Ao nível do acompanhamento juvenil, tem sido desenvolvido um outro projeto com o nome "Abraços que cuidam". Acontece nas escolas leirienses com o principal objetivo de "dar espaço à expressão das emoções e dos sentimentos". Os mais novos têm sido desafiados a desenhar "aquilo que sentiram naquela noite ou, se naquela noite estiveram a dormir, não sentiram e não ouviram nada, o que é que viram no dia seguinte". Tudo é falado, partilhado e tudo começa e termina com um reconfortante abraço "que cura", esclarecem.
Olhamos para o relógio e o turno das duas psicólogas está a acabar. Cumprido o dever, é tempo de pegar no carro e voltar à base. Mas antes, mesmo ao lado da junta de freguesia, encontramos nos Bombeiros Voluntários de Maceira uma outra história que vale a pena contar. Soraia Moniz é, de segunda a sexta-feira, psicóloga clínica de profissão. Por mês garante ainda quatro turnos como bombeira.
Juntando ambas as valências, faz parte das equipas de Apoio Psicossocial da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, que, explica, "intervêm principalmente e maioritariamente com os operacionais no terreno". Ou seja, entre as tarefas contam com visitas a corpos de bombeiros das regiões afetadas, "numa perspetiva de levantar as necessidade existentes" e articulá-las com a Ordem dos Psicólogos, permitindo a ativação da Bolsa de Psicólogos em Catástrofe.
Como ajudar quem tem por hábito deixar tudo para ajudar outros em alturas de tremendo pânico? É esse um dos desafios que tem como missão. "É difícil de gerir, nós estamos sempre aqui para os outros e ter que dizer que não ou ter que escolher ou ter que definir prioridades que obviamente fazem parte da função... E depois também o cansaço acumulado. O ter que trabalhar, o querer trabalhar, o querer ajudar, mas sabendo que deixamos as coisas em casa que se calhar também precisavam da nossa atenção e da nossa dedicação, do nosso apoio", conta Soraia, mesclando o discurso enquanto profissional da psicologia e bombeira voluntária. Com tantos pedidos de apoio vindos de tantos locais, até os bombeiros precisam de alguém que olhe por eles.
Nos últimos tempos, confirma, têm evidentemente aumentado o número de casos relacionados com a tragédia que lhe chegam às mãos. De quem perdeu tudo — a nível pessoal e material. De quem perdeu a esperança — e não a está a conseguir recuperar.
Casos reais de pessoas reais. E o que não se deve fazer? "Não assumirmos simplesmente que vai ficar tudo bem, não chegar ao pé das pessoas e 'ah, não te preocupes, isto resolve-se'. A ideia é que se resolva, claro, mas primeiro temos de validar a dor e a perda desta gente, porque isto é real, há pessoas que ficaram sem nada. Não podemos nesta fase estar a pensar num futuro longínquo, em ficar tudo como era antes. Neste momento, o futuro tem de ser 'o que é que podemos fazer hoje, o que é que podemos fazer amanhã'. Hoje vamos pôr as lonas no telhado, amanhã vamos tratar da documentação para poder reconstruir alguma coisa. A esperança vai-se construindo assim, aos poucos".