O sacerdote português, que viu o seu livro “Angola, Justiça e Paz” prefaciado por Marcelo, destaca no Presidente a “abertura ao mundo, na lógica do 'todos, todos, todos', no diálogo interreligioso, no empenho pela paz, na opção por uma Igreja aberta e próxima das pessoas, na solidariedade para com os mais pobres, no combate a economias que matam”.
Foram inúmeras as posições e avisos de Marcelo em relação às desigualdades sociais, à pobreza, aos sem-abrigo. Estes, sobretudo, no primeiro mandato foram uma preocupação constante, sendo frequentes os raides noturnos do Presidente às zonas de Lisboa onde se fixavam.
O padre Tony Neves recorda à Renascença que Marcelo “interveio várias vezes a sugerir aos governos e às câmaras mais empenho na erradicação. Mas infelizmente terminou o mandato com mais sem-abrigo do que quando começou. A culpa não é dele”. Em abril de 2017, pouco depois de ter sido eleito, o Presidente estabeleceu um objetivo nacional: “deixar de haver sem-abrigo em Portugal em 2023”.
A meta não foi cumprida, nem chegou lá perto. Aliás, nos últimos anos, o número de pessoas nesta situação tem vindo a aumentar. De acordo com os dados mais recentes, compilados no Inquérito de Caracterização das Pessoas em Situação de Sem-Abrigo, no final de 2024, havia 14.476 pessoas nesta situação - mais 1.348 do que no ano anterior.
Profundo conhecedor da realidade quotidiana de África, o padre Tony Neves salienta ainda a ligação de Marcelo aos países de língua portuguesa. “Tinha uma grande abertura ao mundo, sobretudo à lusofonia, Angola, Moçambique, Brasil. Foram países que ele visitou várias vezes e tentou aproximar povos e culturas”, salienta o sacerdote à Renascença.
Com muitos anos de experiência em Angola, o padre Tony Neves recorda de Marcelo “a sua simplicidade e simpatia” que o “aproximava das pessoas, até dos mais pobres. Recordo que, na primeira visita a Angola, foi andar a pé em Luanda, provocando uma onda de espanto, pois os Presidentes e os grandes de Angola só saíam à rua com alta proteção e nunca iam a sítios onde o povo andava e até foi mergulhar no mar”.
Tony Neves, que teve Marcelo como júri da sua tese de doutoramento, destaca ainda a faceta de “um grande catedrático de direito e um comentador político de valor universalmente reconhecido que podia ter-se tornado numa pessoa distinta e distante, arrogante. Mas não, sempre sorridente, popular, próximo, dialogante”.
O tal Presidente dos afetos que teve ao longo de dois mandatos como “principal arma de arremesso” contra os problemas sociais “a sua postura: simples, próximo, preocupado”, diz Tony Neves, que recorda que “sempre que havia alguma situação mais trágica, ele aparecia. E não era só sede de protagonismo, era vontade de dar visibilidade aos problemas, incentivar à procura de soluções”.
É nessa senda, por exemplo, que Marcelo surgiu ao longo dos anos do seu mandato à porta do Banco Alimentar Contra a Fome, ao lado da presidente desta instituição, Isabel Jonet, a fazer apelos para donativos e a fazer de voluntário ao mesmo tempo que falava da atualidade política nacional e internacional.
Da maioria absoluta à “alternativa fraca” até às maiorias relativas da AD
Muitas vezes visto como um escorpião e considerado por muitos no PS como uma “fonte de instabilidade” política, ao dissolver por duas vezes um Parlamento onde os socialistas tinham maioria, Marcelo Rebelo de Sousa foi distribuindo encontrões pelos vários quadrantes ao longo dos dois mandatos.
Irritou o seu próprio partido – o PSD – devido ao prolongado alinhamento com Costa, que chegou a anunciar a recandidatura de Marcelo naquela que se tornou numa visita bizarra à Autoeuropa e irritou Costa com os episódios de pedidos de demissão de ministros e a recusa em aceitar Centeno como primeiro-ministro após o parágrafo da Procuradoria-Geral da República.