Bisavô dos Pastorinhos poderá ser uma das crianças deixada na roda da Misericórdia

“Filhos de todos… filhos de quem? Os expostos da roda de Lisboa” é a exposição que o Museu de São Roque mostra até 29 de março e que conta a história das crianças que eram deixadas à guarda da Santa Casa da Misericórdia. O arquivo com mais de 90 mil documentos foi apresentado a uma candidatura à UNESCO.

07 dez, 2025 - 08:00 • Maria João Costa



Alguns dos documentos e objetos da exposição patente ao público na Galeria de Exposições Temporárias do Museu de São Roque, em Lisboa. Foto: DR
Alguns dos documentos e objetos da exposição patente ao público na Galeria de Exposições Temporárias do Museu de São Roque, em Lisboa. Foto: DR

“Brevemente teremos notícias, diz Francisco D’Orey, o diretor do Arquivo Histórico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que avança que estão a “investigar” o caso de um “bisavô dos Pastorinhos de Fátima” que poderá ser uma das crianças “expostas”, ou seja, que foi deixada na roda das Misericórdias.

“Não sei se em Lisboa, ou se em outra roda”, indica este responsável, que tem em curso o trabalho de levantamento. Esta notícia surge na sequência da exposição “Filhos de todos… filhos de quem? Os expostos da roda de Lisboa”, que abriu ao público na Galeria de Exposições Temporárias do Museu de São Roque, em Lisboa.

A mostra, que estará patente até 29 de março de 2026, traz à luz do dia cerca de 90 mil “sinais de expostos”, ou seja, objetos ou documentos que acompanhavam as crianças quando estas eram deixadas à guarda da Misericórdia.

“Estamos em advento. A vinda do menino de Jesus Salvador do mundo e esta exposição tem a ver com tudo isso”, diz à Renascença o responsável do arquivo. Segundo Francisco d’Orey, a exposição “evoca” a rainha fundadora da Misericórdia, D. Leonor, assim como “recorda as crianças expostas que as famílias com carências e dificuldades tinham que colocar na roda para que uma instituição pudesse criar”.

Em quatro núcleos, a exposição apresenta vários olhares, entre eles o caso das “amas que criaram esses bebés”, diz D’Orey. “É uma exposição muito ligada com o feminino”, indica o responsável em relação a esta mostra sobre “vidas que a Misericórdia salvou”.

Um dos núcleos da exposição espelha a candidatura apresentada à UNESCO para a classificação a Registo da Memória do Mundo deste acervo. Apresentada pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em articulação com outras instituições nacionais e internacionais, a candidatura já foi aprovada pela Comissão Nacional da UNESCO.

“São quase 90 mil sinais entre o final do século XVIII e início do século XX”, indica Francisco d’Orey, que acrescenta que têm sinais anteriores. A candidatura, que agora será apreciada a nível internacional, é vista como salvaguarda de um património de “relevância mundial” e poderá ajudar a “divulgá-lo a nível mundial”, destaca o responsável.

Um desenho de Leonardo da Vinci

A exposição é também oportunidade para apreciar arte. No percurso o visitante vai poder ver obras de Paula Rego, Almada Negreiros, Júlio Pomar ou Graça Morais.

Mas a joia da coroa é um desenho de Leonardo da Vinci. “Rapariga lavando os pés a uma criança” é uma obra que, pela sua natureza frágil, estará exposta até ao final de janeiro.

A exposição “Filhos de todos… filhos de quem? Os expostos da roda de Lisboa” vai estar aberta até ao final de março, de terça-feira a domingo, das 10h00 às 12h00 e das 13h30 às 18h00. A exposição estará encerrada a 1 de janeiro e durante as celebrações litúrgicas.