“Tudo apontava para andarmos à bofetada uns aos outros". Como novembro se precipitou em 1975

O Verão Quente ameaçava desembocar num outono explosivo. Costa Gomes via o país na iminência de uma guerra civil, Pinheiro de Azevedo tentava acalmar os ânimos com o célebre "é apenas fumaça", os emissores da Renascença eram silenciados à bomba. Como os dias se engalfinharam até à manobra do 25 de Novembro - que Vasco Lourenço assegura que "não foi um golpe".

24 nov, 2025 - 22:55 • André Rodrigues (texto) , Susana Madureira Martins (entrevista) , Catarina Santos (vídeo)



Veja a reconstituição: como novembro se precipitou em 1975

"O VI Governo veio para ficar e ficará enquanto o povo português quiser." A frase de Pinheiro de Azevedo, primeiro-ministro do VI Governo Provisório, ecoava em novembro de 1975 num país mergulhado na desordem civil e militar, no fim de um processo revolucionário que dividia Portugal: o PREC.

O Presidente da República, Costa Gomes, alertava para a iminência de uma guerra civil, recusando essa “calamidade” para o povo português.

Mas a tensão era evidente. Vasco Lourenço, capitão de Abril e membro do Conselho da Revolução, recorda que “tudo apontava para que provavelmente íamos andar à bofetada uns aos outros, porque as provocações intensificaram-se em novembro”.

Os sinais multiplicavam-se à medida que os dias passavam: a 9 de novembro, uma manifestação de apoio ao Governo Provisório foi interrompida por bombas de gás lacrimogéneo e disparos para o ar, episódio que celebrizou a expressão “não tem perigo, o povo é sereno, é apenas fumaça”.

Dias antes, os emissores da Renascença, ocupados por trabalhadores, foram silenciados à bomba. Os paraquedistas, insatisfeitos, sentiam-se usados por um Governo que consideravam reacionário. A radicalização da esquerda nas Forças Armadas tornava-se mais evidente.


Explosão nos emissores da Renascença, Novembro de 1975. Imagem retirada de vídeo da Reuters
Explosão nos emissores da Renascença, Novembro de 1975. Imagem retirada de vídeo da Reuters


Explosão nos emissores da Renascença, Novembro de 1975. Imagens retiradas de vídeo da Reuters
Explosão nos emissores da Renascença, Novembro de 1975. Imagens retiradas de vídeo da Reuters
Explosão nos emissores da Renascença, Novembro de 1975. Imagem retirada de vídeo da Reuters


Em Lisboa, 170 recrutas juraram defender a revolução socialista em vez da Pátria.

Também nas ruas crescia a tensão. A 12 de novembro, milhares de trabalhadores da construção civil cercaram São Bento durante dois dias, retendo deputados da Assembleia Constituinte e bloqueando a residência oficial do primeiro-ministro.

O país estava em pré-colapso e a soma dos dias acelerava o mote para o último capítulo.

Na madrugada de 25 de Novembro de 1975, Vasco Lourenço substitui Otelo Saraiva de Carvalho no comando da Região Militar de Lisboa.

50 anos depois, o atual presidente da Associação 25 de Abril recorda que “o PCP aproveitou para convencer os paraquedistas de que a solução para fazer frente à dissolução era serem integrados no COPCON [Comando Operacional do Continente], mas o COPCON não tinha autonomia administrativa e, portanto, tinham de ser colocados na Região Militar de Lisboa”.


Vasco Lourenço, Novembro de 1975. Imagem retirada de vídeo da Reuters
Vasco Lourenço, Novembro de 1975. Imagem retirada de vídeo da Reuters

“O Partido Comunista, através da sua célula clandestina, convence-os de que se o Vasco Lourenço for nomeado para a Região Militar de Lisboa, ele não aceita essa solução”, acrescenta. Vasco Lourenço não tem dúvidas: o que se segue é "uma ação de força, não é um golpe de Estado".

Mil paraquedistas saíram de Tancos para ocupar bases aéreas, o Estado-Maior da Força Aérea e o Regimento de Artilharia Ligeira de Lisboa (RALIS).

Os estúdios da RTP foram tomados para explicar ao país os motivos da revolta.

Reagindo à velocidade dos acontecimentos, o Grupo dos Nove, composto por oficiais moderados do MFA, informou o Presidente da República.

Costa Gomes chamou Álvaro Cunhal e convenceu-o a recuar. “Por duas razões: ele estava convencido que os fuzileiros iam entrar no golpe dele e os fuzileiros mantiveram-se leais ao Presidente da República. Por outro lado, confrontado por Costa Gomes, o Cunhal não terá querido ser um dos autores da declaração de uma guerra civil.”

Ficou aberto o caminho para os comandos da Amadora, liderados por Jaime Neves e coordenados por Ramalho Eanes. A revolta foi neutralizada.

Para Vasco Lourenço, “Eanes foi um instrumento importante, porque tinha prestígio". E acrescenta: "Se nós não o tivéssemos, provavelmente o caminho que se seguia era a guerra civil. Se os chamados falcões têm conseguido aquilo que tentaram, que era usar a Força Aérea para bombardear o RALIS, o Forte de Almada e os paraquedistas em Tancos, era a guerra civil.”


Nos dias seguintes, o COPCON foi dissolvido e o VI Governo Provisório retomou funções.

Só que as leituras do 25 de Novembro continuam a dividir memórias. Vasco Lourenço entende que “há acontecimentos que as pessoas não querem assumir” e que “continua a haver algumas leituras estapafúrdias”.

E dá um exemplo: “enquanto estava a escrever as memórias, fui reler os livros do Pinheiro Azevedo e do Pires Veloso e descobri uma teoria de que o 25 de Novembro é um golpe feito pelo Partido Comunista através do Melo Antunes e do Ramalho Eanes.”

Sendo uma figura discreta, Ernesto Melo Antunes foi, ao mesmo tempo, uma das mais importantes em todo o processo.


A 26 de novembro de 1975, o então ministro dos Negócios Estrangeiros fez uma declaração de mais de 16 minutos à RTP, defendendo o papel “indispensável do PCP na construção do socialismo” e da democracia portuguesa.

A frase é o epílogo de um processo marcado por divisões e confrontos. Mas que estabilizou o caminho democrático em Portugal.

Mas, meio século depois, o que aconteceu naquele dia continua a convocar memórias e interpretações divergentes.


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