“Há a sensação de estar sempre a falhar”. Mulheres que passaram décadas a culpar-se antes de saberem que tinham PHDA

Pensamento acelerado, culpa constante, exaustão crónica. Em muitas mulheres, a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) é vivida durante anos como falha pessoal. Crescem a ouvir que são desorganizadas, intensas ou distraídas e aprendem a compensar em silêncio, até que algo cede — no trabalho, na maternidade ou no próprio corpo. Qual o custo de anos sem diagnóstico, num sistema pensado sobretudo a partir da experiência de rapazes?

24 mar, 2026 - 07:00 • Beatriz Lopes (reportagem) , Rodrigo Machado (ilustrações) , Diogo Casinha (sonorização)



“Há a sensação de estar sempre a falhar”. Mulheres que passaram décadas a culpar-se antes de saberem que tinham PHDA
“Há a sensação de estar sempre a falhar”. Mulheres que passaram décadas a culpar-se antes de saberem que tinham PHDA

Inês Mutaca, 38 anos, chega com meia hora de atraso e pede desculpa antes de qualquer pergunta. Já está habituada a ter de explicar-se. De tanto se repetir, o atraso ganhou peso próprio. O peso da culpa.

“Isto é a coisa mais PHDA que eu tenho”, diz. “Chego sempre atrasada a tudo, já alerto as pessoas.” Pára por um instante. “Não é uma luta só minha, mas é horrível, horrível. Há este sentimento de vergonha, de culpa.”

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A conversa começa assim, ainda com o gravador a ser ajustado. Inês fala depressa, as mãos acompanham o desvio constante das ideias. Hoje não tomou a medicação que lhe dá fio ao pensamento. “Por isso é natural que eu comece a dizer uma coisa e vá parar a outra”, avisa.

Durante anos, o atraso foi lido como traço de personalidade. Uma piada entre amigas. “O jantar é às nove e meia, mas para a Inês é às nove.” Uma delas esperou por ela a vida inteira. “Já lhe disse para pôr isso na minha lápide”, brinca.

Mas o atraso nunca foi só o relógio. Era a corrida diária. “Todos os dias estou atrasada, saio de casa a correr, chego ao carro e lembro-me que deixei o telemóvel. Volto. Depois lembro-me da lancheira. Volto outra vez. Às vezes já subi dois andares e desci outra vez.” Ri-se, mas trava a meio. “Isto é muito chato. Tu não queres viver isto.”

O diagnóstico de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) chegou tarde e com negação. “Quando a médica me disse, eu respondi logo: eu não.” Inês não se revia na ideia. “Aquilo não fazia sentido nenhum para mim.”


Inês Mutaca começou por resistir ao diagnóstico de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Foto: Beatriz Lopes/Renascença
Inês Mutaca começou por resistir ao diagnóstico de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA). Foto: Beatriz Lopes/Renascença

A comparação com a sobrinha, já diagnosticada com PHDA, reforçava essa recusa. “A minha sobrinha dormia imenso. Dormia 12 horas e à tarde já estava a dormir outra vez.” Para Inês, isso não encaixava. “Eu achava que era o oposto.” Recorda outro episódio que lhe ficou gravado. “Um dia deixei cinco garrafões de água à porta de casa. Cinco. E ela passou por eles e não viu.”

A identificação só veio mais tarde, através dos vídeos que começou a ver na internet sobre PHDA. Situações banais do quotidiano: arrumar a casa e nunca acabar, a desarrumação constante. “Eu deixei de convidar pessoas. Não fazia convívios como queria.” Num dos vídeos, alguém escondia a confusão antes de receber visitas. “Eu vi aquilo e pensei: eu faço isto.”

Tal como Inês, milhares de mulheres vivem grande parte da vida sem saber que têm PHDA. Associada durante décadas à infância e aos rapazes, a PHDA continua a ser pouco reconhecida em mulheres adultas, apesar de não desaparecer com a idade. Ao contrário da ideia comum, não se trata apenas de “falta de atenção”. Como explica a psicóloga clínica Rita Gama Ferreira, especializada em PHDA no adulto, “quando nós falamos aqui do défice de atenção, estamos a falar na verdade não de um défice, mas de uma desregulação.”

O impacto vai muito além da distração. Está sobretudo na dificuldade em iniciar, organizar e concluir tarefas — aquilo a que os especialistas chamam funções executivas. “É exatamente o fazer”, resume. Quando não é identificada, a PHDA pode traduzir-se em anos de culpa, exaustão e sensação de inadequação, frequentemente confundidas com ansiedade, depressão ou falha de carácter.

Viver em esforço máximo. “Não sei como aguentei 37 anos”

Antes do diagnóstico de PHDA, Inês já tinha atravessado outros nomes e outras tentativas de explicação. Durante anos, foi seguida por causa de um transtorno disfórico pré-menstrual e viveu ciclos de depressão profunda associados à TPM (tensão pré-menstrual): quinze dias por mês em queda livre. “Eu chorava, não queria trabalhar, queria morrer.”

Sentia que algo estava errado, mas demorou a ser levada a sério. Resistiu à medicação. “Eu sempre fui contra medicação. Gostava de saber tudo sobre tudo. Achava que aquilo eram antidepressivos, que me iam mudar.” Quando finalmente foi medicada, saiu do fundo. Olha para trás com espanto: “Eu não sei como aguentei sem morrer. Trinta e sete anos.”

A medicação da PHDA não trouxe apenas alívio. Trouxe choque. “Claramente há uma Inês antes da medicação e depois da medicação.” A metáfora surge-lhe de imediato. “O Elvanse na minha vida é como se fosse a magia que a Fada Madrinha faz na Cinderela.” Antes, diz, a cabeça era “aquela gata borralheira, aquela confusão toda… feia”. E o Elvanse vem fazer com que “fique tudo bonito, brilhante. A vida funciona.”

E acrescenta: “As pessoas falam de vozes na cabeça. Não são vozes. É a nossa própria voz a pensar em mil coisas.” A medicação limpa isso. “Ficas com a cabeça limpinha para funcionar.


“As pessoas falam de vozes na cabeça. Não são vozes. É a nossa própria voz a pensar em mil coisas”, explica Inês Mutaca. Ilustração: Rodrigo Machado/Renascença
“As pessoas falam de vozes na cabeça. Não são vozes. É a nossa própria voz a pensar em mil coisas”, explica Inês Mutaca. Ilustração: Rodrigo Machado/Renascença

A mudança chegou também ao lado criativo. Inês é DJ há anos. Antes, tocar música vinha acompanhado de ruído. Pensava constantemente se as pessoas estavam a gostar. Nunca estava totalmente ali. Com a medicação, isso mudou. “Eu estava a desfrutar. Estava presente.” O prazer deixou de ser interrompido pelo medo. “Descobri que podia viver o momento.”

Ainda assim, a medicação não resolve tudo. “Mesmo medicada, chegar a horas é quase por acaso”, diz. Em muitas pessoas com PHDA, a dificuldade está também na chamada cegueira temporal — uma alteração na forma como o cérebro percebe e organiza o tempo, ligada às funções executivas. A atenção pode melhorar com a medicação, mas estimar quanto tempo uma tarefa vai demorar ou conseguir sair a horas continua a ser difícil.

E o mundo à volta não muda ao mesmo ritmo. Inês trabalha também no aeroporto, com horários rígidos. Chegar atrasada continua a ser lido como falha de carácter, não como consequência de uma condição. “Não há tolerância nenhuma. Não existe enquadramento legal. Se uma entidade patronal quiser ser inflexível, pode.” Revolta-a a falta de informação. “Não se fala sobre isto na escola, não se fala sobre isto nas empresas.” Defende que devia haver formação obrigatória, sobretudo para “as chefias” e “os recursos humanos”, porque “as empresas contratam pessoas e as pessoas estão a trabalhar lá dentro”.

Critérios pensados para rapazes, peso extra nas mulheres

O diagnóstico tardio das mulheres tem também raízes históricas. “As primeiras descrições do que hoje chamamos PHDA datam de 1775”, explica a psiquiatra Inês Homem de Melo. “Os primeiros grupos de pessoas descritos foram rapazes e crianças.” A partir daí, os critérios foram construídos com base nessa população. “Esses critérios nunca foram adaptados à apresentação da mulher.”

Enquanto nos rapazes a hiperatividade tende a ser mais motora, visível e disruptiva, nas raparigas manifesta-se muitas vezes de forma interna. “Se tu estás à espera de ver uma criança aos saltos, com uma hiperatividade motora, não vais contabilizar uma pessoa que tem isso mesmo a acontecer dentro da cabeça.” Muitas meninas passam assim despercebidas durante a infância e adolescência e crescem sem diagnóstico.

Na idade adulta, essa inquietação torna-se ainda mais difícil de identificar. Por fora, parecem tranquilas; por dentro, lutam para acompanhar.


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Rita Gama Ferreira dá o exemplo de uma reunião de trabalho: “Eu estou por fora, pareço tranquila, mas eu nem sequer estou a tomar atenção na verdade. Eu preciso de sair dali, preciso de me mexer, preciso de fazer alguma coisa.” Em vez de levantar e interromper, surgem gestos pequenos: mexer no cabelo, roer as unhas, clicar numa caneta. “São comportamentos mais subtis para se adaptarem e serem aceites.”

Há ainda um peso adicional: o género. “Aceita-se que um homem fale mais alto, que interrompa mais, que ocupe mais espaço. Nas mulheres, não tanto.” A pressão social é exigente. “Existe uma expectativa de que elas cheguem a todo o lado, sejam responsáveis, deem conta de toda a gente, sejam cuidadoras.”

Quando não conseguem corresponder a essa imagem de eficiência constante, a leitura tende a ser moral, não clínica. Na prática, muitas chegam ao consultório com outros rótulos acumulados. “Temos depressão, ansiedade, ‘borderline’, perturbações de humor, bipolaridade.” Rita fala em “confusão diagnóstica”, lembrando que cerca de 80% das pessoas com PHDA têm pelo menos outra condição associada, como ansiedade, depressão ou perturbações do humor.

Muitas vezes, a ansiedade e a depressão surgem depois de anos a tentar compensar dificuldades sem saber a sua origem. “Começo a sentir que não me encaixo, que ninguém gosta de mim, que ninguém me compreende.”

A isto junta-se outro fator menos visível: a biologia. Em muitas mulheres, a PHDA torna-se particularmente visível em períodos de grande instabilidade hormonal. “Os estrogénios potenciam a ação da dopamina”, explica Inês Homem de Melo. Quando esses níveis descem (no pós-parto, na perimenopausa) os sintomas agravam-se. “Depois da ovulação, os estrogénios baixam e é tipo uma PHDA em esteroides.”


“Se tu estás à espera de ver uma criança aos saltos, com uma hiperatividade motora, não vais contabilizar uma pessoa que tem isso mesmo a acontecer dentro da cabeça”, sublinha a psiquiatra Inês Homem de Melo. Foto: Beatriz Lopes/Renascença
“Se tu estás à espera de ver uma criança aos saltos, com uma hiperatividade motora, não vais contabilizar uma pessoa que tem isso mesmo a acontecer dentro da cabeça”, sublinha a psiquiatra Inês Homem de Melo. Foto: Beatriz Lopes/Renascença
Cerca de 80% das pessoas com PHDA têm pelo menos outra condição associada, como ansiedade, depressão ou perturbações do humor, esclarece Rita Gama Ferreira, especializada em PHDA no adulto. Foto: Fábio Oliveira/Renascença
Cerca de 80% das pessoas com PHDA têm pelo menos outra condição associada, como ansiedade, depressão ou perturbações do humor, esclarece Rita Gama Ferreira, especializada em PHDA no adulto. Foto: Fábio Oliveira/Renascença


O pós-parto surge como um dos momentos mais críticos. “É talvez a queda mais abrupta de estrogénios que a mulher alguma vez irá experienciar — um verdadeiro precipício estrogénico.” A essa descida hormonal juntam-se noites mal dormidas, aumento de responsabilidades e perda de estratégias compensatórias. “De repente, para além de tudo o que a mulher já fazia, agora tem um bebé.”

As consequências não se ficam pela saúde mental. Estendem-se às relações. “A taxa de divórcio de mulheres com PHDA e de homens com PHDA é muito diferente”, sublinha. “Adivinha quem é mais vezes divorciada? É ela.”

O pós-medicação. “Liguei à minha mãe e disse: ‘A minha cabeça (já) não fala’”

Maria Inês sempre se sentiu diferente. Mas só há dois anos procurou um diagnóstico, quando, sentada em frente a um computador, colapsou ao tentar escrever relatórios clínicos.

A chave foi quando começou a mexer com o meu trabalho”, conta. “De repente, tinha cinco janelas abertas, os miúdos todos misturados e já não sabia onde é que eu estava. O que é que eu estou a fazer? Ao fim de uma hora, não tinha feito um relatório.”

Aos 26 anos, terapeuta ocupacional de crianças com perturbações do neurodesenvolvimento, procurou ajuda psiquiátrica não por si, mas “pelos meninos e pelas suas famílias”. Sentia que já não lhes estava a dar “aquilo que mereciam”. A PHDA sempre esteve lá, mas sem nome: a desorganização, a procrastinação, o cansaço mental. “A cabeça nunca pára de pensar 21 coisas ao mesmo tempo. Lia muitas vezes a mesma coisa e parecia que não ficava nada.”

Em casa, o padrão repetia-se. “Ao final de uma manhã inteira, a casa estava toda mexida e nada arrumado.” Começava uma tarefa, passava para outra, perdia-se no meio e surgia uma frustração difícil de explicar: “Como é que eu não sou capaz sequer de arrumar uma casa?”. Durante muito tempo, interpretou isso como falha pessoal. “Achava que era preguiça.”

A mãe via a intensidade desde cedo. “Sempre fui a miúda que fala muito, que fala muito alto, que tem reações muito extremas. Ria muito, chorava muito, fazia birras.” Na escola, era boa aluna e aprendia depressa, mas distraía-se e distraía os outros. “Diziam apenas que eu era regateira, desatenta, com uma personalidade muito forte.” Em casa, os pais tentaram ajudar como sabiam, mas “há 20 anos isto não se falava. Não era uma questão.”


Na escola, descreviam Maria Inês como "regateira, desatenta”. "Há 20 anos isto não se falava. Não era uma questão.” Foto: Beatriz Lopes/Renascença
Na escola, descreviam Maria Inês como "regateira, desatenta”. "Há 20 anos isto não se falava. Não era uma questão.” Foto: Beatriz Lopes/Renascença

Em 2020, com a pandemia, veio uma paragem forçada e um período depressivo. A medicação ajudou a aliviar pensamentos mais escuros, mas não trouxe a sensação de funcionamento que esperava. “A ansiedade estava sempre lá.” A dificuldade em avançar mantinha-se. “Qualquer coisa que me impedia de mexer, de fazer.”

Depois daquele dia em frente ao computador, decidiu procurar ajuda especializada. Não à procura de um rótulo. “Eu disse logo à médica: eu não estou à procura de absolutamente nada.” O que queria era perceber. “Ninguém quer ter um diagnóstico. As pessoas querem respostas.”

O diagnóstico de PHDA chegou em 2024. Não foi vivido como um choque. “Foi um sentimento de compreender.” A medicação veio depois, em doses baixas e sem grandes expectativas. “Pensei: isto não vai fazer absolutamente nada.”

Mas fez. Na primeira manhã, Maria Inês estava a tomar o pequeno-almoço quando reparou no silêncio. Ficou parada, encostada à cadeira. “A minha cabeça estava em silêncio. Eu só pensava uma coisa de cada vez.” Tentou perceber o que se passava. “Pensei: se calhar estou triste, se calhar estou a entrar numa fase depressiva outra vez.” Até que se lembrou. “Tomei a medicação.”

Pegou no telemóvel e ligou à mãe. “Disse-lhe toda contente: mãe, a minha cabeça não fala.” Pela primeira vez, conseguia ouvir alguém sem fingir atenção. “Antes, eu conseguia continuar a conversa, mas a minha cabeça estava noutras coisas.”

Descreve a diferença em imagens sonoras. “Antes era uma cidade demasiado movimentada, como Nova Iorque: carros, sirenes, pessoas, tudo ao mesmo tempo.” Agora, diz, “é um café tranquilo, música suave, um sítio aconchegante.”

A medicação trouxe também efeitos secundários, como a diminuição do apetite e náuseas, e exigiu ajustes e rotinas. Mas trouxe algo novo: equilíbrio. “Antes era tudo oito ou oitenta. Agora o meio-termo existe.” Hoje, Maria Inês diz ser menos exigente consigo. “Agora percebo melhor as minhas limitações.”

Quando o sucesso atrasa o diagnóstico: “Mais valia que a pessoa se tivesse ‘esbardalhado’”

Para a psiquiatra Inês Homem de Melo, especializada em neurodesenvolvimento no adulto, uma das maiores armadilhas no diagnóstico da PHDA é o sucesso.

“Uma pessoa pode chegar longe na vida, ter várias conquistas, ser bem-sucedida profissionalmente, ter um doutoramento, ter uma casa muito arrumadinha, ter muitos amigos”, descreve. “Mas fazê-lo à custa de um enorme esforço.” O problema, explica, é que a avaliação social, e muitas vezes também clínica, se fixa no resultado final, não no caminho. “Distraímo-nos do percurso que a pessoa teve de fazer para lá chegar.”

Esse percurso, diz, é muitas vezes feito de ansiedade constante, privação de sono e abdicação de vida pessoal. “Há pessoas com PHDA gravíssima que só funcionam em esforço máximo.” Ainda assim, ouvem: “Tu não tens nada, conseguiste isto tudo.” Para Inês Homem de Melo, a lógica é perversa. “Às vezes quase mais valia que a pessoa se tivesse esbardalhado, porque assim percebia-se que precisava de ajuda.”


“A cabeça nunca pára de pensar 21 coisas ao mesmo tempo", recorda Maria Inês. "Lia muitas vezes a mesma coisa e parecia que não ficava nada”. Ilustração: Rodrigo Machado/Renascença
“A cabeça nunca pára de pensar 21 coisas ao mesmo tempo", recorda Maria Inês. "Lia muitas vezes a mesma coisa e parecia que não ficava nada”. Ilustração: Rodrigo Machado/Renascença

A PHDA é, acima de tudo, uma perturbação da execução. “Isto é sobre executar tarefas.” Planear, começar, organizar, concluir. Por isso, explica Inês Homem de Melo, é comum haver desempenhos muito elevados em tarefas complexas e estimulantes e enormes dificuldades nas mais simples: “Ir ao supermercado, preencher uma tabela de Excel, submeter a declaração do IRS, lembrar-se de ir buscar os filhos à escola”.

“O problema não é não saber o que tem de fazer”, explica. “A pessoa sabe a tarefa que tem de fazer, mas tem muita dificuldade em dissecá-la em pequenos passos.” Usa uma imagem recorrente: “É como se tivesse de fazer um bolo, mas só visse o bolo. Não consegue dissecar o passo a passo.”

Essa dificuldade em planear traduz-se numa dificuldade em começar, e a procrastinação instala-se até surgir uma ameaça concreta. “Ou vais ser despedida, ou vais pagar uma multa, ou o professor vai ralhar.” É nesse momento que surge o chamado kick. O stress faz disparar a noradrenalina. “De repente, a pessoa fica quase como se estivesse medicada.” A execução acelera, mas a um custo elevado. “Vai fazer uma noitada, vai deixar de viver, vai negligenciar todos os outros papéis da vida.”

Este funcionamento ajuda a explicar porque tantas mulheres chegam aos cuidados de saúde com diagnósticos de ansiedade ou depressão. “A ansiedade é a dor crónica da PHDA.” Não como causa, mas como consequência. “Trata-se a ansiedade sem ver que por trás está a PHDA.” Em alguns casos, alerta, o efeito é contraproducente: “Tratas e tiras a ansiedade, que era o motor, e a execução cai ainda mais.”

Carla nunca falhou o suficiente para alguém desconfiar

Aos 46 anos, Carla Quintã não chega atrasada. Não tropeça nas horas, não perde reuniões, não falha prazos. Durante anos foi a profissional que antecipava problemas e encontrava soluções quando parecia não haver nenhuma. “Era preciso fazer omeletes sem ovos — eu fazia, era a minha praia”, diz. Cresceu como “uma miúda muito madura, bem-comportada e cumpridora”. Era a responsável, a organizada, a que assumia papéis de liderança sem os procurar. “Eu ia para líder sem querer ser líder.” Nada na sua biografia encaixava na imagem clássica da PHDA. Funcionava demasiado bem para que alguém suspeitasse. O diagnóstico oficial só chegaria há dois anos.

Durante décadas, o que existiu foi desempenho. Na universidade, os trabalhos acumulavam-se até ao limite, mas eram sempre entregues. “Sempre. O modo pânico é o melhor.” As ideias estavam lá — “eu queria, tinha as ideias, partilhava as ideias” — mas não arrancava até sentir a ameaça concreta. “Era preciso eu estar naquele momento de pânico.” Funcionava. Produzia em 24 horas o que outros levavam semanas a fazer. Mas “a um custo muito elevado”: diretas e exaustão. E mesmo quando o resultado era reconhecido, desvalorizava-o. “Se eu fiz isso em 24 horas e os outros levaram duas semanas… se calhar não foi assim tão bom.” Quando lhe diziam que escrevia bem, respondia: “Não escrevo nada.” “Desmerecia sempre.”

Por dentro, o funcionamento era outro. “Eu nunca tive um pensamento linear.” Recorda-se de ler Um, Ninguém e Cem Mil, de Luigi Pirandello, ainda adolescente, e sentir um reconhecimento raro. “Senti pela primeira vez que havia mais pessoas a pensarem como eu. Que tinham várias vozes dentro da cabeça.”


Carla funcionava no limite. "O modo pânico é o melhor." Produzia em 24 horas o que aos outros levava semanas. Mas “a um custo muito elevado”: diretas e exaustão. Ilustração: Rodrigo Machado/Renascença
Carla funcionava no limite. "O modo pânico é o melhor." Produzia em 24 horas o que aos outros levava semanas. Mas “a um custo muito elevado”: diretas e exaustão. Ilustração: Rodrigo Machado/Renascença

Sempre que alguém era brusco, distante, injusto, a conclusão era quase automática: “Eu devo ter feito alguma coisa.”

Questionava-se em relações amorosas, familiares, profissionais. “Queria ser tão correta e justificava tanto que dava informação a mais. Ficava vulnerável.”

“Senti que não estava a ser boa mãe”

A maternidade ampliou tudo. “Constantemente senti que não estava a ser boa mãe.” Trabalhava na área da comunicação cultural, com horários reduzidos por lei, mas produzia para lá das sete horas formais. Se saía à hora, sentia-se em falta. Se ficava, sentia-se culpada. “Há essa sensação de estar sempre a falhar.” Chegava a casa tensa, ansiosa. “A minha desregulação emocional desregulava a minha filha.” E a culpa tornava-se permanente. “Muita culpa. Sempre associada a tudo.”

A psicóloga clínica Rita Gama Ferreira, que acompanha mulheres adultas com PHDA, diz que este medo não é raro. Já teve no consultório mulheres que “queriam ser mães e escolheram não ser” por acreditarem que não seriam capazes. “O que eu acho que é muito triste. Não é falta de capacidade.”

Para Rita, o problema raramente é competência. É ausência de apoio. “Devia existir forma de ajudar estas mães”, defende. “Às vezes é só espaço para falar. Grupos de apoio, psicoeducação.”

Em 2021, Carla teve o diagnóstico de depressão e ‘burnout’. “Eu só pensava em trabalho.” Acordava antes da filha para começar o dia. Quanto mais entregava, mais sentia que precisava provar. “Eu tenho de entregar o melhor possível, que é para não terem nada a dizer de mim.” O mecanismo era sempre o mesmo: elevar a fasquia antes que alguém a questionasse. “Eu tinha tanto medo de que me pusessem em causa.” Parou por indicação médica. Tomou antidepressivos. Durante meses, viveu funcional, mas sem prazer. “Eu já não tinha prazer por nada.”

Quando tentou regressar, já por conta própria, o mecanismo que sempre a salvara deixou de funcionar. “Já nem o modo de pânico funcionava.” Sentava-se ao computador para estruturar um plano e bloqueava. “Olhava para o tapete… depois ia estender a roupa… depois parecia que a cadeira tinha picos.” A hora de ir buscar a filha chegava e “estava frustradíssima porque não tinha produzido aquilo que queria”.


A chegada da maternidade agravou os sintomas de Carla. “A minha desregulação emocional desregulava a minha filha.” A culpa tornava-se permanente. Foto: Beatriz Lopes/Renascença
A chegada da maternidade agravou os sintomas de Carla. “A minha desregulação emocional desregulava a minha filha.” A culpa tornava-se permanente. Foto: Beatriz Lopes/Renascença

Procurou explicações. No grupo de corrida falava-se de perimenopausa, de alterações hormonais, de concentração e ansiedade. Investigou, ajustou sono, alimentação, suplementação. Houve melhorias, mas não foram suficientes. “Mesmo fazendo tudo, eu não conseguia produzir.” Ao mesmo tempo, começou a reconhecer padrões antigos: o hiperfoco que a fazia passar horas sem comer, a alternância entre ação intensa e bloqueio absoluto, a hipersensibilidade ao ruído, a dificuldade em iniciar tarefas simples. “Ou estava sempre a petiscar ou passava horas sem comer.” “Quando eu entrava numa coisa, estava 12 horas sem comer, sem beber.” E depois vinha a ressaca.

A avaliação confirmou a suspeita. Foi organizada, levou testes preenchidos. “Eu não venho cá para ser medicada.” Parte de si acreditava que, se tomasse medicação, perderia aquilo que a distinguia — a fonte da criatividade. “Eu achava que aquilo era um superpoder. Que a minha intensidade era a origem do rasgo.” Experimentou.

A criatividade não só não desapareceu, como ganhou contorno. Continuou a haver ideias, ligações improváveis, a capacidade de juntar pontos que mais ninguém via, mas deixou de haver o ruído permanente e a voz interna a dizer que nunca era suficiente. “A criatividade salvou-me a vida”, admite.

Haverá cerca de 150 mil adultos com PHDA por diagnosticar em Portugal

Em Portugal, apesar da ausência de dados nacionais consolidados, a Brainstorm – Associação Portuguesa de PHDA aponta para estimativas internacionais e faz uma projeção conservadora: “Poderá haver cerca de 300 mil pessoas com PHDA em Portugal, e à volta de 150 mil adultos por diagnosticar, sobretudo por falta de informação”.

Criada por cinco adultos com PHDA, a associação nasceu da constatação de que o problema não estava apenas na falta de diagnóstico, mas no que acontece antes e depois dele. “Encontramos várias falhas no sistema que decorrem precisamente da falta de informação e de conhecimento. Falhas que atravessam a escola, o trabalho, a família e o próprio Serviço Nacional de Saúde”, explica Frederico Roldão, cofundador e vice-presidente.

No Serviço Nacional de Saúde, o acesso ao diagnóstico continua a ser um dos maiores entraves. “A principal barreira é a enorme escassez de equipas de saúde mental por todo o país e, dentro dessas equipas, profissionais com experiência em PHDA no adulto”, afirma. “É possível ter avaliação especializada, mas não é fácil obtê-la. É demorada e varia muito de região para região.”

A medicação é outro obstáculo concreto. “O custo é uma barreira significativa”, diz. “Pode chegar a quase 50 euros por mês por uma caixa. Em alguns casos, são necessárias duas.” A isto soma-se o estigma em torno dos fármacos, que leva muitas pessoas a adiar ou recusar um tratamento que “podia mudar significativamente a sua vida”.

No mercado de trabalho, a falta de preparação é evidente. “A esmagadora maioria das entidades patronais ainda não está preparada”, afirma. Frederico Roldão aponta medidas simples que fariam diferença: “Definir prioridades e prazos por escrito, dividir projetos por etapas, reuniões curtas com agenda, espaços com menos distrações ou alguma flexibilidade de horários.” “São medidas de baixo custo e grande impacto”, sublinha Frederico Roldão.


“Poderá haver cerca de 300 mil pessoas com PHDA em Portugal, e à volta de 150 mil adultos por diagnosticar, sobretudo por falta de informação”, indica Frederico Roldão, cofundador e vice-presidente da Brainstorm – Associação Portuguesa de PHDA. Foto: Fábio Oliveira/Renascença
“Poderá haver cerca de 300 mil pessoas com PHDA em Portugal, e à volta de 150 mil adultos por diagnosticar, sobretudo por falta de informação”, indica Frederico Roldão, cofundador e vice-presidente da Brainstorm – Associação Portuguesa de PHDA. Foto: Fábio Oliveira/Renascença

Também o discurso social que desvaloriza a PHDA tem efeitos diretos. “Aumenta a vergonha, atrasa os pedidos de ajuda e leva muitas pessoas a desistir.” O resultado, diz, é sofrimento evitável: “Na saúde, nas relações, na escola e no trabalho”.

Para a psicóloga Rita Gama Ferreira, a discussão pública em torno da PHDA falha o essencial. Se é moda, se agora “toda a gente tem”, a pergunta devia ser outra: “O que é que nós podemos fazer para que esta pessoa esteja mais confortável no dia a dia?”

Às mulheres que se reconhecem nos relatos desta reportagem, Frederico Roldão deixa uma mensagem simples: “Não estão sozinhas. Não têm nenhuma falha de carácter e não devem esconder-se nem esperar.” Procurar ajuda pode ser o primeiro passo. “Não têm nada a perder. Antes pelo contrário.”

Quando não tratada, avisa Inês Homem de Melo, a PHDA tem custos sérios. “Isto não é uma brincadeira.” Está associada a piores resultados de saúde, maior risco de adições, acidentes e comportamentos impulsivos. “As pessoas com PHDA não tratada morrem 12 anos mais cedo do que a média”, sublinha.

Quando falhar deixa de ser culpa

Durante muito tempo, o problema para Inês, Maria Inês e Carla não foi a falta de capacidade. Foi a forma como se julgavam quando algo corria mal. A conclusão chegava depressa demais: “Sou eu”.

No consultório, Rita Gama Ferreira começa por desmontar essa associação automática entre erro e defeito. A frase que repete às pacientes é desconfortável, mas libertadora: “Eu gostava de dizer que vão sempre falhar. A tentativa de dar tudo só aumenta a probabilidade de falhar mais.” Em vez de compensar até à exaustão, a psicóloga propõe outro caminho: “Vamos identificar pontos fortes e vamos investir neles.”

Para muitas mulheres, o diagnóstico não apaga o passado. Reorganiza-o. A psiquiatra Inês Homem de Melo descreve-o como um ponto de viragem. “O processo de diagnóstico é completamente life changing.” “É um plot twist da tua vida.” A pergunta deixa de ser “o que é que há de errado comigo?” e passa a ser “como é que eu posso viver melhor com isto?”

Para Maria Inês, a mudança mede-se em algo simples: “Não é errado nós termos um diagnóstico… é errado não termos qualidade de vida.”

Inês Mutaca fala também para quem lê e ainda hesita entre vergonha e estigma. “Não é para te desculpar, nem é para andarem com ninguém ao colo.” É para que alguém se reconheça. “Se alguém ler isto e pensar ‘era disto que eu precisava’, então já valeu.”

E Carla, que durante décadas teve medo de não ser suficiente, sabe hoje o que diria à Carla de então: “Tentaria dizer para ser mais gentil com ela própria.”