Em Leiria desespera-se por um pedreiro. “Se tivesse quem me comprasse a casa, ia para outro lugar”

Mais de um mês depois, a tentativa de começar a recuperar as casas esbarra muitas vezes em encontrar alguém que o possa fazer. A falta de mão-de-obra é um problema sério. Também os apoios estão a chegar com dificuldades. Há falta de meios e o processo é bem mais burocrático do que tinha sido anunciado. Enquanto isso, muitos ainda não ultrapassaram as sequelas psicológicas do dia em que a cidade abanou.

05 mar, 2026 - 20:52 • João Carlos Malta (texto e fotos)



Elísio Clemente ainda não está refeito de tudo o que aconteceu durante a passagem da depressão Kristin, em Leiria. Foto: João Carlos Malta/Renascença
Elísio Clemente ainda não está refeito de tudo o que aconteceu durante a passagem da depressão Kristin, em Leiria. Foto: João Carlos Malta/Renascença

Já passou mais de um mês desde que a depressão Kristin lhes abanou a casa, mas para Elísio e para Graça o trauma ainda não passou. O homem de 66 anos diz que “a vida tem de continuar”, mas a cada rabanada de vento mais forte fica “sempre com o coração nas mãos”. Por isso, tem uma certeza, se dependesse dele não ficava ali. Ia viver para outro lado.

Ali é Souto da Carpalhosa. Uma das freguesias de Leiria mais fustigadas pela catástrofe do final de janeiro. E a casa daquele casal foi precisamente das mais atingidas. Fica no cimo de um monte, e não tem nenhuma barreira natural ou casas à frente a protegê-la.

Elísio não tem problemas em admitir. “Tive medo naquela noite”, recorda. As sequelas do dia da tempestade permanecem gravadas no corpo.  Anda com o apoio de muletas e com o pé protegido.

O ex-agente da PSP tinha sido operado há cerca de um mês antes. Quatro ou cinco dias antes da depressão Kristin passar por Leiria, estava tudo a correr bem e até tinha ido retirar os pontos.

A força dos ventos fez com que a chaminé caísse e as telhas voassem do telhado. “Com a aflição e em pânico” subiu por um escadote ao telhado. “Ao trepar, a cicatriz abriu e ganhei uma infeção”, queixa-se.


Mas os sustos não ficaram por aí, passados dois dias e com a chuva sem parar de cair e o telhado desprotegido, o teto do quarto começou a acumular água e a inchar. “As buchas não se aguentaram e o candeeiro caiu-nos durante a noite aos pés. Foi uma sorte”, conta.

Mapear as zonas em que mais ocorrências aconteceram

A arquiteta Liliana Moniz, que tem sido uma das técnicas que tem palmilhado as zonas de maior destruição, afirma que estar no terreno já permitiu perceber as zonas do território em que mais ocorrências aconteceram e em que as condições de habitabilidade têm de ser revistas.

“O modo de construção vai ter de sofrer alterações. Vamos ter de identificar mapas e os riscos de cada uma das áreas do território para percebermos onde é que existe uma maior incidência para uma situação que ocorra futuramente”, detalha. Uma coisa é certa: “Não podemos ignorar que há áreas que são inabitáveis”, alerta.

Quando o pior do mau tempo passou, Elísio quis tentar reparar a casa que meteu água em vários pontos. Encontrar quem lhe refaça o telhado e os danos da humidade nas paredes, tem sido uma missão quase impossível.

Mão de obra nem se fala. Tenho estado na fila de espera. Arranjar um pedreiro ou um pintor é muito complicado”, lamenta, contando ainda que as telhas que preenchem a cobertura da habitação onde mora já não se fabricam.


Souto da Carpalhosa é uma das freguesias de Leiria mais fustigadas pela catástrofe do final de janeiro. Foto: João Carlos Malta/Renascença
Souto da Carpalhosa é uma das freguesias de Leiria mais fustigadas pela catástrofe do final de janeiro. Foto: João Carlos Malta/Renascença

Ainda assim, e apesar de não ter quem lhe faça, para já, as obras mais profundas, o “beirado de telhas” que caiu foi reposta com o recurso a um construtor amigo.

Vem aí inflação nos preços

A falta de mão de obra não é problema apenas de Elísio e Graça, estende-se um pouco por todos os que tiveram danos em casa naquela região. O presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, descreve a realidade atual daquela zona: o normal é não conseguir “arranjar alguém para reparar as casas”, e as pessoas desesperam para “encontrar um pedreiro”, ou simplesmente por alguém que “coloque uma lona, umas telhas”.

Tudo numa região em que a oferta na construção civil está saturada, mesmo para os que têm capacidade de pagar já. Por isso, resta procurar fora dos limites geográficos daquela zona. Mas isso terá uma consequência: inflação.

“Terá de haver aqui um esforço extra, que vai custar mais dinheiro. Ninguém vai sair de uma zona de Lisboa ou do Norte do país para vir a Leiria. Não vai deixar a construção de moradias, aquilo que são os negócios normais, para deslocar mão de obra para vir resolver isto”, assume o autarca.

Gonçalo Lopes considera que acabará por haver uma “fricção” entre o “país normal e o país afetado [pelas tempestades]”. “Vai haver inflação dos preços não há dúvida nenhuma, vai haver as pessoas que para fazerem a retirada de uma chaminé ou a construção de um telhado, com tanta necessidade, vão cobrar mais”, identifica.


Para melhor compreender a dimensão dos estragos nas casas de Leiria, o presidente da Câmara contabiliza até agora seis mil pedidos de apoio para a reconstrução de habitações. Mas o problema pode ser muito maior. Gonçalo Lopes garante que há 51 mil fogos no concelho, dos quais metade sofreram danos.

Ainda sem saber quando e como, Elísio Clemente pensa em melhorar um pouco a segurança da casa, mas depois do que viu não sabe se será o suficiente. “Nós tentamos agora fazer um bocadinho melhor. Vamos chumbar as telhas aqui no beirado. Mas isto a gente não sabe, o que aconteceu aqui foi um furacão maluco”, descreve.

Mas apesar de aquela ser a casa de uma vida, e de muito ali ter investido, questionado se depois de tudo o que aconteceu pensava em sair dali, o antigo polícia não tem dúvidas em afirmar: “Quer que seja franco. Se tivesse quem me comprasse a casa, eu ia para outro lugar”.

Não tem seguro para os danos que tem. Agora pensa em fazer um, não vá o futuro tecê-las. E só na casa tem cinco mil euros de prejuízo.

Um estudo Impact Center for Climate Change (ICCC) da Fidelidade citado pelo Expresso, mostra que 51,4% das casas danificadas, em torno de 122 mil, não têm seguro multirriscos – que inclui cobertura para este tipo de catástrofes, nomeadamente tempestades e inundações


Foto: Paulo Cunha/Lusa
Foto: Paulo Cunha/Lusa

Mesmo assim, Gonçalo Lopes valoriza o trabalho dos técnicos no terreno, que têm feito “um esforço enorme para conseguir dar a resposta”. Mas isso, explica, tem sido cada vez mais difícil, porque as condições que foram inicialmente anunciadas têm vindo a sofrer alterações. Há várias mudanças nos formulários que são submetidos e na plataforma de submissão.

Candidaturas não são avaliadas em 72 horas

A percorrer as várias zonas do concelho de Leiria, anda o engenheiro Ricardo Duarte. Diz que para dar uma resposta robusta aos pedidos que existem, seriam precisos uns 500 engenheiros e arquitetos. E mesmo assim, há fatores que não se controlam como a pessoa estar ou não em casa, quando decorre a visita da equipa técnica para a vistoria.

Há também quem não tenha comunicações, ainda agora, e que não consegue comunicar com as entidades públicas.

Ricardo Duarte descarta de todo o prazo de 72 horas, para os processos até cinco mil euros, e aponta para uma fasquia entre os oito e os 10 dias.

Ainda sobre este assunto, o autarca de Leiria recorda que no início não foi mencionada a questão das dívidas ao Estado, como fator de exclusão, e essa declaração tem agora de ser pedida. Houve também, segundo Gonçalo Lopes, a questão dos orçamentos, muitos deles “vêm empolados”. Por isso, necessitam de uma segunda análise.


Mas com as expetativas que foram criadas, o presidente da Câmara de Leiria sente agora nas ruas pressão das pessoas a perguntar: “Mas afinal onde é que está o dinheiro?”

E ele sente que tem os recursos, mas não tem meios para fazer face a tantos pedidos. Isto porque também não quer ficar com o ónus de haver situações de fraude que não sejam detetadas, por os processos serem analisados de forma apressada.

Contas finais e até agora menos de 1% da quantia total dos seis mil pedidos de ajuda até 5 mil euros foram entregues às vítimas. Num total de 37 milhões, as pessoas receberam 200 mil euros.

E se os apoios à reparação de casas podem ir até os 10 mil euros, Gonçalo Lopes diz que as vítimas vão ficar sempre a perder. “As pessoas vão ter sempre um prejuízo muito maior do que os apoios que vão receber, quer das companhias de seguro, quer dos 10 mil euros”. diz.

“Muitas das casas vão ser recuperadas com o investimento próprio das pessoas, que vão ter de colocar esse dinheiro acima das ajudas que vão receber, disso não tenho dúvidas nenhuma", remata.


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