Ao longo dos vários meses de estado de emergência, de confinamentos, Marcelo e Costa mostraram sintonia na maior parte das vezes e as sondagens que foram publicadas naquela época mostravam isso. A grande maioria dos portugueses avaliava de forma positiva o desempenho do primeiro-ministro e do Presidente da República no combate à pandemia.
E durante largos meses, a sintonia era visível. Se o decreto presidencial abria as portas a uma limitação da liberdade de circulação, o Governo apressava-se a operacionalizar a medida.
As duas dissoluções da Assembleia da República
António Costa escolhe o prefácio do livro de Vital Moreira, “Que Presidente da República para Portugal?”, para lançar farpas a Marcelo Rebelo de Sousa. O antigo primeiro-ministro considera que “a legitimidade eleitoral reforçada do Presidente da República em nada contribuiu para a estabilidade, antes pelo contrário” para lembrar que "todos os presidentes utilizaram no segundo mandato" para "confrontar a solução de governo existente, mesmo que dispondo de maioria na Assembleia da República". Foi o que aconteceu com António Costa em 2023, e no passado Jorge Sampaio também fez cair o Governo de Pedro Santana Lopes.
Numa intervenção que não chegou aos 10 minutos, António Costa despediu-se, insistindo na importância de se manter uma relação de “cooperação e solidariedade institucional entre o Governo e outros órgãos de soberania, em especial com o Presidente da República”, agradecendo repetidamente o entendimento, “no essencial”, que manteve com Marcelo Rebelo de Sousa.
As divergências: o caso Galamba
Ao longo dos oito anos de coabitação o Presidente da República foi dando sinais das divergências com o Governo. Em 2017, depois dos grandes incêndios do verão, que causaram dezenas de mortos, Marcelo exigiu que o primeiro-ministro tirasse “todas, mas todas” as consequências e no dia seguinte a ministra Constança Urbano de Sousa demitia-se.
Mas houve um caso em que o Presidente faz uma comunicação ao país muito dura para com o Governo, onde pede a demissão do ministro João Galamba, mas Costa não lhe faz a vontade.