Procurou explicações. No grupo de corrida falava-se de perimenopausa, de alterações hormonais, de concentração e ansiedade. Investigou, ajustou sono, alimentação, suplementação. Houve melhorias, mas não foram suficientes. “Mesmo fazendo tudo, eu não conseguia produzir.” Ao mesmo tempo, começou a reconhecer padrões antigos: o hiperfoco que a fazia passar horas sem comer, a alternância entre ação intensa e bloqueio absoluto, a hipersensibilidade ao ruído, a dificuldade em iniciar tarefas simples. “Ou estava sempre a petiscar ou passava horas sem comer.” “Quando eu entrava numa coisa, estava 12 horas sem comer, sem beber.” E depois vinha a ressaca.
A avaliação confirmou a suspeita. Foi organizada, levou testes preenchidos. “Eu não venho cá para ser medicada.” Parte de si acreditava que, se tomasse medicação, perderia aquilo que a distinguia — a fonte da criatividade. “Eu achava que aquilo era um superpoder. Que a minha intensidade era a origem do rasgo.” Experimentou.
A criatividade não só não desapareceu, como ganhou contorno. Continuou a haver ideias, ligações improváveis, a capacidade de juntar pontos que mais ninguém via, mas deixou de haver o ruído permanente e a voz interna a dizer que nunca era suficiente. “A criatividade salvou-me a vida”, admite.
Haverá cerca de 150 mil adultos com PHDA por diagnosticar em Portugal
Em Portugal, apesar da ausência de dados nacionais consolidados, a Brainstorm – Associação Portuguesa de PHDA aponta para estimativas internacionais e faz uma projeção conservadora: “Poderá haver cerca de 300 mil pessoas com PHDA em Portugal, e à volta de 150 mil adultos por diagnosticar, sobretudo por falta de informação”.
Criada por cinco adultos com PHDA, a associação nasceu da constatação de que o problema não estava apenas na falta de diagnóstico, mas no que acontece antes e depois dele. “Encontramos várias falhas no sistema que decorrem precisamente da falta de informação e de conhecimento. Falhas que atravessam a escola, o trabalho, a família e o próprio Serviço Nacional de Saúde”, explica Frederico Roldão, cofundador e vice-presidente.
No Serviço Nacional de Saúde, o acesso ao diagnóstico continua a ser um dos maiores entraves. “A principal barreira é a enorme escassez de equipas de saúde mental por todo o país e, dentro dessas equipas, profissionais com experiência em PHDA no adulto”, afirma. “É possível ter avaliação especializada, mas não é fácil obtê-la. É demorada e varia muito de região para região.”
A medicação é outro obstáculo concreto. “O custo é uma barreira significativa”, diz. “Pode chegar a quase 50 euros por mês por uma caixa. Em alguns casos, são necessárias duas.” A isto soma-se o estigma em torno dos fármacos, que leva muitas pessoas a adiar ou recusar um tratamento que “podia mudar significativamente a sua vida”.
No mercado de trabalho, a falta de preparação é evidente. “A esmagadora maioria das entidades patronais ainda não está preparada”, afirma. Frederico Roldão aponta medidas simples que fariam diferença: “Definir prioridades e prazos por escrito, dividir projetos por etapas, reuniões curtas com agenda, espaços com menos distrações ou alguma flexibilidade de horários.” “São medidas de baixo custo e grande impacto”, sublinha Frederico Roldão.