“As aparências iludem”, ri-se ao comentar a própria idade, antes de entrarmos em conversa mais séria. Depois de uma vida entre Moçambique e África do Sul, é em Leiria que está agora colocado, admitindo as dificuldades que os padres têm, às vezes, de “ir ao encontro” – já que “nem sempre as pessoas recorrem”. Em situações como a desta zona entre janeiro e fevereiro, admite, pode acontecer que até os padres fiquem “sem fala”, mas, sendo “o pior mal perder a confiança na vida”, o trabalho passa por ajudar toda as pessoas a contrariar esse rumo.
Como fazê-lo? A pergunta, a meio desta entrevista, surge como obrigatória. A resposta, erguida de improviso pelo frade de 89 anos que meia hora antes ainda não tinha sido informado desta conversa, merece ser lida na íntegra. Por isso, pela densidade e simplicidade simultânea que ostenta, aqui segue.
“Vivemos num tempo em que dificilmente podemos prever o dia de amanhã e, por isso, as pessoas precisam estar preparadas. Acho que na maioria dos casos as pessoas não estão preparadas para isso.
Habituámo-nos a viver sem dificuldades. A termos tudo aquilo que precisamos e que queremos e a não pensar muito no futuro, porque está garantido. Quando acontece, por exemplo, um caso destes, as pessoas muitas vezes vêem-se com o futuro estragado. Há o perigo de realmente quebrar e, portanto, é preciso manter a esperança.
É preciso ver que realmente a garantia do futuro não está tanto nos bens materiais que de um momento para o outro acabam. Está num futuro que não se vê com os olhos e que realmente deve despertar em nós também, porque realmente nós prendemo-nos demasiado àquilo que agarramos, àquilo que passa e vivemos muitas vezes um dia inteiro a preparar o bem-estar.
Talvez se as pessoas se dessem conta podiam aproveitar este tempo para uma reflexão séria e para preparar um autêntico futuro. E não se deixarem prender tanto com aquilo que realmente de um momento para o outro desaparece”, diz frei Gilberto Teixeira de uma assentada.
Os franciscanos de Leiria irão participar na Via Sacra da cidade, que começa precisamente no Convento na sexta-feira, celebrando como todos os anos este tempo de Páscoa.