Há 89 anos, Porto de Mós perdeu 36 crianças em instantes. "Tenho dias em que me dá a ideia de que ainda lá estou"

A 8 de dezembro de 1936, o piso de uma escola de Porto de Mós ruiu durante uma cerimónia religiosa. Morreram 44 pessoas, 36 crianças e oito adultos. 20 menores ficaram órfãos. Quase 90 anos depois, a tragédia ainda vive na memória coletiva e no testemunho raro de Clementina, uma das sobreviventes.

08 dez, 2025 - 11:30 • Liliana Carona



Há 89 anos, Porto de Mós perdeu 36 crianças em instantes. "Tenho dias em que me dá a ideia de que ainda lá estou"
Há 89 anos, Porto de Mós perdeu 36 crianças em instantes. "Tenho dias em que me dá a ideia de que ainda lá estou"

O tempo não conseguiu silenciar o pesadelo vivido a 8 de dezembro de 1936. Há 89 anos, a vila de Porto de Mós testemunhou um dos episódios mais trágicos do século XX em Portugal. Numa tarde que deveria ser de celebração, o abatimento de um piso de uma escola primária, improvisada para acolher uma cerimónia religiosa, transformou-se numa catástrofe sem precedentes. No edifício encontravam-se entre 400 a 500 pessoas. O colapso causou 44 mortos, 36 dos quais crianças, entre os 7 e os 13 anos de idade. Um número que representa famílias inteiras marcadas para sempre, vários órfãos, salas de aula que ficaram vazias, e uma comunidade mergulhada num luto coletivo.

Quase 90 anos depois, a tragédia continua presente na memória de Porto de Mós. Está inscrita em placas alusivas ao acidente, preservada em arquivos e jornais da época, e sobretudo transmitida de geração em geração, em relatos contados desde sempre.

"Tininha", a única sobrevivente ainda viva

Clementina da Silva Vieira, nascida a 24 de julho de 1930, tinha 6 anos quando, na tarde de 8 de dezembro de 1936, decidiu ir “ver as meninas da Cruzada Eucarística, associação católica juvenil”. “Havia cá meninas e rapazes que pertenciam às Cruzadas. Elas tinham um lenço como as enfermeiras e uma cruz encarnada nessa bata. O meu pai tinha dito para a minha mãe não me deixar ir, mas o meu pai foi para a caça e a minha irmã tanto forçou que a minha mãe deixou-nos ir.”


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Clementina, de 95 anos, conta que ainda hoje tem pesadelos com a tragédia que presenciou em Porto de Mós. Foto: Liliana Carona/RR
Clementina, de 95 anos, conta que ainda hoje tem pesadelos com a tragédia que presenciou em Porto de Mós. Foto: Liliana Carona/RR

Grupo da Cruzada Eucarística de Alqueidão da Serra, na década de 1930. Foto: Blogue Alqueidão da Serra
Grupo da Cruzada Eucarística de Alqueidão da Serra, na década de 1930. Foto: Blogue Alqueidão da Serra
Escola onde decorreu a tragédia. "As pessoas a fugirem, pisavam-se umas às outras, com o pânico”, conta Clementina. Foto: Liliana Carona/RR
Escola onde decorreu a tragédia. "As pessoas a fugirem, pisavam-se umas às outras, com o pânico”, conta Clementina. Foto: Liliana Carona/RR


A Cruzada Eucarística foi um movimento católico juvenil criado no início do século XX, em França, com o objetivo de fomentar a devoção à Eucaristia entre crianças. Assente no lema “rezar, comungar, sacrificar-se e ser apóstolo”, passaria a designar-se Movimento Eucarístico Jovem (MEJ), em 1960, abandonando a referência à “cruzada” e adotando uma abordagem pedagógica centrada na vida e missão de Jesus. Atualmente, integra a Rede Mundial de Oração do Papa.

O pároco de São Pedro, Reverendo Francisco Carreira Poças, juntamente com o pároco de São João, Reverendo Manuel Carreira Poças, avançou com a criação da Juventude da Ação Católica em Porto de Mós. Para marcar oficialmente o nascimento da instituição, foi organizado um grande encontro juvenil, marcado precisamente para aquela tarde de 8 de dezembro de 1936. Estavam ali crianças oriundas de Leiria, Batalha, Alcobaça, Caldas da Rainha, Torres Vedras e várias outras localidades da região.

Quando Clementina chegou à escola primária, de mão dada com a irmã mais velha, faltava espaço. Furaram entre a multidão à procura de um lugar. “Estava aquilo tudo muito cheio. 'Entra que tu és pequenina', dizia-me a minha irmã. Fui passando, que era garota, mas não chegámos ao meio — se tivéssemos chegado ao meio, tínhamos morrido. A gente ouve um estouro muito grande, fez funil, as garotas todas no meio, essas morreram todas. Pessoas com membros partidos”, descreve, emocionada.

Clementina recorda-se de ter perdido os óculos com o impacto da queda do segundo andar. “E uma senhora dizia-me: não te importes com os óculos, que depois a tua mãe compra-te outros.”

Aquela terça-feira permanece viva nos pesadelos de Clementina Vieira, hoje com 95 anos e a viver no lar da Santa Casa da Misericórdia de Porto de Mós. "Tininha", como é carinhosamente tratada, perdeu a visão há 17 anos, infortúnio que não afeta a descrição minuciosa do que viveu. “Um impacto que não se esquece, tenho dias em que me dá a ideia de que ainda lá estou. Foi um estrondo que só quem viu."


Edifício dos Bombeiros Voluntários de Porto de Mós, no local onde antigamente ficava a escola primária que foi palco da tragédia. Foto: Liliana Carona/RR
Edifício dos Bombeiros Voluntários de Porto de Mós, no local onde antigamente ficava a escola primária que foi palco da tragédia. Foto: Liliana Carona/RR

Memorial frente aos bombeiros de Porto de Mós, dedicado às vítimas da tragédia de 1936. Foto: Liliana Carona/RR
Memorial frente aos bombeiros de Porto de Mós, dedicado às vítimas da tragédia de 1936. Foto: Liliana Carona/RR
Placa evocativa com os nomes e idades das vítimas do desastre. Foto: Liliana Carona/RR
Placa evocativa com os nomes e idades das vítimas do desastre. Foto: Liliana Carona/RR


Nem ela nem a irmã tiveram qualquer ferimento, mas ficaram "com sangue dos outros nos fatos", recorda. "Nem tive noção de que umas crianças já estavam mortas. Saltou muita gente das janelas. Só se ouviam gritos. Macas para levar para Leiria, Alcobaça. Caiu o segundo andar, mas no rés do chão estavam as carteiras e o que tinham retirado do segundo andar e foi tudo parar à cave, com pedras a cair. As pessoas, a fugirem, pisavam-se umas às outras, com o pânico.”

A idosa lamenta as amizades que perdeu então. “Duas irmãs, filhas do Sr. Raposo que trabalhava nas Finanças, morreram lá. Era dia de caça e muitos homens tinham proibido as mulheres de deixarem ir as filhas às Cruzadas, algumas ficaram aterrorizadas porque deixaram que as filhas fossem. Foi o caso dessa senhora, que não sabia como contar ao marido e ele tinha um feitio complicado.”

“Recordar é uma maneira de os nossos mortos continuarem vivos”

Desidéria Costa Alves, de 50 anos, perdeu a vida na catástrofe. É um dos nomes que está na placa evocativa frente ao quartel dos Bombeiros Voluntários de Porto de Mós, onde antigamente se localizava a escola primária.

Ana Sousa, 62 anos, é sobrinha-neta de Desidéria e cresceu a ouvir a história. Falar deste assunto “é uma maneira de os nossos mortos continuarem vivos”, afirma. “Ela acabou por ficar soterrada. A minha tia caiu e ficou viva, mas caiu-lhe uma pedra em cima", conta. "Na minha geração, fomos criados a ouvir falar desse acidente. Agora se calhar com os mais novos acabou-se, mas ainda hoje se lembram sempre os mortos da escola nesta data”, garante Ana Sousa.

Por sorte, António Rodrigues Vala, que tinha apenas 1 ano, ficou com os pais em casa no dia 8 de dezembro de 1936. Tem há várias décadas uma sapataria mesmo ao lado do local onde tudo aconteceu. Toda a vida ouviu os pais falarem do desastre e hoje vê da porta da sapataria a placa evocativa com os nomes, as idades e as localidades de todas as crianças e adultos que faleceram naquela tarde.

“Isto marcou muito a povoação. Tanto que fazem sempre uma homenagem no dia 8 de dezembro e os descendentes ainda vêm aqui pôr flores”, observa, tentando encontrar uma justificação para a tragédia ter assumido dimensões tão pesadas para a comunidade. “O excesso de peso, com as crianças no centro da escola... As vigas eram de madeira. E depois aqui não havia bombeiros, os mais próximos eram de Leiria”, salienta.


António Rodrigues Vala nasceu um ano antes da tragédia, em 1935. Foto: Liliana Carona/RR
António Rodrigues Vala nasceu um ano antes da tragédia, em 1935. Foto: Liliana Carona/RR

Arquivos mostram o que aconteceu, mas não apontam causas do desastre

Os jornais da época retrataram, dias depois, aquela que viria a ser maior tragédia do Século XX no distrito de Leiria. Escreveram sobre as 44 mortes, as centenas de feridos e o socorro que demorou a chegar. O relatório da catástrofe, disponível no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, data de 15 de dezembro de 1936 e informa que, dos 262 feridos, “é de recear que alguns fiquem com incapacidade permanente para o trabalho". O documento detalha ainda o seguinte: "Dos oito adultos que faleceram, cinco deixaram vinte órfãos, sendo que dezassete destes ficam desprovidos de recursos materiais. Na sua maioria, as vítimas pertencem à classe dos trabalhadores rurais e podem considerar-se pobres”. O relatório remete as causas do acidente para posterior investigação.

A catástrofe foi manchete no Diário de Coimbra na edição de 12 de dezembro de 1936 e é recordada anualmente pelo jornal, na data dos acontecimentos. Antes, já o extinto jornal O Mensageiro anunciara a notícia do acidente, no dia 10 de dezembro de 1936, com detalhada descrição dos acontecimentos. A sala, que tem 10m x 8m, cedeu ao peso das pessoas, partindo o vigamento pelo centro", adiantava. "Escorregando caíram todos no primeiro pavimento, que igualmente partiu, despenhando-se as 400 pessoas umas sobre as outras na caixa de ar, ou subterrâneo. Para completar o quadro, metade do vigamento da sala arrancou parte da parede onde estava metido, vindo as pedras cair sobre os que iam escorregando no buraco e sobre os que se encontravam no fundo do mesmo".


Primeira página do Diário de Coimbra de 12 de dezembro de 1936. Foto: D.R.
Primeira página do Diário de Coimbra de 12 de dezembro de 1936. Foto: D.R.

"O que se passou", sublinhava o jornal, "compreende-se, mas não se descreve". "Uma pobre mãe sentada num colchão tinha no regaço bem chegada ao peito uma filhinha morta e outra igualmente morta encostada a seu corpo. Os seus gritos comoviam e obrigavam a derramar lágrimas pois não podia haver consolação para tão grande dor. Pelas estreitas ruas, à luz das lâmpadas da iluminação, encontravam-se a cada passo pessoas conduzindo aos ombros e nos braços crianças mortas. Eram os pais, mais, irmãos, que ao encontrarem os cadáveres de pessoas queridas os arrebatavam e conduziam a fugir para os seus lugares, para suas casas. Os gritos de dor, os clamores, as lágrimas espalhavam por toda a vila uma atmosfera que nos não deixava falar, que nos sufocava."

O artigo do jornal O mensageiro relata ainda o cenário na igreja de S. João. "Alinhados, colocados sobre tapetes, viam-se estendidos uns vinte cadáveres, sendo um dum homem forte, que quase ocupava o espaço das duas filas, de duas mulheres e os restantes de meninas que pareciam sorrir, tal a sua serenidade de rostos, inchados, enegrecidos pela asfixia, que as matara. Uma cena obriga-nos a fugir e com os olhos embaciados apenas perguntámos à pobre rapariga de quem era o cadáver que reconhecera e a que se abraçava. 'É meu irmão! Não me tirem daqui', soluçava. E tentava reanimar quem já não tinha vida. De repente deixa pousar no tapete o cadáver e corre a abraçar-se a outro cadáver, era o duma irmãzita que ali estava também quase no fim da fila dos mortos."

O funeral das vítimas foi marcado para as 16 horas do dia 9, acrescenta a publicação, mas a falta de caixões para tão grande número de cadáveres só permitiu que, nesse dia, se fizesse o enterro de 32 vítimas.

A narração dos factos está também patente num artigo de João Matias, publicado no Jornal O Portomosense em 1996, por ocasião dos 60 anos da tragédia. "Entre as crianças que se encaminharam para a escola, sobressaiam as da Cruzada Eucarística, em seus fatinhos brancos e cruz vermelha sobre o peito. Iam com fé, com alegria; riam e cantavam. Os pais, os familiares, associavam-se-lhes, comungavam a sua alegria e a sua fé. Sentiam todos, no coração, que iam viver uma linda festa. Pelas 16 horas, o Revdº. Pe. Dr. Galamba de Oliveira, com o presidente da Câmara, Dr. Afonso Baptista, e outras individualidades presentes, assumiu a presidência", escrevia o jornalista.

A sala era pequena para tantos que queriam assistir à celebração. "Havia pessoas sentadas nas janelas, havia os muitos que ficaram no átrio e nos corredores. O Dr. Galamba anuncia que vai eleger-se o presidente da Juventude da Ação Católica, começa algumas explicações prévias e ouve-se um estalo de madeira a rasgar, soa um estrondo medonho, em uníssono com um pavoroso grito humano; o pavimento abre-se ao meio, longitudinalmente, onde estão as crianças; bate no pavimento do rés-do-chão; este abre-se, também, dando mais cerca de três metros àquele fatídico funil. Grita-se até poder; levantam-se braços; estendem-se mãos; imploram-se auxílios impossíveis.”



"Pelas estreitas ruas, à luz das lâmpadas da iluminação, encontravam-se a cada passo pessoas conduzindo aos ombros e nos braços crianças mortas", descrevia o jornal O Mensageiro dois dias depois da tragédia. Foto: D.R.
"Pelas estreitas ruas, à luz das lâmpadas da iluminação, encontravam-se a cada passo pessoas conduzindo aos ombros e nos braços crianças mortas", descrevia o jornal O Mensageiro dois dias depois da tragédia. Foto: D.R.
O funeral das vítimas foi marcado para as 16 horas do dia 9, acrescenta a publicação, mas faltavam caixões para tantos cadáveres. Foto: D.R.
O funeral das vítimas foi marcado para as 16 horas do dia 9, acrescenta a publicação, mas faltavam caixões para tantos cadáveres. Foto: D.R.


"Três horas em que uns perderam a vida e outros vivemos anos." O relato do padre Galamba

“Foi um momento, vigas que partem, tábuas a despregar-se, o pavimento inferior rebenta logo e toda aquela mole de corpos, pedras e caliço num montão horroroso de cadáveres, feridos e espavoridos entre uma gritaria ensurdecedora e uivos de loucura... uma visão infernal de cabeças e braços que surgem em sangue do meio dos escombros, enquanto a parede continua a cair enchendo-nos de terra e poeira que entra pelos olhos e pela boca." O relato na primeira pessoa é do padre Galamba de Oliveira, então diretor do semanário católico A Voz de Domingo.

Na edição desse mesmo jornal de 13 de dezembro de 1936, num artigo intitulado "Uma tragédia horrível que enche de luto a Diocese de Leiria", o padre pormenoriza aquele "momento sem dar tempo para pensar". Reproduzimos um excerto: "Por graça de Deus, a dois palmos de mim não se rompera o segundo pavimento. O esticador de ferro apertava horrivelmente as pernas de duas crianças, quebrando-lhas sem as deixar tirar. Por cima de mim era a secretária e seis ou sete pessoas. Pedi que se tirassem. Lá saíram sem me pisar, graças a Deus. Quando pude tirei a secretária e levantei-me. Não sentia nenhuma fratura. Recolhi-me um momento e dei a absolvição sacramental aos moribundos, que adivinhava em grande número. Num grito mandei que saíssem com jeito todos os sãos para depois socorrer os feridos. Não era preciso. Aos murros haviam arrombado a porta estilhaçando os vidros. Outros saltavam pelas janelas cortando as mãos e o rosto nos vidros. Era fugir. Era o instinto natural da vida. Era o pavor. Dos escombros cobertos de pó e de sangue."


Relato na primeira pessoa do padre Galamba de Oliveira, então diretor do semanário católico A Voz de Domingo. Foto: D.R.
Relato na primeira pessoa do padre Galamba de Oliveira, então diretor do semanário católico A Voz de Domingo. Foto: D.R.
"Tudo eram gritos de dor, feridos horrivelmente desfigurados, crianças que os pais levavam mortas ao colo", escreve o sacerdote. Foto: D.R.
"Tudo eram gritos de dor, feridos horrivelmente desfigurados, crianças que os pais levavam mortas ao colo", escreve o sacerdote. Foto: D.R.


O padre Galamba tenta organizar o caos. "Tudo eram gritos de dor, feridos horrivelmente desfigurados, crianças que os pais levavam mortas ao colo. Vim para dentro, mandei alinhar os cadáveres para os não pisarem. Dei uma nova absolvição geral para alguns que ainda tivessem vida. Na varanda a um canto alguém me chama. Uma pobre mulher, creio que com uma perna quebrada, amamenta uma criança. Retira-a do seio à pressa e pede-me que lha batize. Como quer que se chame?— Maria. E com um punhado de água de um balde logo ali a batizo."

Procura-se encaminhar aquela gente para os hospitais o mais rapidamente possível. "A camionete tinha já muitos feridos. Marche para o Hospital de Leiria! Volto ao telefone. Chamo o 90. Não havia médicos. (…) Eram chamadas sobre chamadas. Para Alcobaça, para a Batalha, para as Caldas: médicos, ambulâncias, bombeiros. De toda a parte gente em carreiras. Muitos cuidavam já dos feridos e mortos. Os últimos feridos estavam numa camioneta. Mandam-nos ir para o hospital. Um rapaz do Alqueidão está moribundo. Dou-lhe a absolvição. O chauffeur enjoara e vomitava. Lá pega no volante. Despejam os feridos no hospital. Descemo-los. Por fim uma pobre mulher sobe agarrada ao marido e a mim."

Dentro do hospital, o padre descreve "um alarido enorme" e a dificuldade em manter a cabeça fria. "Pensos, tesouras, barbeiros, ligaduras, desinfetantes, pontos, sangue, muito sangue por toda a parte. Corro as salas, vejo os pobres feridos. A um canto mais mortos ou moribundos. Dou-lhes a absolvição sob condição. Os meus colegas que, apesar de feridos e um gravemente, trabalharam enquanto puderam, haviam-se retirado. Um tinha costelas partidas. Eu estava exausto. Os nervos estalavam. Nem sequer podia chorar. Nas fontes da cabeça o sangue batia com força até doer. Era preciso cuidar também da alma de tantos feridos, alguns dos quais em perigo grave".


Telegrama enviado de Leiria para Lisboa, a dar conta do que tinha acontecido na escola. Foto: D.R.
Telegrama enviado de Leiria para Lisboa, a dar conta do que tinha acontecido na escola. Foto: D.R.

O sacerdote não tem dúvidas: descreve o acidente como o "maior abalo moral" da sua vida. "Três horas em que uns perderam a vida e outros e eu vivemos anos. Não pude comer. Adormeci à meia-noite. Às três acordei sobressaltado. Não consegui voltar a dormir. Se dormitava, um pesadelo enorme açoutava-me as veias, o coração pulsava aflito, parecia faltar-me o ar. Foi anteontem. Parece ainda agora um pensamento fixo o quadro de cenas macabras a que me foi dado assistir."

Nos dias seguintes, "seis a oito mil pessoas quiseram prestar aos mortos a última homenagem", contava então o padre. "Presidiu o sr. Bispo de Leiria. Assistiu o sr. Ministro de Educação Nacional que representava o Governo e muitas autoridades. Era noite e chovia. Dezoito caixões seguiam no acompanhamento. Não temos tempo nem espaço para mais. Para a semana que vem daremos mais notícias.”

No livro "Voz às Memórias. Desastre da Escola Primária de Porto de Mós — 8 de dezembro de 1936: 76.º aniversário", editado pela Câmara Municipal de Porto de Mós em 2012, é possível ler depoimentos de sobreviventes que estavam ainda vivos à data. Num dos registos, "Tininha" fala sobre o “excesso de peso” no piso que abateu.

“Aquilo era para ser feito na igreja, porque metia muita gente, mas como as meninas da Cruzada também eram da escola, o Sr. Padre Galamba disse que era melhor ser na escola e foram para a escola", relata. "E o povo dizia: 'Na escola não, porque é muito peso'. 'Não é nada, não é nada'. E foi. Ele também lá caiu, mas não chegou a cair cá em baixo, porque tinha ficado ao fundo da sala, a um canto, e quando aquilo estalou em volta, veio pedras e tudo e ele ficou lá com os pés num bocadinho. Tiveram de o ir lá tirar com uma escada, que ele não se podia mexer”.

Também os blogues Alqueidão da Serra e Vila Forte dedicam entradas à tragédia de 1936.

O município de Porto de Mós assumiu as despesas dos funerais e foi “aberto no Ministério das Finanças, a favor do Ministério do Interior, um crédito especial de 40.000$", sob a designação "Subsídio à Misericórdia de Porto de Mós", destinado a "despesas com as vítimas da catástrofe de 8 de Dezembro de 1936” — pode ler-se no Diário da República de 3 de abril de 1937.