Quando a luz falha, eles continuam ligados. Como se vive fora da rede elétrica?

Quando o país fica às escuras, há casas onde nada muda. É como se vivessem num apagão constante — não por acaso, mas por escolha. Em diferentes pontos de Portugal, há quem tenha construído a sua própria rotina sem depender da rede elétrica.

28 abr, 2026 - 06:48 • Lara Castro



Quando a luz falha, eles continuam ligados. Como se vive fora da rede elétrica?
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28 de abril de 2025, 11h33. A rede elétrica ibérica colapsa e o país apaga; 60 milhões de pessoas, durante várias horas, ficam às escuras, com as rotinas suspensas. Mas para algumas famílias, aquele dia não trouxe novidade, porque vivem há anos longe do sistema.

É como se vivessem num apagão constante. Produzem a própria energia com painéis solares, captam água de nascentes e organizam o dia em função da natureza. Têm luz, máquina de lavar roupa e internet, “o básico de conforto e luxo”, dizem, mas sem depender de um sistema que pode falhar.

“Pelos vistos houve um apagão internacional”, partilhou Alice nas redes sociais, há um ano. “Aqui continuamos com tudo”.

Desbravar o mato, assentar madeira, criar abrigo. Como nasce uma casa autossustentável?

Martelos, pregos, aparafusadoras e um tico-tico foi tudo o que Alice e André Montanha precisaram para erguer o lugar onde hoje vivem. Em 2016, decidiram virar a vida do avesso e adotar o apelido “Montanha” — que, conta Alice, nasceu do desejo de “traçar um caminho novo” e da vontade de “subir para ver o que está lá em cima”.

As paredes que revestem o lar onde hoje vivem já ouviram passos de crianças e lições do passado. Hoje, estes pedaços de madeira fazem parte de outra história. Um conto que se escreve entre o cantar dos pássaros, o sussurro das folhas, os cantares da pequena Celeste e os risos do irmão Aldo.


Em 2016, Alice e André decidiram virar a vida do avesso e adotar o apelido “Montanha” — que nasceu do desejo de “traçar um caminho novo” e da vontade de “subir para ver o que está lá em cima”. Foto: Lara Castro/Renascença
Em 2016, Alice e André decidiram virar a vida do avesso e adotar o apelido “Montanha” — que nasceu do desejo de “traçar um caminho novo” e da vontade de “subir para ver o que está lá em cima”. Foto: Lara Castro/Renascença

Este “pequeno paraíso” fica a 15 minutos de Amarante. Para lá chegar, o carro fica a 500 metros do caminho: o resto faz-se a pé, descendo até ao vale. Junto à casa, o silêncio do campo é interrompido pelos saltos das crianças no trampolim.

A 130 quilómetros, mas noutro ritmo e noutro cenário, a história repete-se com outra paisagem.

O latir do cão é a campainha que avisa a chegada. Joana Costa e Yassine Benderra vivem há 16 anos rodeados do Parque Nacional da Peneda-Gerês. O terreno que sustenta as raízes da casa era leira de cultivo, terra que acolhia o milho, o feijão e o centeio.


Há 16 anos que Joana Costa e Yassine Benderra vivem rodeados do Parque Natural da Peneda-Geres. Depois de anos a percorrer Portugal inteiro, chegaram ao Soajo. Foto: Lara Castro/Renascença
Há 16 anos que Joana Costa e Yassine Benderra vivem rodeados do Parque Natural da Peneda-Geres. Depois de anos a percorrer Portugal inteiro, chegaram ao Soajo. Foto: Lara Castro/Renascença
“Uma mina, um tanque e uma nascente” era tudo o que tinham no terreno quando o compraram em 2010. Foto: Lara Castro/Renascença
“Uma mina, um tanque e uma nascente” era tudo o que tinham no terreno quando o compraram em 2010. Foto: Lara Castro/Renascença


Joana estudou Microbiologia e Yassine Osteopatia. Depois de anos a percorrer o país, chegaram ao Soajo, por recomendação de amigos. Bastou um passeio pela serra para escolherem ficar. Foi nesse instante que perceberam que aquele era o lugar onde queriam assentar.

Joana estava grávida quando chegou à vila dos 24 espigueiros. O nascimento do primeiro filho foi celebrado pelos soajeiros, “habituados a ver partir” — há décadas que não nascia uma criança numa casa da vila. Até o jornal local escreveu sobre a nova criança, símbolo “do regresso à terra”.

Mas não vieram sozinhos. Depois de comprarem o terreno, “vários amigos acampavam e ficavam fins de semana, meses”, naquilo que acabou por se transformar em permanência. Com o tempo, alguns desses visitantes também compraram terrenos e casas, e foram ficando, dando continuidade a um movimento que mudou discretamente a dinâmica da aldeia.


Joana estava grávida quando chegou à vila dos 24 espigueiros. O nascimento do primeiro filho foi celebrado pelos soajeiros, “habituados a ver partir”. Foto: Lara Castro/Renascença
Joana estava grávida quando chegou à vila dos 24 espigueiros. O nascimento do primeiro filho foi celebrado pelos soajeiros, “habituados a ver partir”. Foto: Lara Castro/Renascença

Não vieram sozinhos. Com o tempo, alguns amigos também compraram terrenos e casas, e foram ficando. Foto: Lara Castro/Renascença
Não vieram sozinhos. Com o tempo, alguns amigos também compraram terrenos e casas, e foram ficando. Foto: Lara Castro/Renascença
Bastou um passeio pela serra para escolherem ficar. Foi nesse instante que perceberam que aquele era o lugar onde queriam assentar. Foto: Lara Castro/Renascença
Bastou um passeio pela serra para escolherem ficar. Foi nesse instante que perceberam que aquele era o lugar onde queriam assentar. Foto: Lara Castro/Renascença


“Uma mina, um tanque e uma nascente” era tudo o que tinham quando compraram o terreno. A casa foi sendo construída ao longo dos anos, “integrada no vale, com materiais naturais e baixo impacto energético”, contam as mãos de Joana, Yassine e de quem por ali foi passando para ajudar.

A entrevista é interrompida por um apagão interno — a luz da casa falha, mas não há alarme, nem grande surpresa. Foi apenas um inversor do sistema elétrico, instalado recentemente, que está com um problema por resolver. Yassine levanta-se e vai tratar do assunto, com calma.

É nesse pequeno desvio do normal que a pergunta se instala.

Mas, afinal o que é viver fora da rede?

Não há uma realidade única, nem um modelo fechado. É uma forma de organizar o dia a dia sem depender da rede central de energia e abastecimento, e sem abdicar totalmente do conforto moderno, mas vivendo dentro dos limites do que é gerado.

É a partir desta lógica que estas duas famílias estruturam as suas casas e a sua rotina, ainda que com soluções diferentes em cada caso.

A energia é o primeiro eixo desta vida fora da rede, e em ambas as casas começa no mesmo ponto: o sol.

Na casa de Alice e André Montanha, um pequeno sistema solar alimenta o essencial do dia a dia. Os dois painéis permitem usar máquina de lavar roupa, frigorífico, eletrodomésticos, carregar dispositivos e ter internet. A energia acumula-se em duas baterias de chumbo recicláveis, uma opção escolhida por ser menos impactante do que o lítio, que implica maior degradação ambiental.

Mas aqui a questão não é apenas técnica, trata-se de gestão de consumo.


A consciência energética é um dos pilares deste estilo de vida: quanto menor o consumo, menor a dependência. Foto: Lara Castro/Renascença
A consciência energética é um dos pilares deste estilo de vida: quanto menor o consumo, menor a dependência. Foto: Lara Castro/Renascença
 A herbalista e o engenheiro agrónomo acreditam que é possível “ter o básico de conforto e luxo, tendo consciência do consumo energético". Foto: Lara Castro/Renascença
A herbalista e o engenheiro agrónomo acreditam que é possível “ter o básico de conforto e luxo, tendo consciência do consumo energético". Foto: Lara Castro/Renascença


A consciência energética é um dos pilares deste estilo de vida: quanto menor o consumo, menor a dependência. A herbalista e o engenheiro agrónomo acreditam que não se deve ficar preso em excesso às tecnologias e que é possível “ter o básico de conforto e luxo, tendo consciência do consumo energético e daquilo que implica a nossa relação energética com o meio envolvente.” Essa lógica chega também ao quotidiano das crianças, “que sabem que têm de desligar a lâmpada senão não podem carregar a Nintendo”.

No Soajo, o sistema é semelhante na estrutura, mas diferente na escala.


Na casa de Joana e Yassine, oito painéis solares instalados no telhado são o suficiente para uma vida energeticamente “muito simples". Foto: Lara Castro/Renascença
Na casa de Joana e Yassine, oito painéis solares instalados no telhado são o suficiente para uma vida energeticamente “muito simples". Foto: Lara Castro/Renascença

Na casa de Joana e Yassine, oito painéis solares instalados no telhado acumulam energia numa bateria de lítio, reaproveitada de um carro elétrico — “uma bateria que era nova”, contam, mas cujo veículo “teve de voltar para trás”. É o suficiente para uma vida energeticamente “muito simples”: lâmpadas durante todo o ano, carregamento de telemóveis, computadores e ferramentas, e um frigorífico, mas só no verão.

E como se vive sem frigorífico?

A horta funciona como principal fonte de alimentos frescos, complementada por idas semanais ao mercado. A alimentação organiza-se em torno do que é colhido e consumido no momento. Como não comem carne ou peixe, os produtos lácteos tornam-se a principal exceção à regra.

No verão, o queijo e a manteiga passam para um pequeno frigorífico recentemente adquirido. Até aí, eram guardados numa caixa colocada numa nascente, onde a temperatura se mantém constante.

Com o passar dos anos, este equilíbrio entre produção e consumo foi exigindo novas alternativas e adaptações. O sistema elétrico que instalaram recentemente passou a permitir algo que até há pouco tempo não era possível: “Ter uma máquina de lavar a roupa com temperatura e aquecer a água para tomar banho.”

Aqui a energia cruza-se com outra questão essencial: a água.

Uma ETAR de plantas, onde as raízes filtram a água

“Haver água pura e boa com abundância” é, para Yassine, a maior riqueza do lugar onde vivem. A nascente, “que corre o ano todo”, serve para tudo: beber, cozinhar, regar a horta ou usar na casa de banho.

A água vem diretamente da mina através de tubagens que a distribuem por todo o terreno, por via de um sistema de reservatórios desenhado para funcionar “por gravidade, sem recurso a energia”. Tudo foi pensado ao detalhe, incluindo a localização da casa: se estivesse mais acima no terreno, explicam, “seria necessário bombear a água e voltar a depender de energia.”


 As águas cinzentas, da loiça ou dos banhos, são encaminhadas para uma estação de tratamento de água com plantas: uma “ETAP”. Foto: Lara Castro/Renascença
As águas cinzentas, da loiça ou dos banhos, são encaminhadas para uma estação de tratamento de água com plantas: uma “ETAP”. Foto: Lara Castro/Renascença

Também aqui nada é deixado ao acaso. As águas cinzentas, da loiça ou dos banhos, são encaminhadas para uma estação de tratamento de água com plantas: uma “ETAP”. Plantas macrófitas como bananeiras, agapantos e lírios, filtram a água através das raízes, absorvem nutrientes, ajudam a oxigenar a água e devolvem-na ao solo já purificada, fechando o ciclo.

Um ciclo que só funciona porque, desde o início, simplificaram tudo o que entra na água: os sabonetes, feitos por Joana à base de azeite e plantas, são biodegradáveis e não contaminam.

E é na contaminação que as águas cinzentas se distinguem das águas negras, que resultam da casa de banho e incluem fezes e urina. A opção por casas de banho secas elimina esse tipo de resíduos do sistema, reduzindo a complexidade do tratamento.

Como funciona uma casa de banho seca?

O nome é autoexplicativo: se é seca, não há água. Em vez de descarga, os resíduos são depositados num compartimento seco e cobertos com material estruturante, como serrim ou serrilha, que ajuda a controlar odores e a iniciar o processo de decomposição.

Depois, os resíduos são recolhidos e seguem para compostagem. Para já, este é o sistema que usam, mas estão a desenvolver uma alternativa: uma sanita convencional, com água, ligada a um filtro ecológico natural, ou seja, um sistema de saneamento que recorre a minhocas e microrganismos para tratar as águas residuais negras.

Também em Amarante, no lar de Alice e André, se utiliza o mesmo sistema de gestão e tratamento de águas. A diferença está na água de consumo, que nesta casa passa ainda por um filtro lento de gravidade antes de ser bebida.

O primeiro passo para fora da rede

A história do casal Montanha, que agora se escreve com dois filhos, e um terceiro a caminho, começou depois de um ano a viver na Invicta.

Tinham pouco mais de 20 anos e uma carrinha que era casa e que, tal como uma andorinha, migrava de lugar em lugar, até que escolheram as margens do rio Zêzere, na Serra da Estrela, para passar o Inverno. Tencionavam arranjar um terreno para estacionar a casa e ter uma horta. A comunidade acabou por lhes ceder uma quinta com uma casa, em regime de comodato (empréstimo gratuito), durante seis meses.


A maternidade despertou em Alice “uma grande vontade de voltar para casa”: Amarante, a cidade onde cresceu e onde queriam que a vida continuasse a crescer. Foto: Lara Castro/Renascença
A maternidade despertou em Alice “uma grande vontade de voltar para casa”: Amarante, a cidade onde cresceu e onde queriam que a vida continuasse a crescer. Foto: Lara Castro/Renascença
Durante a construção da casa, viveram cinco meses sem eletricidade nem gerador. André trazia as ferramentas carregadas e a “necessidade ensinou a contruir”. Foto: Lara Castro/Renascença
Durante a construção da casa, viveram cinco meses sem eletricidade nem gerador. André trazia as ferramentas carregadas e a “necessidade ensinou a contruir”. Foto: Lara Castro/Renascença


Sem água corrente nem eletricidade, numa pequena casa no Sameiro, em Manteigas, Alice não se lembra “de estar tão em paz”. A água vinha da fonte e era transportada num carrinho de mão; acordavam com o sol e deitavam-se com ele, em harmonia com os ciclos da natureza. Viviam à luz das velas e partilhavam a mesa com a comunidade, que lhes abria a porta e “mostrava a vida real”.

Quando esse período terminou, mudaram-se para outra casa também cedida pela mesma comunidade, a casa onde viriam a ter o primeiro filho.

O nascimento de Aldo trouxe-lhes a necessidade de uma estrutura maior. Depois de dois anos entre montanhas e vales da Serra da Estrela, mudaram-se para Portalegre, também em comunidade e sem pagar renda, vivendo da terra. Mas foi a maternidade que despertou em Alice “uma grande vontade de voltar para casa”: Amarante, a cidade onde cresceu e onde queriam que a vida continuasse a crescer.

Em 2021 mudaram-se para um terreno da família de Alice, então “um mato impenetrável de carvalhos e silvas”, bem diferente daquilo que é hoje. Escolheram a dedo o sítio onde construiriam a casa: um lugar exposto a sul, onde o sol escolhe estar mais tempo. Durante a construção, viviam na autocaravana. Foram precisos apenas cinco meses — entre novembro e março de 2022 — sem eletricidade nem gerador. André trazia as ferramentas carregadas e a “necessidade ensinou a contruir”. A única exigência de Alice era “ter uma casa de banho a sério com água quente”. E assim foi.

Do fogo ao sol: aquecer água sem depender de energia

Hoje, Alice e André ainda recorrem ao gás através de esquentador para aquecer a água, mas no verão optam por outra solução: tubagens instaladas no telhado, onde a água aquece com o calor do sol.


Para aquecer a água no verão, Alice e André recorrem a um sistema de tubagens instaladas no telhado. Foto: Lara Castro/Renascença
Para aquecer a água no verão, Alice e André recorrem a um sistema de tubagens instaladas no telhado. Foto: Lara Castro/Renascença

Na casa de Joana e Yassine, o sistema é mais antigo e mais testado pelo tempo. Um conjunto de tubagens permite escolher a forma de aquecimento da água consoante a época do ano, alternando entre energia solar, lenha e, mais recentemente, gás.

O método mais usado, sobretudo no inverno, continua a ser a “bailarina”, um cilindro a lenha onde se faz fogo para aquecer cerca de 90 litros de água, utilizados depois em banho de imersão. “É o nosso luxo”, descrevem, embora exija tempo: o processo pode demorar entre 30 minutos e uma hora até estar pronto.


Uma “bailarina” é um cilindro a lenha onde se faz fogo para aquecer cerca de 90 litros de água, utilizados depois em banho de imersão. Foto: Lara Castro/Renascença
Uma “bailarina” é um cilindro a lenha onde se faz fogo para aquecer cerca de 90 litros de água, utilizados depois em banho de imersão. Foto: Lara Castro/Renascença
O processo pode demorar entre 30 minutos e uma hora até estar pronto. Foto: Lara Castro/Renascença
O processo pode demorar entre 30 minutos e uma hora até estar pronto. Foto: Lara Castro/Renascença


Um conjunto de tubagens permite escolher a forma de aquecimento da água consoante a época do ano, alternando entre energia solar, lenha e, mais recentemente, gás. Foto: Lara Castro/Renascença
Um conjunto de tubagens permite escolher a forma de aquecimento da água consoante a época do ano, alternando entre energia solar, lenha e, mais recentemente, gás. Foto: Lara Castro/Renascença

Com as rotinas das crianças, especialmente os treinos de basquetebol três vezes por semana, o sistema foi sendo ajustado. Este ano instalaram um esquentador, algo “que nunca tiveram". A mudança surgiu da necessidade de adaptar o tempo da casa a dias com rotinas mais exigentes.

Ainda assim, mantêm as restantes soluções, e, paralelamente, continuam a testar e ajustar sistemas, numa lógica permanente de adaptação.

No futuro, o fogão a lenha, já usado para aquecer a casa e cozinhar durante o inverno, deverá também ser integrado no aquecimento de água, funcionando como uma espécie de sistema central que alimenta a casa de banho.

Opções não faltam e a lógica mantém-se: a construção de sistemas que se adaptam às estações do ano e diferentes rotinas.

“Preparar o almoço ao pequeno-almoço”

Na casa de Joana e Yassine, no inverno o fogão a lenha tem trabalho a dobrar: aquece a casa e serve para cozinhar. No verão, a lógica muda para a cozinha solar: um forno fechado com refletores que concentram a energia do sol e permitem cozinhar apenas com calor solar. A panela é colocada no interior e a comida faz-se ao ritmo da luz. “É uma rotina diferente, tens de preparar o almoço ao pequeno-almoço”, contam. Quando não há tempo, recorrem a um fogão a gás.

A família ainda está a trabalhar num sistema mais eficiente para o verão, onde a energia solar possa substituir por completo o gás.


Sem lareira em casa, no inverno o “fogão a lenha aquece a casa toda” e serve para cozinhar. Foto: Lara Castro/Renascença
Sem lareira em casa, no inverno o “fogão a lenha aquece a casa toda” e serve para cozinhar. Foto: Lara Castro/Renascença

Na casa de Alice e André, o princípio repete-se. Sem lareira em casa, no inverno o fogão a lenha aquece a casa toda” e serve para cozinhar. É nele que Alice faz o almoço, rodeada de umas quantas panelas e dos filhos que, enquanto a mãe cozinha, jogam cartas na mesa. Vão se levantando de vez em quando para ajudar, mexendo o caril de lentilhas com os cogumelos que colheram. No forno a lenha fazem-se os rissóis, ao mesmo tempo que se trata dos caldos de legumes e outras infusões.


Alice faz o almoço: caril de lentilhas com os cogumelos que colheram. No forno a lenha fazem-se os rissóis, ao mesmo tempo que se trata dos caldos de legumes e outras infusões. Foto: Lara Castro/Renascença
Alice faz o almoço: caril de lentilhas com os cogumelos que colheram. No forno a lenha fazem-se os rissóis, ao mesmo tempo que se trata dos caldos de legumes e outras infusões. Foto: Lara Castro/Renascença
Enquanto a mãe cozinha, os filhos jogam cartas na mesa e vão se levantando de vez em quando para ajudar. Foto: Lara Castro/Renascença
Enquanto a mãe cozinha, os filhos jogam cartas na mesa e vão se levantando de vez em quando para ajudar. Foto: Lara Castro/Renascença


Nos dias mais quentes, quando o fogão a lenha deixa de ser necessário, recorrem ao gás, enquanto o sistema de biogás ainda não está totalmente funcional.

O biogás resulta da decomposição de matéria orgânica — restos de comida, folhas, resíduos agrícolas ou mesmo excrementos e urina — em ambientes sem oxigénio.

Para isso, é criado um espaço fechado e estanque, chamado digestor, onde vivem bactérias específicas (metanogénicas) responsáveis por transformar essa matéria orgânica em metano. Esse metano pode depois ser captado e usado como energia para cozinhar, aquecer ou produzir eletricidade.


Apesar de o objetivo ser a autossuficiência total, Alice e André reconhecem que todo este processo “é longo e demorado”. E no que toca à alimentação, apesar de no primeiro ano André ter conseguido trabalhar na horta todos os dias, tornou-se gradualmente mais complicado conciliar com o trabalho diário. Ainda assim, o sistema foi-se estabilizando: as árvores de fruto crescem, e a diversidade de recursos naturais vai aumentando com o tempo.

“Brinco muito, mas nos prédios não”

No meio da construção, a infância acontece sem pressa. Aldo, em ensino doméstico, e Celeste, que frequenta o infantário, correm livremente de pés descalços, riem, ouvem e conversam. Depois do almoço, há uma rotina definida: uma hora reservada aos ecrãs. Ao fim do dia, seguem-se atividades como ballet, taekwondo ou música, a poucos minutos de casa.


No meio da construção, a infância acontece sem pressa. Aldo, em ensino doméstico, e Celeste, que frequenta o infantário, correm livremente de pés descalços, riem, ouvem e conversam. Foto: Lara Castro/Renascença
No meio da construção, a infância acontece sem pressa. Aldo, em ensino doméstico, e Celeste, que frequenta o infantário, correm livremente de pés descalços, riem, ouvem e conversam. Foto: Lara Castro/Renascença

Depois do almoço, há uma rotina definida: uma hora reservada aos ecrãs. Ao fim do dia, seguem-se atividades como ballet, taekwondo ou música, a poucos minutos de casa.

Ainda assim, tudo é vivido com a consciência de que a liberdade não depende apenas do lugar onde estão. “Se eles um dia quiserem voltar para a cidade, a liberdade da natureza vai sempre com eles”, dizem os pais.


Aldo, de sete anos, encontra no trabalho da horta o melhor momento do dia. Foto: Lara Castro/Renascença
Aldo, de sete anos, encontra no trabalho da horta o melhor momento do dia. Foto: Lara Castro/Renascença
Ao fim do dia, seguem-se atividades como ballet, taekwondo ou música, a poucos minutos de casa. Foto: Lara Castro/Renascença
Ao fim do dia, seguem-se atividades como ballet, taekwondo ou música, a poucos minutos de casa. Foto: Lara Castro/Renascença


Munido de um cinto de montanha, uma lanterna na cabeça e um pau na mão, Aldo, de sete anos, encontra no trabalho da horta o melhor momento do dia. Ainda não sabe o que quer ser quando for grande, mas responde com convicção que gostava de fazer “agricultura”. São pensamentos para o futuro, “para já, os pais são grandes por ti, depois quando fores grande logo saberás”, respondem.

Celeste, de cinco anos, gosta de brincar e de fazer festas aos gatos e às cadelas. “Brinco muito, mas nos prédios não”, diz, como quem já distingue dois modos diferentes de viver o mundo.


Celeste, de cinco anos, gosta de brincar e de fazer festas aos gatos e às cadelas. Foto: Lara Castro/Renascença
Celeste, de cinco anos, gosta de brincar e de fazer festas aos gatos e às cadelas. Foto: Lara Castro/Renascença

“A terra serve-nos, mas também temos de a servir”

É também nesta vivência diária que ganha sentido a forma como olham para o território. “Esquecemo-nos de que a terra nos serve, mas nós também a temos de servir”, diz Alice. “Culpam a planta porque dizem que é invasora, depois culpam a chuva porque foi demais, depois culpam o vento porque é muito forte, tudo isto… em vez de olhar para nós próprios e pensarmos: temos de construir o nosso meio ambiente de outra maneira.”

A depressão Kristin, no final de janeiro de 2026, provocou uma das maiores catástrofes meteorológicas dos últimos anos em Portugal, com especial impacto na região de Leiria e Marinha Grande. O temporal causou oito mortes, ventos superiores a 140 km/h, cortes de energia, destruição de infraestruturas, telhados arrancados e várias áreas isoladas devido a inundações e queda de árvores.

No terreno de Alice e André, essa vulnerabilidade do território é pensada à escala da paisagem. André desenvolve uma agricultura baseada em espécies perenes e em sistemas agroflorestais, onde diferentes culturas convivem no mesmo espaço. “Estamos protegidos”, dizem, referindo-se à floresta que envolve a casa e funciona como barreira natural ao vento, sendo o lar da família Montanha protegido pelo efeito de orla que os bosques fazem.


"Somos os jardineiros da terra e devemos zelar pela qualidade de vida de todos os seres vivos, mas não, a nossa função tem sido a de destruidores do mundo.” Foto: Lara Castro/Renascença
"Somos os jardineiros da terra e devemos zelar pela qualidade de vida de todos os seres vivos, mas não, a nossa função tem sido a de destruidores do mundo.” Foto: Lara Castro/Renascença
 “As cabras têm uma função, as minhocas têm uma função, os cavalos têm uma função, e nós? Deixámos de ter uma função?”, questiona Alice. Foto: Lara Castro/Renascença
“As cabras têm uma função, as minhocas têm uma função, os cavalos têm uma função, e nós? Deixámos de ter uma função?”, questiona Alice. Foto: Lara Castro/Renascença


Ainda assim, reconhecem que o sistema “ainda não está perfeito”, sobretudo no que toca à gestão da chuva e da drenagem. O projeto da casa foi pensado desde o início em função da paisagem, mas continua em adaptação constante. Exige preparação antes da chegada das chuvas mais intensas. “Desentupimos as valas, compusemos os buracos”, contam, numa tentativa de preparar o terreno para os episódios extremos.

Esta forma de viver estende-se também à forma como olham para os diferentes elementos do sistema. “As cabras têm uma função, as minhocas têm uma função, os cavalos têm uma função, e nós? Deixámos de ter uma função?”, questiona Alice. E resumem: “Somos os jardineiros da terra e devemos zelar pela qualidade de vida de todos os seres vivos, mas não, a nossa função tem sido a de destruidores do mundo.”

Mesmo as escolhas tecnológicas são vistas com essa lente de consciência: o sistema de energia solar, sublinham, “não deixa de ser baterias com metais”, lembrando que a autonomia também implica impacto e escolha.

Essa visão não fica apenas no plano das ideias. Traduz-se diariamente na forma como organizam o terreno e trabalham a terra. Na gestão do espaço agrícola, a lógica afasta-se de práticas mais convencionais. “Enquanto há quem faça queimadas por esta altura, nós fazemos estruturas”, explicam, descrevendo o que chamam de “engenharias naturais”.

Em vez de deixar os restos de poda ou troncos a decompor-se lentamente ou simplesmente queimá-los, utilizam um biotriturador. A máquina transforma a madeira em estilha, um material que depois é espalhado no solo, junto às culturas hortícolas e frutíferas. O objetivo é devolver matéria à terra e acelerar o seu processo natural de regeneração, alimentando o solo com aquilo que dele veio.

Quando o lixo vira jantar (das minhocas)

O ecossistema da quinta estende-se aos resíduos orgânicos. Além da Estrela e da Lobita, os companheiros de quatro patas que seguem os passos da família, há outro “exército” menos visível: as minhocas.


Além da Estrela e da Lobita, os companheiros de quatro patas que seguem os passos da família, há outro “exército” menos visível: as minhocas. Foto: Lara Castro/Renascença
Além da Estrela e da Lobita, os companheiros de quatro patas que seguem os passos da família, há outro “exército” menos visível: as minhocas. Foto: Lara Castro/Renascença
Mais do que uma solução alternativa à compostagem tradicional, a vermicultura é um sistema eficiente, sem odores e que não exige grande espaço. Foto: Lara Castro/Renascença
Mais do que uma solução alternativa à compostagem tradicional, a vermicultura é um sistema eficiente, sem odores e que não exige grande espaço. Foto: Lara Castro/Renascença


O prato favorito destes invertebrados são as cascas de frutas e legumes cruas, mas não só: “também gostam muito de papéis e cartões”. Mas para que servem? Vermicultura. Um processo de reciclagem de resíduos orgânicos através das minhocas. O resultado? Vermicomposto, um fertelizante natural de alta qualidade para enriquecer solos sem recurso a produtos químicos.

Mais do que uma solução alternativa à compostagem tradicional, trata-se de um sistema eficiente, sem odores e que não exige grande espaço. Nesta quinta, quase todo o ciclo dos resíduos orgânicos é fechado dentro do próprio terreno. “O mais difícil de gerir é o plástico”, mas André já tem uma solução em vista para o futuro: “Cogumelos que o ‘comem’ e conseguem processá-lo”.

No entanto, antes da gestão dos resíduos, o desafio começa na própria produção. Alice e André reconhecem que vivem com limitações logísticas: “Se calhar, se estivéssemos numa zona como o Porto, era mais fácil ir a lojas a granel”, referem, sublinhando que, apesar dos esforços, “ainda há muito a melhorar”.

Também no caso de Joana e Yassine, a produção de lixo é reduzida ao mínimo. O papel é reutilizado — ou serve para acender o fogo ou entra diretamente na compostagem — e os resíduos orgânicos são encaminhados para as galinhas, que os transformam em composto posteriormente usado na horta e nas árvores. No final do mês, dizem, sobra pouco mais do que “um saquinho de lixo”.

O dia a dia fora da rede: “Não temos uma vida de agricultor”

Há mais de uma década a viver off-grid, Joana e Yassine descrevem um quotidiano onde “há sempre o que fazer”, precisamente porque um ecossistema regenerativo exige trabalho constante. Ainda assim, sublinham que o sistema instalado já não implica uma manutenção intensa e “é muito eficiente”.


As galinhas exigem atenção diária e o sistema das casas de banho secas pede manutenção semanal, tal como a horta. Foto: Lara Castro/Renascença
As galinhas exigem atenção diária e o sistema das casas de banho secas pede manutenção semanal, tal como a horta. Foto: Lara Castro/Renascença

“Não temos uma vida de agricultor”, explica Yassine. Produzem parte da sua alimentação e cuidam do terreno, mas não dependem exclusivamente dele para viver. As galinhas exigem atenção diária e o sistema das casas de banho secas pede manutenção semanal, tal como a horta. O resto vai sendo ajustado ao ritmo das estações.

No caso de Alice e André, o processo ainda está numa fase mais exigente. Há apenas quatro anos no terreno, o dia a dia continua a pedir uma presença constante e um esforço mais manual. “Cortar lenha, acender o fogão, garantir que está tudo a funcionar — canalização, parte elétrica, etc.”, descrevem. A rotina ainda impõe bastante dedicação e, por isso, contam muitas vezes com a ajuda de vizinhos e voluntários que participam nos diferentes projetos da casa.


No caso de Alice e André, a rotina ainda impõe bastante dedicação e, por isso, contam muitas vezes com a ajuda de vizinhos e voluntários para ajudar. Foto: Lara Castro/Renascença
No caso de Alice e André, a rotina ainda impõe bastante dedicação e, por isso, contam muitas vezes com a ajuda de vizinhos e voluntários para ajudar. Foto: Lara Castro/Renascença

O percurso de Joana e Yassine ensina isso mesmo. “Quando começas um sistema como este exige muito trabalho, mas agora é mais gerível e não precisa tanto da nossa manutenção”, explicam. A lógica da permacultura está precisamente aí: “criar sistemas que, com o tempo, se tornem cada vez menos dependentes” da intervenção humana, funcionando em equilíbrio com os ciclos naturais.

A casa como ecossistema: o que é permacultura?

É neste equilíbrio entre trabalho, adaptação e tempo que entra a permacultura como base de leitura de tudo o que fazem.

Joana explica: “Permacultura é um sistema de design de ecossistemas humanos sustentáveis”, que integra desde as construções e abrigos até à produção de alimentos, gestão da água, relações com outros seres vivos, organização social, economia e energia. No fundo, é “um desenho destes assentamentos baseado em determinados princípios e éticas que conseguem ser mais sustentáveis e harmoniosos”.

Ou seja, um sistema que faz com que a vida “humana e natural seja mais equilibrada, usando os recursos que existem”.

Mas fazem questão de sublinhar que não é um modelo exclusivo de quem vive fora da rede. “Não é preciso estar off-grid para praticar a permacultura”, dizem. E vão mais longe: “Estar ligado à rede pode ser mais ecológico do que não estar ligado à rede”.


 “Não é preciso estar off-grid para praticar a permacultura”, dizem. E vão mais longe: “Estar ligado à rede pode ser mais ecológico do que não estar ligado à rede”. Foto: Lara Castro/Renascença
“Não é preciso estar off-grid para praticar a permacultura”, dizem. E vão mais longe: “Estar ligado à rede pode ser mais ecológico do que não estar ligado à rede”. Foto: Lara Castro/Renascença

Na prática, pode começar numa casa em cidade. “O que fazes, o que compras, como vais para o trabalho, que interações tens com a cultura, hortas comunitárias, projetos cooperativos”, enumeram. A ideia passa por uma maior autonomia dentro do sistema, tornando o quotidiano mais comunitário e mais próximo do que “era há uns tempos atrás”, explica Yassine.

Para Yassine, o impacto ambiental mede-se sobretudo pelo consumo. “O maior impacto em relação ao ambiente, vivendo num apartamento, é o que consomes, especialmente a nível de comida”, afirma, lembrando que a agricultura industrial continua a ser uma das principais fontes de pressão sobre os ecossistemas e sobre a saúde humana.

O exemplo que dá é simples: em vez de comprar produtos importados no supermercado, como o abacate, optar por produção local — “um vizinho aqui em Vila Verde”, exemplifica —, valorizando circuitos curtos e preços mais justos para quem produz.

No centro desta visão está um princípio-chave: fechar ciclos. “Sempre que conseguires fechar um ciclo não estás a desperdiçar energia, estás a transformar energia”, resumem.

Manual prático: e se quiser mudar de vida?

A permacultura não se limita ao terreno onde é praticada — também se traduz em formas de partilhar conhecimento e acompanhar quem quer dar os primeiros passos noutro modo de vida.

No caso de Joana e Yassine, essa partilha ganhou forma num projeto pessoal, “Joyas da Terra”, ligado ao yoga e à permacultura, com um foco especial em agrofloresta. Através de um serviço de consultoria, acompanham pessoas que têm terrenos e querem desenhar sistemas mais sustentáveis — desde o desenho inicial até à implementação. Pelo site, é possível inscrever-se em cursos, onde os participantes são convidados a passar alguns dias no espaço onde vivem, numa experiência prática de aprendizagem.


No caso de Joana e Yassine, essa partilha ganhou forma num projeto pessoal, “Joyas da Terra”, ligado ao yoga e à permacultura, com um foco especial em agrofloresta. Foto: Lara Castro/Renascença
No caso de Joana e Yassine, essa partilha ganhou forma num projeto pessoal, “Joyas da Terra”, ligado ao yoga e à permacultura, com um foco especial em agrofloresta. Foto: Lara Castro/Renascença

Também Alice e André têm aberto esse caminho de partilha. Através de oficinas e formações, recebem quem quer perceber melhor como se constrói e gere este tipo de sistema — da agrofloresta às casas de banho secas, passando por técnicas mais práticas do quotidiano. “O fundamental é mostrar que é possível”, sublinha Alice.

Para além das formações presenciais, também recorrem às redes sociais para divulgar conhecimento e experiências, abrindo pontualmente as portas da sua casa a quem quer aprender mais sobre este estilo de vida.

Mais do que casas desligadas da rede, são espaços ligados a outro sistema: o dos ciclos naturais, da energia que se gere, da água que se devolve e dos resíduos que regressam à terra. Não há ausência de tecnologia, mas uma tentativa de a colocar em equilíbrio com a natureza.

Entre inversores que falham, fogões a lenha que aquecem casas inteiras e sistemas ainda em construção, estas famílias vivem num processo permanente de adaptação. Não há um modelo fechado. Há um caminho em aberto onde a autonomia se constrói todos os dias.


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