Por lá, trabalhou em todos os ofícios e mais alguns, desde o artesanato até aos cabeleireiros. Foi por causa deste último que veio enganada para Lisboa, a bordo do navio Santa Maria: achava que tinha à sua espera um emprego num grande salão, onde iria ganhar melhor e conseguir ajudar os pais, mas nada era verdade.
“Eu vim sequestrada por duas mulheres, uma açoriana e outra madeirense, com o cartão de identidade falso, de uma irmã dela, porque eu era menor. [Queriam trazer-me] para a prostituição. E meteram-me num bar de velhas – de velhas!”
Daí, só saiu ao final de dois anos, em 1969, primeiro com a ajuda da filha de uma das proxenetas, depois com o apoio de um polícia. Ficar em Lisboa não era uma opção em cima da mesa (“era tudo tão sujo”) e a única solução à mão passava por ir para as colónias. O destino foi o que calhou – Moçambique, onde trabalhou como dançarina em bares e casinos. Até 1975.
“Belos tempos, não voltam mais. Foi um país que eu adorei, disse: ‘vou ficar por aqui’. E, na volta, quando se dá a independência, vêm os dois criados, Samuel e Joaquim: ‘Senhora, partir do continente que a Frelimo vem matar a senhora'”.
"Pago 317 de renda, recebo de reforma 392 euros. Às vezes, não compro os medicamentos."
Conceição embarcou rumo a Lisboa na chamada Ponte Aérea, a maior operação de repatriamento da aviação mundial. Mas voltou a teimar que o destino final não tinha de ser a pátria e, por isso, viveu entre a Bélgica e Espanha durante mais de 20 anos.
O regresso definitivo só chegou em 1997, não por vontade própria, mas embalado por um negócio falhado na Andaluzia. Depois de mais de 20 horas de autocarro, e com pouco mais do que uma mala, Conceição chegou a Lisboa e, em menos de 24 horas, arranjou trabalho num hotel no centro da cidade. Desde aí, foi trabalhar sem parar, sempre a acumular empregos, entre a hotelaria e as limpezas.
“Trabalhava das seis às nove [nas limpezas]. No hotel, entrava às dez e saía às cinco. Depois entrava às seis da noite e saía às nove da noite. Ia para casa, tomava banho, comia. E, depois, entrava à meia-noite" no metro, relata.
Tempo para ficar cansada, nem pensar. Em parte, porque “gostava daquilo que fazia”, mas também porque havia objetivos maiores, como arranjar uma casa. Foi a custo, mas conseguiu – e mudou-se para um T0 no bairro social das Galinheiras.