Ventura quis Passos em Belém, mas há 10 anos tentou desafiá-lo na liderança do PSD

Em 2015, André Ventura escreveu aos militantes do PSD que lhe eram próximos para criar um movimento que desafiaria a liderança de Passos. Sentia que na altura os sociais-democratas corriam risco de perder as Legislativas para o PS de Costa. A ideia não chegou a sair do papel, mas o ex-braço direito de Ventura, Nuno Afonso, acusa-o "de traição" ao antigo primeiro-ministro. Em 2026, Ventura diz que não avançaria para Belém se Passos o fizesse por ser alguém que representa os valores do Chega. Mas porque é que Ventura puxa tanto pelo nome de Passos sendo alguém que lhe retiraria espaço político e eleitoral?

14 jan, 2026 - 09:30 • João Carlos Malta



Pedro Passos Coelho e André Ventura trocaram elogios em 2024 na apresentação do livro "Identidade e Família". Foto: Manuel de Almeida/Lusa
Pedro Passos Coelho e André Ventura trocaram elogios em 2024 na apresentação do livro "Identidade e Família". Foto: Manuel de Almeida/Lusa

Aconteceu, mais uma vez, nesta eleição presidencial, mas não é a primeira vez que André Ventura puxa do “trunfo” Passos Coelho para mostrar afinidade com o ex-líder do PSD e, de alguma forma, reclamar o legado do homem que liderou o país nos anos da troika. No entanto, em 2015, numa altura em que se entrava na reta para as eleições Legislativas — que acabariam por abrir espaço para a Geringonça no poder — Ventura tentou criar um movimento dentro do PSD para disputar com Passos a liderança do partido.

Quem o conta à Renascença é Nuno Afonso, que partilhou toda a caminhada de Ventura no PSD e, depois, seguiu com ele para fundar o Chega, até se incompatibilizar com o amigo de longa data e acabar por sair em rota de colisão com o líder.

Nuno Afonso lembra que já no livro que lançou em 2025, “Ontem éramos o futuro”, relatava o episódio em que André Ventura tentou juntar tropas para promover dentro do PSD uma alternativa a Passos.

Num e-mail enviado a um grupo de militantes dos sociais-democratas, a que a Renascença teve acesso, datado de 8 abril de 2015 e intitulado “Movimento novo PSD - uma nova forma de fazer política”, o então militante Ventura lançava as bases para se apresentar a Congresso e lutar pela liderança do partido. Nele, anunciava que se tinha “multiplicado em contactos nos últimos meses” para dar forma àquele movimento.


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"André Ventura tentou com um grupo próximo dele, em que me incluía, criar um movimento para destituir Passos Coelho e avançar pelas eleições internas [no PSD]". Nuno Afonso, ex-braço-direito de André Ventura.

Nesse mês, Pedro Passos Coelho e Paulo Portas cozinhavam nova coligação para ir a eleições: a PAF, que até venceu essas Legislativas. O Governo de coligação acabaria por cair na Assembleia da República e dar a António Costa caminho para formar uma coligação com os partidos à esquerda do PS.

No e-mail então enviado a um grupo restrito de militantes do PSD, Ventura assume que pediu contributos aos destinatários daquela mensagem para “estabelecer a base para uma futura liderança, antes ou depois das eleições legislativas de outubro/setembro”. Ventura falava da necessidade de agir rápido dada a aproximação do PS nas sondagens.

O agora candidato presidencial reconhecia que muitos veriam o movimento avançar antes das eleições de outubro desse ano como “uma traição ao partido”, mas na opinião de Ventura tinham mesmo de dar aquele passo no imediato sob pena de perderem “irremediavelmente espaço político e mediático, elementos fundamentais para uma candidatura bem-sucedida”.

Na mesma missiva, Ventura diz “não estar sozinho” e oferece-se para ser o porta-voz daquele movimento.


Para o fundador do Chega e ex-militante Nuno Afonso, a admiração que agora Ventura diz nutrir por Passos não foi sempre absoluta. “Tentou dentro do partido, com um grupo próximo dele, em que me incluía, criar um movimento à semelhança daquilo que fez depois, em 2018, contra o Rui Rio. Tentou juntar pessoas para começarem a recolher assinaturas, convocar um congresso para destituir Passos Coelho e avançar pelas eleições internas”, recorda.

Portanto, a admiração dele nessa altura não existia, tanto que tentou tirá-lo da presidência do PSD.

Afonso diz que “mais do que as divergências [ideológicas]”, o que estava em causa “era mesmo uma questão eleitoral”.

Via fraqueza em Passos Coelho pelas sondagens e por aquilo que se falava na altura, haver uma tendência de derrota nessas eleições”, sustenta. “Há ali uma fragilidade do líder, e ele tentou aproveitar essa fragilidade”, considera o fundador do Chega.

No livro já referido, “Ontem éramos o futuro”, Nuno Afonso conclui que se em “2024 ouvimos André Ventura referir-se a Passos como um 'amigo', também já vimos e veremos […] a tendência de Ventura para apunhalar e trair amigos, Passos foi apenas mais um”.


Presidenciais: André Ventura em comício em Guimarães. Foto: Tiago Petinga/Lusa
Presidenciais: André Ventura em comício em Guimarães. Foto: Tiago Petinga/Lusa

Afonso acredita que Passos “nunca soube desta pequena traição, esta intenção de André Ventura se afirmar como alternativa”. Este e-mail de abril de 2015 não terá sido a única mensagem enviada por André Ventura com vista a ganhar apoio para uma candidatura daquele movimento à liderança do PSD.

A Renascença tentou ouvir André Ventura, mas até ao momento o candidato a Belém não mostrou disponibilidade para responder às questões.

Porque é que André Ventura puxa sempre pelo regresso de Passos?

Dez anos depois deste episódio, e numa entrevista na última edição do jornal Nascer do Sol, André Ventura volta a falar do regresso de Passos à vida política ativa, considerando-o como inevitável. As palavras elogiosas de Ventura em relação ao antigo primeiro-ministro têm sido frequentes nos últimos anos.

“Acho que ele ainda vai ter outra oportunidade, é demasiado novo, tem demasiado pensamento próprio, teve uma evolução interessante nos últimos anos para agora ficar parado em casa. E não estou a dizer isto por ser amigo dele, é porque ele tem valor próprio, tem um valor muito grande, a sociedade precisa dele, ele ainda vai reaparecer, não sei como”, dizia o candidato presidencial do Chega àquele jornal.


André Ventura e Diogo Pacheco de Amorim partilham ideias sobre a importância de Passos no futuro eleitoral e político do Chega. Foto: Tiago Petinga/Lusa
André Ventura e Diogo Pacheco de Amorim partilham ideias sobre a importância de Passos no futuro eleitoral e político do Chega. Foto: Tiago Petinga/Lusa

Na mesma entrevista reitera que se Passos tivesse avançado ele não seria candidato. O mesmo fez, aliás, João Cotrim de Figueiredo, candidato apoiado pela Iniciativa Liberal. O ex-primeiro-ministro optou por não dar apoio formal a nenhum dos candidatos que se apresentam às eleições do próximo domingo.

Ainda assim, uma questão que se pode levantar é a da razão pela qual Ventura se refere sempre de forma tão elogiosa ao ex-primeiro-ministro quando teoricamente seria à direita a figura que mais lhe retiraria espaço político e eleitoral.

Diogo Pacheco Amorim, muito próximo do candidato presidencial e membro da atual direção do Chega, sobre este tema afirma que há um ponto prévio e uma ideia que é preciso desfazer.

Há uma imagem, talvez um bocado deturpada, da figura do doutor André Ventura, como tendo uma ambição política desmedida, independentemente do que quer que seja. As coisas não são bem assim”, afirma.


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"O doutor André Ventura prefere perder algum espaço político porque ele está de facto convencido, aliás eu também, e é uma opinião nossa no partido, que o doutor Passos é importante, reúne um conjunto de pessoas e um conjunto de qualidades. Imagine que ele era eleito e imagine que o doutor André Ventura ganhava umas legislativas ou podia governar. Ele encontraria em Passos Coelho uma pessoa que o apoiaria". Diogo Pacheco de Amorim, membro da direção do Chega.

Pacheco Amorim pensa que, mesmo que desse regresso resultasse uma perda de “espaço político” e que “retire visibilidade” a Ventura, Passos Coelho aceitar candidatar-se à presidência da República “era importante para o país”.

Pacheco Amorim diz que as conversas com André Ventura sobre Passos são frequentes no partido e que ambos veem Passos como uma figura que “reúne um conjunto de pessoas e um conjunto de qualidades” abrangentes. “É uma pessoa com coragem política, é capaz de meter mãos a uma remodelação profunda do país e fazer reformas estruturais”, considera.

Por isso, argumenta, num cenário em que Passos entrasse em Belém, Ventura “preferia perder algum espaço político” por estar convencido que, em contrapartida, teria o apoio do ex-líder do PSD caso o Chega vencesse umas legislativas.


Também num quadro alternativo em que Passos regressasse à liderança do PSD, isso não seria uma questão, na ótica de Pacheco de Amorim. Até porque há a convicção de que uma maioria absoluta do Chega é um cenário improvável nos próximos anos.

“Para o André Ventura não haveria qualquer problema, porque sabe perfeitamente que Passos Coelho faria uma aliança verdadeiramente à direita”, resume, acrescentando que essa coligação poderia ser feita num modelo em que “um ficaria como primeiro-ministro e o outro como vice-primeiro-ministro”.

Já sobre se estas declarações frequentes de apoio a Passos Coelho abrem uma brecha no discurso do partido, que diz querer romper com o último meio século, Amorim discorda. “Queremos mudar o que foi feito nos últimos 50 anos, mas há exceções”, afirma, e Passos é essa “exceção”.


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"Existe um espaço cultural com peso na opinião pública que basicamente se situa entre um passismo cultural e o Chega. Isso é visível em vários órgãos de comunicação social, que obviamente Ventura também tenta aproveitar", António Costa Pinto, politólogo

Para o politólogo António Costa Pinto, esta contradição não se cola ao Chega, porque “um partido de direita radical populista tem enorme variação no seu discurso”. “Tanto assume posições mais moderadas, como posições mais próximas do PSD para lhe retirar eleitorado”, analisa.

Esta colagem de Ventura a Passos, na opinião de Costa Pinto, tem como base a existência de um espaço cultural com peso na opinião pública que “se situa entre um ‘passismo cultural’ e o Chega”.

“Isso é visível em vários órgãos de comunicação social e, obviamente, Ventura também tenta aproveitar”, defende.

Já para o ex-ministro e ex-militante do PSD Rui Gomes da Silva — agora "ministro-sombra" da Justiça do Chega — a boa relação entre Passos e Ventura remonta à eleição autárquica de Loures, em 2017, em que o então líder do PSD não deixou cair Ventura. Agora o candidato à presidência devolve a “simpatia”.


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"Acho que Passos Coelho era o único que dava garantias de fazer aliança com Ventura, ou se fosse líder do PSD e ficasse atrás do Chega, de fazer aliança com o Chega, não sendo Passos Coelho o primeiro-ministro, sendo o Ventura possivelmente. [Ele] respeitaria essa situação". Rui Gomes da Silva, ex-ministro do PSD e "ministro-sombra" da Justiça do Chega.

Gomes da Silva assume que também há um lado tático para o líder do Chega, porque é alguém que “admitiria um governo de coligação”.

São interlocutores recíprocos. Ou seja, o Passos Coelho não se importaria de ter como interlocutor o André Ventura, e o André Ventura não se importaria de ter como interlocutor Passos Coelho”, resume — apesar de Gomes da Silva até achar que, em duas eleições, o cenário de maioria absoluta para o Chega se pode tornar real.

Para o "ministro-sombra" do Chega, mesmo a reentrada de Passos na vida política ativa não daria ao PSD horizonte para uma maioria absoluta. “Isto já não volta para trás. O PSD já nunca mais recuperará, não passará dos 30 [%] e o CDS já não existe, não é?”, questiona, enquanto afirma que Montenegro será o último primeiro-ministro do PSD.


Nuno Afonso, ex-braço direito de Ventura, analisa este equilíbrio de forças de forma diferente. Crê que, se “Pedro Passos Coelho fosse candidato pelo PSD, retiraria muitos votos, muitos eleitores do Chega ao André Ventura”.

Por isso, acredita que “ele só utiliza o nome de Passos Coelho porque sabe que lhe dá votos e sobretudo porque sabe que essa hipótese não existe, ele não está na iminência de voltar à vida política ativa num futuro próximo”, resume.

“Sabe que pode fazer esse jogo porque vai render eleitores e vai dividir muito o eleitorado do Partido Social Democrata”, acrescenta.


Voltando à tática, Afonso acredita que, mesmo confirmando-se o regresso do primeiro-ministro que governou nos anos da troika, isso permitia ao Chega disputar o mesmo eleitorado que o PSD.

“Mais cedo ou mais tarde, e com a saída posterior de Passos Coelho — porque o Ventura não sairá tão cedo, também por ser muito mais novo — [ele] acabaria por conseguir passar por cima do PSD, ou ficar com o lugar de Passos Coelho”, remata.


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