Segundo os dados do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) de 2024/2025, quase metade dos alunos estrangeiros (49,7%) têm nacionalidade brasileira e cerca de 7 em cada 10 (73%) vêm de geografias pertencentes à Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Significa isto que 27% destes estudantes chegam a Portugal com pouco ou nenhum contacto prévio com a língua portuguesa. Esses alunos podem frequentar a disciplina de Português Língua Não Materna (PLNM) em substituição da disciplina de Português.
Alargar oportunidades e ferramentas
Na Escola Passos Manuel, 321 alunos frequentam PLNM, com quatro tempos semanais e turmas de cerca de 20 estudantes. Este ano foi criado o nível A0 para alunos recém-chegados, que antes eram colocados diretamente no A1, sem apoio inicial. Agora, cada estudante pode permanecer no nível em que está pelo tempo necessário, podendo chegar a frequentar PLNM até seis anos, permitindo um avanço mais gradual na aprendizagem da língua.
O objetivo destas mudanças é “garantir que todos os alunos, mesmo com pontos de partida diferentes, tenham as mesmas oportunidades de alcançar o mesmo nível de aprendizagem”, reforça Raquel Ribeiro, professora de PLNM.
Nos primeiros tempos, é comum recorrer ao inglês ou ao tradutor do telemóvel para “não criar angústia” no aluno. Também se faz uso de comunicação não verbal — gestos, expressões e linguagem corporal — para facilitar as primeiras interações. Outra estratégia importante é o apoio entre alunos da mesma nacionalidade, aproveitando a diversidade da escola.
Segundo os dados do MECI, os agrupamentos de escolas acolhem, em média, alunos de cerca de 20 nacionalidades diferentes por agrupamento. Desde 2018/2019, e excluindo países de língua oficial portuguesa, as nacionalidades que mais cresceram em número de alunos foram Índia, Ucrânia, Venezuela, Paquistão, Bangladesh e Nepal.
"Mesmo entre pares”, há códigos “mal interpretados”
A língua é também parte fundamental das tarefas dos mediadores, mas o seu papel vai muito além disso. “O mediador é uma ponte” — entre alunos, famílias, professores e parceiros externos, explica Joana Saraiva. Este trabalho de inclusão tem várias dimensões: apoio legal, económico, linguístico e social.
“Às vezes damos apoio na regularização da situação cá, na procura de trabalho, na tradução de guias de boas-vindas”, detalha a mediadora.
Mais do que as palavras, “tem a ver com códigos” — gestos, olhares e formas de ver o mundo, “que mesmo entre pares, alunos da mesma idade, podem ser mal interpretados.” Portanto, essa “tradução de códigos culturais é muito importante na gestão dos conflitos, que existem”.