“Quando eu mais precisava que cuidassem de mim, fui eu quem teve de cuidar”. Ninguém sabe quantos menores tomam conta de familiares

Leonor cresceu a preparar comprimidos, a ajudar a mãe a levantar-se e a dar-lhe banho quando já não tinha forças. Iara passou a cuidar da casa e a fazer massagens à mãe para aliviar as dores da fibromialgia. Sílvia dividia os dias entre a escola, os treinos e a avó com cancro. Hoje são jovens adultas, mas o Estado continua sem saber quantos menores são cuidadores — uma “inversão de papéis” que deixa marcas profundas, alertam psicólogas.

16 dez, 2025 - 06:30 • Beatriz Lopes (reportagem) , Diogo Casinha (sonorização)



Jovens cuidadores em Portugal. Uma realidade sem nome, sem números e cheia de “feridas abertas”
Jovens cuidadores em Portugal. Uma realidade sem nome, sem números e cheia de “feridas abertas”

Estamos num jardim público do Porto. Foi aqui — e não entre quatro paredes — que Leonor Mateus, 19 anos, aceitou falar connosco. Longe de casa, o ar, embora gélido, parece-lhe mais leve para contar o que não costuma ser dito. Senta-se num banco e entrelaça os dedos nos anéis que leva nas mãos — um gesto repetido de quem tenta fixar-se antes que a memória a leve para onde não quer voltar.

“Quando eu mais precisava que cuidassem de mim, fui eu que tive de cuidar”, diz.

A frase sai devagar, como quem mede o que pode expor.

Leonor tinha 13 anos quando tudo começou: a mãe sofreu um acidente de trabalho e foi operada à coluna — “uma operação que não correu bem”, explica. A partir daí, surgiram problemas “nos ossos, nos intestinos, nos músculos… muitos problemas que hoje não têm cura”.

Quando a mãe ficava de cama, sem forças para se levantar, era Leonor quem assumia. “Fazia-lhe a comida, dava-lhe banho, arrumava-a na cama, arranjava-lhe os comprimidos”, descreve. Filha única, com pais divorciados, era ela quem preenchia o vazio deixado por todos os outros. O resto da família estava longe — uns emigrados, outros “a duas horas de caminho” — e as dificuldades financeiras não deixavam margem para outra solução.


Quando a mãe ficava de cama, Leonor Mateus tratava de tudo. "Foi uma das piores fases da minha vida. Eu estava sozinha, não tinha ao que me pegar.” Foto: Beatriz Lopes/RR
Quando a mãe ficava de cama, Leonor Mateus tratava de tudo. "Foi uma das piores fases da minha vida. Eu estava sozinha, não tinha ao que me pegar.” Foto: Beatriz Lopes/RR

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No início, tentou equilibrar tudo. Depois, começou a sentir-se “presa”. “Gostava de ter aproveitado mais… gostava de ter saído mais, de ter vivido mais”, desabafa. Das memórias que guarda, lembra-se de sair cedo para a escola enquanto, no quarto ao lado, a mãe ainda dormia sob medicação: “Era forte, ela ficava a dormir até tarde.”

Dentro da sweatshirt preta larga que veste, Leonor encolhe os ombros, como quem ainda se habitua ao peso que carregou tão cedo. “Honestamente, não desabafava com ninguém. Foi uma das piores fases da minha vida. Eu estava sozinha, não tinha ao que me pegar”, afirma.

Quando tentava pedir ajuda, parecia-lhe que ninguém reparava. “Ficava um bocado mal porque eu estava a tentar fazer o meu melhor e ninguém percebia que eu também estava a passar por alguma coisa.”

Na escola, vivia em alerta constante. “A minha mãe ligava-me a meio das aulas. Eu ficava logo preocupada e ansiosa para a aula acabar e ir a correr para casa ver se estava tudo bem”, recorda. E achava que os professores seguiam o ritmo de sempre, demasiado longe do dela para perceber o que lhe estava a acontecer. “Eu era muito explosiva… acho que eles deviam ter tentado perceber o porquê. Eu estava a passar por muita coisa.”

Pediu apoio psicológico à escola. O pedido entrou no sistema, mas não teve seguimento. “Pedi uma psicóloga, mas nunca me deram acompanhamento.”


"Gostava de ter aproveitado mais. Sinto tristeza porque passei por muita coisa com pouca idade",confessa Leonor. Foto: Beatriz Lopes/RR
"Gostava de ter aproveitado mais. Sinto tristeza porque passei por muita coisa com pouca idade",confessa Leonor. Foto: Beatriz Lopes/RR
Ao mesmo tempo, Leonor reconhece que a experiência precoce a tornou "mais madura, mais compreensiva, independente". Foto: Beatriz Lopes/RR
Ao mesmo tempo, Leonor reconhece que a experiência precoce a tornou "mais madura, mais compreensiva, independente". Foto: Beatriz Lopes/RR


As palavras de Leonor não são exceção — são apenas uma das muitas histórias que o país ainda não conta. Nem o Instituto Nacional de Estatística (INE) nem a Segurança Social recolhem dados sobre menores cuidadores. Não há categoria oficial, não há formulários, não há estatísticas. É uma realidade sem números, sem definição e, por isso, sem resposta.

“Ainda tenho muitas feridas abertas”

A caminho do jardim, ainda antes de nos sentarmos, Leonor repetiu duas ou três vezes — quase como quem se apresenta ao mundo — “Olhem que eu sou de Gaia”. Uma frase simples, dita com firmeza, como quem procura um chão seguro.

É quando se lembra das palavras da mãe que a voz de Leonor abre uma fenda. “Ela muitas vezes diz: ‘Eu gostava de ter-te dado uma vida melhor’…”. Leonor baixa o olhar. “Eu… eu odeio chorar”, murmura, passando a manga pela cara enquanto o eyeliner se esbate. Respira fundo e retoma: “Sinto pena porque gostava de ter aproveitado mais. Sinto tristeza porque passei por muita coisa com pouca idade. Ainda tenho, não digo mágoas, mas muitas feridas abertas por causa disso.”

Mas, com o tempo, encontrou também uma forma de se reconhecer. “A Leonor de antes era muito dependente. Hoje sou mais madura, mais compreensiva. Independente. E isso torna-me mais forte”, afirma.

Foi também na tentativa de compreender melhor o que vivia, e “depois de muita resistência”, que integrou um projeto pioneiro sobre jovens cuidadores. Pela primeira vez, encontrou outros adolescentes com histórias que lhe soavam familiares.

“O projeto mudou a minha vida completamente. Éramos todos diferentes, mas todos iguais — compreendíamo-nos. Conheci pessoas que vou levar comigo para a vida toda”, diz Leonor.

O Projeto Jovens Cuidadores foi desenvolvido em Vila Nova de Gaia pela Porticarers – Associação Cuidadores de Portugal, em parceria com a Câmara Municipal de Gaia e o Instituto Português do Desporto e da Juventude (IPDJ), e financiado através da Portugal Inovação Social. A iniciativa integrou a psicóloga Ana Meireles, que acompanhou de perto estes jovens no terreno e viria depois a avançar para o primeiro estudo português sobre jovens cuidadores.


“Em cada turma, pelo menos três jovens cuidam de familiares”

A ausência de dados foi a primeira barreira. “Em Portugal não há dados que caracterizem esta realidade — é como se não existisse”, alerta Ana Meireles.

A psicóloga e investigadora da Universidade Lusíada do Porto coordenou o primeiro estudo português sobre jovens cuidadores, publicado em 2023 na revista International Journal of Environmental Research and Public Health, sob o título "Being a Young Carer in Portugal: The Impact of Caring on Adolescents’ Life Satisfaction".

O estudo — que envolveu mais de nove mil adolescentes, entre os 12 e os 18 anos, de 17 escolas de Vila Nova de Gaia — revelou que cerca de 10% dos jovens assumem responsabilidades de cuidado. “Significa que, em cada turma de 30 alunos, pelo menos haverá, em média, três jovens nestas circunstâncias”, sublinha.

Essas responsabilidades vão desde tarefas práticas — “como apoiar na alimentação, estar atento à medicação, acompanhar nas consultas médicas” — até formas menos visíveis. “Pode ser também um acompanhamento emocional, de ter de estar disponível”, acrescenta. “Chegámos a ter jovens que tratavam do IRS da família”, relata. “Tarefas que não esperaríamos nesta idade.”

A identificação destes jovens, explica, não é simples. “Nós não podemos chegar a uma sala de aula e perguntar: ‘Quem é que aqui cuida de uma mãe, de um pai ou de um avô com doença ou incapacidade?’. Provavelmente ninguém ia pôr o dedo no ar — não só por eventualmente vergonha ou estigma, mas até por desconhecer que é um jovem cuidador.” Também as famílias, explica, temem repercussões.

O estudo revelou que o cuidar precoce tem consequências emocionais, sociais e escolares. “Muitas vezes, estes jovens não estão disponíveis para trabalhos de grupo fora das aulas ou para se prepararem melhor para os testes. Por vezes, o próprio sono fica comprometido, sobretudo quando cuidam de alguém que não lhes permite descansar durante a noite”, explica.


Mas nem tudo é negativo. “Também há ganhos em termos de maior maturidade, de competências desenvolvidas com a prestação de cuidados, como a própria relação familiar e de proximidade que é construída e até um sentido de propósito e de vida que muitos relatam.”

Ainda assim, insiste que a invisibilidade institucional agrava tudo. “Um jovem chega atrasado às aulas e o professor pode ficar incomodado, querer penalizar. Mas se soubesse que aquele aluno, antes de vir para a escola, teve de dar alimentação ou fazer a higiene de um familiar, se

calhar reagia de outra forma”, afirma. “Quando o professor sabe, tudo muda para aquele jovem.”


“Tinha muitos momentos de raiva. Queria partir tudo — e partia — no meu quarto, sozinha e gritava. Eu explodia, mas explodia mesmo. As pessoas ficavam com medo de mim”, descreve Iara, de 18 anos.

Do trabalho de investigação nasceu agora o projeto “Care4_YC.PT – Cuidar de Quem Cuida”, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Com duração de três anos, inclui um inquérito nacional a cinco mil jovens, estudos com famílias e escolas e a criação de uma plataforma digital de apoio e partilha.

“A ideia é criar uma aplicação que permita que estes jovens se liguem entre si, tenham acesso a informação útil sobre as áreas em que prestam cuidados, e construam uma rede em que não se sintam tão sozinhos.”

O objetivo, resume, “é dar a conhecer esta realidade e colocar o tema na ordem do dia”. “Não podemos continuar a enfiar a cabeça na areia.”

“Fazia tudo pelos outros e esquecia-me de mim”

A rua é estreita, de calçada irregular, e Iara Ferreira acompanha-nos enquanto fala de música com um entusiasmo raro, de quem descobriu na arte um lugar onde, finalmente, cabe inteira.

Quando lhe perguntamos qual a canção que a ajudou nos dias mais difíceis, canta ali mesmo, à capela, “Paradigm”, dos Avenged Sevenfold, a sua banda favorita. A música é pesada, metal progressivo, mas na voz doce e calma de Iara soa quase como um contraste com aquilo que viveu: anos em que a raiva explodia por dentro e por fora, antes de aprender a segurá-la.


Iara começou a cuidar da mãe quando tinha 9 anos. Lembra-se de a ver "muito magrinha, a falar baixinho” e de sentir "medo que ela falecesse”. Foto: Beatriz Lopes/RR
Iara começou a cuidar da mãe quando tinha 9 anos. Lembra-se de a ver "muito magrinha, a falar baixinho” e de sentir "medo que ela falecesse”. Foto: Beatriz Lopes/RR

“Tinha muitos momentos de raiva. Queria partir tudo — e partia — no meu quarto, sozinha e gritava. Eu explodia, mas explodia mesmo. As pessoas ficavam com medo de mim”, descreve.

A história começa quando tinha nove anos e a mãe sofreu um AVC. Iara lembra-se de ver a mãe “muito magrinha, a falar baixinho” e de sentir um medo novo: “Tinha medo que ela falecesse”, recorda.

Vieram depois as dores constantes, o diagnóstico de fibromialgia, um problema cardíaco que podia desencadear outro AVC, e uma casa que precisava de continuar a funcionar. Era Iara quem a mantinha de pé: “Fazia a cama, lavava a loiça, punha a mesa, varria, aspirava, limpava casas de banho, carregava os sacos das compras… e fazia-lhe massagens quando ela não aguentava as dores.” Com o tempo, o cuidado transformou-se também em vínculo — um lugar só delas: “A minha mãe diz que sou a melhor amiga dela. E acho que ela também é a minha melhor amiga”, afirma.


“Abram os olhos. Se calhar a prioridade é mesmo perceber quem realmente precisa de ajuda: as pessoas que passam por dificuldades reais e tentam escondê-las", aconselha Iara.

A pressão maior vinha de dentro. “Não queria desiludir a minha mãe nem o meu padrasto, que sempre tentou ajudar e foi um pai para mim”, explica. E mesmo mudando cinco vezes de escola, mesmo sofrendo bullying — “chegava a casa toda pisada, rasgavam-me os trabalhos” — as notas mantiveram-se impecáveis. “Eu pensava ‘tenho de ser boa aluna, tenho de ser boa filha, tenho de ser a filha perfeita’. Era a minha obrigação orgulhar a minha mãe”, diz.

Mas o corpo começou a dar sinais, agravados pela relação conturbada com o pai biológico. Aos 11 anos, Iara deixou de comer, perdeu peso, foi internada. E vieram as insónias, tratadas até hoje com medicação pesada: “Se eu não tomar aquilo, eu não durmo. Não prego olho.” A certa altura, a vida reduziu-se a um lugar estreito, onde os dias se repetiam e a saída parecia distante. “Houve momentos em que achei que ninguém percebia. Dizia que não queria mais estar aqui”, recorda.

Quando fala da adolescência, o sorriso de Iara nunca chega a firmar-se. “Nunca fui a festas. Como cresci muito rápido, aquilo parecia-me uma barbaridade.” Os seus tempos livres cabiam num quarto: livros que devorava numa noite, e música para abafar o resto do mundo. Mesmo sendo aluna exemplar, o reconhecimento nem sempre aparecia. Recorda-se de um dia, numa aula de Português, em que escreveu um texto que a professora recusou acreditar que fosse seu. “Diminuiu-me e humilhou-me à frente da turma toda. Nem quis ouvir o que eu tinha para dizer”, critica.

Com o tempo, Iara foi encontrando outros espaços onde finalmente era vista. Num deles — o projeto no qual participou a psicóloga Ana Meireles — descobriu jovens como ela. “Mudou completamente a minha vida. Tínhamos psicólogas, dinâmicas de grupo, apoio ao estudo. Foi das coisas mais importantes que vivi”, conta.

Depois de tudo o que passou, Iara está hoje a trabalhar. Diz ter ainda “muita guerra emocional” que não lhe permite seguir para a universidade — pelo menos, por agora. A mãe está mais estável e a família tem hoje uma rede de apoio, mas Iara não esquece quem continua invisível aos olhos do Estado. “Abram os olhos. Se calhar a prioridade é mesmo perceber quem realmente precisa de ajuda: as pessoas que passam por dificuldades reais e tentam escondê-las.”


“Não queria desiludir a minha mãe nem o meu padrasto", recorda Iara. Foto: Beatriz Lopes/RR
“Não queria desiludir a minha mãe nem o meu padrasto", recorda Iara. Foto: Beatriz Lopes/RR
Aos 11 anos, Iara deixou de comer, perdeu peso, foi internada. Começou a tomar medicação pesada para dormir, de que ainda hoje necessita. Foto: Beatriz Lopes/RR
Aos 11 anos, Iara deixou de comer, perdeu peso, foi internada. Começou a tomar medicação pesada para dormir, de que ainda hoje necessita. Foto: Beatriz Lopes/RR


Aos 18 anos, tenta agora centrar-se em si. Diz que se tornou mais calma, mais madura, capaz de dominar a raiva que antes a fazia “partir tudo”. Pensa estudar Criminologia e imagina para si uma vida “calma, simples e feliz. Aprendeu que cuidar dos outros não pode significar desaparecer de si. “Eu perdi-me, mas no fim encontrei-me”, afirma.

Escolas estão “atentas”, mas diretores pedem levantamento nacional sobre jovens cuidadores

Nas escolas, professores e psicólogos já se apercebem de alunos que assumem responsabilidades familiares acima da idade. “Sabemos que, muitas vezes, os pais saem de casa bastante cedo e são os irmãos mais velhos que, ao fim e ao cabo, são cuidadores dos mais novos e fazem aquela preparação matinal de jovens de pequena idade”, exemplifica Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP).


“O desempenho escolar pode diminuir nestes jovens, porque têm uma tarefa muito importante, complementar à vida normal de um estudante", alerta Filinto Lima.

Embora as escolas não disponham de dados concretos, o fenómeno é cada vez mais reconhecido. “É uma realidade a que estamos atentos”, diz Filinto Lima, que defende um levantamento nacional sobre jovens cuidadores.

“Seria bastante importante que a tutela, ou uma entidade competente, como a Segurança Social ou o INE, realizasse um levantamento sobre os jovens cuidadores. Muitas vezes não há essa perceção nas escolas, mas é um fenómeno que está a ganhar algum terreno”, afirma.

Filinto Lima alerta que o papel de cuidador pode comprometer o percurso escolar. “O desempenho escolar pode diminuir nestes jovens, porque têm uma tarefa muito importante, complementar à vida normal de um estudante.”

Em casos mais graves, as situações podem ser comunicadas às Comissões de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ). “Há casos que configuram certa ilegalidade e também os conselhos de turma estão atentos a jovens que possam estar, de facto, a cuidar dos seus pais ou familiares num contexto adverso para a sua vida e para o processo de aprendizagem.”


Muitas vezes não há essa perceção nas escolas, mas é um fenómeno que está a ganhar algum terreno”, afirma Filinto Lima, presidente da Associação de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas. Foto: DR
Muitas vezes não há essa perceção nas escolas, mas é um fenómeno que está a ganhar algum terreno”, afirma Filinto Lima, presidente da Associação de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas. Foto: DR

Para o presidente da ANDAEP, é essencial reforçar as equipas de apoio psicológico nas escolas, garantindo um maior acompanhamento dos alunos em situações de vulnerabilidade. “Neste momento há um número razoável de técnicos especializados, mas, até para prevenir este tipo de situações e para acompanhar estes casos, será necessário haver mais técnicos.”

O dirigente defende também uma maior articulação "entre as escolas, as autarquias, a Segurança Social ou outro tipo de associações", para enfrentar "um fenómeno que começa a emergir no panorama da sociedade e também com reflexos no dia a dia de um estudante.”

Mas o impacto não se esgota nos corredores da escola. Começa, sobretudo, na forma como o cuidar se entranha no desenvolvimento emocional.

“Cuidar é um gesto de amor, mas não deve ser uma responsabilidade”, alerta psicóloga

Vânia Sousa Lima, psicóloga e professora na Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica do Porto, alerta que quando o cuidar surge demasiado cedo, pode comprometer o desenvolvimento emocional e relacional de uma criança ou adolescente. “Cuidar pode

ser uma expressão de afeto e de amor, mas não deve traduzir-se em responsabilidade”, avisa.


“É um pouco como a máscara de oxigénio no avião — em caso de despressurização, deve colocar-se a máscara primeiro em nós, e só depois nas pessoas que de nós dependem”, defende a psicóloga Vânia Sousa Lima.

Segundo a especialista em relações familiares, o fenómeno da “inversão de papéis” acontece quando “as figuras parentais confiam na criança para obter conforto ou para prover às suas próprias necessidades emocionais, físicas ou pragmáticas”, explica, o que pode gerar culpa e levar o jovem a sentir-se “com menos valor” — algo que “muitas vezes se repercute na vida adulta.”

Em contexto escolar, a professora aponta sinais de alerta: faltas, atrasos, isolamento, dificuldades de concentração e verbalizações de preocupação pelos pais. “Importa perceber em que medida dificuldades deste tipo podem decorrer da responsabilização pela prestação de cuidados a figuras parentais”, explica.

O problema, diz, surge quando o cuidar ocupa o lugar do brincar: “Neste período desenvolvimental, a criança deve brincar, fruir, estar com os pares e descobrir-se a si e ao outro.” “A 'hiper-responsabilização' pode interferir com estas competências”, alerta.

Vânia Sousa Lima defende que os jovens cuidadores devem ser reconhecidos e apoiados, à semelhança dos cuidadores adultos. “É relevante atender também a populações mais jovens, particularmente quando esta função não é expectável”, defende.

Para isso, é essencial articular famílias, escolas, serviços de saúde e comunidade. “Familiares, vizinhos, amigos e entidades específicas", afirma, "podem e devem ter um papel importante, não apenas na sinalização, mas também na derivação de respostas efetivas”, sublinha.


Ainda assim, mesmo com redes de apoio, muitos jovens cuidadores sentem-se sozinhos e acabam por esquecer-se de si próprios, evitando expressar necessidades “por medo de não serem ouvidos ou de se tornarem um peso”.

É por isso que a psicóloga insiste na importância do autocuidado e do pedido de ajuda. “Pedir ajuda é também uma forma de cuidar de si próprio e de aumentar a probabilidade de que, de forma mais integrada, esses cuidados sejam prestados também aos pais”, afirma, recorrendo a uma metáfora: “É um pouco como a máscara de oxigénio no avião — em caso de despressurização, deve colocar-se a máscara primeiro em nós, e só depois nas pessoas que de nós dependem”, conclui.

Quando cuidar não apaga: ilumina

Depois das histórias de Leonor e de Iara — marcadas pelo isolamento e pela inquietação — chega a vez de Sílvia Santos, 18 anos. Há dois anos, cuidou da avó paterna, doente com cancro, enquanto tentava manter a rotina da escola e dos treinos de natação de competição. É, entre os três retratos, aquele que respira com maior leveza. Não porque tenha sido fácil — “foi tudo muito rápido”, recorda — mas porque Sílvia nunca caminhou completamente sozinha.

“Falei muitas vezes com as psicólogas… Bastava mandar uma mensagem e elas estavam lá, sempre prontas. Sempre tive aquele sentimento de segurança da parte delas.” E acrescenta: “Os meus pais estiveram sempre aqui para mim.”

Todos os dias, havia um ritual. “Acabava as aulas, ia a casa, mudava-me e vinha ver a minha avó. Era cansativo, mas eu tinha aquela força de ‘vou sair, vou ver a minha avó’”, recorda. A proximidade afetiva dava algum conforto, mas não travou a rapidez do declínio. “Ao fim de um ou dois meses, ela já estava acamada”, conta. Sílvia dava a comida à avó mesmo quando ela a rejeitava, punha-lhe o oxigénio quando o tirava sem perceber, sentava-se ao lado da cama “só para ver se estava tudo bem”.


A perda da avó paterna aproximou Sílvia Santos, ainda mais, da avó materna, hoje com 81 anos. FOTO: Beatriz Lopes/RR
A perda da avó paterna aproximou Sílvia Santos, ainda mais, da avó materna, hoje com 81 anos. FOTO: Beatriz Lopes/RR

A morte chegou sem que tivesse tempo para se preparar. “Foi muito injusto… Ela era uma pessoa muito alegre, muito ativa, saía todos os dias… e vê-la ficar presa naquela cama... Nunca aceitei, e nunca vou aceitar, a forma como ela ficou doente”, diz.

Hoje, quando revisita essa fase, a voz baixa quase sem querer: “Eu estava muito cansada.” E logo se corrige, como quem procura justiça consigo própria: “Mas aproveitei tudo. Fiz asneiras, saí à noite… aproveitei ao máximo e continuo a aproveitar porque só se vive uma vez.”

Depois da perda, aproximou-se ainda mais da avó materna, hoje com 81 anos — a mesma que nos recebeu em casa, sentada ao lado dela no sofá, de mãos dadas. Foi o único caso, entre os jovens contactados pela Renascença, em que a conversa aconteceu no espaço íntimo da família. Desde a morte do marido, a avó “nunca mais foi a mesma”, confessa Sílvia, que percebeu que a sua presença podia aliviar a solidão do luto.

Aos fins de semana, Sílvia ajuda “no que for preciso”: tratar da roupa, lavar a loiça, levar a avó às consultas. Mas é sobretudo nas conversas que se encontram. “Às vezes até me ponho a contar-lhe da minha vida… e ela põe-se a rir, a pensar que eu sou louca”, diz Sílvia, enquanto olha para a avó, que sorri antes de confirmar: “É uma boa neta… companheira… confia muito em mim.” Há noites em que ficam a falar até à uma da manhã; outras em que basta estarem sentadas lado a lado para a sala parecer mais leve.

Tal como Leonor e Iara, também Sílvia passou pelo projeto dedicado a jovens cuidadores, onde, pela primeira vez, percebeu que não era a única. “Senti-me mais à vontade para me expressar, porque eram pessoas que estavam a passar pelo mesmo”, afirma. Houve um exercício que não esquece: escrever aquilo que sentia. “Tristeza, solidão, stress, ansiedade, depressão.” Foi a primeira vez que conseguiu pôr palavras no que carregava — e “dizê-las em voz alta” tornou tudo mais claro. “Nunca é fácil, até hoje. Às vezes ainda me emociono”, admite.

A experiência deixou marcas, mas também direção. Hoje estuda Gerontologia e quer seguir Enfermagem. “Quero ajudar pessoas que estão a passar pelo mesmo que elas [avós] passaram.” Descreve-se como “ambiciosa, divertida, extrovertida”. E guarda uma frase que a acompanha desde que tudo começou: “Nunca desistir, manter-me forte, porque tudo vai ficar bem e tudo vai passar.”


Reino Unido “é uma referência e uma inspiração”

Enquanto em Portugal o tema dos jovens cuidadores continua sem reconhecimento formal, há países onde esta realidade é acompanhada há muitos anos, lembra Ana Meireles, psicóloga e investigadora da Universidade Lusíada do Porto. “Em países como o Reino Unido, a Suécia, os Estados Unidos ou a Austrália, calcula-se que entre 6 a 8% dos jovens sejam cuidadores — são percentagens bastante significativas”, diz.

No Reino Unido, há levantamentos regulares, organismos públicos dedicados e medidas específicas para apoiar estes jovens: “A possibilidade de justificar faltas, alterar avaliações, ter apoio psicológico, aceder a redes de entreajuda e até contar com um sistema de retaguarda, com instituições ou pessoas que dão apoio em casa”, explica a investigadora.

“É uma referência e uma inspiração”, afirma Ana Meireles. “Os colegas britânicos ficam surpreendidos com a nossa realidade, mas têm vontade de nos ajudar a construir respostas.” Ainda assim, sublinha, “mesmo lá é difícil chegar a todos”.


“Cuidar é um gesto de amor, mas este peso não pode cair sozinho sobre uma criança ou um jovem. Tem de ser partilhado — pelo professor, pela psicóloga, pela enfermeira, pelo médico", afirma Ana Meireles

Outros países seguem caminho semelhante. Na Suécia e na Noruega existem programas nacionais desde o início dos anos 2000, com acompanhamento psicológico gratuito e campanhas de sensibilização nas escolas. Na Austrália, o governo federal criou em 2019 a Young Carers Network, que oferece bolsas de estudo, informação online e uma linha de apoio 24 horas. Em Espanha, regiões como a Catalunha e o País Basco começaram a mapear estes jovens e a incluí-los nas políticas sociais.

Em Portugal, o contraste é evidente. Ana Meireles lembra o caso de um jovem que acompanhava a mãe em tratamentos oncológicos, mas ficava à porta do hospital por ser menor de idade. “Não podia entrar, nem ser considerado acompanhante, e muitas vezes passava horas à espera no carro”, recorda. “Falta esse reconhecimento também nos serviços de saúde.”

Mesmo para os adultos cuidadores, o apoio é limitado. “A realidade dos cuidadores informais é quase caricata”, diz. O estatuto criado em 2019 “tem muitas restrições” e “só uma pequena percentagem recebe apoio e não pode trabalhar ao mesmo tempo”. Para os jovens, a distância é ainda maior: “Seria fundamental termos medidas específicas como temos para atletas ou trabalhadores-estudantes — porque estes jovens também têm necessidades próprias e merecem reconhecimento e cuidado.”

Na opinião da investigadora, há algo essencial a reter: “Cuidar é um gesto de amor, mas este peso não pode cair sozinho sobre uma criança ou um jovem. Tem de ser partilhado — pelo professor, pela psicóloga, pela enfermeira, pelo médico. Alguém que ajude a dividir esta fatura e a tornar mais leve aquilo que carregam”, conclui.

A Renascença contactou a Segurança Social e o Ministério da Educação para obter esclarecimentos sobre esta ausência de reconhecimento e eventuais medidas em estudo, mas não obteve resposta até ao fecho desta reportagem.

Lutar por um futuro

Chegadas à idade adulta, Leonor, Iara e Sílvia começam finalmente a ocupar o espaço que antes lhes faltava. No projeto escolar para jovens cuidadores descobriram uma palavra que, durante anos, não souberam aplicar a si próprias: reconhecimento. Descobriram também que aquilo que viveram tinha nome — e sobretudo que não tinha de ser carregado em silêncio.

Leonor diz que, pela primeira vez, sente margem para pensar adiante: “Antes achava que não ia ter futuro. Hoje sei que vou ter um futuro — e muito bom — e estou a lutar por isso.” Fala dos planos que traça, do dinheiro que poupa, das pequenas conquistas do dia a dia. Mas há um desejo que permanece guardado: “Gostava que a minha mãe me dissesse que tinha orgulho em mim… que eu era capaz.” E acrescenta: “Quero que ela saiba que gosto muito dela. Vou cuidar dela até ao fim da minha vida.”


Nem o Instituto Nacional de Estatística nem a Segurança Social recolhem dados sobre menores cuidadores em Portugal. Foto: Beatriz Lopes/RR
Nem o Instituto Nacional de Estatística nem a Segurança Social recolhem dados sobre menores cuidadores em Portugal. Foto: Beatriz Lopes/RR

Sílvia tenta ainda acertar o passo com a memória: “Quero ter a força emocional de ajudar alguém sem começar a chorar porque me lembro dos meus avós.”

E Iara, que durante a adolescência tantas vezes se sentiu sem saída, encontra agora um ponto de chegada — e de partida: “Eu perdi-me, mas encontrei-me. Não desistas. Um dia a vida recompensa. Agarra-te ao que fizer sentido para ti — eu agarrei-me ao meu futuro.”

Houve, no percurso das três, um período — breve, mas decisivo — em que puderam ser escutadas e respirar sem o peso habitual. Encontraram linguagem, apoio e uma rede que permanece. Muitas outras crianças que cuidam nunca chegam a ter sequer essa possibilidade.

O Estado continua sem saber quantos jovens cuidadores existem, nem que impacto o cuidado precoce tem na escola, na saúde mental ou no caminho profissional. As políticas públicas continuam desenhadas para adultos, deixando estes jovens num território sem proteção, descrito pelos especialistas como “urgente”, “oculto” e “sem resposta”.


Se és um jovem cuidador ou conheces alguém nesta situação, há linhas e serviços que podem ajudar:

· Linha SNS 24 — 808 24 24 24 (aconselhamento psicológico 24h)

· Associação Cuidadores — cuidadores.pt / Linha Verde 800 242 252

· SOS Voz Amiga — 213 544 545 / 912 802 669 / 963 524 660 (apoio emocional)

· SOS Estudante — 915 246 060 / 969 554 545 / 239 484 020 (apoio a estudantes e jovens)

· Programa Cuida-te + (IPDJ) — psicologia gratuita para jovens 12–25 anos

· Serviços Sociais das Escolas — contactar psicólogo ou assistente social


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