Pela mesma razão, e ao contrário de muitas colegas de trabalho, Luísa não consegue acumular empregos ou trabalhar ao fim-de-semana. Vale-lhe o ordenado dos três filhos maiores que vivem com ela e a ajuda do Estado, mas também aí a situação vai complicar-se: no próximo ano, quando Ró completar 18 anos, o abono de família vai desaparecer (cerca de 350€) e restará apenas o complemento de deficiência da filha, à volta dos 220€.
É dinheiro “que importa” e basta pegar na calculadora para perceber. Com a renda de casa acima dos 450€, os produtos ortopédicos da Ró a chegarem aos 300€, as despesas com os dois netos que ali vivem e ainda a conta da água, da luz e a bilha do gás para cozinhar, ao final do mês resta muito pouco. E, na hora de escolher, abdica-se do conforto térmico.
“Eu ainda nem pus água quente. Está a ver? Não há esquentador. Para tomar banho, fervemos a água”, conta, enquanto o neto de dois anos se senta no chão frio de mosaico branco. “Aqui a casa é muito fria. Não temos aquecedores. Nas noites muito frias é cobertores e mantas e pronto”.
O sonho de um café e de um emprego para a filha
Neste T4, onde a maioria das divisões não está virada a sul e não apanha luz do sol, vivem três dos seis filhos de Luísa: além de Ró, estão ali duas filhas que vieram recentemente de Cabo Verde, uma com um filho bebé e outra com uma rapariga de nove anos. De quando em vez, ainda aparece a mãe de Luísa e outro filho que, apesar de trabalhar no setor da construção civil na zona centro, aparece ao fim-de-semana e também ajuda nas despesas.
“A Ró tem um quarto só para ela. Eu também. De resto, quando é preciso, pomos colchão na sala ou lá no meu quarto, que é espaçoso, e deitamos. Para desenrascar, até orientar a vida”.
No Natal, e apesar de ainda não haver dinheiro para o bacalhau e presentes, o plano é juntarem-se todos à mesa para celebrar e agradecer. “Eu tenho fé. Deus vai abrir a porta”.