Acompanhamento psicológico às populações de Leiria dá um passo de cada vez. "O futuro tem de ser o que podemos fazer hoje"

Como apoiar quem se tenta recompor do atropelamento por um comboio de tempestades? Para todas as idades e condições socioeconómicas, recorrendo a técnicas de respiração ou ao jogo das cores, equipas de psicólogos sublinham que é necessário, antes de mais, não desvalorizar o sofrimento. "Primeiro temos de validar a dor e a perda desta gente, porque isto é real." Sem este acompanhamento, alertam, há o risco de "stress pós-traumático".

25 fev, 2026 - 06:30 • João Maldonado



Acompanhamento psicológico às populações de Leiria dá um passo de cada vez
Acompanhamento psicológico às populações de Leiria dá um passo de cada vez

São Pedro parece, pelo menos por agora, dar algum descanso a Leiria. É hora de almoço e no centro da cidade todos saem para ver o sol que teve finalmente autorização para aparecer à janela sem a companhia do pau-de-cabeleira — as nuvens. As esplanadas estão abertas e bebem-se cervejas na apressada pausa de meio do dia.

Num desarmado olhar tudo parece normalizado. É estranho. Mas quando se olha com atenção aí estão as feridas: vidros partidos, jardins varridos, rastos da desalmada passagem da chuva e do vento. E, como veremos mais adiante, bem maiores do que as perdas materiais são aquelas que escapam à visão e que estão escondidas dentro de cada um. Incluindo, quiçá, aqueles que a esta hora mais quentinha ingerem uma bebida de reconforto e aproveitam os merecidos raios solares. A estabilidade só o é a olho-nu.

São 14h e estamos na Câmara Municipal. Entramos pela porta principal do edifício, subimos e descemos escadas até que, por fim, alcançamos um páteo num dos níveis inferiores. É lá que se encontra o gabinete onde se organiza toda a operação psicológica a cargo da autarquia. São 21 psicólogas que, desde aquela noite horribilis de 27 para 28 de fevereiro, tudo fazem para ajudar, virando-se do avesso e abdicando até de descanso próprio.

"Encontramos também as nossas estratégias e temos a nossa vida pessoal e social e familiar. É aí que vamos buscar energia para depois trazer para o dia-a-dia", viria a dizer no fecho da tarde Catarina, uma das psicólogas municipais que acompanhámos nesta demanda.

Colete amarelo colocado. É igualzinho ao que se tira do carro para sinalizar qualquer perigo na estrada. A diferença é que este diz "Psicólogo" nas costas. A diferença é que este serve para assinalar que ali vai quem está disposto a conversar e aplicar a sua formação para ajudar a ultrapassar sofrimento alheio.


Mais de 250 pessoas já foram atendidas pelas equipas de intervenção psicológica da Câmara de Leiria — da qual fazem parte as psicólogas Catarina e Neuza. Foto: João Maldonado/RR
Mais de 250 pessoas já foram atendidas pelas equipas de intervenção psicológica da Câmara de Leiria — da qual fazem parte as psicólogas Catarina e Neuza. Foto: João Maldonado/RR

Carro municipal atribuído, rota definida. Vamos até Maceira e nem 15 minutos de viagem são. É uma das 20 freguesias do Concelho — por todas elas passam as equipas do "Cuidar + Perto". Catarina Marcelino vai ao volante. Neuza Carvalho no lugar do pendura. Fora a intempérie, desenvolvem a atividade profisisonal nas escolas públicas da região. Por estes dias são, força do ofício, psicólogas ambulantes.

No total já foram apoiadas 254 pessoas neste processo. Foram sendo descobertas por um trabalho de cooperação entre o município central, as juntas de freguesia e associações, instituições ou voluntários — tantos que por estes dias sinalizam casos de preocupação nas zonas mais afetadas pelo comboio de tempestades que atropelou esta área geográfica.

A primeira consulta da tarde não foge à regra. "O meu filho é autista. Vai fazer 12 anos e desde esta tempestade foi muito complicado para ele a nível de transtorno, tanto emocional como psicológico. Ficava muito revoltado devido às situações de não ter luz. Mudou altamente as rotinas. Foi muito complicado a adaptação para conseguir fazer o seu dia-a-dia. Revoltava-se por qualquer coisa, porque não conseguia ter acesso às coisas que normalmente tinha", desabafa esta mãe, que nas raras portas abertas da junta de freguesia a um domingo encontrou a possibilidade de acompanhamento psicológico.

Quase duas semanas sem luz afetam qualquer um. Com um espetro de autismo será ainda mais difícil. Prova disso é que quando a eletricidade regressou as melhorias foram evidentes. "É muito complicado ele conseguir compreender", lamenta.

A consulta de follow-up (seguimento) dá-se no exterior da casa, no pátio junto à estrada — onde está parado o carro da família. É a segunda no espaço de uma semana depois dos "primeiros socorros psicológicos" e de "psicoeducação" terem sido cumpridos. "Tivemos várias famílias com crianças com determinadas perturbações que, numa altura em que estávamos a viver este período muito tempestuoso, tiveram dificuldade em gerir. Estamos a falar concretamente em famílias com crianças com perturbação do espectro do autismo, em que para as crianças as rotinas são essenciais, são fundamentais para manter a estabilidade emocional", explica Catarina no final do acompanhamento, que durou cerca de 20 minutos.

Um mundo novo se apresenta sem luz, sem água, sem escola, sem deslocações pelas estradas cortadas e com os pais em casa sem local para onde rumar. Numa calamidade destas, para que uma criança entenda essa estranha vida alterada, as técnicas possíveis são múltiplas e, claro está, adaptadas a cada caso concreto. Dependendo da idade, haverá "necessidade de explicar aquilo que aconteceu", de dar mundo reconfortando com um "os teus amigos também estão em casa" ou ainda fazer um esforço adicional "de continuar a promover aprendizagens" — como se de uma escola em casa se tratasse.


"Foi muito complicada a adaptação para conseguir fazer o seu dia-a-dia", conta uma mãe ajudada pelas psicólogas. O filho tem especto de autismo. Foto: João Maldonado/RR
"Foi muito complicada a adaptação para conseguir fazer o seu dia-a-dia", conta uma mãe ajudada pelas psicólogas. O filho tem especto de autismo. Foto: João Maldonado/RR

As técnicas, mais ou menos infantis, podem ser aplicadas a todos. Afinal, nem só as crianças precisam de ajuda para ultrapassar o sucedido. Da respiração às cores, Neuza e Catarina deixam-nos duas hipóteses para alcançar a calma quando a ocasião aperta.

"O jogo das cores, que é uma estratégia de distração ou de pausa dos pensamentos negativos e que ajuda aqui no medo e na ansiedade. Vamos agarrar no nosso objeto — que esteja em cima da mesa da escola ou em casa — de que nós mais gostamos e vamos pensar na nossa cor preferida. Qual é? Vamos imaginar o cor-de-rosa. Então vamos nomear e contar todas as coisas cor-de-rosa que estão ao nosso redor", explana Neuza, acrescentando que as conclusões do jogo podem depois ser partilhadas com quem está em redor.

"Inspirar pelo nariz lentamente e, mentalmente, contarmos até quatro, como se estivéssemos, por exemplo, a cheirar uma flor. O ar que inspiramos vamos expirá-lo pela boca também muito lentamente, como se estivéssemos a soprar uma vela devagar. Enquanto isto, colocamos as mãos na nossa barriga, sentimos o movimento da barriga a aumentar e depois a diminuir", detalha Catarina, reforçando-se que todos podem tentar fazer tal exercício — tal como o anterior.

As horas são curtas para a quantidade de apoio psicológico necessário por estas bandas. Desta primeira consulta ao ar livre seguimos caminho até à Junta de Freguesia de Maceira. É que se há quem prefira ter esta ajuda onde vive, há quem ache melhor ideia tê-la num espaço neutro. E os gabinetes providenciados para o efeito por esta junta cumprem o propósito.

As psicólogas que acompanhamos atuam em conjunto, mas também o sabem fazer em separado. Desta vez, ao entrarmos pela sede da freguesia adentro, fazem uma consulta a quatro mãos e cada uma faz ainda outra a título individual. No total são 40 minutos por atendimento.

"São situações que, já antes da tempestade, eram de alguma fragilidade emocional. Estamos aqui a falar de alguns sintomas depressivos, sintomatologia depressiva, que vieram a ser agravados pela tempestade. São pessoas que estão a reagir ainda a essas situações e estão a precisar ainda de partilhar, de falar muito sobre aquela noite, sobre o que está a acontecer agora", resume Catarina.

Neuza destaca ainda a melhoria ao nível da "regulação de emoções" que viu nas consultas desta tarde, especialmente nas crianças. Foram aplicadas, diz, "as estratégias em contexto familiar" que tinham sido passadas nos primeiros socorros psicológicos ao tempo da intervenção inicial — avançando assim ao nível dos "medos e ansiedade" que foram sendo manifestados.


Se há quem prefira ter ajuda psicológica em casa, há quem ache melhor ideia tê-la num espaço neutro, como permitem os gabinetes da Junta de Freguesia de Maceira, em Leiria. Foto: João Maldonado/RR
Se há quem prefira ter ajuda psicológica em casa, há quem ache melhor ideia tê-la num espaço neutro, como permitem os gabinetes da Junta de Freguesia de Maceira, em Leiria. Foto: João Maldonado/RR

Ao nível do acompanhamento juvenil, tem sido desenvolvido um outro projeto com o nome "Abraços que cuidam". Acontece nas escolas leirienses com o principal objetivo de "dar espaço à expressão das emoções e dos sentimentos". Os mais novos têm sido desafiados a desenhar "aquilo que sentiram naquela noite ou, se naquela noite estiveram a dormir, não sentiram e não ouviram nada, o que é que viram no dia seguinte". Tudo é falado, partilhado e tudo começa e termina com um reconfortante abraço "que cura", esclarecem.

Olhamos para o relógio e o turno das duas psicólogas está a acabar. Cumprido o dever, é tempo de pegar no carro e voltar à base. Mas antes, mesmo ao lado da junta de freguesia, encontramos nos Bombeiros Voluntários de Maceira uma outra história que vale a pena contar. Soraia Moniz é, de segunda a sexta-feira, psicóloga clínica de profissão. Por mês garante ainda quatro turnos como bombeira.

Juntando ambas as valências, faz parte das equipas de Apoio Psicossocial da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, que, explica, "intervêm principalmente e maioritariamente com os operacionais no terreno". Ou seja, entre as tarefas contam com visitas a corpos de bombeiros das regiões afetadas, "numa perspetiva de levantar as necessidade existentes" e articulá-las com a Ordem dos Psicólogos, permitindo a ativação da Bolsa de Psicólogos em Catástrofe.

Como ajudar quem tem por hábito deixar tudo para ajudar outros em alturas de tremendo pânico? É esse um dos desafios que tem como missão. "É difícil de gerir, nós estamos sempre aqui para os outros e ter que dizer que não ou ter que escolher ou ter que definir prioridades que obviamente fazem parte da função... E depois também o cansaço acumulado. O ter que trabalhar, o querer trabalhar, o querer ajudar, mas sabendo que deixamos as coisas em casa que se calhar também precisavam da nossa atenção e da nossa dedicação, do nosso apoio", conta Soraia, mesclando o discurso enquanto profissional da psicologia e bombeira voluntária. Com tantos pedidos de apoio vindos de tantos locais, até os bombeiros precisam de alguém que olhe por eles.

Nos últimos tempos, confirma, têm evidentemente aumentado o número de casos relacionados com a tragédia que lhe chegam às mãos. De quem perdeu tudo — a nível pessoal e material. De quem perdeu a esperança — e não a está a conseguir recuperar.

Casos reais de pessoas reais. E o que não se deve fazer? "Não assumirmos simplesmente que vai ficar tudo bem, não chegar ao pé das pessoas e 'ah, não te preocupes, isto resolve-se'. A ideia é que se resolva, claro, mas primeiro temos de validar a dor e a perda desta gente, porque isto é real, há pessoas que ficaram sem nada. Não podemos nesta fase estar a pensar num futuro longínquo, em ficar tudo como era antes. Neste momento, o futuro tem de ser 'o que é que podemos fazer hoje, o que é que podemos fazer amanhã'. Hoje vamos pôr as lonas no telhado, amanhã vamos tratar da documentação para poder reconstruir alguma coisa. A esperança vai-se construindo assim, aos poucos".


Soraia Moniz é psicóloga de profissão. Concilia o trabalho com turnos nos Bombeiros Voluntários de Maceira. Foto: João Maldonado/RR
Soraia Moniz é psicóloga de profissão. Concilia o trabalho com turnos nos Bombeiros Voluntários de Maceira. Foto: João Maldonado/RR

O foco sobre esta região, sobre Leiria, é enorme por estes dias. Mas a verdade é que o início, o dia em que tudo começou, já se deu há praticamente um mês. O medo de que o mediatismo de agora se desvaneça é enorme. Por isso, sublinha a bombeira-psicóloga, a importância de que o acompanhamento dos casos se mantenha vivo.

"Ok, passaram quatro semanas, passaram seis semanas e o som do vento incomoda ou sentem-se mais tristes. Ok, isto é capaz de ser normal. Isto é uma reação normal ao que está a acontecer. Agora se calhar passaram dois meses, passaram três, passaram quatro e ainda apresentamos todos os sintomas, então aí temos de pedir ajuda. Temos de procurar outra solução", reforça.

É tempo de voltar à câmara municipal. Pegamos no carro e lá vamos nós até à garagem do edifício-sede da autarquia. Em jeito de balanço, desafiamos as psicólogas Neuza e Catarina a falarem sobre o impacto do trabalho que têm vindo a desenvolver.

"Se não fosse feito, certamente que a longo prazo iríamos ter aqui população que iria evidenciar sintomas de stress pós-traumático. O trabalho comunitário veio mostrar que as pessoas estão a conseguir reconstruir-se com as estratégias que foram dadas, com o sentido de união da comunidade e isso também foi trabalho das equipas de intervenção psicológica que capacitaram os profissionais, os voluntários e as próprias famílias", entende Neuza.

Catarina garante que "em geral" as pessoas têm conseguido abrir-se, "têm capacidade de partilhar o que estão a sentir". E, nos casos em que tal não acontece, "nós depois acabamos por conseguir lá chegar e as pessoas partilham", conclui. Um trabalho que tem "criado resiliência na população", independentemente "da idade que tenham ou da condição socioeconómica".


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