Um rodopio de lideranças nos primeiros tempos
A 27 de maio de 1926, véspera do golpe militar, o jornal O Século dava conta do descontentamento de vários setores políticos, sindicais e militares face ao governo chefiado por António Maria da Silva, do Partido Democrático. “Se há situações políticas confusas, aquela que presentemente se desenrola em Portugal é uma delas”, lia-se no periódico.
No dia seguinte, enquanto Gomes da Costa rumava a sul, em Lisboa o golpe de Estado era liderado por José Mendes Cabeçadas, um oficial da Marinha e que, em pouco tempo, tomou o poder, afastando o chefe do governo, António Maria da Silva, e o presidente da República, Bernardino Machado. A 31 de maio, Mendes Cabeçadas assumiu o primeiro executivo da ditadura militar que, entre outras medidas, ordenou o encerramento do parlamento. Tornou-se também Presidente da República, cargo que exerceu durante 17 dias.
Graça Aníbal, uma das suas netas, conta que nesse período em que o avô esteve em Belém recebeu muita correspondência. “Confrontou-se com uma situação económica e social tremenda e com uma quantidade de fações que o confrontavam. Fazia impressão ler aquelas cartas de reclamações e pedidos de instituições e particulares. Percebia-se a instabilidade social e económica do país”, recorda à Renascença.
Mendes Cabeçadas era um reformista, mas não punha em causa o essencial da Constituição de 1911, garante. “O meu avô era um moderado republicano, um defensor dos ideais da República e, a certa altura, percebeu que aqueles a quem se tinha juntado [para executar o golpe] não partilhavam de uma solução idêntica à que ele queria [para o país]”, recorda.
Essa era, aliás, uma das características do golpe de 28 de maio de 1926: agregava diferentes sensibilidades políticas e ideológicas no seu seio. Foi justamente devido a estas tensões que Mendes Cabeçadas permaneceu menos de um mês na presidência, tendo sido substituído por Gomes da Costa.
“O meu avô disse que o fez [que se afastou] para evitar um derramamento de sangue e uma possível guerra civil”, conta a neta. Para este afastamento contribuiu também a entrada triunfante de Gomes da Costa em Lisboa, que a 6 de junho, irrompeu na capital à frente de 15 mil homens provenientes de unidades militares de todo o país.