Reino Unido “é uma referência e uma inspiração”
Enquanto em Portugal o tema dos jovens cuidadores continua sem reconhecimento formal, há países onde esta realidade é acompanhada há muitos anos, lembra Ana Meireles, psicóloga e investigadora da Universidade Lusíada do Porto. “Em países como o Reino Unido, a Suécia, os Estados Unidos ou a Austrália, calcula-se que entre 6 a 8% dos jovens sejam cuidadores — são percentagens bastante significativas”, diz.
No Reino Unido, há levantamentos regulares, organismos públicos dedicados e medidas específicas para apoiar estes jovens: “A possibilidade de justificar faltas, alterar avaliações, ter apoio psicológico, aceder a redes de entreajuda e até contar com um sistema de retaguarda, com instituições ou pessoas que dão apoio em casa”, explica a investigadora.
“É uma referência e uma inspiração”, afirma Ana Meireles. “Os colegas britânicos ficam surpreendidos com a nossa realidade, mas têm vontade de nos ajudar a construir respostas.” Ainda assim, sublinha, “mesmo lá é difícil chegar a todos”.
“Cuidar é um gesto de amor, mas este peso não pode cair sozinho sobre uma criança ou um jovem. Tem de ser partilhado — pelo professor, pela psicóloga, pela enfermeira, pelo médico", afirma Ana Meireles
Outros países seguem caminho semelhante. Na Suécia e na Noruega existem programas nacionais desde o início dos anos 2000, com acompanhamento psicológico gratuito e campanhas de sensibilização nas escolas. Na Austrália, o governo federal criou em 2019 a Young Carers Network, que oferece bolsas de estudo, informação online e uma linha de apoio 24 horas. Em Espanha, regiões como a Catalunha e o País Basco começaram a mapear estes jovens e a incluí-los nas políticas sociais.
Em Portugal, o contraste é evidente. Ana Meireles lembra o caso de um jovem que acompanhava a mãe em tratamentos oncológicos, mas ficava à porta do hospital por ser menor de idade. “Não podia entrar, nem ser considerado acompanhante, e muitas vezes passava horas à espera no carro”, recorda. “Falta esse reconhecimento também nos serviços de saúde.”
Mesmo para os adultos cuidadores, o apoio é limitado. “A realidade dos cuidadores informais é quase caricata”, diz. O estatuto criado em 2019 “tem muitas restrições” e “só uma pequena percentagem recebe apoio e não pode trabalhar ao mesmo tempo”. Para os jovens, a distância é ainda maior: “Seria fundamental termos medidas específicas como temos para atletas ou trabalhadores-estudantes — porque estes jovens também têm necessidades próprias e merecem reconhecimento e cuidado.”
Na opinião da investigadora, há algo essencial a reter: “Cuidar é um gesto de amor, mas este peso não pode cair sozinho sobre uma criança ou um jovem. Tem de ser partilhado — pelo professor, pela psicóloga, pela enfermeira, pelo médico. Alguém que ajude a dividir esta fatura e a tornar mais leve aquilo que carregam”, conclui.
A Renascença contactou a Segurança Social e o Ministério da Educação para obter esclarecimentos sobre esta ausência de reconhecimento e eventuais medidas em estudo, mas não obteve resposta até ao fecho desta reportagem.
Lutar por um futuro
Chegadas à idade adulta, Leonor, Iara e Sílvia começam finalmente a ocupar o espaço que antes lhes faltava. No projeto escolar para jovens cuidadores descobriram uma palavra que, durante anos, não souberam aplicar a si próprias: reconhecimento. Descobriram também que aquilo que viveram tinha nome — e sobretudo que não tinha de ser carregado em silêncio.
Leonor diz que, pela primeira vez, sente margem para pensar adiante: “Antes achava que não ia ter futuro. Hoje sei que vou ter um futuro — e muito bom — e estou a lutar por isso.” Fala dos planos que traça, do dinheiro que poupa, das pequenas conquistas do dia a dia. Mas há um desejo que permanece guardado: “Gostava que a minha mãe me dissesse que tinha orgulho em mim… que eu era capaz.” E acrescenta: “Quero que ela saiba que gosto muito dela. Vou cuidar dela até ao fim da minha vida.”