É o velho princípio - todos juntos, somos muito mais do que cada um individualmente. Mas, ao mesmo tempo, na prática, cada um está individualmente a tratar e a pensar as suas capacidades à luz da sua interpretação.
O próprio Marco Rubio veio dar-nos uma lição bem verdadeira, em que infelizmente enfiamos claramente a carapuça, quando ele vem dizer que não é compreensível que continuemos com inúmeros modelos diferentes de carros de combate, de armas ligeiras, de aeronaves, etc.
Se me perguntasse há 10 anos se eu defendia convictamente a existência de um exército europeu, eu hesitaria. Hoje não hesito. Porque estou a ver, desde há 4 anos, um custo dramático de cada um pensar e atuar por si.
Podem dizer-me que é este o fado europeu. Se assim é, nem vale a pena preocuparmos com isso, o fado é isso mesmo. Mas, ao mesmo tempo, ficaria mal se não destacasse como, por exemplo, vários países mais a Norte, como a Holanda, a Alemanha e os países nórdicos, estão a desenvolver um processo de integração acelerada e um pensar conjunto de capacidades e de objetivos estratégicos. E como também, por outro lado, entre Portugal e Espanha, esse processo também já está a desenvolver-se.
Recordo que houve uma altura em que Espanha, por ter um Governo de gestão, não podia nomear uma chefia militar que lhe cabia para uma missão das Nações Unidas e designaram um português. Isto é uma coisa que não se esquece. E não posso também esquecer que a ação notável das forças portuguesas no Iraque, em Besmaya, ocorre num quadro de cooperação muito estreita com Espanha, que geria aquele campo de treino.
O mandato inicial de António José Seguro pode ficar marcado pela emergência desse exército europeu?
Não acredito. Procuro distinguir entre aquilo em que acredito e aquilo que vai ser. E as duas coisas, infelizmente, nem sempre coincidem.
O processo europeu vai exatamente nesse sentido de integração, mas, ao mesmo tempo, em cada instrumento desses, nomeadamente nos programas REARM e PEARL, aquilo em que se insiste sempre é que cada um defende a sua soberania. Os Estados participantes colocam sempre uma cláusula segundo a qual, aquilo não pode nunca pôr em causa as respetivas soberanias. Penso que isso é um erro gravíssimo, que depois vem refletir-se em coisas tão óbvias, como foi a posição de cada um a propósito desta guerra no Irão.
Mas acredita que, durante o mandato de António José Seguro, Portugal irá mandar forças militares portuguesas para mais teatros de operações no mundo?
Não, sinceramente, não. Não podemos pensar o Presidente António José Seguro como se ele estivesse numa torre de marfim. António José Seguro, como Presidente, tem um Conselho Superior de Defesa Nacional e tem a articulação cotidiana com o Primeiro-Ministro sobre estes assuntos. Isto não é coisa que venha para a praça pública e sinceramente aí vai haver um grande consenso, e até uma relação que seja benéfica e mais do que a soma das duas partes.
Mas esse contexto de instabilidade não vai propiciar mais intervenções de Forças Nacionais Destacadas?
Não me parece. As Forças Armadas Portuguesas estão a recuperar capacidades, mas não são elásticas. Não nos vamos transformar numa potência militar do dia para o outro, embora tenhamos de continuar a fazer o nosso trabalho.
Vivemos tempos como nunca se viram, desde o 25 de Abril, do ponto de vista do financiamento das capacidades de defesa. Embora com algumas reservas quanto ao que se vai fazer, é um momento muito importante para o crescimento e para a consolidação social das próprias Forças Armadas, até do ponto de vista estatutário.