"Queremos dar dignidade a todos". Na Bela Vista, a Cáritas ajuda cada vez mais crianças, idosos e grávidas

No bairro da Bela Vista em Setúbal, o Centro Social de Nossa Senhora da Paz tem cada vez mais dificuldade em responder aos pedidos de ajuda de idosos, grávidas e famílias - faltam profissionais, principalmente educadores de infância. Os responsáveis mostram-se também preocupados com a nova lei de Estrangeiros, que pode dificultar o acesso a cuidados de saúde.

26 out, 2025 - 10:45 • Alexandre Abrantes Neves



Em Setúbal, a Cáritas ajuda cada vez mais crianças, idosos e grávidas. "Queremos dar dignidade a todos"
OuvirPausa

Em Setúbal, a Cáritas ajuda cada vez mais crianças, idosos e grávidas. "Queremos dar dignidade a todos"

O silêncio apenas pontuado pelo barulho dos talheres e por palavras breves é reflexo do esforço para que a hora de almoço seja o momento mais calmo do dia, sem choros de bebés, aulas ou entrevistas de emprego. Maria e Luísa não se importam de interromper a refeição para contar a sua história. São ambas mães solteiras, sem casa.

“Sinto-me desiludida, sinto-me abandonada no meu próprio país. Quando estive na Holanda sentia que era estrangeira lá e voltei para cá e não me sinto em casa na mesma. Não sei onde é que pertenço neste momento”.

Maria, 20 anos, filhos de um e dois anos, prontifica-se a falar pelas duas. Tem andado de casa em casa, ora porque não consegue pagar a renda, ora porque não se entende com a família, nomeadamente com a irmã. “Desde que a minha mãe faleceu, tem sido muito difícil eu arranjar autonomia”, confessa.

À falta de habitação, junta-se a dificuldade em arranjar trabalho. Maria emigrou para os Países Baixos ainda sem o 12.º ano e está agora a completá-lo, num curso de assistente de farmácia. Mas enquanto não acaba os estudos, a luta por um emprego revelou-se mais difícil do que imaginava. “Consegui juntar algum dinheiro, mas depois cheguei cá e também não deu em nada, porque não existem soluções”.


Luísa e Maria vivem no Centro Social de Nossa Senhora da Paz, no Bairro da Bela Vista, em Setúbal. Estão integradas no Centro de Apoio à Vida criado pela Cáritas Diocesana de Setúbal, que dá apoio a mulheres grávidas, mães recentes e respetivos filhos, sem retaguarda familiar e sem casa. A estas 20 pessoas, juntam-se ainda outras 50 mulheres que, apesar de terem um teto para viver, “precisam de apoio no início da vida materna”.

Esta é apenas uma das várias respostas sociais que a Cáritas opera neste centro social e que abrangem todas as idades, dos zero aos cem. O presidente, Paulo Valente da Cruz, aponta à Renascença que o principal objetivo passa por dar todos os instrumentos aos utentes para que tenham uma vida o mais autónoma possível.

“Independentemente da etnia, dar a dignidade ao ser humano é meio caminho para depois começar outro tipo de trabalho. Eu estou sempre com essa palavra de dignidade em todos os momentos, inclusive com as pessoas em situação de sem-abrigo, que precisam de ter a devida dignidade como qualquer um de nós. Queremos dar dignidade a todos”, defende, como matriz essencial do trabalho ali feito diariamente com cerca de 400 utentes.

Ali, além do apoio a grávidas, há um centro de dia para idosos, apoio domiciliário para doentes de todas as idades, creche e jardim de infância para as crianças até aos seis anos, atividades de ATL para crianças e adolescentes depois da escola. É uma resposta 360 graus num bairro social que é considerado um dos mais perigosos de Setúbal – mas onde o trabalho tem surtido efeito.


Paulo Valente da Cruz, presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal, pede à recém-eleita autarca para não travar os acordos celebrados com a Cáritas. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Paulo Valente da Cruz, presidente da Cáritas Diocesana de Setúbal, pede à recém-eleita autarca para não travar os acordos celebrados com a Cáritas. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

“A etnia cigana tem uma determinada cultura, a africana tem outra, depois também temos a portuguesa, depois também começou a aparecer a ucraniana. O mais importante na resposta que este equipamento faz é responder a essas culturas. É um êxito, um caso exemplar de integração”, considera Valente da Cruz, que acrescenta que a instituição está sempre pronta a ajudar perante o “risco iminente” de tensões no bairro.

Para Carla Carvalho, diretora do Centro Social, o ambiente no bairro é hoje de maior paz social, longe dos conflitos constantes nas ruas que aconteciam ainda há meia dúzia de anos. Para isso, contribui a atuação “positiva e adequada” da polícia, que está “integrada” pacificamente no bairro, mas também o facto de haver respostas para a população.

Há melhores condições. Há saúde, há escola, nós temos uma escola primária aqui nova, temos uma escola secundária nova, temos um centro de saúde a ser feito aqui, nós temos creche, temos centro de dia. O facto de existirem serviços que podem ajudar e promover uma melhor vida para estas pessoas tem levado a uma evolução no bem-estar das pessoas”, acredita.

Apesar do trabalho com frutos que tem sido feito entre Estado, autarquia e setor social, o presidente da Cáritas de Setúbal ressalva que há ainda muito por fazer, especialmente no que toca ao tema da habitação. Neste momento de pós-autárquicas – e com o regresso de Maria das Dores Meira à câmara setubalense, agora como independente (apoiada por PSD e CDS) e não como comunista –, Paulo Valente da Cruz apela para que a mudança de executivo municipal não ponha em causa as obras em curso, com fundos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Dar dignidade ao ser humano é meio caminho para depois começar outro tipo de trabalho

“No caso das pessoas em situação de sem-abrigo, nós tínhamos camarata e, nos últimos anos, começámos a ter apartamentos partilhados e ‘housing first’. Foi tratado com o anterior município, e protocolado através do PRR, que a Cáritas Diocesana ia ter um edifício para 30 apartamentos T1, que é no Palácio do Cabedo. O que eu espero é que a nossa Presidente continue com esse processo”.

Lei de Estrangeiros preocupa nos cuidados de saúde

O barulho não engana, assim que descemos as escadas e passamos a porta corta-fogo. Estamos no jardim de infância e a hora não é fácil – foi servido o almoço, agora é tempo de preparar a higiene e ir para o recreio. Ter estranhos por estes corredores ajuda a convocar uma enchente de crianças, que se apresentam com nome e apelido e selam o cumprimento com um abraço.

O desafio, agora, é conseguir acalmá-las: têm entre três e seis anos e chegam a ser mais de 25 numa só sala. Ao todo, entre creche e jardim de infância, há mais de 150 crianças.

Só quem não trabalha realmente na realidade é que acaba por fazer a lei desta maneira, porque cada vez há mais crianças com necessidades educativas especiais. Temos todo o gosto e integramos crianças com necessidades educativas especiais, mas temos de pensar que não podemos prejudicar o restante grupo. E só com dois adultos por sala – uma educadora e uma ajudante de ação educativa –, torna-se muito complicado fazer um trabalho de qualidade”, alerta a coordenadora, Sofia Ribeiro.

O panorama tornou-se ainda mais complicado nos últimos anos. A falta de professores de norte a sul do país fez movimentar o mercado dos docentes e o setor social queixa-se cada vez mais da falta de educadores de infância, que acabam a sair para o ensino público com um menor horário de trabalho e um salário mais competitivo. “Não têm nenhuma desvantagem, eu entendo”, admite a responsável.


No Centro Social de Nossa Senhora da Paz, apoiam-se diariamente cerca de 90 idosos, entre centro de dia e apoio domiciliário. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
No Centro Social de Nossa Senhora da Paz, apoiam-se diariamente cerca de 90 idosos, entre centro de dia e apoio domiciliário. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

O Centro Social de Nossa Senhora da Paz é um enorme edifício, de tons creme e amarelo, que se desvenda um autêntico corrupio de gente, assim que se passa a porta de entrada. Em cada piso, funciona um serviço diferente, remodelados várias vezes desde a pandemia, dado o esforço da Cáritas em potenciar o espaço e torná-lo o mais útil possível para a população.

Ediana Carvalho conhece bem os cantos à casa. Tem 20 anos e chegou aqui há quase dois anos, quando estava grávida do filho. Começou por ser apoiada pela instituição e, depois de fazer um curso profissional de auxiliar de educação, acabou a ser contratada para a creche. Está efetiva, mas mesmo assim a luta pela legalização tem demorado.

É muito papel e são muitas pessoas à espera, é muito difícil”, resume, para depois explicar os efeitos práticos de um processo tão longo. “Quero fazer uma consulta e não consigo, quero tratar de certos documentos e não consigo”.

Para a diretora do centro, Carla Carvalho, as alterações à lei dos Estrangeiros e à lei da Nacionalidade vieram piorar o problema, ao provocar “ansiedade e preocupação” junto de quem tenta regularizar a situação, porque “parece que ninguém sabe muito bem”.


Mil de um ano para o outro. Está a aumentar o número de pessoas apoiadas pela Cáritas de Setúbal


Na leitura desta responsável (que trabalha há mais de 20 anos no setor social), as pessoas “não vão sair do país”, mesmo que não consigam legalização – vão esforçar-se ao máximo por arranjar alternativas para contornar a lei.

"Vão arranjar, por exemplo, contratos ilegais, em que vão ser explorados. Vamos ter situações de habitações alugadas em que moram lá 20 ou 30. Acho que as condições destas pessoas vão piorar imenso. Mas a maioria não vai embora. E então, como é que vamos ficar? Com as pessoas cheias de problemas”, alerta.

Entre os temas que mais preocupam Carla Carvalho está a saúde. Atualmente, os constrangimentos no SNS dos últimos meses já prejudicam em força estas populações (nomeadamente, nas grávidas que não arranjam resposta na península de Setúbal) e a diretora do centro social teme que as novas regras para a imigração acentuem o prejuízo.

“Se aqueles que não estão legalizados não vão ter acesso a cuidados primários, a vacinação vai ser permitida? Vão dar vacinas a estas pessoas, a estas crianças? Não sei”, interroga.

"Dancei, ele riu e morreu a seguir"

É um tema que nem sempre se associa aos bairros sociais, mas na Bela Vista sente-se em força e com cada vez mais casos. O abandono de idosos tornou-se numa das prioridades do Centro Social de Nossa Senhora da Paz nos últimos anos, mas a resposta ainda não é suficiente e a situação não sai da cabeça da diretora do centro.

Se aqueles que não estão legalizados não vão ter acesso a cuidados primários, a vacinação vai ser permitida? Vão dar vacinas a estas pessoas, a estas crianças? Não sei

“Trazemos para o centro de dia, fazemos o serviço de apoio domiciliário, mas há determinados serviços – como acompanhamento a consultas, exames, compra de medicação, compra de produtos, de medicamentos, de alimentação, tratamento de documentos – que nós não temos recursos humanos. Não temos braços nem pernas para tantos utentes sozinhos”, avisa.

Entre o apoio a quem está doente em casa e aqueles que passam diariamente pelo centro de dia, este equipamento da Cáritas de Setúbal ajuda cerca de 90 idosos diariamente. Um deles é José Manuel, 66 anos.

“É um instituto maravilhoso, as pessoas são muito boas. O dia-a-dia é bom, passa-se bem. Jogo um bocadinho ao dominó e fazemos ginástica”, elogia. “Aqui tenho almoço, lavandaria e tomar banho. A minha companhia são as pessoas”.

A carrinha de apoio domiciliário também se move pela vontade de fazer companhia a quem já não consegue sair de casa ou da cama. Muitos desses doentes passam pelas mãos de Filomena, uma das assistentes que anda de casa em casa a fazer de tudo um pouco, desde higiene à ajuda com a medicação.


Carla Carvalho, diretora do Centro Social Nossa Senhora da Paz, acredita que o ambiente no bairro melhorou, por haver respostas à população. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Carla Carvalho, diretora do Centro Social Nossa Senhora da Paz, acredita que o ambiente no bairro melhorou, por haver respostas à população. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

Trabalha aqui há 13 anos, num dia-a-dia sempre “agitado”, em muitas casas com “carências”, seja com problemas familiares, seja com dificuldades financeiras, que não permitem comprar os produtos necessários para tratar dos doentes. “Às vezes, ficamos um bocadinho frustradas por não podermos fazer mais para minimizar o sofrimento dessas pessoas”, confessa.

Apesar da falta de “resposta estruturais” – pelo governo, pelas autarquias, pelos responsáveis políticos – para o país “envelhecido”, nada faria Filomena mudar de trabalho.

“Tinha 40 e poucos anos e estava em fase terminal. Ele, assim que me viu, disse: ‘Filomena, vais dançar para mim?’. Dancei, saltei para cima da cama e ele ria, ria, ria. A mãe, no fim disto tudo, pergunta-me: ‘Você acha que o meu filho se vai levantar mais algum dia daquela cama?’ E eu disse que a esperança é a última a morrer. E ele morreu a seguir”, recorda.

Dar um projeto de vida a crianças retiradas

A poucos metros do centro, ainda no bairro, funciona a Casa de Acolhimento Residencial de Nossa Senhora do Amparo. É aqui que vivem 13 crianças, retiradas às suas famílias por ordem do tribunal por negligência ou maus-tratos físicos, psicológicos ou sexuais.

“Aqui tentamos proporcionar-lhes uma vida o mais parecida possível com a de qualquer criança da idade deles. Quando o projeto de vida está decidido e pronto para ser executado, eles saem, o que neste caso pode ser ou adoção ou um retorno às suas famílias de origem”, explica a assistente social Conceição Ferreira.


Na Casa de Acolhimento Residencial de Nossa Senhora do Amparo, vivem 13 crianças retiradas aos pais, por maus-tratos ou negligência. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Na Casa de Acolhimento Residencial de Nossa Senhora do Amparo, vivem 13 crianças retiradas aos pais, por maus-tratos ou negligência. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

Tudo aqui foi pensado ao pormenor para maximizar a felicidade e o bem-estar das crianças. A Cáritas comprou dois apartamentos, juntou-os e fez meia dúzia de quartos, aos quais se juntam ainda uma cozinha totalmente equipada, várias casas de banho e uma marquise que funciona como zona de estudo.

O rebuliço é muito, principalmente na hora de sair e de regressar a casa. “Os nossos vizinhos são extraordinários. Há alturas do dia que morar perto de uma casa destas é difícil mesmo”, admite, entre risos.

Estas crianças (algumas delas chegam aqui nascidos apenas há dias) podem ser visitadas pelos pais, em conversas mediadas pela instituição e em salas longe da casa, no Centro Social de Nossa Senhora da Paz. A mais velha, de 11 anos, chegou aqui com os dois irmãos há cerca de quatro. Viu todos os outros chegarem depois dela.

“É muito divertido, fazemos atividades, é giro. Brinco com eles, é bom. Eles gostam muito de brincar comigo. Até a pequena que já ri”, diz à Renascença, com um sorriso nos lábios que sela a mensagem que o Bairro da Belavista parece querer deixar à Cáritas de Setúbal: “Muito obrigada, por este trabalho.”


Artigos Relacionados