáveis e em grande parte das divisões o teto desapareceu. No chão, há pedaços de azulejos e tijolos partidos, brinquedos dos filhos e outros objetos que faziam parte do quotidiano da família.

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Um mês depois da passagem da tempestade Kristin, Carina Ferreira ainda ouve o vento que lhe levou grande parte da casa, a única que tinha e que herdara da avó.

Naquela noite, passou quatro horas fechada na casa de banho, com os filhos e o companheiro. “Estávamos a segurar a porta, o vento vinha, entrava lixo e entulho e eu disse ao pai do Salvador [o filho mais novo]: ‘vamos morrer aqui os quatro e ninguém vai dar conta’. Depois, ficou um silêncio. Lembro-me sempre do silêncio e frio, muito frio”, recorda, emocionada.


Na manhã seguinte, conseguiram sair. “Quando vi o estado de destruição da casa, senti uma dor como nunca tinha sentido”, recorda. “O pai do Salvador ainda teve de tirar algumas vigas para passarmos e fomos a andar até à casa dos meus pais. Ao início, pensávamos que tínhamos sido só nós a ficar sem casa, mas depois começámos a ver que não. Havia árvores caídas. Estava tudo destruído”, afirma.

Quando vi o estado de destruição da casa, senti uma dor como nunca tinha sentido

Sem casa, sem dinheiro para a reconstrução, sem seguro que pudesse suportar os custos das obras, Carina Ferreira sofria, sobretudo, por causa do filho mais novo que é autista e que, por isso, teria muita dificuldade em adaptar-se a um novo espaço. Desesperada, a assistente operacional chegou mesmo a pensar que teria sido melhor se tivessem perdido a vida naquela noite. “Ao menos acabava-se tudo de uma vez”, lembra, com emoção.


Carina e a família abrigaram-se durante quatro horas casa de banho, até a tempestade passar. Foto: Ana Catarina André/RR
Carina e a família abrigaram-se durante quatro horas casa de banho, até a tempestade passar. Foto: Ana Catarina André/RR

Dias depois, numa ida a Leiria, resolveu procurar a Cáritas, instituição que conhecia bem porque o filho mais filho costumava participar ali em algumas atividades para jovens. O rosto que encontrou trouxe-lhe novo alento. “Disse-me: ‘Prometo-lhe: Não é em duas, em três semanas, mas, seja que de maneira for, ponho-lhe até à última telha’”, recorda. E diz, emocionada: “Aquilo fez-me repensar a história outra vez – ainda há humanidade”.

Um mês depois da tempestade, Carina Ferreira e os filhos continuam a viver num apartamento emprestado. O processo de reconstrução da casa está a avançar. “As coisas não são no tempo que gostaríamos, queríamos ter a nossa casa, mas há um tempo para tudo”, considera. Além do apoio que a Cáritas lhe vai dar, provavelmente o maior que vai receber, Carina Ferreira conta com as promessas de apoio do governo e da junta de freguesia.

À Renascença, Nelson Costa, diretor de Serviços da Cáritas de Leiria, adianta que a instituição já disponibilizou uma plataforma digital para a submissão dos pedidos de ajuda das vítimas do mau tempo. Por esta altura, o fundo de emergência criado pela Cáritas Diocesana de Leiria ultrapassou 1,8 milhões de euros. Segundo Nelson Costa, será utilizado nos próximos meses no apoio às famílias afetadas, sendo a ajuda atribuída consoante cada situação. “Estamos a identificar situações, a ir aos sítios que já nos foram reportados para verificar as reais situações”, acrescenta.


Foto: Ana Catarina André/RR
Foto: Ana Catarina André/RR

A par da Cáritas Diocesana, também as Cáritas paroquiais estiveram no terreno. Na paróquia da Caranguejeira, a cerca de 15 quilómetros de Leiria, Fernanda Fernandes recorda que logo nos primeiros dias, após a intempérie, se fez um levantamento das necessidades da população. “Foi muito desesperante não só para as famílias mais desfavorecidas, mas para todos”, lembra a presidente desta Cáritas paroquial. “Entrámos logo com cabazes. Toda a gente, sem discriminação, precisava desse cabaz. Isso foi no imediato. Andámos de casa a casa, inclusive com voluntários também da Cáritas que vieram de Lisboa, e sinalizamos as situações às entidades competentes”, refere.

Além da Cáritas, outras organizações da Igreja têm apoiado as famílias afetadas pelo mau tempo, como é o caso do Corpo Nacional de Escutas. Nas primeiras três semanas após a tempestade, três mil escuteiros de várias zonas do País estiveram em Leiria. Alguns pernoitaram na região durante duas semanas, para ajudar a fazer o que fosse preciso.

“Vieram ajudar a fazer bancos alimentares, fazer cabazes alimentares e entregar às famílias, correr as ruas para saber como é que as pessoas estavam, se tinham necessidades e que necessidades que tinham. Inclusivamente, pedimos que identificassem as telhas, para que as juntas de freguesia pudessem vir buscar, aos depósitos de materiais dos municípios, o tipo de telhas que as pessoas precisavam”, lembra Pedro Nogueira, chefe regional. “Também [pedimos] que identificassem estradas que estivessem a aluir, ou zonas que estivessem em risco de cheia”. Sempre com o intuito de prestar apoio a quem precisava.


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