“Não consigo dormir, com medo.” Cáritas de Braga regista aumento de pedidos para apoio às rendas

Pelo terceiro Natal, a instituição lança uma campanha de apadrinhamento de famílias, numa altura em que vê cada vez mais famílias a bater-lhe à porta para apoio para habitação. Por detrás de cada beneficiário há uma história de sobrevivência. Como a de Sílvia, que tem medo de ficar sem teto, e a de Andreia, que tem dificuldade em encontrar emprego por ser mãe sozinha.

23 dez, 2025 - 06:15 • Isabel Pacheco



“Não consigo dormir, com medo.” Cáritas de Braga regista aumento de pedidos para apoio às rendas
“Não consigo dormir, com medo.” Cáritas de Braga regista aumento de pedidos para apoio às rendas

Na Cáritas Arquidiocesana de Braga vão-se arrumando os cabazes solidários de Natal, numa sala no primeiro andar do edifício. Há sempre mais um que chega. São doações de famílias e de instituições que apadrinham outras tantas famílias. Este ano são 31, o dobro do ano passado.

Um desses cabazes terá como destino a casa de Sílvia Carvalho, 44 anos, sobrevivente de cancro, mãe sozinha. “Tenho uma menina com 4 anos e um menino com onze. E não é fácil”, admite Sílvia, indecisa entre a lágrima e o sorriso, depois da certeza (e da surpresa) de que os filhos, neste dia de Natal, “vão abrir uma prenda”.

Com 600 euros de rendimento mensal, Sílvia confessa que nem sempre há o que pôr sobre a mesa e recorda-nos o Natal em 2019, quando viveu uma “situação ainda mais difícil” . “Na altura, paguei a renda e as contas. Estávamos mesmo no Natal e não tinha nada no frigorifico. Estava vazio”, conta. Foi graças a uma amiga que “a mesa se compôs”, mas já viveu “outras situações também como essa, infelizmente”.

Às dificuldades do dia a dia de uma família monoparental, junta-se a preocupação com a habitação. Sílvia paga uma renda “ainda das antigas”, de 220 euros, mas está na iminência de a perder. “A senhoria quer a casa”, revela.

“Não sei o que fazer, já pensei que vou para a rua. Já pensei nisso muitas vezes, porque não tenho como pagar uma renda”, confessa. Há quatro anos que tem o nome na lista por uma habitação social. “Antigamente era fácil alugarmos uma casa, era para toda a gente. Agora não. Agora as rendas estão absurdas. Agora, nem a habitação é para toda a gente. É um luxo”, lamenta.


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Dezenas de cabazes solidários de Natal acumulam-se na Cáritas de Braga, destinados a 31 famílias carenciadas. Foto: Cáritas de Braga
Dezenas de cabazes solidários de Natal acumulam-se na Cáritas de Braga, destinados a 31 famílias carenciadas. Foto: Cáritas de Braga
É graças à solidariedade de outras famílias que os dois filhos de Sílvia Carvalho “vão abrir uma prenda” neste Natal. Foto: Cáritas de Braga
É graças à solidariedade de outras famílias que os dois filhos de Sílvia Carvalho “vão abrir uma prenda” neste Natal. Foto: Cáritas de Braga


É o pesadelo que, neste momento, mais a atormenta. “À noite, no meu quarto, choro muitas vezes. Não consigo dormir, com medo. O que é que me espera amanhã? Porque hoje eu já sei. Amanhã, não sei”.

Sílvia Carvalho diz viver “um dia de cada vez”.

Discriminada por ser mãe sozinha

É também o caso de Andreia Chaves. Conhecemo-la na véspera de mais uma audiência em tribunal. Aos 35 anos, esta mãe não esconde o nervosismo. Fala connosco enquanto vai mexendo as mãos, sempre inquietas, com o pensamento no dia seguinte.

Com três filhos menores, sobreviveu a uma década de violência física e emocional num casamento que acabou há três anos. “Quando ouves o teu filho a dizer: 'Ó mãe, quando é que isto vai acabar?'... Foi aí que tomei a decisão de me separar. Aí convenci-me que tinha de lutar pelo bem estar dos meus filhos e pelo meu”, recorda Andreia, convicta de que tomou a decisão certa. “Se até agora nunca me faltou nada, não vai ser agora que vai faltar”.


"Parece que seria melhor estarmos com um companheiro a levarmos porrada do que sermos mães solteiras", desabafa Andreia.

No primeiro ano após a separação, Andreia chegou a ter três empregos. Atualmente é auxiliar de limpeza numa escola, a recibos verdes. Com o valor do abono e da pensão de alimentos dos filhos entram em casa mil euros mensais. Mas mais de metade — 520 euros — vai para a renda.

As contas são sempre “muito apertadas”. “É a contar cada cêntimo”, diz-nos a trabalhadora, que admite nunca ter imaginado que fosse tão difícil arranjar emprego por ser mãe sozinha. “Somos discriminadas”, diz revoltada.

“Numa entrevista de trabalho, um senhor perguntou se ia deixar os meus filhos em casa sozinhos para vir trabalhar. Eu disse que não podia trabalhar à noite e que os fins de semana não eram garantidos. Ele disse que, então, não podia ficar comigo, por causa dos três menores ainda a meu cargo”.

Somos prejudicadas por termos filhos. Parece que seria melhor estarmos com um companheiro a levarmos porrada do que sermos mães solteiras”, lamenta indignada.


Depois de "três dias sob fogo cruzado", Muaziza decidiu fugir de Moçambique para Portugal. A ajuda da Cáritas foi fundamental para conseguir endireitar a vida. Foto: Isabel Pacheco/RR
Depois de "três dias sob fogo cruzado", Muaziza decidiu fugir de Moçambique para Portugal. A ajuda da Cáritas foi fundamental para conseguir endireitar a vida. Foto: Isabel Pacheco/RR

Uma sobrevivente de jihadistas que fugiu para Portugal

De mais longe veio Muaziza. Sobreviveu ao ataque dos grupos jihadistas em março de 2021 na vila de Palma, no norte de Moçambique. Foi depois do ataque, que levou à fuga de mais de nove mil pessoas, que a muçulmana decidiu imigrar para Portugal.

“Felizmente consegui sobreviver. Saí ilesa, mas foi muito difícil conseguirmos sair. Foram três dias sob fogo cruzado. Muitas pessoas foram atingidas e perderam a vida ali”, recorda a moçambicana. “Esse foi o ponto final de tudo. Organizei as minhas coisas e vim para cá”.

Demorou quase quatro anos a conseguir cumprir a decisão. Muaziza chegou a Portugal há oito meses. Primeiro Lisboa, depois Braga. Trabalha na restauração pelo ordenado mínimo. Vive num quarto por 300 euros.

A vida acabou por “endireitar-se”, conta-nos com um sorriso e olhos a brilhar. Mas chegar até aqui foi difícil. Desde logo, para assegurar um teto. “Para dar entrada no quarto tens de ter duas rendas. E, naquela altura, já estava um pouco difícil. Foi aí que pedi ajuda aqui [na Caritas] e, felizmente, me ajudaram e consegui o quarto onde estou até agora. Está a correr tudo bem”, conta.

“Agora já estou um pouco organizada e, sim, já não preciso de ajuda”, confirma sorridente. Mas, sublinha, “a vida é difícil”.

“Estas famílias não vivem, sobrevivem”

E é a questão da habitação — ou a falta dela — o principal motivo para os pedidos de apoio que chegam à Cáritas Arquidiocese de Braga.

“Os pedidos de ajuda têm em vindo sempre a aumentar”, revela a presidente da instituição, Ana Santos. “E o pagamento das rendas é um dos maiores pedidos que alguma vez tivemos e, muitas vezes, não conseguimos dar resposta, porque só conseguimos suportar até um determinado ponto”.

Para a responsável, estamos perante um flagelo que arrasta as famílias para sérias dificuldades e que coloca tudo o resto em causa.


“Se as pessoas simplesmente não conseguem ter casa, como é que conseguem ter o resto?”, questiona a presidente da Cáritas de Braga.



“Os pedidos de ajuda têm em vindo sempre a aumentar”, revela a presidente da Cáritas de Braga, sobretudo para apoio no pagamento de rendas. Foto: Isabel Pacheco/RR
“Os pedidos de ajuda têm em vindo sempre a aumentar”, revela a presidente da Cáritas de Braga, sobretudo para apoio no pagamento de rendas. Foto: Isabel Pacheco/RR

“Primeiro não há habitação e, depois, não há preços acessíveis", lamenta. Dificuldades às quais acresce "a exigência de duas, três, quatro rendas pelos senhorios, o que é algo absurdo”, critica.

“Se as pessoas simplesmente não conseguem ter casa, como é que conseguem ter o resto?”, questiona a presidente da Cáritas de Braga, que fala numa mudança de paradigma na pobreza.

“A maioria das pessoas que nos procuram são portuguesas. Muitos trabalham, mas, mesmo trabalhando, não conseguem. Têm de optar por pagar uma renda ou a alimentação. Se acompanham os filhos na escola não têm dinheiro para a luz ou para os medicamentos”.

Ana Santos sublinha: “Estas famílias não vivem, sobrevivem”.

“São famílias com quem provavelmente nos cruzamos na rua e não imaginamos. Essas famílias podem ser a do meu colega ao lado e não imaginamos”.

E se a pobreza pode morar ao lado, também a solidariedade. Os cabazes entregues este anos foram apadrinhados por outras famílias. “Quando falamos de apadrinhamento, falamos de coisas simples que podem realmente fazer a diferença na vida destas famílias”, explica Ana Santos. “Pode ser um brinquedo ou um cobertor”, exemplifica. “São pequenas coisas que trazem alegria na vida de quem apadrinha e [que fazem] a diferença na vida de uma família.”

É o caso da família de Sílvia Carvalho. “É a primeira vez que recebo. Só vejo embrulhos, prendas. Não sei o que tem. Mas, já estou muito feliz por isso”.

Depois de um aumento significativo de pedidos de ajuda em 2024, a Cáritas arquidiocesana de Braga volta a registar uma subida no número de pessoas que bateram à porta. Até setembro, a instituição de ação social da Igreja apoiou 1013 pessoas no atendimento social e atribuiu perto de 50 mil euros para ajuda das despesas de habitação, alimentação ou saúde.


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