Em quartos, mas autónomos
No Centro Intergeracional Ferreira Borges, o dia-a-dia é uma correria. De sol a sol, os psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e auxiliares trabalham com pouco tempo de descanso nas muitas atividades no centro de dia e no refeitório social, que carbura à força toda à hora do almoço, lanche e jantar. A ideia, explica a diretora Isabel Araújo, é ter as “portas abertas à comunidade”.
“As pessoas vêm para se inscrever numa atividade, e essa inscrição pode ser uma atividade pontual – por exemplo, alguém com interesse no tai chi ou pilates – ou então temos as pessoas que vêm cá diariamente, segunda a sexta-feira, e que se inscrevem nos vários serviços, de acordo com os seus interesses e necessidades.”
A maior parte do trabalho vem dos 12 idosos que aqui vivem e que, além da comida quente no prato, ainda exigem trabalho de limpeza e de lavandaria. Consoante o utente, os técnicos podem ainda ter de gerir a medicação e acompanhar de perto a saúde e as consultas no hospital ou no centro de saúde. Isabel Araújo assinala, no entanto, que essas são exceções – aqui, não funciona um lar, mas sim um equipamento que quer promover a autonomia dos residentes.
“As pessoas têm a sua vida autonomamente. Estão numa instituição, mas não estão institucionalizadas. Podem sair, passar férias, ir jantar fora, entrar à hora que quiserem, saírem à hora que quiserem, receber as suas visitas. A resposta é flexível, de acordo com os seus interesses. Devem ter uma vida normal”, assinala.
Portugal fica ali – é um retângulo. Há muitos velhos, muitos em hospitais. Como?
Por essa mesma razão, todos os 12 utentes que aqui vivem pagam uma comparticipação mensal, calculada a partir da pensão e das despesas fixas, como medicação. Nos meses em que o cinto aperta com gastos inesperados, o valor também é recalculado pelos serviços da SCML. “A pessoa precisa de comprar uns óculos. Se, efetivamente, a despesa vai acrescer à economia mensal, esses ajustes são feitos”, esclarece Isabel Araújo.
Mas antes de chegarem ao centro, há um longo caminho a percorrer pelos residentes. Seja em divisões sem janelas, marquises transformadas em quartos ou casas demasiado húmidas, o número de idosos a viver em quartos sem condições tem aumentado, diz a diretora do centro, que funciona na zona de Campo de Ourique, em Lisboa. “Quando a oferta é curta e a procura é muita, vale tudo”, lamenta.
Depende da experiência de cada utente, mas vários chegam aqui com “traumas”, seja pelo frio ou calor nos quartos onde viviam, conflitos com os colegas de casa ou a falta de higiene ou privacidade. O primeiro trabalho é, por isso, de ambientação às novas rotinas – e pode demorar, especialmente nos quartos partilhados.