"Totalmente vergonhoso". Bispo da Igreja Ortodoxa Russa critica guerra na Ucrânia

D. Petru Pruteanu é moldavo e está há 14 anos em Portugal. Relata o “cansaço no coração das pessoas” e descreve todas as guerras como “consequência da nossa natureza pecadora”. Falámos também com padres ucranianos do rito grego-católico. “Até quando?” É a pergunta que fazem, enquanto todos rezam pela paz.

26 mar, 2026 - 06:30 • João Maldonado



D. Petru Pruteanu, bispo da Igreja Ortodoxa Russa em Portugal, que responde ao Patriarca de Moscovo, deixa críticas à guerra na Ucrânia. Fala num "cansaço" que vê entre os fiéis que acompanha. Foto: João Maldonado/Renascença
D. Petru Pruteanu, bispo da Igreja Ortodoxa Russa em Portugal, que responde ao Patriarca de Moscovo, deixa críticas à guerra na Ucrânia. Fala num "cansaço" que vê entre os fiéis que acompanha. Foto: João Maldonado/Renascença

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“Entre os ucranianos e os russos é um conflito totalmente vergonhoso e sem nenhuma lógica”. Não podia ser mais contundente D. Petru Pruteanu, bispo ortodoxo da Igreja Russa em Portugal. Moldavo de nascimento, garante que nas orações em comunidade “sempre rezamos que vai resolver-se e as pessoas não sofrer”.

Há 14 anos em Portugal e mesmo falhando, naturalmente, alguns tempos verbais, ostenta um português completamente percetível e bastante desenvolvido. Faz mais de três anos subiu a bispo na hierarquia ortodoxa russa – ou seja, responde a nível religioso ao Patriarca de Moscovo, a entidade maior nesta igreja autocéfala separada há cerca de mil anos dos católicos.

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A entrevista que concede à Renascença, num dia de sol, é feita em Cascais num dos locais de culto que tem dentro da sua jurisdição – mesmo ao lado da baía e com a praia ali tão perto. O espaço é curto, mas, não havendo bancos, o religioso garante que cabem mais de 100 pessoas lá dentro.

Entre a Rússia e a Ucrânia já lá vão mais de quatro anos de guerra e para quem sempre a viveu em Portugal, à distância, a realidade não deixa de ser acompanhada por uma dureza extrema. “Vejo este cansaço nas caras e nos corações das pessoas porque não faz sentido tudo isto, não faz sentido”.

O “cansaço” é o traço comum que o bispo ortodoxo identifica nos crentes que tem acompanhado ao longo destes anos e a quem até já chegou a sugerir que deixassem de ver notícias para fugir à política. “Um cansaço e um desejo só para acabar. Já ninguém fala dos territórios, dos objetivos, pretensões a uma ou a outra, só para acabar e terminar com esta coisa”.


Junto à baía de Cascais encontramos uma das pequenas igrejas dos Ortodoxos Russos em Portugal. Foto: João Maldonado/Renascença
Junto à baía de Cascais encontramos uma das pequenas igrejas dos Ortodoxos Russos em Portugal. Foto: João Maldonado/Renascença

Munido de uma nacionalidade neutra, a moldava, D. Petru Pruteanu diz que tal cidadania transmite “confiança” e permite maior abertura a “conselhos”. “Porque sabem que eu sou fora deste conflito e nunca da parte de um ou de outro”, justifica, numa igreja, em particular, onde as orações são entoadas em russo, romeno, mas também em português (para os “convertidos” e para as “crianças que nasceram cá”).

Referindo-se a “qualquer guerra e conflito” como uma “consequência da nossa natureza pecadora”, o bispo sublinha que nas orações que dirige rezam “sempre pela paz” – já que, refere, “a Igreja deve ensinar as pessoas a orientar-se para o reino de Deus, que é a nossa pátria comum”.

Tendo fiéis de ambas as nacionalidades, por vezes surgem pedidos de oração por “soldados vivos ou mortos de uma e da outra parte”. Há familiares entre os crentes que vivem em Portugal e, por isso, rezam “por todos sem pôr etiquetas ou bandeiras”. D. Petru, que já reconhece as caligrafias russas e ucranianas dos papéis com nomes que lhe chegam às mãos, acredita que “se nós todos tivermos a paz no nosso coração, entre nós, assim numa escala muito pequenina, também vai acontecer a paz nas escalas maiores entre os países”.


O Padre Natanael Harasym, da Igreja Greco-Católica da Ucrânia em Portugal, explica que mantém amigos na inha da frente da guerra com quem mantém contacto. Pedem que continue a rezar por eles.Foto: João Maldonado/Renascença
O Padre Natanael Harasym, da Igreja Greco-Católica da Ucrânia em Portugal, explica que mantém amigos na inha da frente da guerra com quem mantém contacto. Pedem que continue a rezar por eles.Foto: João Maldonado/Renascença

De Cascais viajamos até ao Hospital Pulido Valente, em Lisboa, onde encontramos o padre Natanael Harasym, católico do rito greco-católico da Ucrânia, a celebrar missa. É por ali, pelo Hospital de Santa Maria, pelo Lumiar, pela Ameixoeira e também por Torres Vedras que se move em trabalhos para o Patriarcado de Lisboa.

“Um rito é uma expressão externa da nossa fé. A diferença é só entrar numa igreja oriental, ver o iconóstase, que separa o presbitério da nave dos fiéis, toda a liturgia. Um rito próprio, como o dos nossos irmãos ortodoxos, um rito bizantino – partilhamos o mesmo rito, mas somos católicos. É praticamente igual, a diferença é que nós rezamos pelo Papa”, resume o sacerdote ucraniano, em Portugal desde 2001, sobre o rito oriental também ele parte da Igreja Católica (um dos “pulmões”, como descreve).

Tendo estudado no Brasil, já falava português e cá chegou por um acordo entre o patriarca da altura, D. José Policarpo, e um cardeal ucraniano – D. Ljubomir Huzar. “Os teus ucranianos estão aqui nas minhas terras, vão à missa portuguesa e não percebem nada, os meus padres não os percebem, portanto manda algum padre para dar algum acompanhamento”, descreve acerca do que terá dito o cardeal português na altura.

A guerra no país onde mantém família e amigos é vivida pela comunidade, avança, “com um coração apertado e dorido”. Garante que todos os dias, desde 24 de fevereiro 2022, mantém nas suas orações a questão “até quando Senhor?”.

“Até quando?”, questiona repetidamente, mantendo a fé que “o nosso auxílio vem do Senhor que fez o Céu e a Terra”. Com um irmão a viver em Portugal, para onde também já trouxe a mãe, mantém outro irmão em terras ucranianas. “Muitos dos meus amigos estão na frente de batalha a lutar, a defender, inclusive os meus colegas de escola”. E, sim, assegura que consegue falar com estes amigos bem lá na linha dianteira da guerra. “Falo e rezo por eles. Eles pedem oração. Nós estamos bem, não deixe de rezar por nós, isso tem de garantir”, relata destas conversas.

No final de todas as missas que celebra, o padre Natanael Harasym explica que tem a tradição de rezar uma avé-Maria “pela paz”. Não só na Ucrânia, mas também no Médio Oriente “e no mundo inteiro”. Promete que não deixará de o fazer.


O Padre Matey Dziurban, também da Igreja Greco-Católica da Ucrânia em Portugal, é um dos monges responsáveis pela Igreja de Nossa Senhora da Nazaré. Foto: João Maldonado/Renascença
O Padre Matey Dziurban, também da Igreja Greco-Católica da Ucrânia em Portugal, é um dos monges responsáveis pela Igreja de Nossa Senhora da Nazaré. Foto: João Maldonado/Renascença

Pelo mesmo, “a paz no mundo inteiro”, reza também o padre Matey Dziurban em todas as divinas liturgias (nome dado à eucaristia no rito oriental). Ucraniano, há nove anos em Portugal, agradece a hospitalidade ao povo português “pela forma calorosa como nos recebeu e pelo apoio constante que nos tem dado”.

É na Igreja de Nossa Senhora da Nazaré, junto à Alameda D. Afonso Henriques, que encontramos esta comunidade da Ordem de São Basílio Magno. São quatro monges que vivem no Mosteiro de São José, em Santa Iria de Azóia, e que têm responsabilidades divididas, para dar apoio a grupos de ucranianos, entre Lisboa, Cascais, Sintra, Alenquer e Óbidos. Na comunidade que visitamos há catequese, coros paroquiais, grupo de escuteiros, acampamentos e retiros.

Lembrando as vidas ceifadas pela guerra no país de onde é natural, não tem dúvidas ao definir a Rússia como “agressor”, que “tenta destruir a população ucraniana e o próprio Estado”. O padre Matey Dziurban, também pertencente ao rito greco-católico ucraniano, em comunhão com o Papa, sublinha, recorrendo a um papel que preparou para o efeito, que, nestas alturas, “a nossa fé em Deus também é posta à prova”, havendo quem a perde, mas também quem a reencontra.

Pela oração, homilias e reflexão sobre os textos bíblicos, “para muitas pessoas que vivem em Portugal a Igreja tornou-se um lar, onde o ser humano reencontra a paz através da sua conversa com Deus”, explica, carregado pela experiência desde 2017 no nosso país.

“Sinto esta guerra como uma ferida que sangra constantemente, que dói e contra a qual parece impossível fazer algo. É uma ferida que cada ucraniano carrega na sua vida.”


Igreja de Nossa Senhora da Nazaré em Lisboa, onde se juntam fiéis ucranianos do rito greco-católico. Foto: João Maldonado/Renascença
Igreja de Nossa Senhora da Nazaré em Lisboa, onde se juntam fiéis ucranianos do rito greco-católico. Foto: João Maldonado/Renascença

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