A “batatada” no Parlamento, a “cavalgada” na Constituição e um debate PCP-PSD. Memórias de uma jovem deputada e de um veterano

Nos 50 anos das primeiras legislativas livres, Gabriela Cabilhas do PSD e José Pedro Soares do PCP juntam-se no Parlamento para passar em revista as últimas cinco décadas do país político. Da educação (ou falta dela) nos debates parlamentares até à revisão constitucional e às memórias de Sá Carneiro, tentam unir o passado e o futuro da democracia. Eis um improvável encontro de gerações, com direito a provocações mútuas.

25 abr, 2026 - 13:00 • Alexandre Abrantes Neves , Ricardo Fortunato (fotografia) , Diogo Casinha (sonorização)



Ouça aqui a reportagem da Renascença. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
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Ouça aqui a reportagem da Renascença. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença

Ela só conhece o mundo já com quatro canais de televisão, ele ainda se lembra do “Conversas em Família” de Marcello Caetano na RTP a preto e branco. Ele cresceu numa vila recheada de analfabetos, ela nasceu num país com escolaridade obrigatória. Ela aprendeu a repudiar a tortura da PIDE nos bancos da escola, ele sofreu-a na pele em Peniche. Ele foi eleito num tempo em que ainda se boicotavam eleições, ela entrou no Parlamento já a fragmentação política era um dado assumido.

Nos 50 anos das primeiras Legislativas livres, a Renascença junta na Assembleia da República um deputado constituinte do PCP e uma deputada jovem do PSD para olharem para as últimas cinco décadas parlamentares e traçarem diferenças e semelhanças.

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Embalados por fotografias que marcam o país político desde 1976, Gabriela Cabilhas, de 29 anos, e José Pedro Soares, de 76, lamentam a “batatada” e a “política de ‘show’” que se vive atualmente no hemiciclo, olham para os próprios partidos e tentam apontar causas para a mudança drástica do xadrez parlamentar e dividem-se sobre a revisão constitucional e a responsabilidade da Troika.


Pelo meio, comparam as cadeiras e os corredores da Assembleia entre 1976 e 2026, partilham o medo da primeira vez nos Passos Perdidos e quase se emocionam sobre o dia em que Sá Carneiro abraçou presos políticos do PCP.

Numa tarde de abril, quando os cravos vermelhos já se penduravam nas paredes do Parlamento, um veterano e uma jovem quebraram as fronteiras partidárias e ideológicas para coserem o início e o futuro da democracia. E no final até acabaram a concordar em discordar.

Quando Sá Carneiro abraçou um comunista na cadeia

“Eu estava tão… tão intimidado”, relembra o comunista, quando chegou à Assembleia da República para tomar posse na Constituinte. Chegou ali pela mão de Álvaro Cunhal e dos mais altos quadros do Partido Comunista Português, que queriam um preso político conhecido entre o grupo de deputados.

No início da década de 1970, liderou e lançou a partir de Vila Franca de Xira (onde trabalhava como tipógrafo) células clandestinas sindicalistas. Ficou conhecido como um dos principais nomes contra o Estado Novo no Baixo Ribatejo e acabou preso em 1971. Ficou em Peniche mais de três anos.

“Nunca falei, nunca falei. Era para aí já a quarta noite não me dormia e trouxeram-me um conjunto de fotografias. Disseram-me: ‘Estás aí armado em herói, estás a ver estas pessoas? Estão todas a falar’. Mas eu disse que não conhecia ninguém, mas conhecia-os todos. Fui muito forte”, recorda, enquanto mira a fotografia de cadastro que lhe foi tirada em Peniche.


Os mortos da Revolução. “É importante lembrar que o 25 de Abril não foi só flores”


Ao longo dos mais de 36 meses atrás das grades, viu ser-lhe lançada uma campanha de solidariedade nacional e internacional, por parte da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos e da Amnistia Internacional. Ficou conhecido entre o movimento estudantil – e isso motivou até visitas na prisão de deputados da chamada Ala Liberal do Estado Novo.

“Pinto Balsemão, Sá Carneiro e Pinto Leite foram visitar-me à prisão. O Sá Carneiro avançou e disse ao guarda: ‘Afaste-se eu sou deputado’. E ele começou a falar comigo e a primeira coisa que fiz foi despir a camisa e mostrar-lhe como estava o meu corpo. E deu-me um abraço”.

Para Gabriela Cabilhas, nada disto surpreende. Estudou a fundo o pensamento e a ação política tanto de Sá Carneiro como Pinto de Balsemão, dois seres de “grandiosidade” que eram capazes de dar lições de “humanidade” e de “luta pela liberdade”, para lá das fronteiras partidárias.

“É uma lição para quem, às vezes, invoca o regime, usando a saudade portuguesa para chorar por esses tempos de miséria, de horror, de tortura de prisão onde, muitas vezes, a fuga era o melhor destino possível. Isto mostra que os temos de continuar a lutar pela nossa democracia e liberdade”, aponta.

O primeiro dia do resto da vida deles

Entraram nos Passos Perdidos, pela primeira vez, na categoria dos sub-30 – José Pedro Soares com 25, pouco tempo depois de sair de Peniche (onde foi submetido a tortura de sono durante três semanas); Gabriela Cabilhas com 27, quando deixou a liderança da Federação Académica do Porto.


Na Sala do Senado, o comunista lembra os tempos da Constituinte. "Havia muita gente que escrevia para a Assembleia Constituinte a pôr os seus problemas de habitação, de desconforto, com muitas coisas. Era diferente" Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
Na Sala do Senado, o comunista lembra os tempos da Constituinte. "Havia muita gente que escrevia para a Assembleia Constituinte a pôr os seus problemas de habitação, de desconforto, com muitas coisas. Era diferente" Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
Gabriela Cabilhas e José Pedro Soares discordam sobre crises políticas e quedas eleitorais, mas há traves mestras de que não abdicam. "É a democracia a funcionar." Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
Gabriela Cabilhas e José Pedro Soares discordam sobre crises políticas e quedas eleitorais, mas há traves mestras de que não abdicam. "É a democracia a funcionar." Foto: Ricardo Fortunato/Renascença


“A primeira vez que eu aqui entrei foi para vir tomar posse”. Estávamos em 2024 e a deputada do PSD nunca tinha estado no Parlamento. “Fez-me quase lembrar o primeiro dia de aulas, porque havia uma grande azáfama nos corredores, muitos deputados estreantes, muita emoção, energia, garra para desbravar caminho. E também trazia as preocupações da minha geração”.

Foram essas as preocupações que levou quando subiu à tribuna pela primeira vez, há precisamente dois anos, nos 50 anos do 25 de abril. Foi a escolhida para discursar pelo PSD e a mais jovem a dirigir-se à assembleia.

“Eu sabia muito bem aquilo que eu queria dizer ao país. Sente-se uma tentativa de divisão, de virar os políticos contra o povo. Queria dizer que nós somos o povo e, portanto, não há uma divisão entre nós e eles”, aponta. Mas a união e a proximidade também começam nas bancadas parlamentares. “Os partidos precisam também de conseguir abrir portas, de se rejuvenescer e de captar também pessoas diversas”.

O caminho passa, considera, por dar “espaço aos jovens no local da decisão” – com representantes mais novos, mas também com políticas pensadas especificamente para a juventude. Um esforço que decaiu nos últimos anos, mas que também existia no início da democracia, diz José Pedro Soares.

“O problema do voto aos 18 anos, o problema dos jovens aprendizes – como modistas e costureiras – que queriam duas horas para estudar, o problema da guerra colonial e a integração dos jovens, porque acabaram as guerras. Foi isso que agarrei aqui há 50 anos”.


"Um político não pode ser medido pelo número de visualizações, ‘likes’, partilhas, vídeos… O político tem de ser medido e avaliado por aquilo que consegue mudar na vida das pessoas", diz Gabriela Cabilhas. Foto Ricardo Fortunato/Renascença
"Um político não pode ser medido pelo número de visualizações, ‘likes’, partilhas, vídeos… O político tem de ser medido e avaliado por aquilo que consegue mudar na vida das pessoas", diz Gabriela Cabilhas. Foto Ricardo Fortunato/Renascença
"Havia muitos operários. Hoje a composição social tem muitos jovens que passaram pelas faculdades", aponta José Pedro Soares sobre o Parlamento. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
"Havia muitos operários. Hoje a composição social tem muitos jovens que passaram pelas faculdades", aponta José Pedro Soares sobre o Parlamento. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença


A “batatada” só começou com o Chega?

Na Sala do Senado, o cenário não mudou muito à primeira vista. As cadeiras “desconfortáveis” são semelhantes, a claraboia ampla continua a iluminar as bancadas e até o retrato de D. Luís I permanece imóvel por cima da tribuna. E não choca ter um rei pendurado no edifício mais republicano de todos. “A revolução de 1820 é que foi muito importante. Depois, já havia constituição e partidos”, aponta José Pedro Soares.

Entrou por esta porta, pela primeira vez, com 25 anos (hoje com 76), na altura da Assembleia Constituinte. Já irá contar-nos o que sentiu e pensou, o tipógrafo vindo de Vila Franca de Xira e que esteve preso mais de três anos em Peniche. Por agora, os olhos percorrem atentamente as bancadas e notam as diferenças de cinco décadas, tanto aqui como na Sala das Sessões.

À vista, há mais microfones – “antes tínhamos só uns 20 micros, andavam a passear entre as bancadas” – e também computadores para acompanhar as sessões. Longe dos olhos, as diferenças marcam-se no envolvimento dos cidadãos.

“Havia muita gente que escrevia para a Assembleia Constituinte a pôr os seus problemas de habitação, de desconforto, com muitas coisas. Era diferente. Muitas vezes, o professor Henrique Barros começava a sessão por aí. Um membro da mesa lia a correspondência. Era um património muito interessante, a forma como as pessoas se sentiram”, relembra.

Gabriela Cabilhas do PSD vai ouvindo atentamente estas memórias. 50 anos mais tarde, a ponte com a sociedade civil hoje já não tem o Parlamento como intermediário.


"A batatada hoje é diferente. Creio que na altura ainda era muito para a liberdade, para ampliar as coisas, não era para reduzir, como agora parece"


“É através das redes sociais que nos procuram”, compara. “Seja com preocupações, com comentários que também possam revelar algumas tensões, diversidades de opiniões… Creio que houve também por parte dos partidos essa necessidade de aproximação das pessoas”.

O acesso até pode ser mais fácil e barato – sempre se poupa no selo dos correios –, mas nem tudo são pontos positivos. E basta abrir uma caixa de comentários para o perceber.

“Os algoritmos são muito mais permeáveis ao discurso de ódio, ao discurso que divide a acusações, ao medo, à intolerância e eu creio que o grande desafio hoje é ser moderado e, portanto, para mim hoje ser moderado é a nova rebeldia”, acredita a deputada do PSD.

O tema aparece naturalmente. Nos últimos 50 anos, o debate parlamentar já viu de tudo. Na altura da Constituinte, as atas são bem reveladoras da intensidade dos trabalhos, com muitas acusações entre a esquerda e a direita, principalmente entre as bancadas do PCP e do CDS-PP. “Da minha bancada, era uma coisa – que eu não gostava –, mas ouvia-se muito: ‘Reacionário’. Era tudo muito à flor da pele”, relembra José Pedro Soares que, no entanto, vê hoje uma diferença nos modos de discussão no parlamento.

“A batatada hoje é diferente”, assume. “Creio que na altura ainda era muito para a liberdade, para ampliar as coisas, não era para reduzir, como agora parece. Na altura, todos falavam da liberdade e quando havia alguns excessos condenava-se. Agora não – isto é má educação”, refere, sem nunca nomear o “novo partido”.“Como receberam Presidentes da República aqui, os valores que protagonizavam, como a pena de morte…”.


Numa sala de comissão, Gabriela Cabilhas tenta explicar a queda eleitoral da esquerda: "Afastaram-se da vida das pessoas". Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
Numa sala de comissão, Gabriela Cabilhas tenta explicar a queda eleitoral da esquerda: "Afastaram-se da vida das pessoas". Foto: Ricardo Fortunato/Renascença

Gabriela Cabilhas junta-se à reflexão – e se aponta o dedo ao Chega pelo “excesso”, também é capaz de se virar para dentro e lamentar que, entre as outras bancadas, também existam personalidades que respondem e ultrapassam os “limites do aceitável”. Em qualquer caso, acredita que os eleitores separam o trigo do joio no momento de colocar a cruz.

“Um político não pode ser medido pelo número de visualizações, ‘likes’, partilhas, vídeos… O político tem de ser medido e avaliado por aquilo que consegue mudar na vida das pessoas. Creio que o povo português continua a conseguir distinguir uma política de ‘show’ e uma política focada em darmos o nosso melhor para melhorarmos a vida das pessoas”.

Revisão constitucional. “Não pode servir para cavalgar a onda do dia”

Desde 1976, já houve sete revisões constitucionais – a mais relevante, em 1982, quando o Conselho da Revolução foi extinto e os partidos concordaram em flexibilizar o sistema económico e político, já depois de terminado o período mais acérrimo da revolução.

O tema tem voltado de quando em vez à discussão política e, nas legislativas de 2025, voltou a marcar a agenda, com a Iniciativa Liberal e o Chega a pressionarem o governo da AD a avançar com um processo, já que constituem uma maioria de dois terços no Parlamento.

O PSD já empurrou o tema para a segunda metade da legislatura e, agora na Renascença, Ana Gabriela Cabilhas também se recusa a antecipar que temas podem estar em cima da mesa. A única coisa que afasta, para já, é que o partido alinhe em “cavalgadas” na Constituição, com fins eleitoralistas.


Vídeo. Da "Grande Vila Morena" aos "parapeitos" da liberdade: o 25 de Abril pelos olhos de sete crianças


“Creio que não pode ser nem por taticismos, nem por uma qualquer tentativa de usar a revisão da Constituição para ganhar espaço na agenda mediática, para ganhar espaço na agenda pública e, à custa da revisão da Constituição, cavalgar a onda do dia”, aponta, com uma fotografia da Constituição à sua frente.

Se o processo deve ou não incluir o PS, a social-democrata vinca que tanto os socialistas como o Chega têm de participar na discussão, dada a relevância no Parlamento – até porque excluir algum deles seria caminhar para uma Constituição “sem consenso” e pôr em risco o que foi conquistado até agora. “Eu creio que os portugueses estão pacificados com a nossa Constituição e creio que a revisão não será radical”.

José Pedro Soares não é tão afirmativo na necessidade de rever a Constituição, mas admite que tem de ser aperfeiçoada e atualizada: “Até nas nossas casas temos a necessidade ao fim dos meses de mudar o sítio onde estão as flores”. Mas o que não pode estar em causa são mudanças que venham “alterar o direito à greve”, “permitir a pena de morte” ou até “reduzir os deputados e trazer menos representatividade”. O texto atual, acredita o comunista, é aquele que os portugueses – e, principalmente, os jovens – “precisam”.

“Estão lá garantidos os direitos fundamentais o acesso à cultura, ao desporto à vida, à realização pessoal, a criação de condições políticas, económicas e sociais para que os direitos se realizem”.

O PCP de ontem e o PSD de hoje

A sensação é igual àquela que se tem quando dois primos são da mesma família, partilham o nome, mas não têm qualquer semelhança no rosto. Comparar a configuração parlamentar entre 1976 (depois das primeiras legislativas, a 25 de abril) com a atual (saída das eleições de maio de 2025) é perceber que pouco ou nada se mantém igual.

Naquela altura, havia 263 deputados; hoje, e desde a revisão constitucional de 1989, são 230. Em 1976, havia cinco partidos com assento parlamentar, ao passo que hoje o número duplicou: são precisamente dez. Há 50 anos, o PS tinha 107 lugares na Assembleia e a maior representação; atualmente, é o PSD com 91 e o PS, pela primeira vez, é a terceira força política. Também nas primeiras legislativas, o PCP conseguiu 40 deputados e foi o partido mais votado em três distritos; entretanto, reduziu para apenas três lugares.


Sobre a Troika, as opiniões dividem-se: ambos culpam o PS, mas Gabriela Cabilhas recusa responsabilidades do PSD. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
Sobre a Troika, as opiniões dividem-se: ambos culpam o PS, mas Gabriela Cabilhas recusa responsabilidades do PSD. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
José Pedro Soares relembra os tempos da prisão em Peniche. "Fui muito forte", sintetiza. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
José Pedro Soares relembra os tempos da prisão em Peniche. "Fui muito forte", sintetiza. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença


Na leitura de José Pedro Soares, que mira a comparação dos deputados das duas legislaturas, a queda dos comunistas é “preocupante”, mas não é a análise mais grave que faz dos últimos 50 anos – para esse lugar, atribui as honras ao Chega.

Um dia entrei numa taberna e estavam todos ‘eh, Ventura’. Fiquei tão magoado, que quase fiquei com vontade de chorar. As pessoas lutaram tanto pelos seus direitos, para os seus filhos frequentarem a escola, por terem os seus direitos profissionais, salário igual, trabalho igual, os direitos das mulheres. E agora aparecem coisas assim? Fico muito chocado”.

Sobre a redução eleitoral do PCP na última década, reconhece que a mensagem do partido “não está a passar” e reconhece que, no caso da guerra da Ucrânia, o partido meteu os pés pelas mãos ao início.

“Creio que o partido se pronunciou mal inicialmente. A condenação das guerras e das invasões é uma coisa que todos podemos condenar. Aquilo é um conflito que tem as suas razões históricas e onde devia haver mais diplomacia, logo com a União Europeia, que devia sentar os dois lados”.

Esta é, para Gabriela Cabilhas, uma questão “inconcebível” e não consegue compreender os argumentos de quem diz que o PCP foi “marginalizado”. Quanto ao desempenho da esquerda nos últimos anos, é rápida a fazer um diagnóstico das razões para queda dos adversários.


"O Sá Carneiro avançou e disse ao guarda; ‘Afaste-se eu sou deputado’. E ele começou a falar comigo e a primeira coisa que fiz foi despir a camisa e mostrar-lhe como estava o meu corpo"


“A esquerda afastou-se dos problemas reais, concretos, das pessoas. Para mim, nos últimos anos, esteve alheada, numa certa bolha e creio que isso traduziu-se naquilo que foi a expressão da indignação das pessoas”.

Quanto às críticas habitualmente feitas pelo PSD, a deputada (que se tornou militante apenas com o congresso de 2024) não responde a quem diz que o partido se afastou da matriz inicial, mas deixa uma certeza: a bancada parlamentar está “cada vez mais próxima” dos problemas que interessam aos portugueses.

O PSD continua a ser um partido muito pluralista, consegue incorporar também as diferentes sensibilidades dentro do seu espectro. É um reflexo da expressão do nosso povo e, portanto, eu creio que hoje nós estamos próximos daquilo que é a vontade e os anseios dos portugueses”.

O Parlamento dos operários ou dos doutores?

Segundo uma análise feita pelo portal PTdata.org, a partir de dados da Assembleia da República, advogado é a profissão com maior representação entre os deputados (42), logo seguido de professores (35) e gestores (28). Segundo o portal Pordata da Fundação Francisco Manuel dos Santos, apenas 25 deputados dos 230 (cerca de 11%) não têm formação superior.

“Ai, antes era muito diferente”, compara o comunista José Pedro Soares. “Havia muitos operários. Hoje a composição social tem muitos jovens que passaram pelas faculdades e tiveram outra capacidade de intervir, de estudar, de investigar. Há um nível diferente de intervenção”.

Nessa altura, a variedade de vozes era tanta, que o ambiente era muito intenso, ainda para mais com problemas prementes para resolver, como “as muitas barracas que existiam”. Para isso, contou e muito o trabalho das comissões parlamentares, “essenciais” à redação da Constituição de 1976 – e que, ainda hoje, ficam à margem do conhecimento dos cidadãos sobre a política.


"Quando vemos que há um país político que está dissociado do país real, isso também é prejudicial para o estado da nossa democracia", assinala a deputada do PSD. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
"Quando vemos que há um país político que está dissociado do país real, isso também é prejudicial para o estado da nossa democracia", assinala a deputada do PSD. Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
"Um dia entrei numa taberna e estavam todos ‘eh, Ventura’. Fiquei tão magoado, que quase fiquei com vontade de chorar". Foto: Ricardo Fortunato/Renascença
"Um dia entrei numa taberna e estavam todos ‘eh, Ventura’. Fiquei tão magoado, que quase fiquei com vontade de chorar". Foto: Ricardo Fortunato/Renascença


“É um trabalho que não tem a mesma presença no digital. Acontece muito nos bastidores e o que passa para fora é sempre o plenário”. Mas isso não tem de ser mau quando é necessário tomar decisões. “Há combate político também [nas comissões], mas há muito trabalho obviamente desta concertação e de um esforço conjunto em função das iniciativas”.

A amargura da Troika e o exagero da bomba atómica

Nos últimos 50 anos, desde as primeiras legislativas, apenas seis dos 17 governos constitucionais conseguiram cumprir o mandato até ao fim. Além disso, e nas mesmas cinco décadas, houve dez dissoluções da Assembleia da República – a primeira vez, em 1979 quando Ramalho Eanes usou a bomba atómica para mandar abaixo o governo de Mota Pinto; a última, em 2025, quando Marcelo Rebelo de Sousa dissolveu o Parlamento depois do chumbo da moção de confiança, com a polémica da Spinumviva e a empresa familiar de Luís Montenegro.

Para Gabriela Cabilhas, o pior da instabilidade política é o clima de “suspeição” e “desagrado” que habitualmente cria em torno dos políticos – e que mina a relação com os cidadãos. Daí, pedir cautela no uso da bomba atómica.

Estabilidade política é essencial ao país e, muitas vezes, quando vemos que há um país político que está dissociado do país real, isso também é prejudicial para o estado da nossa democracia, para o funcionamento das instituições e para a confiança com que os portugueses também depositam nos políticos”.

José Pedro Soares lamenta que Luís Montenegro não “tenha esclarecido logo um conjunto de coisas”. Ainda assim, e na sua leitura, o caso mais grave de crise política não foi em 2025 – mas sim em 2011, quando o chumbo do PEC IV trouxe um pedido de ajuda financeira.

“As pessoas foram muito prejudicadas, tirando-se os feriados foi um período muito difícil. Houve muitos direitos em causa. Foram medidas que se prolongaram muito tempo e coisas que só muito mais tarde é que foram resolvidas”.


"Creio que o meu partido [PCP] se pronunciou mal inicialmente [sobre a Ucrânia]. A condenação das guerras e das invasões é uma coisa que todos podemos condenar"


À boleia de uma fotografia de José Sócrates e de Teixeira dos Santos em 2011, quando aprovaram o programa da Troika, Gabriela Cabilhas lamenta que este momento não esteja mais vezes na cabeça dos deputados, como um lembrete de responsabilidade e de respeito por quem está em casa a assistir aos debates parlamentares.

“Às vezes, estamos num debate a ver quem é que dá mais, quem é que propõe mais, quem é que tem mais medidas a apresentar. Este foi um período em que os portugueses passaram por um período de amargura, desespero e grandes dificuldades. Esta prudência é muito importante, o equilíbrio das contas públicas”, aponta.

Sobre a responsabilidade destes tempos, as opiniões dividem-se: para Cabilhas, é exclusivamente de Sócrates; para José Pedro Soares, o PSD também tem culpas no cartório. As visões dividem-se aqui. Como em muito mais do sistema político:


Renascença: O que fica da missão de ser deputado?

José Pedro Soares: É a Constituição. Ela é tão ampla que apontava um caminho para o Socialismo que até voltou para trás, para a integração monopolista do capitalismo.

Gabriela Cabilhas: Eu só posso dizer: ainda bem que o caminho não foi para o socialismo. A pessoa está primeiro e só depois é que vem o Estado. A pessoa deve ser o centro de todas as políticas.

José Pedro Soares: Isto deve acontecer no Parlamento, estas opiniões diferentes.

Gabriela Cabilhas: É a democracia a funcionar [risos]


Nisto concordam. Depois de 50 anos de Parlamento democrático, é o que fica: a liberdade de pensamento.


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