Era a nona iniciativa semelhante levada a cabo por Mário Soares e uma das mais longas da sua presidência. Durante mais de uma semana percorreu a região, ouviu a população e visitou vários pontos estratégicos. Entre eles, os Estaleiros Navais de Viana do Castelo (ENVC) que já tinham servido de palco para quase todas as campanhas eleitorais. Dessa vez, recebiam a visita de Soares, o Presidente.
“Ele ouviu a comunicação da comissão de trabalhadores, o discurso do presidente da empresa. Saiu preocupado com a empresa dando garantias de que, da parte dele, faria o que pudesse”, conta Gonçalo Fagundes que, na década de 90, integrava a comissão de trabalhadores dos Estaleiros.
O "golpe diabólico" da privatização
Era o início dos anos 90 e de uma crise nos ENVC que, 22 anos depois, terminaria na entrega da empresa à gestão de privados culminando no despedimento de mais de 600 trabalhadores diretamente e outros tantos indiretamente.
Gonçalo recorda as dificuldades praticamente impossíveis de combater no mercado global: “Quando Mário Soares veio à empresa em 92 estávamos a construir navios com preços dos anos 80. E isso é terrível”.
O desfecho parecia estar anunciado. Concretizou-se em 2014 com um processo de privatização dos ENVC que continua a deixar dúvidas a quem, como Gonçalo Fagundes, viveu durante décadas da empresa naval.
“A privatização dos estaleiros foi uma vergonha", insiste Gonçalo, ainda inconformado com a situação.
"A culpa disso foi do ministro, que é hoje Presidente da Assembleia da República, Aguiar-Branco, que apostou fortemente na privatização da empresa”, atira o antigo trabalhador.
Foi um “golpe diabólico” para os trabalhadores, conta. “É o que apelidei de golpe do enlouquecimento dos trabalhadores que, ao fim de dois anos, fartos de estarem desocupados aceitaram o contrato que lhes apresentaram e foram-se embora. A partir daí, fez-se a privatização. Foi diabólico”.