Aumentar equipas e expandir projetos. Como vai ser usado o dinheiro da Fundação Jornada, "obcecada" pelo impacto gerado nos jovens?

Dinheiro que sobrou da JMJ de Lisboa em 2023 está a ser investido em projetos liderados por jovens e para jovens. Fundação Jornada apostou em iniciativas em fases embrionárias por acreditar que o acompanhamento que é dado "pode ter um efeito multiplicador". No final deste ano, abrem novas candidaturas à ajuda financeira. Nesta reportagem, conhecemos três vencedores e como pretendem usar o valor atribuído.

15 abr, 2026 - 06:30 • João Maldonado



Aumentar equipas e expandir projetos. Como vai ser usado o dinheiro da Fundação Jornada, "obcecada" pelo impacto gerado nos jovens?
Aumentar equipas e expandir projetos. Como vai ser usado o dinheiro da Fundação Jornada, "obcecada" pelo impacto gerado nos jovens?

Passa pouco das oito da manhã. É a hora combinada para fazermos esta entrevista, conciliando o trabalho e o estudo das entrevistadas com o projeto que lideram em part-time e voluntariado. “O meu pai já não mora aqui” nasce da experiência pessoal de duas irmãs, Maria (agora com 23 anos) e Madalena (com 19), que há 2 anos, e durante 6 meses, percorreram “um caminho muito duro, com muita dor, mas também com muito amor” – começa por explicar, sem lugar a hesitações, a mais velha das duas.

“Durante este caminho sentimos uma grande solidão. Há coisas que são difíceis de explicar aos outros. É difícil pedir ajuda e pensámos que não gostávamos nada que outros jovens também passassem por isso e se sentissem desacompanhados”, prossegue, questionada sobre a origem deste projeto. A página de Instagram que lançaram resulta, em primeiro lugar, do que Maria foi escrevendo durante a hospitalização do pai, na altura a lutar contra um cancro. A aspirante a advogada foi escrevendo o que ia vendo e “o feedback foi sendo positivo”, recebendo “tantas partilhas de outras pessoas” que percebeu o potencial do que estavam a criar. E daí nasce o que chamam “grupos de partilha”.

Madalena, mais nova, a estudar enfermagem (também em parte devido ao que viveu com a doença do pai), toma a palavra e explica a área pela qual é responsável nesta parceria fraterna. “Criámos este grupo para criar esta rede para jovens entre os 16 e os 25 anos. O que queremos é conseguir acompanhá-los e criar um espaço onde se sintam seguros. Para que exista esta partilha e uma escuta entre jovens.” Sendo que as doenças graves podem surgir em qualquer altura, a entrada é livre, não tendo de acontecer com tempo marcado “em setembro ou no início do ano”.


Com reuniões mensais, os participantes são convidados a interagir da maneira “que lhes faça sentido”. É o acompanhamento, em grupo, de que dizem ter sentido falta quando passaram por situação semelhante. Neste momento contam com cerca de 20 participantes. Um grupo curto, mas “o sonho”, complementa Maria, é conseguir que “um jovem receba um diagnóstico em qualquer parte do país e saiba que se pode dirigir a um hospital – ou a outro sítio – e vai encontrar um grupo com outros jovens com quem possa partilhar a sua dor e sentir-se mais acompanhado”.

As duas irmãs participaram como voluntárias na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa – o primeiro passo para a candidatura a este apoio que acabou por triunfar. “Coincidiu com a altura em que o nosso pai teve o seu primeiro internamento de 15 dias e nós já estávamos inscritas”. Pensaram em desistir, mas por insistência do pai lá foram.


As irmãs Madalena e Maria Conde querem garantir que em qualquer parte do país, perante uma notícias de doença prolongada, quem precisar, entre os 16 e os 25 anos, consiga encontrar "um grupo com outros jovens com quem possa partilhar a sua dor e sentir-se mais acompanhado”. Foto: João Maldonado/Renascença
As irmãs Madalena e Maria Conde querem garantir que em qualquer parte do país, perante uma notícias de doença prolongada, quem precisar, entre os 16 e os 25 anos, consiga encontrar "um grupo com outros jovens com quem possa partilhar a sua dor e sentir-se mais acompanhado”. Foto: João Maldonado/Renascença

“E foi uma emoção muito grande poder estar no último dia, na vigília, e pensar que era uma sorte muito grande estarmos ali, o nosso pai estava no hospital a ver tudo pela televisão e nós podíamos rezar por ele e por todas as pessoas que também estivessem doentes”, recorda Maria sobre esse tempo em que estiveram, como tantos outros jovens de todo o mundo, tão perto do Papa Francisco.

Com o dinheiro que irão receber vão tentar potenciar a ideia, expandindo os grupos de partilha país fora. Estão a criar um manual como “suporte”, que funciona como “uma espécie de guião” que é entregue a embaixadores de vários pontos do país. Estes embaixadores receberão uma formação e ficam aptos a abrir o projeto onde fizer falta. Além disso, para centralizar e profissionalizar a iniciativa, será criado um site. Prometem também “desenvolver iniciativas em dias especiais”, como o dia do cancro, por exemplo. “A sociedade, para que possa ajudar, tem de perceber a realidade, o que é que uma pessoa que está a passar por isto sente, precisa. E isto só é possível se a sociedade estiver atenta.”


O projeto Scholas Cidadania insere-se na organização Scholas Occurrentes, criada em 2013 pelo ainda Cardeal Jorge Bergoglio (que viria a ser eleito Papa e a escolher o nome Francisco nesse ano). Foto: João Maldonado/Renascença
O projeto Scholas Cidadania insere-se na organização Scholas Occurrentes, criada em 2013 pelo ainda Cardeal Jorge Bergoglio (que viria a ser eleito Papa e a escolher o nome Francisco nesse ano). Foto: João Maldonado/Renascença

Furar "bolhas sociais" com Francisco como inspiração

A Scholas Occurrentes é uma iniciativa com projeção mundial. Está presente em cinco continentes, tendo já passado por 70 países e mais de 400 mil escolas. “É um nome latim, quer dizer escolas para o encontro e foi criado por um senhor chamado Jorge Bergoglio, quando ainda era arcebispo de Buenos Aires”, conta, entre risos, Mariana Barradas, a coordenadora pedagógica no nosso país.

A organização internacional surgiu em 2013 (mesmo antes de Bergoglio chegar a Papa) e pretende, explica o site oficial, “transformar a educação e fomentar a inclusão social”, não sendo necessário ser católico para participar nos programas propostos e financiados exclusivamente por doações e apoios globais. A Portugal a ideia chegou em 2018, para se fixar em Cascais, tendo como ponto central a visita do Papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude de 2023 – que por aqui, na sede da instituição, contribuiu até com umas pincelas para um mural de uma sala recheada de arte e que hoje serve como local de encontro de jovens.

Dentro da Scholas Occurrentes, a Scholas Cidadania foi a ideia que conseguiu também garantir o apoio da Fundação Jornada. “Vamos aumentar a equipa, vamos aumentar os territórios onde estamos a atuar neste momento. Para fazer mais estes projetos, para os poder sustentar e que seja feito também gratuitamente para as escolas, é-nos fundamental estes apoios”, conta a coordenadora.

Trata-se de um programa de desenvolvimento de liderança social que pretende capacitar os jovens a agir. O projeto está neste momento a expandir-se para Santarém e pretende continuar a aumentar a rede. “Daqui de Cascais para Oeiras, para Lisboa, de Santarém para Torres Novas”. Na prática a iniciativa desenvolve-se em duas fases. A primeira numa experiência “imersiva” de cinco dias. “Em vez de irem à escola da parte da manhã, vêm ter conosco com os professores. Começam a desenvolver projetos, vão a casa e depois ao longo do ano acompanhamo-los dentro das aulas.”


Mariana Barradas, coordenadora pedagógico da organização em expansão em Portugal. Atrás: o mural que em 2023, durante a Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco ajudou a pintar. Foto: João Maldonado/Renascença
Mariana Barradas, coordenadora pedagógico da organização em expansão em Portugal. Atrás: o mural que em 2023, durante a Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco ajudou a pintar. Foto: João Maldonado/Renascença

“Os jovens saem da sua sala de aula e encontram-se com jovens de outras escolas, que para nós é super importante este encontro entre jovens de escolas públicas, privadas, escolas profissionais, mas também jovens com contextos religiosos diferentes, com contextos sociais diferentes e com contextos económicos diferentes”, numa altura, analisa Mariana Barradas, em que “cada vez mais vivemos em bolhas sociais”.

Do último encontro realizado foram levantadas problemáticas como “a falta de preparação em caso de catástrofe” ou “a discriminação na escola”. Entre as questões colocadas pela organização para fomentar o debate e a partilha de ideias encontramos: quem sou, o que está a acontecer na minha vida, qual é a minha dor na sociedade e que posso tentar aproveitar para transformar? “Acho que tudo é transversal à humanidade. Não é uma questão de religião. É uma questão de proximidade.” O projeto é apresentado às escolas “em parceria com as Câmaras Municipais" e a ideia é que as interrogações levantadas derivem em soluções a implementar.

A segunda fase do projeto corresponde ao acompanhamento dado nas aulas, durante o ano letivo, que normalmente acontece na disciplina de Cidadania. “No caso de não haver a disciplina, também fazemos a continuidade”, enquadrando-se dentro de cadeiras como, por exemplo, Filosofia. Além dos alunos de secundário, há também parcerias desenvolvidas com universidades em Lisboa e em Santarém, onde a proposta passa por trabalhar a “proximidade com pessoas que são diferentes de nós”. Os jovens são desafiados a estar com idosos, crianças ou pessoas com deficiência. “Não desde o 'coitadismo', mas sim desde isto que é ser humano e desde as histórias que cada um tem de vida.”


Sediado no Porto, o projeto U.Academy consiste num programa anual para alunos do ensino superior. Pretende desenvolver competências emocionais e liderança ética, promovendo a saúde mental e a esperança. Foto: U.Academy
Sediado no Porto, o projeto U.Academy consiste num programa anual para alunos do ensino superior. Pretende desenvolver competências emocionais e liderança ética, promovendo a saúde mental e a esperança. Foto: U.Academy

Apoiar quem apoia os outros

A U.Academy nasce em 2016 como ramo da U.Dream (criada em 2012). Se o projeto-mãe visa “concretizar os sonhos de crianças e de famílias a atravessar uma fase delicada de saúde e socioeconómica”, colocando estudantes do ensino superior a trabalhar com tais situações, o projeto que vence o concurso da Fundação Jornada pretende cuidar desses jovens voluntários e da sua saúde mental, capacitando-os “para aprenderem a gerar impacto social positivo nas comunidades”, explica o fundador da iniciativa, Diogo Cruz.

A bondade era muita, mas não havia uma proteção do jovem que estava a dedicar-se a estas famílias e a estas crianças." Focado em promover "a capacitação de competências de liderança comunitária em estudantes de ensino superior" e "permitir que qualquer jovem que queira dedicar-se, fazer voluntariado, ajudar o outro, passe por um processo de capacitação”, o programa U.Academy inclui formações semanais ao longo de um semestre, a que se junta voluntariado igualmente semanal numa das mais de 35 instituições que os alunos têm à disposição. A ideia é “criar uma comunidade de impacto” e, entre os projetos disponíveis, há ações de voluntariado como apoio a idosos em isolamento, trabalhos em centros de dia ou cuidados em canis e gatis.

A maior parte dos inscritos são do Porto e de Braga, mas é também possível participar nas formações à distância, aproveitando o modelo online. “São jovens que partilham um senso de comunidade, de bondade, de fazer bem a alguém, mas que não sabem exatamente como ou por onde começar”, esclarece o fundador.

Com o dinheiro atribuído pela Fundação Jornada, a ideia é “dar o próximo passo”. Ao longo deste ano, a organização quer trazer uma “inovação” ao projeto: “Conseguir incluir no programa, enquanto participantes, jovens de ensino superior que também estão eles em risco de exclusão social”.

Os jovens com deficiência passarão também a ser um dos focos da instituição, para que possam participar nas atividades e também eles consigam contribuir para ajudar a comunidade em que estão inseridos. Isto implica um reforço de recursos humanos. “Precisamos de colaborar com especialistas que conheçam mais e melhor como é trabalhar com pessoas que são jovens com deficiência, como é que podemos eventualmente adaptar os nossos materiais, a própria experiência do voluntariado.”

Por ano, a U.Academy garante que participam 200 jovens nas formações semestrais. No total, dizem já ter conseguido “impactar mais de 1.500 jovens ao longo destes anos”.


Marta Figueiredo, diretora-executiva da Fundação Jornada, que em outubro deste ano abrirá um novo concurso para atribuição de novos apoios financeiros. Neste último foram atribuídos 500 mil euros. Foto: João Maldonado/Renascença
Marta Figueiredo, diretora-executiva da Fundação Jornada, que em outubro deste ano abrirá um novo concurso para atribuição de novos apoios financeiros. Neste último foram atribuídos 500 mil euros. Foto: João Maldonado/Renascença

À procura do "efeito multiplicador"

Na sede em Lisboa onde funciona a Fundação Jornada, Marta Figueiredo descreve a enorme dificuldade que decorreu deste processo de escolha. Afinal, mais de 600 candidaturas resultaram em apenas 20 vencedores. “Olhamos com muita esperança, porque isto não acaba agora. É uma jornada que acaba de começar e, por isso, a expectativa é que possamos apoiar outros projetos mais à frente”, assegura a diretora-executiva do organismo, sorridente. E o mais à frente é já em outubro deste ano, com a abertura de um novo concurso, com garantia de novas ajudas financeiras.

Além dessa nova demanda, pensada para daqui a uns meses, o número de candidaturas recebidas permite à Fundação Jornada elaborar um retrato de ideias que os jovens portugueses estão a cozinhar para melhorar a vida em sociedade. Assim sendo, tendo em conta o elevado género de candidaturas deste tipo que chegaram, e para não haver desperdício, será estabelecida uma parceria com o Departamento Nacional da Pastoral Juvenil. “Vamos aproveitar estas candidaturas para, em conjunto com o Departamento Nacional da Pastoral Juvenil, podermos definir um plano de capacitação e dinamização de centros juvenis de espiritualidade em Portugal.

São planos para o futuro. Para já olhamos o agora e os projetos que venceram o concurso lançado ainda no ano passado. “Isto é para todos, todos, todos e é engraçado que destes 20 projetos diria que cerca de 20% são católicos. Por isso não têm de ser católicos para poder apresentar a candidatura”, sublinha a diretora-executiva, acrescentando que acabaram por “selecionar projetos que estão muito ainda numa fase inicial, exatamente porque acreditamos que o apoio da Fundação pode ter um efeito multiplicador e podemos ter aqui um papel de estruturação e de crescimento”.


São 500 mil euros distribuídos entre 20 projetos, que “têm uma liderança muito forte e estão presentes em diversas áreas de Portugal”. A quantia é avultada, até tendo em conta que há projetos ainda com pequena dimensão, pelo que o controlo tem de ser necessariamente elevado. “Estamos obcecados, no bom sentido, pelo impacto, pela real transformação que se quer gerar nos jovens. A nossa preocupação é que este valor que é aplicado nestes projetos contribua efetivamente para gerar mudança e transformação nos jovens.”

A cada projeto é assim dedicado um plano de acompanhamento e monitorização específico. Daqui por seis meses estará concluído um relatório de impacto para perceber como está a correr a execução, procurando “que o dinheiro seja utilizado da forma mais eficaz e mais eficiente possível”.

É da Fundação JMJ, responsável pela organização do evento que juntou mais 1 milhão de pessoas no Parque Tejo, em Lisboa, em 2023, que nasce, rebatizada, a Fundação Jornada. Parte do dinheiro gerado pela vinda do Papa Francisco a Portugal na Jornada Mundial da Juventude está, deste modo, a ser usado para “apoiar, promover e capacitar jovens”, alavancando projetos que querem fazer a diferença no país.

O programa chama-se “Jovens Agentes de Esperança” e pretende explorar exatamente o que o nome indica: “jovens que querem ser agentes de esperança em Portugal”. Em termos de valores atribuídos a cada vencedor nesta edição, varia entre os 10 e os 30 mil euros. A Fundação está neste momento em fase de contratualização para os conseguir, precisamente, atribuir.


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