Estas casas não são para velhos. "O idoso é para morrer abandonado no quarto"

Há cada vez mais idosos a viverem em quartos arrendados. Para uns, é uma realidade desde sempre, noutros a vida virou-se do avesso com a inflação. O dinheiro falta para quase tudo - e, em certos meses, até têm de escolher entre a renda da casa, o supermercado ou a farmácia. Eis o retrato de um país que só dá sinais de continuar a envelhecer.

18 nov, 2025 - 08:00 • Alexandre Abrantes Neves , Diogo Casinha (sonorização) , Diogo Camilo (gráficos) , Salomé Esteves (gráficos)



Ouça aqui a reportagem da Renascença. Foto: Alexandre Abrantes Neves/Rodrigo Machado/RR
OuvirPausa

Ouça aqui a reportagem da Renascença. Foto: Alexandre Abrantes Neves/Rodrigo Machado/RR

As receitas do médico por aviar, o maço de tabaco, o batom – “que sou vaidosa com o brilho nos lábios” –, uma esferográfica, um porta-moedas com “dez cêntimos e aqui mais um cêntimo”. A mala escura de Conceição anda sempre cheia – afinal, é a ela que cabe a missão de carregar quase todos os pertences que restam, de um lado para o outro. Sempre a tiracolo, o objeto mais importante é o último a revelar-se.

“Esta é a chave do meu quarto, esta é a chave principal de casa. E esta é onde tenho os meus segredos guardados, fechados à chave e enrolados com fita colante”. Conceição Faria, 76 anos, vive há três num quarto arrendado em Benfica, Lisboa. O espaço pode ser pouco, mas é tudo aquilo que conseguiu construir nos últimos tempos.

Já segue a Informação da Renascença no WhatsApp? É só clicar aqui

“Tenho o armário de roupa na parede, tenho uma cadeira feita de mesinha de cabeceira, tenho uma mesinha de cabeceira e tenho uma mesa que tem a televisão. Nada mais. Para mim sozinha, chega”.

Conceição é uma dos milhares de idosos que vivem em quartos arrendados em Portugal. Os dados são poucos e dispersos, mas os que existem são suficientes para impressionar: segundo a Deco, o fenómeno não para de aumentar e os idosos já representam 15% das famílias sobreendividadas para pagar a renda de um quarto. Entre estes, contam-se casos que sempre viveram em situações de vulnerabilidade social, mas também outros a quem a casa foi arrancada pela força da inflação surpresa, vinda com a guerra na Ucrânia, e pela subida galopante das rendas e das prestações bancárias.


A imagem de perder a habitação e a privacidade depois de uma vida de trabalho pode impactar, mas não surpreende se juntarmos as peças do puzzle e espreitarmos com atenção entre os números que ouvimos diariamente.

Em Lisboa, os habitantes “gastam, em média, 116% do salário na renda ou prestação de casa”. No ano passado, as “rendas e o valor das casas em Portugal subiram 10%”. As autoridades alertam para “graves irregularidades” nos apoios à renda. A isto, juntam-se os problemas com a terceira idade. Um em cada cinco idosos está em “risco de pobreza”. Os “despejos com inquilinos mais velhos” estão a aumentar. As “desigualdades estruturais” não estão a diminuir entre os mais velhos.

Quem sente o problema na pele diz que a falta de habitações para idosos reflete este “cocktail explosivo” provocado, por um lado, pela vida cada vez mais cara e, por outro, pela falta de atenção e ajuda do Estado à terceira idade. Numa tarde de chuva em novembro, a Renascença conversou com quatro destas mulheres que, em plena reforma, ainda sonham com arranjar uma casa.

Conceição, das ilhas para o mundo à procura de casa

Para compreender as razões que levaram Conceição a viver num quarto, é preciso recuar até ao início, à infância passada no Funchal. Nasceu e cresceu numa casa com oito irmãos e, em dias de festa, chegavam a ser perto de 30 à mesa. Fome nunca houve, garante, mas também estavam longe de ter uma vida folgada.

Tinha boca para pedir. Andei a pedir. Ia às lojas pedir sapatos para mim e para a minha mãe. E davam-me. O senhor de uma sapataria, quando me via passar, chamava-me. Mas ia sempre com os pés limpos. Cheguei a fazer uns sapatos de cartão”, conta à Renascença, enquanto as memórias a transportam de novo para o “cheiro e para as músicas" da sua terra.


Por lá, trabalhou em todos os ofícios e mais alguns, desde o artesanato até aos cabeleireiros. Foi por causa deste último que veio enganada para Lisboa, a bordo do navio Santa Maria: achava que tinha à sua espera um emprego num grande salão, onde iria ganhar melhor e conseguir ajudar os pais, mas nada era verdade.

“Eu vim sequestrada por duas mulheres, uma açoriana e outra madeirense, com o cartão de identidade falso, de uma irmã dela, porque eu era menor. [Queriam trazer-me] para a prostituição. E meteram-me num bar de velhas – de velhas!”

Daí, só saiu ao final de dois anos, em 1969, primeiro com a ajuda da filha de uma das proxenetas, depois com o apoio de um polícia. Ficar em Lisboa não era uma opção em cima da mesa (“era tudo tão sujo”) e a única solução à mão passava por ir para as colónias. O destino foi o que calhou – Moçambique, onde trabalhou como dançarina em bares e casinos. Até 1975.

Belos tempos, não voltam mais. Foi um país que eu adorei, disse: ‘vou ficar por aqui’. E, na volta, quando se dá a independência, vêm os dois criados, Samuel e Joaquim: ‘Senhora, partir do continente que a Frelimo vem matar a senhora'”.


"Pago 317 de renda, recebo de reforma 392 euros. Às vezes, não compro os medicamentos."

Conceição embarcou rumo a Lisboa na chamada Ponte Aérea, a maior operação de repatriamento da aviação mundial. Mas voltou a teimar que o destino final não tinha de ser a pátria e, por isso, viveu entre a Bélgica e Espanha durante mais de 20 anos.

O regresso definitivo só chegou em 1997, não por vontade própria, mas embalado por um negócio falhado na Andaluzia. Depois de mais de 20 horas de autocarro, e com pouco mais do que uma mala, Conceição chegou a Lisboa e, em menos de 24 horas, arranjou trabalho num hotel no centro da cidade. Desde aí, foi trabalhar sem parar, sempre a acumular empregos, entre a hotelaria e as limpezas.

“Trabalhava das seis às nove [nas limpezas]. No hotel, entrava às dez e saía às cinco. Depois entrava às seis da noite e saía às nove da noite. Ia para casa, tomava banho, comia. E, depois, entrava à meia-noite" no metro, relata.

Tempo para ficar cansada, nem pensar. Em parte, porque “gostava daquilo que fazia”, mas também porque havia objetivos maiores, como arranjar uma casa. Foi a custo, mas conseguiu – e mudou-se para um T0 no bairro social das Galinheiras.


Conceição Faria ainda tem esperança de conseguir uma casa. "Nem que seja para viver três dias". Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Conceição Faria ainda tem esperança de conseguir uma casa. "Nem que seja para viver três dias". Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

A casa foi encontrada por uma colega do trabalho e viveu ali durante mais de 20 anos, num local estratégico, perto de transportes diretos para os locais onde trabalhava. O ordenado chegava para a renda, mas para pouco mais e as obras foram sempre passando para segundo plano. Em 2022, as infiltrações estavam cada vez mais acentuadas e até já chovia dentro de casa. A decisão? Acreditar numa mulher conhecida e mudar-se para a Covilhã, para aproveitar a reforma.

“Quando ela me convidou para ir até lá, e eu fui até lá, já ela me devia 450 euros. Eu levei os cartões. Mas não me arranjou nenhuma casa e foi aí que me vim embora e fiquei sem o dinheiro. Fui burlada”. Desde então, viveu sempre em quartos.

O pior de partilhar casa na velhice? A higiene

Conceição e Gravelina conheceram-se nas pastelarias e paragens de autocarro em Benfica e simpatizaram quase automaticamente. Uma conversa levou a outra e descobriram que têm em comum a senhoria que lhes arrenda os quartos, em apartamentos cujos inquilinos são todos idosos, ali no meio da cidade, longe das zonas problemáticas e mais associadas à pobreza. O que só perceberam sentadas à mesa com a Renascença é que ambas se veem diariamente a braços com falta de higiene dos companheiros de casa.

“Quando tiraram o senhor ao lado com 80 anos, as senhorias tiveram de tirar a mobília e o colchão. Quando elas passaram com o colchão, eu estava na casa de banho, eu nunca vi tanto bicho na minha vida”, relata Gravelina que, aos 79 anos, vive num quarto arrendando num T3 em Benfica, temporariamente sozinha.

Para Conceição, nada disto choca. No T6 onde vive com mais três homens e duas mulheres, todos idosos, não há vez em que use a cozinha (os únicos dois bicos de fogão que funcionam) ou a casa de banho sem desinfetar o espaço que utilizou e, “muitas vezes”, até acaba a limpar as zonas comuns e a suportar os custos com os detergentes.


A vontade de Conceição é, por isso, sair “já hoje”, mas o ambiente seria mais suportável se um dos companheiros de casa não fosse especialmente problemático.

“Ele deitou vinho desde a cozinha até à porta do quarto dele e tive de estar a limpar. Bebe e berra como se fosse o dono da casa”. E há um alvo especial: “A mulher tem que o respeitar, mas ele respeitar a mulher está quieto. A mim maltratou-me. Bateu-me na rua, na paragem”

Conceição ainda fez queixa na polícia, mas nada mudou. “Nunca vi gente porca como ali. Isto dá cabo da minha saúde”.

Para a geriatra Joana Lopes, o tema da higiene é um dos mais críticos entre os idosos em situações de vulnerabilidade social – em alguns casos, confirma-se a “pouca vontade” ou “desconhecimento”, noutros é a falta de condições que dificulta essas tarefas.

“Muitas vezes, até existem dificuldades de mobilidade e vivem numa casa em que a casa de banho não está adaptada. Pela falta de ajuda, pode haver idosos que já não conseguem tratar da roupa ou lavar a casa e que, se não tiverem alguém que os ajude, não vão conseguir fazê-lo”, aponta.


“Há cada vez mais nomes estrangeiros”. Imigrantes são quase um quarto dos funerais solitários em Lisboa



Menos privacidade é receita para a desgraça

O número concreto de idosos a viver em quartos a nível nacional nunca foi contabilizado, mas os dados da Deco são tudo menos animadores. Das famílias sobreendividadas para pagar quartos alugados, os idosos já representam 15% e o número pode piorar ainda mais: só no último ano, os pedidos de ajuda por parte de pessoas com mais de 65 anos de idade subiram cerca de 10% no gabinete de apoio da Associação de Defesa do Consumidor.

No Centro Social de Nossa Senhora do Amparo, em Benfica, o cenário não é diferente: os casos têm subido e muito e, justamente, à boleia das famílias que não têm condições para ter casa própria ou arrendada.

As rendas altas, as pensões são baixas, a insuficiência dos recursos – notamos que há cada vez mais idosos a não conseguir poder pagar uma habitação, dadas as suas baixas pensões. Recorrem a ajudas da Santa Casa da Misericórdia, com um apoio para o pagamento do quarto, e também procuram outros meios, como os concursos de habitação”, conta a assistente social, Cátia Serrano.

Mas muitos desses concursos raramente dão frutos e a solução dos quartos acaba eternizada na vida de muitos destes idosos. Entre os sentimentos mais comuns, destaca-se o trauma, principalmente entre aqueles que sempre tiveram uma casa e que se viram arrastados para um quarto nos últimos anos, com a inflação e a subida das taxas de juro.


"Quando me derem uma casa, já tenho uma no cemitério de Benfica."

“Estamos a falar de uma habitação, não é um mero espaço físico. É onde estão, onde as pessoas têm o seu espaço, o seu refúgio. Criam-se memórias e, de repente, haver esse corte… acredito que não seja fácil”, aponta a assistente social.

Neste processo, a adaptação a “novas rotinas”, habitualmente com menos privacidade, pode ser uma experiência avassaladora e que, sem retaguarda familiar ou de instituições, pode levar a problemas de saúde mental.

“A depressão é muito prevalente nos idosos e não é muito tida em conta: acha-se que é normal o idoso estar triste porque está no fim da vida e começa a pensar no que fez, no que não fez, no que está a acontecer”, considera a geriatra Joana Lopes.

Daí à solidão é um passo rápido e, muitas vezes, sem retorno. “A nossa taxa de suicídio nos idosos é elevada, particularmente na zona do Alentejo, precisamente por causa do isolamento social – é um fator muito relevante”, alerta a médica.


Gravelina Malta, perita em escrever poemas, passou a viver em quartos desde que sofreu violência doméstica. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Gravelina Malta, perita em escrever poemas, passou a viver em quartos desde que sofreu violência doméstica. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

Nas mulheres, ainda é mais difícil

Passar uma tarde sentado à mesa com Gravelina é receita certa para a diversão. Tem 79 anos e um punhado de histórias para cada ano de vida, desde o tempo em que era dirigente sindical até às memórias de um 25 de abril passado no internamento de um hospital no Porto. “Foi muito giro. Eu vinha ao corredor e só via soldados e eles também estavam à volta do hospital”, relembra, entre risos.

Mas no pote das recordações não se encontram apenas momentos positivos. Aos quatro anos, Gravelina perdeu a mãe e foi criada junto da avó. Quando a avó morreu, aos 22 anos, apanhou um dos “desgostos da sua vida” e desceu até Lisboa, ao reencontro do pai. Aí, teve o primeiro contacto com a violência doméstica – ao início, contra a madrasta, depois contra si. “Deu-me uma bofetada e eu não gostei. Fiz queixa dele na polícia.”

A doença do pai fê-la perdoá-lo e cuidar dele até à morte, sem imaginar que, poucos anos mais tarde, havia de encontrar o pior do pai noutro homem.

“Conheci uma pessoa, depois vivi com ele e sofri violência doméstica durante quatro anos. Era muito simpático, com um bom estatuto, ninguém desconfiava. E, ao princípio, eu também não estava a ver”, recorda.


A solução foi pedir ajuda à APAV e sair apenas com a “roupa que tinha no corpo”. A partir daí, começou a viver sempre em quartos, até porque arrendar uma casa não valia a pena – estava sempre a mudar de cidade.

“Ele descobria-me, eu tinha de fugir. Um dia, vou atravessar para a linha de comboio em Caxias e fui empurrada para a linha de comboio, por outras pessoas que ele pagava”, recorda, enquanto Fátima Ludovice a ouve atentamente, na sala do Centro Social de Nossa Senhora do Amparo.

Fátima nunca sofreu violência doméstica, mas também acabou a ficar sem casa às contas do antigo marido. Da relação tóxica, lembra-se de ter de pagar sempre metade da gasolina do carro (mesmo quando eram distâncias curtas, como ir ao supermercado) ou da agressividade do marido quando lhe perguntava qual era o ordenado que recebia como pasteleiro. Até que um dia as desavenças foram longe de mais.

“Eu perguntei-lhe se a Gebalis [empresa pública de habitação de Lisboa] tinha lá andado no bairro [da Boavista]. Ele disse que sim, que queriam saber as pessoas que viviam naquela casa. Mas a casa pertencia-me a mim, era da minha avó”, recorda. “Eu confiei nele, porque não sei ler nem escrever. Assinei o papel e ele lá preencheu”.


O assunto caiu no esquecimento até ao dia em que o marido lhe pede o divórcio e, nas partilhas, descobre que a propriedade já estava nas mãos do antigo companheiro. “Mas ele não quis a minha casa, que era uma rica casa. Foi para outra.”

O caso já aconteceu há mais de dez anos e, entretanto, Fátima reformou-se. Tem processos abertos nos departamentos de habitação social de várias autarquias na Grande Lisboa, mas nunca deu resultado: a cada dia que passa, continua a viver em quartos (agora em Benfica), enquanto as milhares de pessoas à sua frente na lista de espera não diminuem.

Quando me derem uma casa, já tenho uma no cemitério de Benfica. Essa sei que está certa lá. Se não for no cemitério de Benfica, é em qualquer lado. Eu choro para a minha casa, era uma grande casa”, relembra, enquanto vira a cara e desliza o olhar para a chuva que escorre pela janela.

Uma vida confortável que desaparece

O cinto sempre andou apertado, mas, nos últimos meses, a situação ficou ainda pior para Gravelina, antiga auxiliar de infância, cozinha e cuidadora de idosos.

“A última pessoa para quem trabalhei como cuidadora era cega. Eu fazia as noites a semana toda, os fins de semana, feriados, dediquei-me ao hospital e tudo, e a filha não pagou os fins de semana. Ficaram-me a dever bastante dinheiro”.


"Ter o idoso num quarto, abandonado... Tantas casas fechadas, que eles podiam fazer alguma coisa, mas não."

A situação financeira estava cada vez mais difícil, pagar o quarto não era fácil e o joelho ajudava cada vez menos, então Gravelina viu-se obrigada a fazer este ano aquilo que adiava há mais de uma década: meter os papéis para a reforma. Com 79 anos, recusa-se, no entanto, a parar. Escreve poemas, confeciona compotas, dedica-se ao artesanato. E só não enche ainda mais as horas vagas porque a pensão não chega para tudo.

Falta-me é escrever o meu livro: é o meu sonho ainda. E agora uma máquina de costura para eu poder continuar com os meus trabalhos”, ambiciona.

No caso de Fátima Barbosa, a falta de dinheiro entrou-lhe em casa como um tsunami que destruiu os alicerces mais fortes. Em 2022, o senhorio informou-a da rescisão do contrato de arrendamento, alegando que precisava do imóvel para si ou para os seus filhos. Fátima não acreditou e o tempo deu-lhe razão: saiu do apartamento, mas a casa não abandonou o mercado e a renda já passou dos 300 para os 1.000 euros.

Fátima viu-se obrigada a deixar o conforto, a viver num quarto a poucos metros do T1 que arrendou durante décadas e a deixar mobília num armazém. E sem ajuda.


A assistente social Cátia Serrano aponta que estes idosos vivem com o "trauma" da falta de privacidade. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
A assistente social Cátia Serrano aponta que estes idosos vivem com o "trauma" da falta de privacidade. Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

“As minhas coisas estão no armazém e já ofereci tanta coisa, mas há pertences que custa perder. [A Santa Casa] ajudou a pagar durante algum tempo e disseram para me desfazer do armazém. Essas pessoas não são humanas. Uma pessoa tem os seus pertences. Não podem obrigá-la a desfazer-se”, lamenta, enquanto já começa a subir a voz.

Tal como as outras três mulheres, é graças ao Centro Social de Nossa Senhora do Amparo que Fátima consegue sobreviver. Ali recebe comida do Banco Alimentar, pede roupa quando precisa, tem ajuda da assistente social para tratar das burocracias relacionadas com as ajudas da Segurança Social e até encontra ombros amigos para desabafar das funcionárias ou das restantes utentes. “Tenho o que preciso”.

O tom carrega, “claro”, gratidão, mas também revolta. Fátima não consegue compreender como, depois de uma vida de esforço (veio da Guiné-Bissau com dois filhos e divorciada, para trabalhar anos a fio como explicadora de matemática), chega aos 73 anos sem “cabeça para nada”, porque a energia é toda canalizada para recuperar um cantinho para si.

“Todos os dias procuro e vou encontrar. Mas o idoso é para ficar fechado e morrer dentro da casa. Ter o idoso num quarto, abandonado... Tantas casas fechadas, que eles podiam fazer alguma coisa, mas não”, afirma, em jeito de recado.


Aos 50 anos, Ana conseguiu um contrato de trabalho (a ganhar 300 euros)


Comida ou medicamentos, eis a questão

Contar trocos vai, muitas vezes, para lá da gestão do dinheiro para os passatempos ou para a renda de casa e Conceição assume-o.

“Pago 317 de renda, recebo de reforma 392 euros. Não tenho vergonha de dizer. Prefiro passar fome a roubar. E, às vezes, não compro os medicamentos. Tenho lá uma receita para aviar, há três semanas ou um mês.”

Conceição não é caso único para os médicos. Segundo o relatório sobre envelhecimento da Fundação La Caixa, banco BPI e da faculdade Nova SBE, mais de 14% dos idosos não consegue comprar os medicamentos que lhes são prescritos – e chegam a ver-se num beco sem saída, a ter de escolher entre comer ou ir à farmácia. Isso traz muitas questões dentro do consultório e os próprios médicos sentem-se num “dilema ético”, quando se veem confrontados com a necessidade de prescrever um medicamento (ou uma vacina ou até suplementos alimentares) que estão fora do orçamento.

“Isto pode levar a descompensações das doenças crónicas, que levam a episódios de urgência, internamentos. Portanto, não só leva a maus ‘outcomes’ em saúde, como, em termos financeiros para a sociedade, sai muito mais caro do que atuar preventivamente. Medicação, por exemplo, da insuficiência cardíaca é muito, muito cara”, esclarece a geriatra Joana Lopes.


Fátima Ludovice lamenta os atrasos nos programas públicos de habitação. "Não percebo como não me dão uma casa". Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR
Fátima Ludovice lamenta os atrasos nos programas públicos de habitação. "Não percebo como não me dão uma casa". Foto: Alexandre Abrantes Neves/RR

Estes são problemas identificados no consultório, mas muitos idosos não chegam sequer a um hospital ou centro de saúde. Os problemas no Serviço Nacional de Saúde (SNS), o pouco dinheiro para ir ao privado e até a dificuldade com os transportes são entraves no acesso à saúde – e num acompanhamento médico a tempo e horas.

“Muitas vezes, os doentes chegam-nos tarde, seja por condicionante do acesso, falta de transporte ou falta de conhecimento, porque normalizam. No idoso, é tudo normalizado. Estou a perder peso, é normal. Estou triste, é normal. Estou esquecida, é normal. É tudo normal e, às vezes, não é”, avisa, esclarecendo que a normalização é especialmente preocupante no diagnóstico de demências e de “tumores em estado avançado”.

Assustador mundo novo

Seja a olhar para o passado, seja a pensar no futuro, os números em Portugal são preocupantes. Nos últimos dez anos, o índice de envelhecimento subiu 45 pontos: para cada 100 jovens, há agora 192 idosos. Ao mesmo tempo, as projeções até ao ano 2100 são tudo menos animadoras, já que se prevê que a camada da população com mais de 65 anos cresça em 500 mil pessoas, ultrapassando a barreira dos três milhões. A isto, junta-se outro fator, que vem dificultar ainda mais o cenário: a falta de preparação do SNS.

“Os nossos hospitais e cuidados de saúde não estão preparados para esta faixa etária, quer da parte da saúde, quer da parte social”, alerta a médica Joana Lopes, que, antes de mais, pede à Ordem dos Médicos para tornar a geriatria uma especialidade médica. “É o que acontece noutros países da Europa. Isso deveria ser uma prioridade do SNS, porque já existem alguns serviços de ortogeriatria, de geriatria de apoio à oncologia, mas coisas pequeninas, não são serviços acessíveis a toda a população.”

Na ótica de Cátia Serrano, assistente social no Centro Social de Nossa Senhora do Amparo, a mudança de políticas públicas é “essencial”, até porque está mais do que provado que a vida destes idosos seria “bem pior” se não existissem instituições de solidariedade social e dependessem apenas do Estado. Mas o primeiro passo, assinala, parte da mentalidade de cada pessoa e da sua vontade de ajudar.


Tem de haver empatia, tem de haver compaixão, misericórdia na nossa parte, trabalhar ali o ‘ser’. Estamos a falar de pessoas, pode ser qualquer um de nós. Todos nós caminhamos para lá, todos nós, todos os dias, envelhecemos”, recorda.

Conceição não é tão rápida a articular as propostas para mudar o país “que não é para velhos”, mas não se acata na hora de apontar o dedo aos políticos e a um em especial: ao primeiro-ministro.

Ele [Luís Montenegro] não olha pelos pobres, porque olha só para os ricos. Eu era mulher para lhe dizer na cara. Eu posso criticar – eu voto. Sempre. Ninguém pode me fechar a boca. Eu posso criticar”, defende, numa postura de quem assumiu ser a porta-voz das queixas das tês amigas que juntou no centro social.

Com ou sem ajuda (e convicta de que “não quer ser recordada, porque ninguém se lembra dos pobres”), Conceição está certa: vai “durar até aos 120 anos”. E, até lá, vai conseguir encontrar uma casa.

Tenho esperança. Nem que seja para viver três dias. Eu gostava de ir viver para Massamá, aquilo é lindo.” É o desejo que se prolonga há 40 anos, à espera de ser concretizado.


Artigos Relacionados