Esta instituição acolhe idosos sem casa. "Antes vivia num canil. Só saio daqui para o funeral"

No Centro Intergeracional Ferreira Borges, em Lisboa, 12 idosos vivem em quartos, onde têm roupa lavada e comida quente. Há inglês, ginástica e atividades no centro de dia para os manterem ativos. Por estes dias, a prioridade é o Natal. "É ótimo aqui, a pessoa não se sente sozinha".

09 dez, 2025 - 08:00 • Alexandre Abrantes Neves



Ouça aqui a reportagem da Renascença. Foto: SCML/D.R
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Ouça aqui a reportagem da Renascença. Foto: SCML/D.R

“Um, dois, três, quatro”. A contagem vai continuando até ao dez e, quando lá chega, começa mais uma vez. José Ereira vai acompanhando, mas distrai-se nos números de quando em vez, ora pela música, fiel companheira de há muitos anos, ora pelos exercícios que o obrigam a rodar as articulações e a levantar as mãos e os braços.

Gosto muito, estou entretido, sabe?”, confessa à Renascença. Tem 66 anos e é um dos muitos idosos que começa o dia com a atividade do “Despertar” no Centro Intergeracional Ferreira Borges, da responsabilidade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. “Aqui, procuramos saber como estão a correr as coisas. Fazemos uma estimulação cognitiva e também física, sempre com música”, explica a técnica Cristina, responsável por esta ginástica e aquecimento diário.

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Na sala, onde os idosos se sentam em cadeiras dispostas na forma de um “U” e vão contando os planos do fim de semana que passou, há tanto utentes com casa própria e que vêm aqui passar o dia, como outros que vivem no centro, por não terem capacidade de pagar uma renda ou a prestação de uma casa. José Ereira é um destes 12 com um quarto na instituição – e também um dos mais calados.

“Já fui mais aberto. Tenho mau feitio. Quando estou aborrecido, não quero falar com ninguém e é pior para mim. Já estive muito tempo na solidão e estar fechado é pior. Fechei-me muito, não sei porquê”, conta, já sentado no quarto partilhado onde vive há um par de anos e inaugurado em 2021.


Ao centro, entre a cama e o sofá, está a televisão onde vê o futebol, “mas já não é como dantes, quando havia equipamentos de flanela”. Logo ao lado, a mesa onde faz as refeições, a maioria fornecidas pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, mas também alguns lanches já depois do jantar, onde o “chá de gengibre ou menta”, acompanha a “torradinha”. A juntar a isto, ainda recebe roupa lavada: “Só lavo a loiça, também era o que faltava virem cá limpar e a loiça suja”. É, em tudo, diferente do anexo onde vivia antes de chegar aqui.

Aquilo já não era quarto, era mais um canil. Era um cantinho e, inclusive, estive à chuva – era balde para aqui, plástico para aqui”, relembra. “A doutora é que me tirou de lá. Eu dizia que era um grande palácio, mas ela chegou lá e disse: ‘Eu vou-lhe tirar a máscara’”.

As condições indignas onde vivia eram consequência de uma vida complicada desde a infância, em que as dificuldades se foram entrelaçando num círculo vicioso difícil de quebrar.

Primeiro, a chegada atribulada vindo de Angola, quando ficou em casa dos padrinhos e foi “muito maltratado”. Depois, a decisão de abandonar o futebol e a equipa Os Belenenses para se dedicar ao trabalho e à agricultura – o esforço físico foi tanto que acabou com “problemas nas ancas e a reformar-se aos 39 anos”. Além disto, os últimos anos foram passados também a lutar contra a obesidade e a dificuldade em manter uma dieta rigorosa. “Quando cá cheguei, vinha com mágoa”.


José Ereira, 66 anos, lembra o anexo onde viveu como um "canil". "Estive à chuva – era balde para aqui, plástico para aqui". Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
José Ereira, 66 anos, lembra o anexo onde viveu como um "canil". "Estive à chuva – era balde para aqui, plástico para aqui". Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

Hoje, a tristeza ainda existe, mas é menor – e, em grande parte, graças à vida que reconstruiu no Centro Intergeracional Ferreira Borges. “Daqui já não saio! Só quando a Santa Casa pagar o funeral”, diz, entre risos.

“O Natal aqui é ótimo. Ninguém se sente sozinho”

A conversa tem de acabar, até porque José tem sempre dias preenchidos, com mais atividades, que vão desde o inglês até ao tai chi (arte marcial chinesa, com movimentos suaves). Logo de manhã, o que nunca falha é ir até ao jardim, “ver a jogar às cartas” – um plano que também agrada a Manuel Antero, de 78 anos.

O melhor do mundo foi ter chegado e vindo para cá. Eu estava de rastos. Fui-me abaixo, pá. Morreu um familiar e fui-me abaixo. Fiquei cheio de problemas, com tensões altas e tudo isso”, recorda, assinalando também que os problemas de audição desde nascença não lhe facilitaram a vida.

Nos últimos anos, até chegar aqui, também viveu em quartos arrendados, muitos deles húmidos e onde passou frio. A alimentação e a medicação nunca eram a prioridade – Manuel perdia demasiado tempo a limpar o que tinha sido deixado sujo tanto por ele como pelos outros.

“Nos quartos, eu não faço mais nada. Preciso de limpar o chão, comprar produtos para limpar o chão, comprar produtos para lavar a roupa – e cheguei a estragar muita roupa. Eu não precisava de uma mulher para tratar”, recorda.


Tem uma mesa bonita e uma alimentação especial. A pessoa nunca se sente sozinha: sente-se mesmo o espírito do Natal

Agora no Centro Intergeracional é “muito bem tratado”, quase que “parece um hotel”. Todos os dias são bons, mas há uma altura especial.

É um Natal ótimo aqui. Tem uma mesa bonita e uma alimentação especial. A pessoa nunca se sente sozinha: sente-se mesmo o espírito do Natal. As pessoas trabalham aqui, a fazer os presépios, as árvores do Natal, fazem tudo. As pessoas dançam, cantam”, afirma, com um sorriso rasgado.

No caso de Manuel, a época natalícia vai ser passada aqui, à exceção dos dias 24, 25 e 26, onde vai para casa de familiares. Todos os utentes têm a possibilidade de escolher, entre ficar no centro ou passar fora a semana das festas ou parte dela – e os idosos que participam no centro de dia ou no refeitório solidário que aqui funcionam também podem aparecer para a consoada ou o almoço de Natal.

“Isso é uma das coisas que nós defendemos muito – a tomada de decisão livre, a escolha. Se a pessoa quiser estar sozinha, é uma escolha da pessoa. Nós proporcionamos os diferentes programas e as pessoas participam se entenderem. O respeito pela própria decisão é, acima de tudo, a dignidade daquela pessoa”, explica a diretora do Centro Intergeracional, Isabel Araújo.


Estas casas não são para velhos. "O idoso é para morrer abandonado no quarto"


Na época do Advento, esta instituição da SCML tem várias atividades, desde exposições de presépios até espetáculos com crianças e jovens de escolas nas redondezas. Por estes dias, as atenções estão todas voltadas para a festa de Natal, que vai contar com o contributo vindo dos utentes e das muitas atividades do centro.

“Convidamos parceiros, convidamos a família e são eles que dinamizam muito o espetáculo. Vamos ter uma peça de teatro, vamos ter o grupo coral a atuar. A nossa festa é aqui, depois tem um lanche ajantarado, um lanche especial, proporcionado pela Santa Casa da Misericórdia e também com algumas surpresas pelo caminho”, adianta a diretora.

Os preparativos são já muitos e não passam ao lado de José Ereira, que já está expectante para a ceia de Natal e para o serão, passado na sala de convívio “a ver televisão com botijas”. E, ao contrário de muitas vezes ao longo da vida, José vai ter um presente debaixo da árvore.

“Nunca tinha nada. Desde miúdo, nem um carrinho – via os outros com brinquedos e eu nada. Gostava de receber um fato de treino do Benfica!”.


O Centro Intergeracional Ferreira Borges abriu em 2021, em plena pandemia de Covid-19. Foto: CML/D.R
O Centro Intergeracional Ferreira Borges abriu em 2021, em plena pandemia de Covid-19. Foto: CML/D.R

Em quartos, mas autónomos

No Centro Intergeracional Ferreira Borges, o dia-a-dia é uma correria. De sol a sol, os psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e auxiliares trabalham com pouco tempo de descanso nas muitas atividades no centro de dia e no refeitório social, que carbura à força toda à hora do almoço, lanche e jantar. A ideia, explica a diretora Isabel Araújo, é ter as “portas abertas à comunidade”.

“As pessoas vêm para se inscrever numa atividade, e essa inscrição pode ser uma atividade pontual – por exemplo, alguém com interesse no tai chi ou pilates – ou então temos as pessoas que vêm cá diariamente, segunda a sexta-feira, e que se inscrevem nos vários serviços, de acordo com os seus interesses e necessidades.”

A maior parte do trabalho vem dos 12 idosos que aqui vivem e que, além da comida quente no prato, ainda exigem trabalho de limpeza e de lavandaria. Consoante o utente, os técnicos podem ainda ter de gerir a medicação e acompanhar de perto a saúde e as consultas no hospital ou no centro de saúde. Isabel Araújo assinala, no entanto, que essas são exceções – aqui, não funciona um lar, mas sim um equipamento que quer promover a autonomia dos residentes.

“As pessoas têm a sua vida autonomamente. Estão numa instituição, mas não estão institucionalizadas. Podem sair, passar férias, ir jantar fora, entrar à hora que quiserem, saírem à hora que quiserem, receber as suas visitas. A resposta é flexível, de acordo com os seus interesses. Devem ter uma vida normal”, assinala.


Portugal fica ali – é um retângulo. Há muitos velhos, muitos em hospitais. Como?

Por essa mesma razão, todos os 12 utentes que aqui vivem pagam uma comparticipação mensal, calculada a partir da pensão e das despesas fixas, como medicação. Nos meses em que o cinto aperta com gastos inesperados, o valor também é recalculado pelos serviços da SCML. “A pessoa precisa de comprar uns óculos. Se, efetivamente, a despesa vai acrescer à economia mensal, esses ajustes são feitos”, esclarece Isabel Araújo.

Mas antes de chegarem ao centro, há um longo caminho a percorrer pelos residentes. Seja em divisões sem janelas, marquises transformadas em quartos ou casas demasiado húmidas, o número de idosos a viver em quartos sem condições tem aumentado, diz a diretora do centro, que funciona na zona de Campo de Ourique, em Lisboa. “Quando a oferta é curta e a procura é muita, vale tudo”, lamenta.

Depende da experiência de cada utente, mas vários chegam aqui com “traumas”, seja pelo frio ou calor nos quartos onde viviam, conflitos com os colegas de casa ou a falta de higiene ou privacidade. O primeiro trabalho é, por isso, de ambientação às novas rotinas – e pode demorar, especialmente nos quartos partilhados.


Tem de haver um acordo. Quem vai tomar banho primeiro, até o próprio canal de televisão… Até nas nossas famílias nós negociamos essas coisas, portanto, quando as pessoas não se conhecem o desafio é maior, mas é possível”, vinca, com otimismo.

Este país é para velhos?

Manuel Antero não fantasia as dificuldades que sente na pele – sabe que sem a SCML seria “difícil” e que há muita gente que não teve a sorte de conseguir ajuda. Por isso, quando ouve a pergunta “Este país é para velhos?”, responde com lucidez.

“Você vê o mapa da Península Ibérica. Portugal fica ali – é um retângulo. Há muitos velhos, muitos em hospitais. Está mal. Como vai parar tudo ao hospital? Mas nas aldeias não vão. Vai lá e vê as velhotas, com as bengalas. Elas conseguem”, afirma.


Manuel Antero, 78 anos, nem quer imaginar a vida sem o apoio da Santa Casa. "O melhor do mundo foi ter vindo para aqui". Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Manuel Antero, 78 anos, nem quer imaginar a vida sem o apoio da Santa Casa. "O melhor do mundo foi ter vindo para aqui". Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

Para José Ereira, este problema agrava-se a cada dia que passa e a culpa é fácil de distribuir: é dos “políticos novos”, que são uma “desgraça”.

“Tudo puxa para seu lado. Dão uma coisa, a seguir já estão a tirar. Para já prometem, aumentam aqui. E depois, 15 dias, aquilo que eles prometeram já estão a tirar”, critica.

Ainda assim, tenta não ocupar o tempo livre a pensar nesse descontentamento. Quem o ajuda a distrair-se é o rádio, sempre pousado na mesa de cabeceira, ao pé do aquecedor “para não passar frio”. Então e o que é que costuma ouvir? “Gosto muito da Renascença. 6h30 da manhã não falha – ouvir a Bola Branca”.


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