Montenegro sobre Ventura. Do “não é não” ao nem-nem

Luís Montenegro tinha uma escolha para fazer na noite de domingo para a segunda volta das presidenciais e optou por uma terceira via: não escolher. Nem Ventura nem Seguro. Há três anos, sobre Ventura e o Chega, o primeiro-ministro dizia: “Nem pensar.” Percorra os principais episódios do filme da relação do líder do PSD com o Chega e Ventura.

19 jan, 2026 - 15:45 • João Carlos Malta



O primeiro-ministro, Luís Montenegro cumprimenta o presidente e deputado do Chega, André Ventura Foto: José Sena Goulão/Lusa
O primeiro-ministro, Luís Montenegro cumprimenta o presidente e deputado do Chega, André Ventura Foto: José Sena Goulão/Lusa

A relação de Luís Montenegro com o Chega e André Ventura começou por ser uma linha vermelha inultrapassável que violaria o ADN do PSD. Evoluiu para um "não é não", convicto. Teve uma passagem pela necessidade de “diálogo” e “espírito de colaboração” no Parlamento quando o tema foi imigrantes, até chegar à noite do último domingo em que, confrontado com a escolha entre Ventura e Seguro, na segunda volta das eleições presidências, o primeiro-ministro não deu apoio nem a um, nem a outro. Pôs-se fora da decisão.

Mas vamos então puxar a fita atrás no filme da relação do atual primeiro-ministro com o Chega e com a figura de André Ventura. Um tema que o tem perseguido desde que, já em 2022, ganhou o partido a Jorge Moreira da Silva.

Em 2023, quando as primeiras eleições que venceu em 2024 ainda não estavam no horizonte, Montenegro foi sistematicamente questionado sobre o tipo de relação que teria com o Chega. Assim nasceu o famoso “não é não”.


Em setembro de 2023 foi mesmo perentório. Repetiu o "não é não" depois de ter dito que não governava com Ventura nem na Madeira nem no Continente e excluiu o Chega de qualquer "acordo político de governação" que venha a ter de fazer no futuro.

E mais, laçava um aviso: "Não vale a pena alimentar mais este assunto". Ponto final? Não.


"Quando disse 'não é não' a fazer um acordo, fui muito claro em relação a considerar que havia ideias e posturas, radicalismo e imaturidade nesse partido que não abriam essa possibilidade. Naturalmente que cumprirei o meu compromisso e até posso acrescentar que o tempo tem-me dado razão". Montenegro em novembro de 2024 à Folha de São Paulo.

O que é facto é que esse tema nunca mais saiu da agenda, e Montenegro, já em novembro de 2024, voltou a ele numa entrevista ao jornal brasileiro, Folha de São Paulo.

"Quando disse 'não é não' a fazer um acordo, fui muito claro em relação a considerar que havia ideias e posturas, radicalismo e imaturidade nesse partido que não abriam essa possibilidade. Naturalmente que cumprirei o meu compromisso e até posso acrescentar que o tempo tem-me dado razão", afirmou.

Mas não disse só isso. Sobre a imigração, tema caro ao Chega, Luís Montenegro afirmou que "Portugal precisa de imigrantes, sobretudo jovens e famílias".

O primeiro-ministro reforçou que o país é "multicultural e orgulha-se dessa realidade" e foi categórico ao destacar que "o combate à discriminação tem sido uma prioridade".


Agora é entre Seguro e Ventura. O filme da noite que derrotou as primeiras apostas

Um ano depois, em abril de 2025, um mês antes das eleições que lhe deram o que chamou de “maioria maior”, após o caso Spinumviva, num debate na SIC em que teve Ventura como oponente, disse: “Já fui muito claro: é impossível governar com o Chega. Não tem fiabilidade pensamento, comporta-se como um catavento. André Ventura e o Chega têm um pendor destrutivo, virado para falar mal de tudo, está sempre contra tudo e não tem vocação para exercer funções de Governo. E não tem maturidade nem decência”.

Às questões políticas acrescentava questões de cariz financeiro para se afastar do partido de Ventura. As propostas do Chega eram irrealistas. Luís Montenegro considera que o impacto poderia chegar aos 40 mil milhões de euros. “Seria trágico para os portugueses”, qualificou.


"Já fui muito claro: é impossível governar com o Chega. Não tem fiabilidade pensamento, comporta-se como um catavento. André Ventura e o Chega têm um pendor destrutivo, virado para falar mal de tudo, está sempre contra tudo e não tem vocação para exercer funções de Governo. E não tem maturidade nem decência”, Luís Montenegro em abril de 2025.

Pelo meio, no final de 2024, houve ainda o episódio das trocas de acusações de mentira entra Ventura e Montenegro sobre um alegado acordo de governação, que o líder do Chega anunciou e que o primeiro-ministro negou.


"Nunca o Governo propôs um acordo ao Chega", afiançou. Ventura não se ficou: "O primeiro-ministro mentiu", acusou o líder do Chega, em entrevista à TVI/CNN Portugal.

A relação pessoal entre Ventura e Montenegro e entre os dois partidos parecia irremediavelmente afetada, quando em março do ano passado o Chega devolveu o “não é não” ao PSD e até ameaçou um cordão sanitário aos sociais-democratas.

À Renascença, um alto dirigente do Chega diz que assistiu à crise política motivada pelas relações de Montenegro nos negócios da família “com pipocas”.

E quanto a uma possível coligação com o PSD, foi terminante: “Com o Montenegro acho impossível, depois de tudo o que aconteceu”. Falou numa “relação que se tem degradado muito” e que vai além dos dois partidos políticos.

Espírito de colaboração, mas com relação aberta

Mas afinal não. Quatro meses depois, os dois partidos apareceram de mão dada no Parlamento. A lei de imigração assim o exigiu, segundo Luís Montenegro.


Mas nessa altura, o líder do Executivo quis controlar a narrativa. Montenegro disse não ter falhado nenhuma promessa. Disse aos portugueses que não faria nenhuma coligação com o Chega e isso mantinha-se, mesmo depois de o Governo ter aprovado com o Chega as alterações à Lei dos Estrangeiros, bem como as alterações em sede de IRS, que já vão ter repercussões no próximo Orçamento do Estado.

Montenegro qualificou estes episódios como revelando "diálogo" com a oposição e não incluía "nenhum acordo de governação”.

"Se, para haver espírito de colaboração, tivesse de haver contrato de exclusividade com algum partido, isso seria fazer uma coligação, e não há coligação nenhuma", explicou, admitindo que em algumas matérias, como aconteceu no dossiê da imigração, há "partidos [neste caso, o Chega] que têm uma posição mais condizente com a que o governo tem".

O mesmo, sublinhou, pode acontecer de hoje para amanhã noutras matérias com o PS.


Luís Montenegro na reação aos resultados das eleições que deixaram Marques Mendes de fora da segunda volta nas presidenciais. Foto: João Relvas/Lusa
Luís Montenegro na reação aos resultados das eleições que deixaram Marques Mendes de fora da segunda volta nas presidenciais. Foto: João Relvas/Lusa

Mas se, no ano passado, Montenegro assumia que a tática do Executivo seria encontrar a cada momento um partido mais bem colocado, Chega ou PS, para aprovar leis e orçamentos, nem sempre foi assim.

"Não estou a pensar negociar nada com o Chega”, disse Montenegro em 2022

Voltemos a 2022 e à batalha interna com Jorge Moreira Silva, que lhe abriu as portas do partido à segunda tentativa.

Na época, depois de ter fugido várias vezes à questão, Luís Montenegro disse que o Chega é uma linha vermelha óbvia, que o ADN do PSD não permitia ultrapassar.

E disse preto no branco. “Eu não tenho problemas em dizer. Não estou a pensar negociar nada com o Chega”, afirmou Luís Montenegro.


Quando aprovou a lei da imigração e as alterações aos impostos para o OE, em julho do ano passado, motivou reações díspares. O Chega falava de um “novo diálogo democrático” em Portugal.


“Terminamos o debate do Estado da Nação com uma certeza. É verdade: há hoje uma nova maioria em Portugal e novo diálogo democrático em Portugal, que exige mudança”. André Ventura.

No PS, o ex-líder parlamentar, Eurico Brilhante Dias, falava de uma “alteração da natureza” do PSD na atual legislatura, sendo o líder do Chega – que já foi militante social-democrata – um “agente de transformação do PSD por fora”.

Brilhante Dias defenderia que o André Ventura percebeu “que é mais fácil transformar o PSD por fora do que por dentro”.

Daí até à noite de ontem passaram quatro anos. Após a derrota copiosa de Luís Marques Mendes, que se começou a prever na semana antes das eleições, havia expetativa em perceber qual a posição que Luís Montenegro tomaria. E a opção do primeiro-ministro foi nem escolher António José Seguro, nem escolher André Ventura.


"[O primeiro-ministro governar] um bocadinho para o lado do PS, um bocadinho para o lado da Chega, é mais uma traição àquela que foi a votação dos portugueses". André Ventura em junho de 2025.

"Na segunda volta não estará representado o nosso espaço político, aceitamos essa escolha com humildade democrática. O PSD não estará envolvido na campanha, não emitiremos nenhuma indicação, nem é suposto fazê-lo”, disse na declaração aos jornalistas na sede do PSD, na São Caetano à Lapa.

Como poderá reagir Ventura

Se, como alguns analistas anteveem, Montenegro quis evitar que Ventura capitalizasse no futuro um hipotético apoio a Seguro, as palavras do líder do Chega depois das eleições legislativas do ano passado podem deixar antever aquela que será a resposta nesta segunda volta à saída de jogo do líder do PSD.

"A expressão do primeiro-ministro hoje mesmo, de dizer, quando confrontado pelos jornalistas, que governará um bocadinho para os dois lados, um bocadinho para o lado do PS, um bocadinho para o lado da Chega, é mais uma traição àquela que foi a votação dos portugueses no dia 18 ", rematou André Ventura em junho do ano passado.


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