28 de maio: o golpe que pôs fim à I República e abriu caminho a Salazar

Há 100 anos, Portugal enveredava por uma ditadura militar que era vista por muitos como a solução para salvar o país. Com o testemunho de dois descendentes dos protagonistas da época e o contributo científico de três historiadores, recordamos este período da história nacional.

27 mai, 2026 - 23:57 • Ana Catarina André



Reportagem de Ana Catarina André, com sonorização de Diogo Casinha e imagem de Rodrigo Machado
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Reportagem de Ana Catarina André, com sonorização de Diogo Casinha e imagem de Rodrigo Machado

O golpe começou em Braga, onde os quartéis militares fervilhavam na esperança de tentar, uma vez mais, derrubar o governo republicano liderado pelo Partido Democrático. Na madrugada de 28 de maio de 1926, o general Manuel Gomes da Costa, mais tarde feito marechal, saiu da cidade com destino a Lisboa, encabeçando uma coluna militar que visava tomar o poder.

Era um dos militares mais respeitados no país: acompanhara Mouzinho de Albuquerque nas campanhas de ocupação em África e demonstrara coragem na Flandres, durante a I Guerra Mundial (1914-1918). Além de “um grande soldado”, o bisneto, Eduardo Gomes da Costa, recorda-o também como um “orador que empolgava as massas”, “um homem de afetos” que “pintava aguarelas e escrevia muito bem”.

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Numa das proclamações à nação, naquele 28 de maio, Gomes da Costa, dirigindo-se aos portugueses, dizia que a situação do país era inadmissível e defendia a necessidade de “instituir na administração do Estado a disciplina e a honradez” que há muito tinha perdido.

“A nação quer um governo forte, que tenha por missão salvar a Pátria, que concentre em si todos os poderes para, na hora própria, os restituir a uma verdadeira representação nacional, ciosa de todas as liberdades”, garantia, justificando assim o golpe de Estado em curso.


1926: Portugal mergulhado no caos

Naqueles anos de 1920, Portugal estava mergulhado num ambiente de profunda instabilidade. Desde a implantação da República, a 5 de outubro de 1910, tinha havido 45 governos. Os golpes de Estado sucediam-se e chegou a haver oito no mesmo ano.

Entre 1920 e 1925, foram registadas 158 greves e a polícia contabilizou o rebentamento de 325 bombas, em Lisboa. Os atentados e os episódios de violência somavam-se dia após dia, como a célebre Noite Sangrenta, em outubro de 1921, em que o primeiro-ministro António Granjo foi assinado.

O regime que nasceu em 1910 era menos democrático do que a monarquia liberal que existia anteriormente”, constata o historiador António José Telo, acrescentando que, entre outros aspetos, a República aceitou a “criação de grupos civis armados” que espalhavam a violência.

“Havia dezenas de exércitos privados, porque cada grupo político tinha o seu”. Além disso, lembra o professor catedrático jubilado, a República incompatibiliza-se com “o núcleo profissional das forças armadas” e “entra em guerra aberta com a Igreja, numa altura em que mais de 90% da população era católica”.


Fotografias do álbum de família de Eduardo Gomes da Costa, bisneto do Marechal Gomes da Costa
Fotografias do álbum de família de Eduardo Gomes da Costa, bisneto do Marechal Gomes da Costa

Neste contexto, a ditadura, ainda que entendida com contornos distintos, começa a ser vista como uma solução para o país. “Se olharmos para a imprensa, a partir de 1919, mas sobretudo em 1924, 1925 e 1926, havia muitas vozes republicanas, mais à direita ou mais à esquerda, que falavam na hipótese de um governo de salvação, de uma ditadura de gente esclarecida que, durante algum tempo, viesse pôr a casa em ordem”, afirma o historiador José Miguel Sardica, lembrando que nesta altura havia um “fenómeno europeu generalizado de rendição a soluções autoritárias” que “só pode ser compreendida” à luz “do grau de desordem pública, de violência social em que os países ocidentais mergulharam após a Guerra”.

Também Arnaldo Madureira, autor do livro “28 de maio A Génese do Estado Novo, lembra que “em Portugal se começou a pedir um Mussolini [líder do Partido Nacional Fascista italiano]”.

“Há setores democráticos em que começam a aparecer figuras que se dispõem [a isso], como foi o caso de Cunha Leal”, refere, sublinhando que o “28 de maio foi de facto um movimento nacional” na medida em que agregou diferentes sensibilidades políticas.

“Havia os que defendiam uma ditadura de curta duração e os que queriam uma ditadura de longa duração. E entre aqueles que ambicionavam uma ditadura de curta duração havia quem entendia que, uma vez reposta a ordem, o poder seria entregue de novo aos partidos, e os que defendiam uma recomposição do sistema político e partidário, com a existência de dois grandes partidos, um de esquerda e outro de direita”, afirma Arnaldo Madureira.


Eduardo Gomes da Costa, bisneto do Marechal Gomes da Costa.
Eduardo Gomes da Costa, bisneto do Marechal Gomes da Costa.

Um rodopio de lideranças nos primeiros tempos

A 27 de maio de 1926, véspera do golpe militar, o jornal O Século dava conta do descontentamento de vários setores políticos, sindicais e militares face ao governo chefiado por António Maria da Silva, do Partido Democrático. “Se há situações políticas confusas, aquela que presentemente se desenrola em Portugal é uma delas”, lia-se no periódico.

No dia seguinte, enquanto Gomes da Costa rumava a sul, em Lisboa o golpe de Estado era liderado por José Mendes Cabeçadas, um oficial da Marinha e que, em pouco tempo, tomou o poder, afastando o chefe do governo, António Maria da Silva, e o presidente da República, Bernardino Machado. A 31 de maio, Mendes Cabeçadas assumiu o primeiro executivo da ditadura militar que, entre outras medidas, ordenou o encerramento do parlamento. Tornou-se também Presidente da República, cargo que exerceu durante 17 dias.

Graça Aníbal, uma das suas netas, conta que nesse período em que o avô esteve em Belém recebeu muita correspondência. “Confrontou-se com uma situação económica e social tremenda e com uma quantidade de fações que o confrontavam. Fazia impressão ler aquelas cartas de reclamações e pedidos de instituições e particulares. Percebia-se a instabilidade social e económica do país”, recorda à Renascença.

Mendes Cabeçadas era um reformista, mas não punha em causa o essencial da Constituição de 1911, garante. “O meu avô era um moderado republicano, um defensor dos ideais da República e, a certa altura, percebeu que aqueles a quem se tinha juntado [para executar o golpe] não partilhavam de uma solução idêntica à que ele queria [para o país]”, recorda.

Essa era, aliás, uma das características do golpe de 28 de maio de 1926: agregava diferentes sensibilidades políticas e ideológicas no seu seio. Foi justamente devido a estas tensões que Mendes Cabeçadas permaneceu menos de um mês na presidência, tendo sido substituído por Gomes da Costa.

O meu avô disse que o fez [que se afastou] para evitar um derramamento de sangue e uma possível guerra civil”, conta a neta. Para este afastamento contribuiu também a entrada triunfante de Gomes da Costa em Lisboa, que a 6 de junho, irrompeu na capital à frente de 15 mil homens provenientes de unidades militares de todo o país.


José Mendes Cabeçadas foi Presidente da República durante 17 dias.
José Mendes Cabeçadas foi Presidente da República durante 17 dias.

Os primeiros dias do novo regime ficaram, assim, marcados por um rodopio de lideranças e menos de um mês depois, em julho de 1926, Gomes da Costa é arredado e substituído por Óscar Carmona. “É ele que começa a consolidar a ditadura militar, percebendo que tem de ter um governo que, sendo de militares, precisa de homens que organizem a justiça, a segurança pública e sobretudo as finanças”, explica o professor da Universidade Católica José Miguel Sardica, frisando que é, nesta altura, que António de Oliveira Salazar começa a afirmar-se na esfera pública.

“É ao mesmo tempo um católico e um financeiro, e é esse o segredo para ser convidado para a pasta das finanças. Foi logo [convidado] em junho de 1926 e esteve em Lisboa cinco ou seis dias: percebeu que a situação ainda estava muito confusa e voltou para Coimbra”, diz o historiador, lembrando ainda que Salazar começa a destacar-se, entre 1926 e 1928, graças aos artigos que escrevia no jornal Novidades.

“Os editoriais dele começam a ser lidos como uma espécie de: ‘aqui está um homem que tem um pensamento para as finanças estruturado que, um dia, se tiver poder, sabe o que vem fazer’”. Seria, de certo modo, o prenúncio da mais longa ditadura da Europa Ocidental. Depois de em 1928 se tornar ministro das Finanças, em 1932 Salazar é nomeado presidente do Conselho de Ministros e um ano depois é aprovada a Constituição de 1933 que lhe conferiu vastos poderes.

Na análise do historiador José Miguel Sardica, “tanto o golpe de 1926, como a subsequente ditadura militar e o próprio Estado Novo, são uma consequência da profunda instabilidade em que a República se viu enredada a partir de 1918”.


Graça Aníbal, neta de Mendes Cabeçadas.
Graça Aníbal, neta de Mendes Cabeçadas.

Um desfecho que nem todos procuraram

Um século depois do golpe do 28 de maio, a neta de Mendes Cabeçadas, Graça Aníbal, garante que avô se envolveu na sublevação de 1926 para “evitar aquilo que lhe parecia que ia ser o fim da Primeira República e o começo de um governo autocrático e fascista”.

José Mendes Cabeçadas foi, aliás, um forte opositor ao Salazarismo: esteve envolvido na Abrilada de 1947, um movimento revolucionário falhado, que lhe valeu a prisão durante um ano.

“Lembro-me que durante o Estado Novo se reunia com alguns oficiais que tinham feito com ele o 5 de outubro. Falavam muito sobre o futuro do país e sobre os desejos que tinham para Portugal.”


A família do Marechal Gomes da Costa preserva alguns dos seus livros e objetos.
A família do Marechal Gomes da Costa preserva alguns dos seus livros e objetos.

Já o bisneto do marechal Gomes da Costa, Eduardo Gomes da Costa, lembra que a família, em particular o seu pai, sempre se empenhou em esclarecer a participação do marechal, na insurreição de 1926.

Numa carta enviada ao Expresso, em 1983, a família referia que “qualquer historiador bem-intencionado sabe perfeitamente que aceitou o marechal Gomes da Costa comandar o 28 de maio com um objetivo bem diferente daquele para que depois foi aproveitado” e que, “por isso mesmo, dois meses depois, foi deposto, preso e exilado para os Açores”.

“A sua escolha resultou de não haver, na altura, nenhum oficial com o prestígio e a coragem capaz de arrastar atrás de si todos os portugueses, fartos do Estado caótico e anárquico em que se vivia”, lê-se na mesma missiva.

Eduardo Gomes da Costa conta, ainda, que o bisavô se orgulhava de ter entrado no Palácio de Belém com 7.500 reis e ter saído com 10 mil. “Toda a gente sabe que ele morreu pobre”, refere, lembrando as últimas palavras do bisavô, no leito da morte. “Amem-se uns aos outros e amem sobretudo o nosso querido Portugal, a quem eu servi e amei com a maior lealdade e dedicação.”