“As crianças não têm preconceitos, mas são ensinadas a ter.” O dia a dia numa escola com 46 nacionalidades

No liceu mais antigo de Lisboa, onde as paredes guardam memórias de séculos, ouvem-se hoje vozes vindas de dezenas de geografias. Com 40% de alunos estrangeiros, os corredores enchem-se de diversidade, mas não são imunes ao contexto social. “Alguns miúdos sentem-se excluídos, ouvem insultos e muitas vezes não sabem onde falar sobre isso”, alertam os mediadores culturais.

02 dez, 2025 - 06:30 • Lara Castro (reportagem) , Diogo Camilo (gráficos)



Como se aprende numa escola com 46 nacionalidades?
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Vieram de longe e não é do "chullo" peruano, nem do frio do inverno russo, tão pouco do cheiro das especiarias de Daca, no Bangladesh, que sentem mais falta — é dos avós. E apesar de terem chegado a Portugal sem dizer uma palavra na língua de Camões, hoje sabem o que significa saudade.

Cristobal, George e Parisha são três dos 540 alunos estrangeiros que hoje estudam no Agrupamento de Escolas Passos Manuel, no centro de Lisboa. Pelos corredores deste antigo liceu — que já viu passar Cesário Verde, Carlos do Carmo, Adelaide Cabete ou Jonas Savimbi — ecoam agora outros nomes, outras histórias, outras geografias, 46 diferentes nacionalidades.

“De onde vieste?” Com a ponta do indicador e olhos semicerrados, percorrem o mapa-mundo colorido até encontrar o país onde outrora viveram. Com um pequeno gesto reduzem a distância à casa que viram ficar para trás. Os recém-chegados são acompanhados durante seis meses no Espaço “i" — a letra pode significar o que se quiser: "inclusão", "integração", "imaginação" — ou simplesmente "início". É aí que aprendem que a “alface é verde” e o “queijo é amarelo”, numa sala que respira cultura e língua portuguesa.

No primeiro ciclo, os professores acreditam que “é preciso um amigo para começar” e “empatia para saber acolher”. Nas salas, a diversidade está colada nas paredes e estende-se pelos corredores, onde se acumulam trabalhos manuais que recordam, de forma direta e colorida, a ideia de que somos “todos diferentes, todos iguais”.

Um esforço que se torna ainda mais urgente quando o preconceito começa a saltar os portões da escola, e a xenofobia e o racismo passam a fazer parte do dia a dia.

Há 10 anos eram cerca de 50 mil os alunos estrangeiros na escolaridade obrigatória em Portugal. Agora são 195 mil, segundo dados provisórios do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), enviados à Renascença.


No liceu mais antigo do país, 40% dos alunos são estrangeiros. Yeajda Parisha é uma delas. Na escola todos a conhecem pelo segundo nome, “por ser mais fácil de dizer”.

Durante o furo de uma aula de matemática, está sentada de pernas “à chinês” no chão do corredor e à sua frente estão os resumos de história abertos no capítulo seis: “A implementação da República em Portugal”.

Acompanhada pela amiga brasileira Luiza, também do 9º ano, aproveita todos os minutos para fazer uma última revisão à matéria antes do teste de História. Com 14 anos, Parisha olha para a parceira de estudo com um olhar confuso — custa-lhe entender que “um ditador pode ser um rei”. Depois de um suspiro frustrado, a aluna — que chegou a Portugal há três anos, vinda do Bangladesh — vai juntando notas aos resumos, com uma lapiseira lilás.


Parisha, do Bangladesh, estuda para o teste de História durante um intervalo no corredor, com a amiga brasileira Luiza. Foto: Lara Castro/RR
Parisha, do Bangladesh, estuda para o teste de História durante um intervalo no corredor, com a amiga brasileira Luiza. Foto: Lara Castro/RR
A dinâmica entre as duas é simples: Luiza ajuda em História e Português; Parisha retribui com Matemática e Inglês. Foto: Lara Castro/RR
A dinâmica entre as duas é simples: Luiza ajuda em História e Português; Parisha retribui com Matemática e Inglês. Foto: Lara Castro/RR


Quando chegou à escola, no 7º ano, o objetivo principal era “ter boas notas e começar a estudar”. E apesar de ainda não saber o que quer ser quando crescer, sabe que entende mais de ciências do que de humanidades — e tudo indica que é isso que estudará no próximo ano. Perspetivas que não imaginava quando chegou à escola.

Medo, Tristeza e Ansiedade. Como se sobrevive ao primeiro dia?

“O tempo passou rápido” e a memória daquele mês de janeiro de 2022 não se apaga. Entrou pelos portões altos e verdes já o ano letivo tinha começado há meses, era o início do segundo período.

Assim que colocou um pé dentro da escola, a ansiedade e o medo transformaram-se em lágrimas de angústia, por não saber o que iria acontecer. “Comecei a chorar, estava com medo.”


Parisha, do Bangladesh, chegou a Portugal em 2022. Tem 14 anos e frequenta o 9.º ano na Escola Básica e Secundária de Passos Manuel. Foto: Lara Castro/RR
Parisha, do Bangladesh, chegou a Portugal em 2022. Tem 14 anos e frequenta o 9.º ano na Escola Básica e Secundária de Passos Manuel. Foto: Lara Castro/RR

Sente saudade das comidas e da avó. A última vez que a viu foi no ano passado, nas férias de verão, quando regressou à terra-natal, Daca. Foto: Lara Castro/RR
Sente saudade das comidas e da avó. A última vez que a viu foi no ano passado, nas férias de verão, quando regressou à terra-natal, Daca. Foto: Lara Castro/RR
Este ano letivo, 28% dos alunos são brasileiros, 21% vêm do Bangladesh e 13% chegam do Nepal, no agrupamento de Escolas Passos Manuel. Foto: Lara Castro/RR
Este ano letivo, 28% dos alunos são brasileiros, 21% vêm do Bangladesh e 13% chegam do Nepal, no agrupamento de Escolas Passos Manuel. Foto: Lara Castro/RR


“Não precisas de chorar”. As palavras do pai, naquele momento, souberam a casa. Assim que entrou na sala de aula, a curiosidade para “saber quem era e de onde vinha” traduziu-se em inúmeras perguntas dos novos colegas. Nesse dia, o inglês foi o maior aliado para a socialização de Parisha.


George tem 11 anos e vem da Rússia. O aluno, que frequenta agora o 7.º ano, chegou a Portugal quando tinha 5 anos. Foto: Lara Castro/RR
George tem 11 anos e vem da Rússia. O aluno, que frequenta agora o 7.º ano, chegou a Portugal quando tinha 5 anos. Foto: Lara Castro/RR
Quando entrou pela primeira vez numa sala de aulas portuguesa ninguém entendia russo, mas todos “queriam conhecer alguém que fala outra língua”. Foto: Lara Castro/RR
Quando entrou pela primeira vez numa sala de aulas portuguesa ninguém entendia russo, mas todos “queriam conhecer alguém que fala outra língua”. Foto: Lara Castro/RR


Educação física e matemática são as disciplinas de que mais gosta. Foto: Lara Castro/RR
Educação física e matemática são as disciplinas de que mais gosta. Foto: Lara Castro/RR

No ano letivo passado, a equipa de mediação linguística e cultural fez um diagnóstico participativo para perceber como estava a ser vivido o processo de inclusão. Participaram 39 estudantes de cinco turmas de Português Língua Não Materna (PLNM), com origens diversas e diferentes tempos de permanência em Portugal. As respostas indicam que 41,9% se sentiram “bem” nos primeiros dias, 35,5% apenas “mais ou menos” e 22,6% se sentiram “mal”.

Tal como Parisha e George, “muitas crianças migrantes sentem dificuldades de integração” e “muita tristeza”, o que, segundo Joana Saraiva, uma das quatro mediadoras linguísticas e culturais do agrupamento, “é normal num primeiro momento”. Como não dominam bem a língua, “a capacidade de socialização é muito pequena”.

Dos 540 alunos estrangeiros, 60% terá tido pouco ou nenhum contacto com a língua e a cultura portuguesa antes da chegada a Portugal.


No liceu mais antigo do país, 40% dos alunos são estrangeiros. Foto: Lara Castro/RR
No liceu mais antigo do país, 40% dos alunos são estrangeiros. Foto: Lara Castro/RR
Pelos corredores da escola, multiplicam-se sinais de que ali convivem estudantes de diversas nacionalidades. Foto: Lara Castro/RR
Pelos corredores da escola, multiplicam-se sinais de que ali convivem estudantes de diversas nacionalidades. Foto: Lara Castro/RR


“Welcome!”, “স্বাগতম”, “Bienvenue!”, “欢迎”, “добро пожаловать”

Para facilitar a integração dos alunos, há um “Dia de Boas-vindas" no início de cada ano letivo. Todos os encarregados de educação e estudantes são recebidos pelos diretores de turma, que explicam o funcionamento do sistema educativo português e o calendário escolar. Há uma visita guiada à escola, recebem cópias dos horários e esclarecem-se dúvidas sobre as disciplinas, “porque há muitas que não conhecem”, indica Raquel Ribeiro, professora de Português Língua Não Materna (PLNM).

Os alunos tiram uma fotografia que, além de assinalar o “primeiro dia”, servirá de imagem para o cartão de estudante.

Ao agrupamento de Escolas Passos Manuel, chegam todos os anos novos alunos e nacionalidades. Este ano letivo, 28% são brasileiros, 21% vêm do Bangladesh e 13% chegam do Nepal.


No intervalo, George conversa com alguns colegas de turma, mas há um com quem tem uma amizade mais próxima — também é russo, mas veio de outra cidade. Andam juntos para todo o lado e falam russo entre si.

Também Parisha teve a sorte de conhecer uma amiga com quem partilha o dia a dia. No início, “se não fosse ela não tinha ninguém na turma”, “alguém amigo” para conversar. Tal como George, também Parisha tem poucos amigos portugueses, “apesar da simpatia de todos”.


Luiza nasceu no Brasil e vive em Portugal desde os 10 anos. Parisha chegou mais tarde, vinda do Bangladesh. Foto: Lara Castro/RR
Luiza nasceu no Brasil e vive em Portugal desde os 10 anos. Parisha chegou mais tarde, vinda do Bangladesh. Foto: Lara Castro/RR
Na turma de George há uma ucraniana e um russo, o seu melhor amigo. Foto: Lara Castro/RR
Na turma de George há uma ucraniana e um russo, o seu melhor amigo. Foto: Lara Castro/RR


A segregação cultural, principalmente no recreio, é um cenário real. E “muitas das descriminações mais invisíveis, até para os adultos, às vezes acontecem nesse espaço de socialização”, alerta Joana Saraiva.

Xenofobia e Racismo. “Há um ambiente social que atravessa o espaço escolar”

Numa escola onde 40% dos alunos são estrangeiros, formam-se “grupos por nacionalidade: Bangladesh, Nepal, Portugal, Brasil, etc.”, afirma a mediadora linguística e cultural.

No diagnóstico participativo, os números traçam o retrato de relações nos intervalos escolares. Quando questionados sobre com quem costumam conviver, 60,7% dos alunos indicaram que permanecem junto da sua “comunidade de origem ou de outras comunidades migrantes”, 32,1% misturam-se com “migrantes e colegas portugueses” e apenas 7,1% se relacionam com portugueses.

As razões apontadas? “Racismo”, “segregação”, “barreiras linguísticas" e a “falta de interesse por parte dos colegas portugueses”.


Nas respostas ao inquérito transparece uma realidade clara: os alunos estrangeiros sentem que “xenofobia e racismo” fazem parte do dia a dia. Quando questionados sobre a existência de racismo na escola, 88% dos inquiridos afirmaram sentir que sim, enquanto apenas 12% disseram "não".

A mediadora sublinha, no entanto, que o problema “não tem a ver com a incompetência” do estabelecimento de ensino. “Há um ambiente social que atravessa a escola”, explica Joana Saraiva. Por isso, é essencial “reconhecer e trabalhar sobre ele”.


Joana Saraiva faz parte da primeira geração de mediadores linguísticas e culturais. Em janeiro deste ano, 287 profissionais foram distribuídos por 319 agrupamentos. Foto: Lara Castro/RR
Joana Saraiva faz parte da primeira geração de mediadores linguísticas e culturais. Em janeiro deste ano, 287 profissionais foram distribuídos por 319 agrupamentos. Foto: Lara Castro/RR

“As crianças não têm preconceitos, mas são ensinadas a ter”, acrescenta. Nas escolas do primeiro ciclo, “ainda querem apenas brincar”, mas nos anos seguintes a influência do ambiente social torna-se mais evidente.

“A escola não está fora do mundo e reflete todas as tensões que existem lá fora”, nota a mediadora. “Alguns miúdos sentem-se excluídos, ouvem insultos e muitas vezes não sabem onde falar sobre isso.” É aqui que entra a figura do mediador, alguém em quem os alunos podem confiar, “que valide o que a criança sente e diga: ‘isto não está certo, podemos conversar sobre isso’”.

“A escola não está fora do mundo e reflete todas as tensões que existem lá fora.”

“Trazer as famílias à escola e fazer atividades em que as famílias se conhecem, as portuguesas e as de outros países”, resulta numa proximidade que “desfaz estereótipos”, defende a docente. “Enquanto as pessoas não se olham, não se veem, não partilham uma comida, não conversam... Não há possibilidade.” O outro “será sempre um estranho” com “uma imagem muito ameaçadora” enquanto é desconhecido.


Dos 540 alunos estrangeiros, 60% terá tido pouco ou nenhum contacto com a língua e a cultura portuguesa antes da chegada a Portugal. Foto: Lara Castro/RR
Dos 540 alunos estrangeiros, 60% terá tido pouco ou nenhum contacto com a língua e a cultura portuguesa antes da chegada a Portugal. Foto: Lara Castro/RR
Segundo dados do Ministério da Educação para 2024/2025, as escolas acolhem, em média, alunos de cerca de 20 nacionalidades diferentes por agrupamento. Foto: Lara Castro/RR
Segundo dados do Ministério da Educação para 2024/2025, as escolas acolhem, em média, alunos de cerca de 20 nacionalidades diferentes por agrupamento. Foto: Lara Castro/RR


Nas reuniões gerais de pais, “há uma preocupação em falar português e inglês, para tentar integrar”, afirma Carlos Costa, pai de uma aluna numa escola básica do agrupamento.

“Os pais têm mais dificuldade, chegam ao mercado laboral e às vezes não lhes resta tempo para terem aulas de português, além dos custos associados”, sublinha. Mas o que a experiência lhe diz é que “se forem chamados estão presentes” e, “de uma forma geral, são preocupados e acompanham os miúdos”.

A associação “Renovar a Mouraria” é uma parceira externa do Passos Manuel e, em conjunto com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, oferece aos pais de alunos estrangeiros aulas de português às terças e sextas, na Escola Maria Barroso, pertencente ao agrupamento.

Uma casa longe de casa

Uma porta alta e branca separa o corredor iluminado de um outro mundo. É ali que começa o percurso dos alunos recém-chegados. “O Espaço i é o primeiro espaço de acolhimento”, onde os alunos que entram no sistema educativo reforçam a aprendizagem do português.

“Tudo é possível aqui”, afirma Raquel Ribeiro, professora de Português Língua Não Materna (PLNM) e Alemão, enquanto abre as portas da sala.


A barreira linguística é um do motivos que pode levar à segregação. Na escola há um espaço inteiramente dedicado aos alunos recém-chegados. Foto: Lara Castro/RR
A barreira linguística é um do motivos que pode levar à segregação. Na escola há um espaço inteiramente dedicado aos alunos recém-chegados. Foto: Lara Castro/RR

Assim que entra, coloca ao pescoço uma fita com um cartão onde está escrito o seu nome e desenhada a bandeira de Portugal. "Como no início não se conhecem”, este pequeno ritual ajuda a criar laços. Junto ao cartão da professora, num quadro de cortiça, penduram-se dezenas de cartões coloridos que contam outras geografias.

Bandeiras, ilustrações, mapas e objetos: nesta sala, qualquer elemento evoca a aprendizagem. Ali “é trabalhada a língua com ajuda da cultura”.


O “i” pode ser o que cada aluno precisar: "inclusão", "identidade", "interesse" – ou simplesmente "início". Foto: Lara Castro/RR
O “i” pode ser o que cada aluno precisar: "inclusão", "identidade", "interesse" – ou simplesmente "início". Foto: Lara Castro/RR
Os alunos que chegaram a Portugal há menos de seis meses frequentam aquele espaço durante dois períodos letivos. Foto: Lara Castro/RR
Os alunos que chegaram a Portugal há menos de seis meses frequentam aquele espaço durante dois períodos letivos. Foto: Lara Castro/RR


Para este espaço “vêm os alunos que chegaram a Portugal há menos de seis meses”. Durante dois períodos letivos, “são retirados à turma nas disciplinas em que estar na sala de aula lhes pode causar mais angústia”, sobretudo aquelas em que “lhes é exigido uma maior proficiência linguística”, como Filosofia, História ou Biologia.

Nessas aulas, deixam a sala e passam a porta branca para trabalhar a língua portuguesa. O espaço é “dinamizado por professores de diferentes áreas” e recebe grupos pequenos — nunca mais de dez alunos — em todos os tempos letivos. Passados no máximo seis meses, os alunos “retornam por completo às turmas”.


Raquel Ribeiro, professora de Português Língua Não Materna, é uma das dinamizadoras do espaço "i". Foto: Lara Castro/RR
Raquel Ribeiro, professora de Português Língua Não Materna, é uma das dinamizadoras do espaço "i". Foto: Lara Castro/RR

Todos os objetos são vocacionados para a aprendizagem da língua e da cultura portuguesas. Foto: Lara Castro/RR
Todos os objetos são vocacionados para a aprendizagem da língua e da cultura portuguesas. Foto: Lara Castro/RR
Quando visitámos a escola era dia de aprender “o que comemos”. Foto: Lara Castro/RR
Quando visitámos a escola era dia de aprender “o que comemos”. Foto: Lara Castro/RR


“É um espaço decisivo na escola”, indica a mediadora Joana Saraiva, porque enquanto na disciplina de PLNM “os alunos recebem uma aprendizagem formal da língua”, ali é possível reforçar competências “através de metodologias não formais, colaborativas e lúdicas”, aprofundando níveis que “não são às vezes tidos em conta”.

Ultrapassar a "vergonha, falta de autoestima e medo de falar”

“A alface é verde”, afirma a professora enquanto escreve a palavra com um marcador da respetiva cor. Três alunos do Bangladesh acompanham a explicação com atenção e um olhar ainda meio perdido.

No quadro branco, a lição indica que é dia de aprender “o que comemos”. Cada aluno tem um caderno aberto à sua frente. São todos diferentes. A capa foi decorada por cada um, com desenhos, bandeiras e palavras novas. Jishu tem 13 anos e vem do Bangladesh, chegou à escola este ano. O seu caderno já vai a meio. Nas páginas acumulam-se dezenas de vocábulos que há pouco tempo não faziam parte do seu mundo.


Para 44,4% dos alunos que responderam a um inquérito feito pela escola, a “barreira linguística” é o maior obstáculo quando tentam aprender uma nova matéria. Logo a seguir, 33% confessam que é a “vergonha”. Foto: Lara Castro/RR
Para 44,4% dos alunos que responderam a um inquérito feito pela escola, a “barreira linguística” é o maior obstáculo quando tentam aprender uma nova matéria. Logo a seguir, 33% confessam que é a “vergonha”. Foto: Lara Castro/RR

O trabalho no "Espaço i" vai além da gramática, trabalha-se também as “barreiras de ordem pessoal, afetiva e social”. Foto: Lara Castro/RR
O trabalho no "Espaço i" vai além da gramática, trabalha-se também as “barreiras de ordem pessoal, afetiva e social”. Foto: Lara Castro/RR
O espaço é “dinamizado por professores de diferentes áreas” e recebe grupos pequenos — nunca mais de dez alunos — em todos os tempos letivos. Foto: Lara Castro/RR
O espaço é “dinamizado por professores de diferentes áreas” e recebe grupos pequenos — nunca mais de dez alunos — em todos os tempos letivos. Foto: Lara Castro/RR


A mesa está posta – em frente aos alunos está colocado um prato, um garfo, uma faca, uma colher e um copo. Na folha aberta, Jishu tem apenas a ilustração de um prato e de uma faca, os restantes objetos tem de desenhar e escrever.

“Ontem comeste...”, interpela a dinamizadora da sala, debruçada sobre um outro aluno, que aponta para uma ilustração. A professora ajuda: “Ba-ta-tas.”

Ao lado, outro colega folheia um livro com ilustrações de alimentos e bebidas, apontando timidamente para cada imagem enquanto pronúncia as palavras com vergonha.


Os alimentos ganham novas sonoridades. Foto: Lara Castro/RR
Os alimentos ganham novas sonoridades. Foto: Lara Castro/RR
Na sala estão três alunos do Bangladesh, chegados à escola há menos de um ano. Foto: Lara Castro/RR
Na sala estão três alunos do Bangladesh, chegados à escola há menos de um ano. Foto: Lara Castro/RR


Segundo as respostas ao diagnóstico participativo, para 44,4% dos alunos a “barreira linguística” é o maior obstáculo quando tentam aprender uma nova matéria. Logo a seguir, 33% confessam que é a “vergonha”, enquanto 11,1% apontam a “desmotivação” e outros 11,1% falam no “sentimento de abandono”.

O trabalho no "Espaço i" vai além da gramática, trabalha também “barreiras de ordem pessoal, afetiva e social”. No momento de aprendizagem da língua, “além das questões técnicas, há uma dimensão que tem a ver com a vergonha, falta de autoestima e medo de falar”. Joana Saraiva, a mediadora, implementou o projeto “Destrava Línguas”, onde, através de “ferramentas teatrais e 'role play'”, é possível quebrar essas barreiras.

Além de “detetar fragilidades e potencialidades”, aquela sala é um “porto-seguro” — um espaço de “segurança, amizade, conforto e acima de tudo onde aprendem mais rapidamente o português”, reforça a professora Raquel Ribeiro.

“Eles precisam de um amigo para começar”

A campainha toca e a azáfama instala-se no corredor. No meio do movimento apressado, Parisha caminha devagar, acompanhada por Luiza, que ainda há instantes lhe explicava História. As duas têm muito em comum: são alunas estrangeiras e reconhecem uma na outra a sensação de chegar a um lugar onde tudo ainda é novo.


As duas alunas conheceram-se na turma onde ficaram colocadas. “Não dava para conversar” — nem Luiza entendia inglês, nem Parisha falava português. Foto: Lara Castro/RR
As duas alunas conheceram-se na turma onde ficaram colocadas. “Não dava para conversar” — nem Luiza entendia inglês, nem Parisha falava português. Foto: Lara Castro/RR

Luiza nasceu no Brasil e vive em Portugal desde os 10 anos. Parisha chegou mais tarde, vinda do Bangladesh. Talvez tenha sido essa memória partilhada que as aproximou de forma tão rápida — mesmo quando quase nada podiam dizer uma à outra.

Conheceram-se na turma onde ficaram colocadas. “Não dava para conversar” — nem Luiza entendia inglês, nem Parisha falava português. Mas a língua tornou-se um objetivo diário: “Via coisas em português”, notícias, músicas, tudo servia para treinar. E, à medida que aprendia, também a amizade ganhava um vocabulário próprio.

Hoje, conversam com naturalidade.

“Acho que a ajudei, mas ela também me ajudou muito com o Inglês. Se não fosse ela, não tinha boa nota”, afirma Luiza, enquanto estende a mão à amiga, num gesto carinhoso.

A dinâmica entre as duas é simples: Luiza ajuda em História e Português; Parisha retribui com Matemática e Inglês. Entre risos, soltam frases misturadas: “Are you ok?”, “Sim, estou”. Um diálogo que serve como treino e amizade ao mesmo tempo.


Cristobal está no 3.º ano, na Escola Básica do 1.º Ciclo Padre Abel Varzim. Foto: Lara Castro/RR
Cristobal está no 3.º ano, na Escola Básica do 1.º Ciclo Padre Abel Varzim. Foto: Lara Castro/RR

Com menos seis anos do que as duas amigas, Cristobal segura o microfone da Renascença como se falasse para uma grande audiência. “Aqui estão os meus amigos, tenho uma escola e tenho uma casa”. Tem 8 anos e veio do Peru em 2022, para escapar a um país que “agora está perigoso”, assegura. “A ‘presidenta’ é má, só quer coisas boas para ela”, afirma com a naturalidade de quem já aprendeu cedo a decifrar o mundo.

Cristobal vem de longe — lá fala-se espanhol, “mas devia-se falar quechua”, insiste. “Não se fala porque os espanhóis invadiram.” A primeira palavra que aprendeu por cá foi simples: “’Sim’. Em espanhol só se diz si”, ri-se, divertido com a coincidência.

Entre memórias ainda soltas da casa que deixou, recorda sabores: “No Peru come-se muita gastronomia e há muitos doces, como pícaras e casino”. Talvez por isso, quando pensa no futuro responde sem hesitar: quer ser “um grande cozinheiro”. A sua palavra favorita em português é “douradinhos”. “Eu gosto de comer, até já sei fazer arroz”, afirma, cheio de orgulho.

A disciplina favorita é Matemática — “já sei todos os números e todas as contas” — e só lamenta que, na escola, não haja “ninguém do Peru”.

Aterrou em Portugal em 2022 e, desde então, nunca regressou. “A minha mãe já disse que vou viver aqui, não posso ir lá”, explica, batendo o punho na mesa como quem sela uma certeza. Portugal trouxe-lhe também um irmão, Joaquim, que já nasceu aqui, e com quem fala “nos dois idiomas, mas mais português”. Em casa, os pais continuam a falar espanhol, mas fazem um esforço para usar português com os filhos.


Cristobal tem 8 anos e chegou a Portugal em 2022. Depois da pandemia, os decidiram juntar-se à restante família que já vivia em Lisboa. Foto: Lara Castro/RR
Cristobal tem 8 anos e chegou a Portugal em 2022. Depois da pandemia, os decidiram juntar-se à restante família que já vivia em Lisboa. Foto: Lara Castro/RR

Cristobal só lamenta que, na escola, não haja “ninguém do Peru”. A sua disciplina favorita é Matemática. Foto: Lara Castro/RR
Cristobal só lamenta que, na escola, não haja “ninguém do Peru”. A sua disciplina favorita é Matemática. Foto: Lara Castro/RR
Entre memórias ainda soltas da casa que deixou, recorda sabores: “No Peru come-se muita gastronomia e há muitos doces, como pícaras e casino.” Foto: Lara Castro/RR
Entre memórias ainda soltas da casa que deixou, recorda sabores: “No Peru come-se muita gastronomia e há muitos doces, como pícaras e casino.” Foto: Lara Castro/RR


A mãe e o pai de Cristobal reconhecem que a adaptação “foi difícil”. O menino tinha muitas saudades. “Queria fazer amigos e falar em espanhol”, recorda a mãe, “mas eu dizia-lhe: ‘vais fazer amigos, mas a falar em português – então tens de aprender’”.

A acompanhar o percurso de Cristobal está Sónia Mascarenhas, professora na Escola Básica do 1.º Ciclo com Jardim de Infância Padre Abel Varzim. Trabalha ali há quatro anos, mas dá aulas desde 2000. No atual grupo, tem três alunos estrangeiros. Na mesma escola, há uma turma de pré-escolar onde a situação se inverte – apenas três crianças são portuguesas.


Em Portugal, Cristobal vive com os pais e o irmão mais novo, Joaquim, que já nasceu em Portugal. Foto: Lara Castro/RR
Em Portugal, Cristobal vive com os pais e o irmão mais novo, Joaquim, que já nasceu em Portugal. Foto: Lara Castro/RR

Sónia sempre teve alunos de diferentes nacionalidades nas suas turmas e aprendeu, ao longo das décadas, que a integração começa com algo simples: "Eles precisam de um amigo para começar”, diz.

A professora acredita que “depois de fazerem um amigo, já se sentem mais à vontade e deixam de ter aquela necessidade de procurar alguém da mesma nacionalidade para se sentirem em casa”.

No 1.º Ciclo, “maioria dos meninos chegam não alfabetizados”

O trabalho em sala de aula exige “empatia para saber acolher” e muitas adaptações, afirma Sónia Mascarenhas. “Às vezes, eles ensinam-nos palavras na língua deles, ensinam o resto da turma, e todos se ensinam uns aos outros.” É um ambiente de permanente descoberta.

Na sala de aula, para os recém-chegados, tudo começa com um simples pedaço de papel fixado em cima dos objetos correspondentes. “No primeiro ano, temos tudo colado: mesa, janela, porta”, explica a professora. É uma forma prática de ajudar as crianças a identificar o que as rodeia e, assim, começar a descomplicar a língua.


Nas salas, a diversidade está colada nas paredes e estende-se pelos corredores, onde se acumulam trabalhos manuais que recordam, de forma direta e colorida, a ideia de que somos “todos diferentes, todos iguais”. Foto: Lara Castro/RR
Nas salas, a diversidade está colada nas paredes e estende-se pelos corredores, onde se acumulam trabalhos manuais que recordam, de forma direta e colorida, a ideia de que somos “todos diferentes, todos iguais”. Foto: Lara Castro/RR

"A maior dificuldade é que a maioria dos meninos chegam cá não alfabetizados.” Como em casa os pais falam a língua de origem, “as crianças só falam português na escola”. Por isso, “a dificuldade é a comunicação.” Nelsy, mediadora linguística e cultural no 1.º Ciclo, sabe bem o que isso é. Ela própria passou pela experiência de chegar a um país sem dominar a língua, tendo sido aluna estrangeira. Viveu em São Tomé até aos 18 anos e, quando recebeu uma bolsa para tirar a licenciatura em Direito na China, não hesitou: aprendeu mandarim e saiu do seu país.

Atualmente, integra o agrupamento de escolas Passos Manuel, enquanto concilia o trabalho com o mestrado em Relações Internacionais. Fala mandarim, português, espanhol e inglês — esta última é a língua que mais utiliza para comunicar com os pais oriundos do Bangladesh, Nepal e Índia.


Nelsy é mediadora cultural e linguística no 1.º Ciclo. Ela própria sabe bem o que é chegar a um país sem dominar a língua, tendo sido aluna estrangeira. Foto: Lara Castro/RR
Nelsy é mediadora cultural e linguística no 1.º Ciclo. Ela própria sabe bem o que é chegar a um país sem dominar a língua, tendo sido aluna estrangeira. Foto: Lara Castro/RR

Segundo os dados do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) de 2024/2025, quase metade dos alunos estrangeiros (49,7%) têm nacionalidade brasileira e cerca de 7 em cada 10 (73%) vêm de geografias pertencentes à Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Significa isto que 27% destes estudantes chegam a Portugal com pouco ou nenhum contacto prévio com a língua portuguesa. Esses alunos podem frequentar a disciplina de Português Língua Não Materna (PLNM) em substituição da disciplina de Português.

Alargar oportunidades e ferramentas

Na Escola Passos Manuel, 321 alunos frequentam PLNM, com quatro tempos semanais e turmas de cerca de 20 estudantes. Este ano foi criado o nível A0 para alunos recém-chegados, que antes eram colocados diretamente no A1, sem apoio inicial. Agora, cada estudante pode permanecer no nível em que está pelo tempo necessário, podendo chegar a frequentar PLNM até seis anos, permitindo um avanço mais gradual na aprendizagem da língua.

O objetivo destas mudanças é “garantir que todos os alunos, mesmo com pontos de partida diferentes, tenham as mesmas oportunidades de alcançar o mesmo nível de aprendizagem”, reforça Raquel Ribeiro, professora de PLNM.

Nos primeiros tempos, é comum recorrer ao inglês ou ao tradutor do telemóvel para “não criar angústia” no aluno. Também se faz uso de comunicação não verbal — gestos, expressões e linguagem corporal — para facilitar as primeiras interações. Outra estratégia importante é o apoio entre alunos da mesma nacionalidade, aproveitando a diversidade da escola.

Segundo os dados do MECI, os agrupamentos de escolas acolhem, em média, alunos de cerca de 20 nacionalidades diferentes por agrupamento. Desde 2018/2019, e excluindo países de língua oficial portuguesa, as nacionalidades que mais cresceram em número de alunos foram Índia, Ucrânia, Venezuela, Paquistão, Bangladesh e Nepal.

"Mesmo entre pares”, há códigos “mal interpretados”

A língua é também parte fundamental das tarefas dos mediadores, mas o seu papel vai muito além disso. “O mediador é uma ponte” — entre alunos, famílias, professores e parceiros externos, explica Joana Saraiva. Este trabalho de inclusão tem várias dimensões: apoio legal, económico, linguístico e social.

“Às vezes damos apoio na regularização da situação cá, na procura de trabalho, na tradução de guias de boas-vindas”, detalha a mediadora.

Mais do que as palavras, “tem a ver com códigos” — gestos, olhares e formas de ver o mundo, “que mesmo entre pares, alunos da mesma idade, podem ser mal interpretados.” Portanto, essa “tradução de códigos culturais é muito importante na gestão dos conflitos, que existem”.


Concursos tardios e funções vagas: o que faz um mediador cultural?”


“A intervenção tem de ser feita com todos os alunos, não só com os imigrantes”, repete. Para a mediadora, “a inclusão é uma via de sentido duplo”, um movimento que não depende apenas de quem chega, mas também de quem recebe. É um trabalho que se exige de professores, alunos, assistentes operacionais e famílias – todos convocados para o mesmo espaço comum.

É precisamente nesse espaço comum que está Ana Paula Leal, mais conhecida como Paulinha. Sentada numa mesa de madeira maciça, em frente à entrada principal, é impossível passar ao lado da funcionária, uma das figuras mais carismáticas do Passos Manuel. A sua gargalhada atravessa o átrio, sobe pelos tetos altos e parece abraçar os alunos que chegam.


“Ó Paula, tu sabes falar chinês?”, perguntam os miúdos à assistente operacional. Quando não sabe “pesca um que perceba.” Foto: Lara Castro/RR
“Ó Paula, tu sabes falar chinês?”, perguntam os miúdos à assistente operacional. Quando não sabe “pesca um que perceba.” Foto: Lara Castro/RR

Há 32 anos na escola, diz que hoje os corredores soam diferentes: “São muitas línguas e não se ouve propriamente o português correto”, diz a rir, sem sombra de censura, apenas com a familiaridade de quem viu e sabe que a escola mudou.

“Ó Paula, tu sabes falar chinês?”, perguntam-lhe os miúdos. Quando não sabe “pesca um que perceba.” Para ela, a barreira linguística nunca foi um muro. Talvez porque, em criança, também emigrou para a Alemanha e sabe o que é “ir para um país em que a gente não percebe nada.” Sabe reconhecer nos olhos dos recém-chegados o mesmo espanto que já foi seu.

As diferenças linguísticas e culturais nunca lhe impediram o afeto, pelo contrário. Conta que acompanhou um aluno russo do 5.º ao 12.º ano. No último dia de aulas, ele ofereceu-lhe um postal da terra natal: “Paulinha, quero que não te esqueças de mim.” Gestos “que marcam para sempre”, porque quando chegam não dizem uma palavra e quando se vão embora já falam português. “É um grande orgulho”, afirma, sorridente.


“São muitas línguas e não se ouve propriamente o português correto”, diz a rir, sem sombra de censura, apenas com a familiaridade de quem viu e sabe que a escola mudou. Foto: Lara Castro/RR
“São muitas línguas e não se ouve propriamente o português correto”, diz a rir, sem sombra de censura, apenas com a familiaridade de quem viu e sabe que a escola mudou. Foto: Lara Castro/RR
Sentada à entrada da escola, Paula é dona de uma gargalhada que atravessa o átrio, sobe os tetos e abraça aqueles que chegam. Foto: Lara Castro/RR
Sentada à entrada da escola, Paula é dona de uma gargalhada que atravessa o átrio, sobe os tetos e abraça aqueles que chegam. Foto: Lara Castro/RR


Crescer numa escola com 46 nacionalidades é, para muitos, uma viagem sem sair do lugar. “É conhecer outras realidades, aprender a vontade de explorar o mundo”, diz Raquel Ribeiro, professora de PLNM. Para ela, cada aluno deixa “uma semente”: um gesto, uma palavra, uma história que muda algo dentro de quem ensina. E confessa: “Aprendo muito mais com a diferença do que só com pessoas iguais a mim”.

Sementes que dão fruto

Para Cristobal, ainda pequeno, o futuro é uma paisagem distante. Já George, com a timidez dos 11 anos, diz que quer “ir para a faculdade e ficar em Portugal”. Parisha partilha o desejo de estudar, mas talvez noutra cidade, “num lugar mais calmo”.

Depois há histórias que já deram a volta, como a de Wildson Junior. Tem 20 anos e chegou à Passos Manuel há quase dez, acabado de sair de Moçambique, para entrar no 7.º ano. Tal como os protagonistas desta história, sabe o que é sentir “uma mudança no estilo de vida”.


Wildson Junior chegou a Portugal vindo de Moçambique, há quase dez anos, e hoje está no primeiro ano de mestrado em Bioquimica para a Saúde. Foto: Lara Castro/RR
Wildson Junior chegou a Portugal vindo de Moçambique, há quase dez anos, e hoje está no primeiro ano de mestrado em Bioquimica para a Saúde. Foto: Lara Castro/RR

Cresceu, estudou e agora está no primeiro ano do mestrado em Bioquímica para a Saúde, na Universidade Nova de Lisboa, depois de concluir a licenciatura no Politécnico de Setúbal.

Acredita que o que mais o ajudou a ultrapassar as dificuldades foi “estar de mente aberta para entender a cultura dos outros” e “partilhar de maneira gentil” a própria.

Quando entra novamente na escola, na mesma entrada alta onde se senta Paulinha, é recebido com festa. Ela abraça-o como quem acolhe um filho que regressa ao lugar onde cresceu. E ele olha à volta — as paredes, a luz, as vozes — como se fosse a primeira vez. Talvez porque, para quem cresce entre tantas línguas, países e ritmos, a escola não é apenas um edifício: é o ponto de partida. E, para alguns, o lugar onde tudo começou a fazer sentido.

Wildson agradece aos professores, ao apoio que recebeu, mas sobretudo àquilo que não vem nos programas, nem nos horários: "A vontade de querer expandir os estudos”. Uma semente que agora dá fruto e que, como tantas outras nesta escola, começou com o esforço de aprender com a diferença.


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