É o tópico que mais lhe causa revolta. Lembra-se de quando chegou pela primeira vez a Villa Ramadas e de como estar fechado na clínica lhe permitiu estar longe dos estímulos exteriores. A doença transformou o jogo na sua maior obsessão, que ainda hoje diz que “ama”, porque é o que lhe traz a “adrenalina” de que precisa.
“Mas como é que eu me quero tratar se eu ligo a TV ou vejo futebol e a todo o momento há publicidade para casas de apostas? Eu também vejo pessoas desesperadas, que chegam a grupos de autoajuda porque são bombardeados por e-mails de casas de apostas a incentivá-los a regressar”.
Francisco é peremptório: “Isto não pode continuar. As pessoas enriquecem a incentivar outras pessoas a jogar. Passam uma mensagem que é mentira, porque os influencers, através da publicidade aos casinos legais e ilegais, principalmente ilegais, partilham os ganhos, mas aquilo não é verdade, porque eles não estão a jogar. Mostram uma coisa que não é real”.
Na verdade, muitos dos ganhos de influenciadores surgem dos novos registos, mas também de comissões das perdas dos jogadores reais.
Mas as críticas de Francisco estendem-se aos próprios casinos licenciados, que partilham anúncios de apostas nas ruas, nas televisões, nas redes sociais. Betclic, Bwin, ESCOnline, Pokestars, Casino Portugal, Casino Solverde, Nossa Aposta, Placard.pt, Luckia, 888, Betano, Moosh, Betway, Versus, Bacanaplay, LeBull, GoldenPark e Yobingo são as entidades autorizadas a explorar jogos e apostas online em Portugal e que usam caras conhecidas para promover os jogos.
“A Cristina Ferreira, por exemplo, ela faz propaganda a uma casa de apostas. E quem é o público alvo da Cristina Ferreira, que apresenta o programa das manhãs? Ou reformados ou pessoas que estão sozinhas em casa, que têm muito tempo morto, que precisam de muita companhia e que não têm bem noção desta realidade e vão na aventura. As máquinas, os barulhos, os shows, está tudo muito esquematizado para o vício e para agarrar as pessoas e acaba por ser triste isto continuar a acontecer”, lamenta Francisco.
“O facto de haver pessoas de renome a validarem este tipo de comportamento, às vezes não é por mal, mas por um bocadinho de falta de consciencialização social e de perceberem que efetivamente há pessoas que têm dificuldades em parar e de não seguir com esse comportamento até uma consequência catastrófica. Isso acaba por normalizar um comportamento que não deve ser normalizado”, defende a psicóloga Filipa Oliveira. “Da mesma forma que o tabaco deixou de ser promovido nas televisões por trazer consequências negativas, quero acreditar que um dia vamos chegar à parte do jogo patológico também, destes jogos e casinos não serem promovidos”.
Em breve, Carlos terá de enfrentar o mundo lá fora, de novo. Acredita que está “grato e feliz” e isso basta-lhe para se manter saudável junto da família, mesmo que a vida real “seja uma selva”. Longe da “tranquilidade, paz e felicidade” que a clínica lhe deu, Carlos sabe que o jogo vai estar lá sempre, a chamar por si. Mas garante que desta vez é mesmo o fim da sua adição.
Se precisa de ajuda ou tem dúvidas sobre questões de saúde mental, contacte um médico especialista, ou um dos vários serviços e linhas de apoio gratuitas, como o SNS 24 (808 24 24 24), a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico (1411), o SOS Voz Amiga (800 209 899/213 544 545), o SOS Criança (116 111), a Linha Jovem (800 208 020) ou o SOS Adolescente (800 202 484).