"Nós temos de ser cabeça, não temos de ser cabeça, mãos e pés"
Ricardo Sousa Franco, de 50 anos, completa em setembro próximo 25 de sacerdócio. Natural de Mafra, sempre foi padre na zona Oeste de Lisboa: primeiro em Torres Vedras, depois nas Caldas da Rainha. Tem atualmente a cargo seis paróquias do concelho da Lourinhã, com apoio de dois vigários. "Devo ser quem tem mais paróquias no Patriarcado de Lisboa", diz à Renascença, enquanto nos encaminha pelos claustros do convento de Santo António, no centro da vila.
Conta que por estas paróquias passam os padres recém-ordenados, numa espécie de "estágio". Ali acumula as funções de presidente do jornal regional Alvorada — que pertence à paróquia — e do Centro Social Paroquial da Lourinhã, que em breve vai ser extinto para se juntar à Misericórdia local. É também responsável pelo Centro Social Paroquial de Reguengo Grande, que tem uma direção "toda composta por leigos".
Na pandemia tentou fazer uma pós-graduação, mas acabou por não entregar a tese. "Este é o meu foco, procuro ser pastor. É aqui que tenho de estar e estou feliz", garante.
"Precisávamos de parar, olhar para o terreno, ver como é que podemos, com as mesmas pessoas, fazer mais, sem exigir mais das pessoas. É um desafio que a Igreja terá de assumir."
Padre Ricardo Sousa Franco
Nunca se sentiu num limite de cansaço, embora quase nunca goze a folga semanal. "A segunda é o dia de descanso de nós os três, e dou-lhes precedência." Tenta equilibrar durante a semana, numa região em que a natureza — campo e praia — está sempre no horizonte e ajuda a tranquilizar o espírito. "Sou nascido e criado aqui. Gosto do campo, de ver mar, isso ajuda-me. Quando às vezes tenho de ir a Lisboa, venho cansadíssimo. Quem aguenta estar ali um dia inteiro?".
Com a idade foi criando estratégias de prevenção: tem de ter espaço para a oração pessoal, só faz atendimentos com marcação na agenda, e já não abdica das férias, que não tirou durante 10 anos seguidos. “Cheguei a vir de propósito fazer um funeral. Estava a 400 quilómetros e vim! Não sei se hoje não faria a mesma coisa, mas já não tenho a mesma resistência física. E se antes pensava 'nada acontece sem mim', hoje já não tenho essa ilusão. Não abdico de descansar".
Não esconde que a administração das paróquias lhe causa grande desgaste. "Eu abomino papéis, e tenho de lidar com eles todos os dias. Mas abomino!" Por essa razão, e porque "o número de padres não estica", diz que é urgente dividir trabalho e capacitar os leigos para assumirem responsabilidades.
"Nós temos de ser cabeça, mas não temos de ser cabeça, mãos e pés, ser tudo! Temos de ter capacidade de delegar e procurar, dentro da comunidade, a quem podemos confiar tarefas. Aqui ainda estamos longe de chegar aí. Tenho pessoas muito generosas, mas também são muito ocupadas", refere.
Num "ano bom", em que Lisboa vai ordenar nove novos padres, defende que se deve reorganizar a pastoral territorial e a distribuição de sacerdotes. "Eu pergunto: estes padres novos, não seriam — vou usar uma palavra feia, mas compreensível — mais 'rentáveis' num outro esquema pastoral? Precisávamos de parar, olhar para o terreno, ver como é que podemos, com as mesmas pessoas, fazer mais, sem exigir mais das pessoas. É um desafio que a Igreja terá de assumir".
"De manhã estamos num funeral, à tarde a dar aulas, ao final do dia num casamento”
João Basto tem de 29 anos. É sacerdote em Viana do Castelo, na paróquia de Senhor do Socorro. Formador no Seminário Menor, é igualmente responsável pelo Secretariado Diocesano da Comunicação Social e diretor do jornal Notícias de Viana. Garante que a questão do burnout interessa, e muito, aos jovens padres. "É dos temas que está mais na ordem do dia, nas conversas do clero. Até nas publicações que muitos fazem nas redes sociais, sempre que se sabe que alguém está com um problema ao nível da saúde mental".
Entre os fatores de risco identifica, desde logo, a dificuldade dos padres em separar a vida pessoal da vida "profissional". "Não temos essa fronteira bem definida, porque a nossa vocação é uma vocação de 24 horas". Na sua opinião falta preparação mais realista para a vida ativa.
"Nós não podemos ter relações preferenciais, mas temos de ter relações significativas, que implicam proximidade efetiva."
Padre João Basto
"Quando temos 23, 24 ou 25 anos e somos ordenados, somos rapazes cheios de sonhos, tendencialmente de bom coração. Muitos de nós deixámos outros caminhos, até outra vida universitária, para seguir para o seminário e nos dedicarmos a um 'full-time job'. Isso implica muitas vezes um corte de relações. Quando somos enviados para realidades onde nunca estivemos, e claramente mais isolados, é um choque muito grande", reconhece.
Em muitos casos a carga de responsabilidades é excessiva, logo de início. "Assumir muitas paróquias e instituições sociais obriga a ter um papel de patrão, com o que isso implica: chegar ao final do mês e pagar salários, ou chegar ao final do ano e ter de despedir pessoas. E responder a inspeções sucessivas, às vezes kafkianas, da Segurança Social. As pessoas não foram formadas para isso", alerta.
Para a ansiedade contribui também a multiplicidade de tarefas que têm de desempenhar. "De manhã podemos estar a fazer um funeral, à tarde a dar aulas, ao final do dia celebrar uma missa, ou ir a uma festa, fazer um casamento ou batizar, tudo no mesmo dia! Isso exige energia e equilíbrio emocional".
Admite que serem celibatários acaba por levantar barreiras sociais a relações de simples amizade, tão necessárias para uma vida equilibrada. "Nós não podemos ter relações preferenciais, mas temos de ter relações significativas, que implicam proximidade efetiva". O que nem sempre é bem visto.
Padre há apenas seis anos, já percebeu que é fácil entrar em exaustão, e que isso "não se resolve simplesmente com a oração".
"É uma parte muito importante do nosso equilíbrio, mas há coisas que não se resolvem só a rezar mais." E nem sempre há sensibilidade para os padres pedirem ajuda psicológica, porque a saúde mental nos padres "ainda é um estigma e um tabu".
"É uma questão ligada à masculinidade — o homem não pede ajuda por si próprio, e o padre também é afetado por essa circunstância. E ainda se pensa que aquele que pede ajuda é fraco, e até se questiona se está a ser fiel ao ministério", argumenta João Basto.
Ainda assim, diz que nos seminários já alguma coisa mudou. "Não conheço nenhum seminário que não tenha disponível esse acompanhamento, e sessões comunitárias e de grupo com psicólogos, de maneira obrigatória". No caso de Viana, "temos dois formadores e sete seminaristas, há um acompanhamento muito pessoal e próximo", e é garantido apoio psicológico a quem precisa.