Saíram de casa e mudaram-se para um apartamento em Chelas para fazer missão

Cinco jovens entre os 19 e os 27 anos instalaram-se durante quase dois meses num bairro social, na zona oriental de Lisboa, para dar explicações, visitar lares e apoiar pessoas em situação de sem-abrigo, entre outras atividades de apoio à comunidade. A Missão Agora – assim se chama o projeto – nasceu pouco depois da Jornada Mundial da Juventude de Lisboa e pretende repetir-se todos os anos.

22 mai, 2026 - 06:00 • Ana Catarina André



Missão Agora - Reportagem Ana Catarina André
Missão Agora - Reportagem Ana Catarina André

À medida que cada um dos beneficiários de uma das lojas sociais do bairro de Chelas, em Lisboa, vai escolhendo os bens alimentares para levar para casa, Hugo Falcão Ramos disponibiliza-se para ajudar. Arruma os produtos em sacos e sempre que possível aproveita para conversar com quem por ali passam.

Às vezes, as pessoas querem falar da sua vida, das suas dificuldades”, conta o jovem engenheiro de 27 anos, que dá uma mão, também, na reposição de stocks desta Loja Spot do Centro Social Paroquial São Maximiliano Kolbe, que apoia famílias carenciadas.

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A pouco mais de um quilómetro deste local, na Casa dos Direitos Sociais, no bairro da Flamenga, Pedro Muteka e Manuel Frazão dedicam algumas horas a ajudar um grupo de alunos, entre o 1.º e o 9.º ano de escolaridade, a fazer os trabalhos de casa. Leem com os estudantes, fazem exercícios e explicam-lhes matérias e conteúdos em que tenham dificuldades.

O projeto de apoio ao estudo é gerido pela Batic Amigo, uma associação que promove diversas ações educativas, bem como a prática desportiva nesta zona da capital. “Marvila é uma das freguesias da cidade com um índice de sucesso escolar muito baixo e é uma realidade que queremos combater”, explica à Renascença Etivaldo Camala, coordenador de projetos desta organização.

Ao fim de uma hora, os trabalhos escolares estão quase concluídos. Antes de regressarem a casa, Pedro e Manuel aproveitam ainda alguns minutos, do final da tarde, para jogar à bola e brincar com as crianças. “O objetivo da minha presença aqui é dar atenção e estar com as pessoas, mais do que fazer algo em específico”, explica Manuel de 19 anos.

Nunca tinha morado num bairro social. Quando aqui entrei aqui tinha algum estigma

No início de abril, este universitário mudou-se, juntamente com Pedro Muteka, Hugo Falcão Ramos, Miguel Parede e Elisangela Batalha, para Chelas, na zona oriental da capital, para participar na Missão Agora, um projeto do Patriarcado de Lisboa que ganhou corpo, este ano, pela primeira vez. Desde então – e até ao próximo domingo, Dia de Pentecostes – os jovens, com idades entre os 19 e os 27 anos, têm vivido em comunidade. Rezam juntos, dividem as tarefas domésticas e dedicam parte do dia às atividades da paróquia e às instituições sociais da zona. Pelo meio, continuam a ir à faculdade ou a trabalhar, consoante a situação de cada um.

No caso de Hugo Falcão Ramos, o mais velho do grupo, a Missão Agora surgiu numa fase de transição de vida. “Vou entrar no mercado de trabalho agora. Além disso, tenho estado também num processo de conversão pessoal. Vi a divulgação desta missão nas redes sociais e senti que era um chamamento”, recorda o jovem engenheiro.

Já para Miguel Paredes, de 23 anos, recentemente licenciado em História, o desejo de participar chegou mais tarde. “Sou amigo do Hugo e foi ele quem me convidou para vir. Desafiou-me a vir às formações e fui gostando”, conta o jovem que é também árbitro de futebol.


Hugo Falcão Ramos ajuda numa das Lojas Sociais do bairro. Foto: Ana Catarina André/Renascença
Hugo Falcão Ramos ajuda numa das Lojas Sociais do bairro. Foto: Ana Catarina André/Renascença

Por ter crescido num meio social privilegiado, como o próprio descreve, a mudança para Chelas tem sido uma surpresa. “Nunca tinha morado num bairro social. Quando aqui entrei aqui tinha algum estigma, até porque quando falei com a minha família e disse para onde vinha, deixaram-me desconfortável”, assume, mencionado a associação entre esta zona da cidade e a criminalidade.

“Nos primeiros dias, confesso que sentia algum receio a ir para o Metro. Acho que é natural, mas com o tempo fui conhecendo a comunidade, as pessoas, as diversas realidades, associações, e percebi que Chelas já não é o que era.”

“No meu bairro há poucos católicos”

O projeto criado na sequência da Jornada Mundial da juventude (JMJ) Lisboa 2023 conta, também, com o acompanhamento próximo do padre Carlos Pinto, coordenador da Missão Agora. Mas não só: a equipa organizadora inclui também um casal e diversos leigos.

Depois daquele grande movimento de jovens, na JMJ, ficou a pergunta sobre o que se seguiria depois”, recorda Maria Meneses, contando que o patriarca de Lisboa, D. Rui Valério, convidou os jovens a criarem grupos de missão. Nascia, assim, a Missão Agora, inicialmente concebida para ter a duração de um ano e, mais tarde, desenhada para um período mais curto de cerca de dois meses. “Resulta de um discernimento das pastorais juvenil, das vocações e universitária e pretende continuar o espírito das jornadas”, diz Maria Meneses, membro da organização, acrescentando que a Missão Agora assenta em quatro pilares (oração, comunidade, missão e formação).

A vertente espiritual é uma das dimensões mais presentes no quotidiano dos missionários. Além da missa, rezam juntos diariamente. “Temos uma capela em casa”, conta Elisangela Batalha, a única rapariga do grupo. “É uma grande alegria sair do trabalho e ter vontade de chegar a casa, porque está lá o Santíssimo”, sublinha a cabo-verdiana de 22 anos, que trabalha como auxiliar num centro social.

É a primeira vez que vive com pessoas que não são da sua família. “É um desafio. Estava muito acostumada a ter o meu canto”, admite Elisa, nome pelo qual é habitualmente chamada. “Inicialmente o frei Tibério [pároco de Vale de Chelas e de Santa Beatriz da Silva] convidou-me para acolher os jovens, porque vivo aqui em Chelas, mas depois percebi que queria estar na missão”, recorda. E diz: “Sinto que Jesus me chamou para dar mais vida à minha comunidade. No meu bairro, há poucos católicos e é muito importante evangelizar e dar o nosso testemunho.”

Tal como Elisa, e ao contrário de Miguel, de Hugo e de Manuel, também Pedro Muteka, está a fazer missão à porta de casa – é ali, em Chelas, que dá catequese e é ali que o pai vive. “A alegria com que as pessoas nos recebem é marcante”, diz o jovem de 21 anos que, desde que foi para a universidade, se mudou para a margem sul do Tejo. “Nesta missão, tem sido, também, uma graça ouvir pessoas que não tem uma ‘vida agradável’, mas têm esperança em mudar, e outras que já estão mais avançadas na fé e nos incentivam e nos transmitem aquilo que buscamos: este amor, esta fé em Cristo”, conta o estudante de engenharia informática.


Manuel Frazão e Pedro Muteka à porta da Casa dos Direitos Sociais. Foto: Ana Catarina André/Renascença
Manuel Frazão e Pedro Muteka à porta da Casa dos Direitos Sociais. Foto: Ana Catarina André/Renascença

“Nunca vi a igreja com tanta gente”

Ao fim de semana, o contacto dos cinco missionários com a paróquia intensifica-se ainda mais. As manhãs de sábado são dedicadas às obras das Missionárias da Caridade, a congregação religiosa fundada por Santa Teresa de Calcutá, que em Portugal tem três comunidades. Em Chelas, as irmãs têm um lar de idosos. “Costumamos chegar às 7h30 da manhã: fazemos as camas, desinfetamos os colchões, varremos e lavamos o chão”, conta Hugo, destacando o trabalho das religiosas “no apoio aos mais pobres dos pobres”.

No bairro, os missionários são já conhecidos por uma parte da população. Aqui e ali ouvem-se cumprimentos, trocas de impressões. Aos domingos, o convívio prolonga-se. À porta das Missionárias da Caridade, os jovens da Missão Agora ajudam a reunir as crianças para a missa. Algumas chegam ali pela mão das irmãs de sari branco e azul que, com o apoio de Pedro, Elisa, Hugo, Manuel e Miguel, as foram buscar a casa.

“Algumas destas famílias não têm prática religiosa”, explica um dos missionários que, assim que reconhece um menino a entrar num prédio, se apressa a convidá-lo para se juntar ao grupo. “Vem connosco! Vamos à missa. Esperamos por ti”, assegura, enquanto as restantes crianças vão fazendo alguns jogos tradicionais e entoando lengalengas.

O caminho até à Igreja de São Maximiliano Kolbe leva pouco mais de cinco minutos e é preenchido pelas conversas e brincadeiras dos mais novos que sabem que normalmente, depois da celebração, há catequese.

“Nunca vi a igreja com tanta gente”, constata Miguel, assim que entra. “Quando vimos aqui à missa, durante a semana, estão sempre poucas pessoas”, diz o universitário que vai conversando com alguns paroquianos e agendando os próximos momentos em que vão estar juntos. É para isso, afinal, que se mudou, durante quase dois meses para Chelas: para que, com Hugo, Elisa, Pedro e Manuel, possa “estar com as pessoas”, levando e encontrando Jesus.


Pedro Muteka dá explicações aos jovens de Chelas. Foto: Ana Catarina André/Renascença
Pedro Muteka dá explicações aos jovens de Chelas. Foto: Ana Catarina André/Renascença