
A rua de São Vitor é uma das zonas mais tradicionais do Porto e passagem obrigatória na noite de São João. À hora a que a seleção portuguesa entrava em campo, nos Estados Unidos, para jogar contra o Uzbequistão na segunda jornada do Mundial, já muitos fogareiros tinham sido instalados no passeio e começavam a laborar.
“É juntar o útil ao agradável, a festa fica mais engraçada”, diz Luís Lopes, contente com a coincidência do calendário, enquanto prepara uma alheira na brasa. “É uma receita de família”, garante este Cristiano Ronaldo da grelha. O portuense de gema, com 55 anos, aproveitou um terreno vazio ao pé de casa para juntar familiares e amigos.
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O principal é mesmo o São João, mas mesmo assim a decoração foi escolhida a rigor por causa do jogo. “Torço por Portugal, está tudo alusivo a Portugal neste espaço”, sublinha, apontando para as bandeirinhas que foram colocadas nas paredes.
Um televisor transmite a partida e não demorou muito à erupção dos festejos. O golo de Ronaldo aos 6 minutos fez tremer as redes da baliza do Uzbequistão e levou quem ali estava à loucura.
Uma alegria que se repetiu mais duas vezes na primeira parte. Por essa altura, já a família Gaspar tinha começado a preparar o churrasco. “Já estão as brasas a saltar”, constata Cláudia, enquanto reforça o fogo com aparas de madeira. “Não tarda nada vem a carne e o peixe. Agora é a chouricinha e as salsichas”.





Cláudia nasceu nas Fontaínhas, mas mora em São Vitor desde que se lembra. “Já tive oportunidade de comprar casa, sair daqui, mas prefiro o meu cantinho, pequenino, mas aconchegante”.
Ao lado do fogareiro, foi já montada a mesa e logo a seguir, na mala aberta de um carro, foi colocada com todos os cuidados uma televisão, alimentada através de uma extensão trazida desde o interior de casa e suspensa sobre o passeio: “Como jogava Portugal e com as tecnologias da internet e tudo, puxa a ficha daqui, puxa a ficha dali, traz a televisão às costas e já está”, explica Cláudia. “Vamos comendo, em vez de estar em casa fechados, estamos ao ar livre. Comemos e vemos o jogo”.
Chega o intervalo. Ao longo da rua vêm-se portões abertos, que convidam quem passa a entrar. Eles dão acesso às famosas "ilhas" do Porto, corredores ladeados de pequenas habitações.
Algumas "ilhas" foram entretanto ocupados por alojamento local, mas há muitas que resistem à transformação da cidade.



Entramos numa, toda decorada com bandeirinhas alusivas à festividade. Depois de passar por uma cascata de São João, somos convidados a visitar uma casa. "Esta 'ilha' não tem nome”, adianta Daniel Silva, enquanto retalha um pimento na cozinha. “As outras têm nome, esta não tem. É uma das 'ilhas' do José da Bata, que tinha muitas 'ilhas'”, explica. Segundo as suas contas vivem aqui 10 pessoas.
Na sala, um grande televisor exibe publicidade enquanto se aguarda o arranque da segunda parte.
Os três golos do primeiro tempo, deixam Daniel optimista: “É uma boa maneira de começar o São João. A ver a nossa seleção, o São João é outra coisa. A sardinha até sabe melhor”.
Ao longo da rua há também edifícios mais recentes. Num rés-do-chão comercial onde já funcionou uma lavandaria, um escritório e um ateliê, cerca de 40 pessoas vão-se juntar para cumprir uma tradição iniciada há 32 anos, precisamente a idade de Joana Fontes.

O espaço será suficiente? Joana sorri: “metade lá fora, metade cá dentro”. O importante é mesmo reunir o grupo de “amigos motards”.
“Os meus pais são motards e então faz aqui um contraste de etnias e culturas”. Pelas paredes, entre as tradicionais decorações, “de manjericos, bandeirinhas de mil e uma cores, grinaldas verdes, rosa”, sobressai a televisão, com a transmissão da partida.
“Está aqui meio São João, meio copa”. Os uzbeques ainda assustaram, com o golo anulado na primeira parte, mas a partir daí só deu Portugal.
“Chegámos aos cinco golos. Agora vamos para os dez. Só param no final do jogo”, diz um adepto mais entusiasmado.
E a vontade de comemorar a festa do santo popular aumenta ainda mais com a vitória de Portugal, confirmada momentos depois. “Mais vontade de comer sardinha e beber uma pinga também”, acrescenta uma mulher.
“Um bom português é isso que faz”, resume Cláudia Lamela. “É olho na brasa, na comida e no futebol. É o que a gente gosta”.
Sem esquecer também “um pezinho de dança. Havendo oportunidade, “a gente 'rabisca'”. Está dado o pontapé de saída para a noite mais longa do ano na Invicta.