A relação conturbada de Costa e Marcelo: do chapéu de chuva em Paris à "falta de bom senso" na dissolução do Parlamento

O Presidente da República está esta sexta-feira em Bruxelas para uma visita às instituições europeias. Tem encontros com as presidentes do parlamento e da comissão e almoça com António Costa, com quem trabalhou mais de oito anos. "Erámos felizes e não sabíamos”, disse Marcelo sobre os oito anos de coabitação com o socialista.

26 fev, 2026 - 23:32 • Manuela Pires



A relação conturbada de Costa e Marcelo. Teremos sempre Paris

A imagem de António Costa a segurar o chapéu de chuva para abrigar Marcelo Rebelo de Sousa em Paris, em 2016, fica na história da relação entre o primeiro-ministro e o Presidente da República, onde se contam também episódios tensos ao longo de oito anos de coabitação.

Desde essa tarde chuvosa em Paris, que a imagem mostrou a cumplicidade entre os dois e a vontade de garantir a estabilidade política, houve a demissão em direto da ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, em 2017, e o caso de João Galamba, em 2023, em que, apesar do pedido expresso pelo Presidente, António Costa manteve o ministro no executivo.

Marcelo antevê encontro com Costa “noutras encruzilhadas ao serviço de Portugal”

Na despedida entre os dois, em março de 2024, depois da reunião do último Conselho de Ministros do Governo de António Costa, o Presidente da República preferiu um “até já”, antevendo que os dois ainda se iriam cruzar “noutras encruzilhadas ao serviço de Portugal”.

O mundo não acaba hoje, a vida não acaba hoje. E isto significa que estamos os dois vivos e de plena saúde e não há razão nenhuma para não nos encontrarmos noutras encruzilhadas, também pensando em Portugal”, afirmou Marcelo, quando já se falava em Costa para ocupar o cargo de presidente do Conselho Europeu.

Esta sexta-feira, os dois voltam a estar juntos em Bruxelas. A convite do presidente do Conselho Europeu, Marcelo Rebelo almoça com António Costa.


Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa no Lançamento do livro "Memórias Minhas" de Manuel Alegre. Foto: António Pedro Santos/Lusa
Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa no Lançamento do livro "Memórias Minhas" de Manuel Alegre. Foto: António Pedro Santos/Lusa

Dificilmente haverá relações que tenham seguido de forma tão fluida e solidária”, disse o antigo primeiro-ministro, em março de 2024, recordando uma relação de “oito anos de cooperação e solidariedade institucional”.

Tal como Costa, também Marcelo elogiou a “solidariedade institucional” num sistema que exigiu, muitas vezes, colocar as instituições “acima das posições políticas e do hemisfério da esquerda ou da direita”.

Marcelo concluiu que, apesar da “divergência na atuação do dia-a-dia” e dos “pontos de partida e pensamento diferentes”, o Presidente entende que o exemplo entre os dois é para repetir.

“Eramos felizes e não sabíamos”

No final do ano de 2024, numa iniciativa do jornal Público, Marcelo Rebelo de Sousa fala sobre os populismos e a ascensão dos radicalismos ao poder, para lembrar como foi positivo o tempo em que os dois trabalharam de perto, um em São Bento, outro em Belém.

“Dizia muitas vezes a um governante com o qual partilhei quase oito anos e meio de experiência inesquecível: um dia reconhecerá que éramos felizes e não sabíamos”, disse Marcelo.


Com a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos, o Presidente da República falou na chegada de novos ciclos políticos e económicos que interferem com os “poderes clássicos”.

“Era tudo relativo, era uma felicidade relativa, mas, comparado com o que vinha aí, era uma felicidade”, rematou o Presidente.

A sintonia durante a pandemia

Quase um ano depois do início da pandemia, Marcelo Rebelo de Sousa contava, na SIC ao humorista Ricardo Araújo Pereira, qual o segredo para uma boa relação com António Costa:

“Cada um vive na sua casa; é uma relação institucional que pode ter momentos afetivos, mas não uma relação afetiva que pode ter momentos institucionais, e, como todas as relações humanas, tem momentos bons e momentos maus, só que não os traz a público. Portanto, resolve-se.”


Cumprimento entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa na tomada de posse do XXIII Governo. Foto: Miguel A. Lopes/EPA
Cumprimento entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa na tomada de posse do XXIII Governo. Foto: Miguel A. Lopes/EPA

Ao longo dos vários meses de estado de emergência, de confinamentos, Marcelo e Costa mostraram sintonia na maior parte das vezes e as sondagens que foram publicadas naquela época mostravam isso. A grande maioria dos portugueses avaliava de forma positiva o desempenho do primeiro-ministro e do Presidente da República no combate à pandemia.

E durante largos meses, a sintonia era visível. Se o decreto presidencial abria as portas a uma limitação da liberdade de circulação, o Governo apressava-se a operacionalizar a medida.

As duas dissoluções da Assembleia da República

António Costa escolhe o prefácio do livro de Vital Moreira, “Que Presidente da República para Portugal?”, para lançar farpas a Marcelo Rebelo de Sousa. O antigo primeiro-ministro considera que “a legitimidade eleitoral reforçada do Presidente da República em nada contribuiu para a estabilidade, antes pelo contrário” para lembrar que "todos os presidentes utilizaram no segundo mandato" para "confrontar a solução de governo existente, mesmo que dispondo de maioria na Assembleia da República". Foi o que aconteceu com António Costa em 2023, e no passado Jorge Sampaio também fez cair o Governo de Pedro Santana Lopes.

Numa intervenção que não chegou aos 10 minutos, António Costa despediu-se, insistindo na importância de se manter uma relação de “cooperação e solidariedade institucional entre o Governo e outros órgãos de soberania, em especial com o Presidente da República”, agradecendo repetidamente o entendimento, “no essencial”, que manteve com Marcelo Rebelo de Sousa.

As divergências: o caso Galamba

Ao longo dos oito anos de coabitação o Presidente da República foi dando sinais das divergências com o Governo. Em 2017, depois dos grandes incêndios do verão, que causaram dezenas de mortos, Marcelo exigiu que o primeiro-ministro tirasse “todas, mas todas” as consequências e no dia seguinte a ministra Constança Urbano de Sousa demitia-se.

Mas houve um caso em que o Presidente faz uma comunicação ao país muito dura para com o Governo, onde pede a demissão do ministro João Galamba, mas Costa não lhe faz a vontade.


Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa no Memorial em homenagem às vítimas dos incêndios de 2017, em Pedrógão Grande. Foto: Paulo Novais/Lusa
Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa no Memorial em homenagem às vítimas dos incêndios de 2017, em Pedrógão Grande. Foto: Paulo Novais/Lusa

Desta vez, o Presidente tornou pública a discordância com o primeiro-ministro, numa nota oficial, confirmando assim o conflito institucional com António Costa.

Numa intervenção, a partir do Palácio de Belém, Marcelo colocava os pontos nos "ii". Lançou a suspeita de que há intenção de “enfraquecer” a função presidencial e avisou que iria estar mais atento para garantir que não há “maior deterioração das instituições”.

A comunicação ao país, foi feita depois de Costa ter defendido Galamba, considerando que não houve qualquer falha a propósito do seu ex-adjunto com o dossier TAP, e Marcelo contesta a argumentação do primeiro-ministro.

“Devia ter sido exonerado”, disse o Presidente, lamentado que desta vez não tenha sido possível “acertar agulhas”, com “maior ou menor distância temporal”, como aconteceu até agora na coabitação com São Bento: “Foi pena” rematou Marcelo Rebelo de Sousa, que deixa Belém a 9 de março e passa a pasta a António José Seguro.


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