“Precisava de ajuda rápido. Senão, ia matar-me". Três histórias de quem caiu no vício das apostas online

Carlos, Maria e Francisco são viciados no jogo online, em apostas desportivas, em “slot machines”. Perderam milhares de euros e destruíram as suas vidas e as dos familiares. O jogo quase lhes custou a própria existência. Hoje, e depois de terem estado duas vezes em recuperação numa clínica de tratamento de adições, afirmam que esta é “a pior droga do mundo”. E indignam-se com os anúncios online a casinos legais — e ilegais —, feitos por celebridades e influenciadores.

02 jun, 2026 - 07:00 • Beatriz Pereira , Diogo Camilo (Gráficos)



Vídeo. Os testemunhos de Carlos, Maria e Francisco

O sofrimento foi tanto que pensou em suicidar-se. Inicialmente, pelo vazio deixado pela partida da mulher, que morreu inesperadamente nos seus braços. Depois, pelo vício que o jogo online lhe trouxe. Em ambos os momentos, Carlos conseguiu dar a volta. Mas sempre porque pediu ajuda.


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Estamos no Bombarral, numa das clínicas de tratamento de adições do Villa Ramadas, um centro especializado no tratamento desta doença do foro psicológico. Carlos, de 45 anos, está neste espaço há exatamente três meses. Aqui não tem contacto quase nenhum com o exterior. Vive numa espécie de “bolha”, necessária para se afastar da que diz ser a pior adição do mundo.


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"O jogo é a pior droga ao cimo da terra, do meu ponto de vista. Não é a cocaína nem o álcool. O jogo online é, neste momento, a pior droga do mundo."

A sua história no Villa Ramadas não começa em 2026. É necessário recuar a agosto de 2023, depois da morte da mulher e mãe dos seus três filhos, com quem estava há 16 anos.

“Ela foi até à casa de banho e começa a gritar 'Amor, amor, amor'. Foi uma dor de cabeça e no peito, e depois faleceu à minha frente. Tinha dado 'um risco' à cocaína e arrebentou-lhe uma veia no cérebro.”

Carlos e a mulher eram viciados em cocaína e álcool. Compravam e consumiam em conjunto. Mas aquele dia não era dia de consumo, para Carlos. Era, aliás, o dia de planearem uma viagem à Disneyland com os filhos — um com oito meses, outro com oito anos e um terceiro com 12.


Carlos leva uma biblía para todo o lado. Diz ser o seu guia. Foto: Rita Gonçalves/Renascença
Carlos leva uma biblía para todo o lado. Diz ser o seu guia. Foto: Rita Gonçalves/Renascença

Foi o dia que marcou o ponto de viragem para Carlos. A rotura total. “Foi um processo muito difícil voltar àquela casa, àquela cama. Foi um completo vazio. Foi difícil fazer o papel de pai e de mãe, apesar de ter o apoio e a ajuda dos meus familiares. Comecei mesmo a viver com falta da metade de outra pessoa”, partilha.

Foi a beber sem controlo que se tentou refugiar da dor nos primeiros tempos. Primeiro por não conseguir esquecer a mulher, depois por saber que tinha três crianças menores ao seu cuidado.

“Era um sofrimento bastante grande, não estava a conseguir encontrar paz interna e tranquilidade. Mas para apaziguar, recorri às substâncias. Claro que eu tinha consciência que aquilo era algo momentâneo. E depois era preciso mais e mais e mais. E depois comecei a sentir-me culpado pela morte dela e a censurar-me. ‘Porquê ela?’. E aí comecei a não conseguir lidar com a situação e a perder a vontade de viver. Pensava: 'Se a minha esposa faleceu assim, por que é que também não me acontece a mim? O que é que eu estou a fazer neste mundo?' Não me faltava nada a mim nem aos meus filhos. Mas comecei a sentir-me um parasita e um frustrado”, recorda.

À sua volta, todos diziam que precisava de ajuda, sobretudo as irmãs, mas Carlos achava que conseguia superar tudo sozinho. Começou a mentir-se a si mesmo. E as mentiras e manipulações iam alastrando-se às pessoas mais próximas. Era uma “espiral de enganos”, que o levava para um “poço sem fundo”, lembra. E, com isso, deixou “de ser um bom homem, um bom pai, um bom irmão, um bom filho”.


“Acordava a pensar na substância, durante o dia só queria a substância e deitava-me a pensar na substância. Só pensava em perder a vida. Era a minha vontade. Até que me rendi à situação de pedir ajuda”. Carlos queria uma ajuda “urgente”. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, não iria continuar a aguentar a aflição que sentia. Deixou que a substância “o dominasse” e, por isso, “tinha perdido o controlo”. Foi aí que entrou, pela primeira vez, na clínica de tratamento de adições.

Neste centro, com quatro clínicas espalhadas pelo país, são tratados todos os tipos de dependências emocionais e comportamentais, desde os jogos de azar ao vício em sexo, medicamentos e até compras. Embora todos diferentes, “o vício” é o denominador comum entre todas as pessoas que se instalam nestas clínicas.

“Independentemente da substância ou do tipo de comportamento que se tenha, tratamos sempre por igual, não fazemos discriminação. Nós temos por base as terapias individuais e as terapias de grupo. Trazemos aqui muito o 'bonding' entre as pessoas, de forma a ajudarmos a que todos se influenciem de uma forma positiva na sua recuperação”, explica Filipa Oliveira, psicóloga clínica e diretora terapêutica do Villa Ramadas.

Carlos conta como foi bem recebido pelo grupo. Em conjunto, partilhavam sentimentos, escreviam sobre as emoções, debatiam sobre os vícios. “Até me assustei um bocado, quando faziam orações da serenidade. ‘Cá para mim isto é uma seita, onde é que eu vir parar?’, pensava eu.”

No período em que esteve no centro, copiava os trabalhos dos colegas. Não havia respostas certas nem respostas erradas. Mas Carlos sempre teve dificuldade na escrita e leitura e, por isso, achava que era mais fácil dar um olho no trabalho do colega do lado. “Fui desonesto com o tratamento. Tinha tudo para ser um homem feliz, mas não aceitei que era doente, que era adito.”


Carlos anseia voltar para a vida real e ser "o pai que os filhos merecem". Foto: Rita Gonçalves/Renascença
Carlos anseia voltar para a vida real e ser "o pai que os filhos merecem". Foto: Rita Gonçalves/Renascença
"Eu não me estava só a destruir a mim. Eram todos à minha volta. A minha mulher, os meus filhos. Aqui estou a reconstruir um novo Carlos." Foto: Rita Gonçalves/Renascença
"Eu não me estava só a destruir a mim. Eram todos à minha volta. A minha mulher, os meus filhos. Aqui estou a reconstruir um novo Carlos." Foto: Rita Gonçalves/Renascença


De volta ao mundo real, tudo tornava a estar disponível. Começou, novamente, pelo álcool. Era apenas uma cerveja, pensava. De uma passou para duas, que passou para três. E depois, para várias, nas saídas com os amigos. Afinal, não se sentia realmente “doente”. E depois, aproximaram-se “as datas perigosas” — do casamento e do primeiro ano da morte da mulher. “Senti-me vulnerável, a sofrer e a chorar. Voltei a consumir cocaína. É um erro fatal pensar que ‘é só hoje e amanhã não vou lá’. Consumi e não consegui pôr um travão”, conta.

A espiral de mentiras e manipulações regressa. Começa a enganar a mulher atual e a família, mais uma vez. O vício tinha voltado e tudo o que tinha sentido anteriormente também. E depois de quatro meses e meio em tratamento, o sentimento “de culpa e vergonha crescem”. E aí surge a terceira “companhia” de Carlos, a par com o álcool e a cocaína: o jogo online.

A primeira aplicação que descarregou para o telemóvel foi a “Betclic”, um site de apostas online de eventos desportivos. “Podia ter sido uma qualquer, mas essa foi a que me veio à cabeça, se calhar porque me surgiu num anúncio. O problema é esse, dos anúncios. Está muito fácil hoje em dia", relata.

A curiosidade levou-o “à loucura do jogo”. Foram cinco euros para brincar. E depois 20 e depois 100. Surgiam pequenos ganhos, que lhe davam “uma alegria enganadora”. Mas o vício já estava lá e era duro voltar atrás. Levou Carlos a fazer algo que o “envergonha até hoje”.


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“Fez-me mexer na conta dos meus filhos, o jogo. Quando a mãe deles faleceu, abri uma conta para eles. (...) E nunca mexi nesse dinheiro até conhecer a Betclic. Sinto-me triste. Como é que uma substância me fez mexer numa coisa que era sagrada?"

Foi em janeiro deste ano. Um mês em que Carlos não dormiu e pouco comeu. O foco era apenas os jogos, as apostas, as “slot machines”. Chegou a gastar três e quatro mil euros num único dia.

“Depois de a minha mulher adormecer os meus filhos e ir dormir, eu ia para o meu armazém consumir a minha substância e beber álcool. Queria ter companhia, estava ali sozinho e punha-me a jogar. Então tinha uma conta com dois mil euros. Se eu perdesse 500, sobrava 1500 euros. Então eu via que o jogo estava ali para me comer. Eu próprio falava com o jogo. ‘Ah queres comer-me o dinheiro? Então hoje o teu dia é para me comeres’. E gastava tudo. A pior droga do mundo, que é o jogo, tira-nos tudo.”


Carlos tinha consciência de que outro vício se estava apoderar dele. Reconheceu-o, porque passou pelo mesmo com o álcool e com a cocaína. Por causa deste novo vício, o telemóvel tornou-se o seu parceiro de todas as horas. Não o largava quando tinha pessoas à volta e, mesmo a conduzir, Carlos não desviava os olhos do jogo.

“Eu sei que aquilo é feito para perder dinheiro, mas o que é certo é que eu jogo. O quanto essa droga é tão poderosa neste mundo... Aquilo é tão forte, tão poderoso, que mexe com o nosso cérebro. A gente sabe que vai perder dinheiro, vai levar-nos à miséria e à nossa destruição... Temos essa consciência e como é que nós jogamos?”, questiona. “Começa a ser o jogo a mandar em nós. Onde eu estiver, estou a jogar. Basta estar de olhos abertos”.

O jogo, diz, foi o “ingrediente mais forte” desta receita. Quase lhe custou a relação com a sua atual mulher e até a própria vida. “Precisava de ajuda rápido. Senão, ia matar-me. Ia mesmo. Não me matei pelos meus filhos, que não mereciam isso”.

Voltou a Villa Ramadas. Carlos sabia que o ponto em que se encontrava era o pior em que alguma vez tinha estado. Por isso, o objetivo agora era outro. Era entregar-se “de corpo e alma ao tratamento”, ter ajuda psiquiátrica e trocar a escrita pela “observação e escuta ativa” nas terapias de grupo.


Existem quatro clínicas Villa Ramadas no país: em Alcobaça, na Marinha Grande, em Pataias e no Bombarral. Foto: Rita Gonçalves/Renascença
Existem quatro clínicas Villa Ramadas no país: em Alcobaça, na Marinha Grande, em Pataias e no Bombarral. Foto: Rita Gonçalves/Renascença
Todos partilham quartos e cumprem tarefas diárias, como a preparação de refeições e o tratamento das roupas. Foto: Rita Gonçalves/Renascença
Todos partilham quartos e cumprem tarefas diárias, como a preparação de refeições e o tratamento das roupas. Foto: Rita Gonçalves/Renascença


Está há três meses no centro. Da parte de fora, junto a uma pequena estrada, perto do Bombarral, não há nenhuma indicação de que se trata de uma clínica de tratamento de adições. Nem lá fora, nem cá dentro. É uma casa grande, com uma piscina no centro do jardim, rodeada de árvores. Há borboletas e ouve-se o cantar dos pássaros. Nada mais há à volta.

Os pacientes vivem em comunidade. Partilham quartos, cumprem tarefas diárias, debatem terapias em conjunto e aproveitam momentos individuais com os psicólogos. A porta principal está sempre aberta. Todos podem sair quando quiserem, mas, na teoria, só são permitidos contactos com o exterior duas vezes por semana e durante dez minutos, através de uma chamada de um telefone fixo. Durante o resto do tempo, não existem telemóveis, nem computadores, nem acesso às redes sociais. É uma espécie de retiro. Um retiro das vidas que deixaram lá fora.

“Com a minha adição ativa, estava a destruir o nosso lar. Estando aqui dentro, não existe o adito destruidor. Porque eu não me estava só a destruir a mim. Eram todos à minha volta. A minha mulher, os meus filhos. Aqui estou a reconstruir um novo Carlos. Com o ensinamento em Villa Ramadas, tornamo-nos nos melhores seres humanos do mundo”, reflete Carlos, enquanto segura uma pequena bíblia nas mãos.


Se precisa de ajuda ou tem dúvidas sobre questões de saúde mental, contacte um médico especialista, ou um dos vários serviços e linhas de apoio gratuitas, como o SNS 24 (808 24 24 24), a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico (1411), o SOS Voz Amiga (800 209 899/213 544 545), o SOS Criança (116 111), a Linha Jovem (800 208 020) ou o SOS Adolescente (800 202 484).



Três vícios que mudam a vida

Tal como Carlos, também Maria esteve vários meses em recuperação nesta clínica. Voltou a casa e à sua vida há mais de um ano. E tal como Carlos, também passou por Villa Ramadas duas vezes, em diferentes momentos da vida.

Maria é um nome fictício. Não quer esconder a sua história mas, por receio de represálias no seu novo emprego, prefere manter a identidade protegida.

É com um sorriso na cara, ciente de que está totalmente recuperada, que recorda o ano de 2018, quando pisou pela primeira vez o Villa Ramadas.

"Vim aqui parar porque tinha chegado a um ponto na minha vida em que tinha desgovernado tudo. Precisava de ajuda. Então os meus pais descobriram esta clínica e eu vim para aqui numa tentativa de conseguir salvar a menina que tinha ficado lá atrás perdida. Estive internada cinco meses e percebi que a adição é uma doença.”

Tal como Carlos, começou pelo uso excessivo de drogas e álcool. O jogo surge mais tarde, “de forma descontrolada”, na tentativa de recuperar o dinheiro perdido com as outras substâncias. “Introduzi o jogo também como uma forma de ocupar a cabeça, pensava eu. E aquilo foi uma escalada", admite.


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"Quando o jogo aparece, se eu já não tinha nada, com menos fiquei. É um falso ganhar de dinheiro, mas quando eu comecei a perceber isso, já tinha esgotado as minhas fichas todas. Estas três combinações, meto tudo dentro do mesmo saco, porque as três, para mim, foram extremamente prejudiciais a todos os níveis.”

Maria não joga há mais de um ano. Sente-se totalmente recuperada. Foto: Rita Gonçalves/Renascença
Maria não joga há mais de um ano. Sente-se totalmente recuperada. Foto: Rita Gonçalves/Renascença

Filipa Oliveira, psicóloga do Villa Ramadas, explica que existem casos isolados que chegam à clínica apenas por jogo patológico, “mas a tendência é sempre vir associado ao consumo, normalmente de álcool ou de drogas, porque se acaba por se estar mais desinibido naquele momento, não pensar tanto nas consequências”.

E se há uns anos eram as raspadinhas, hoje são, sobretudo, as apostas e os jogos online que levam as pessoas a procurar ajuda. “Hoje em dia a população que nos chega é uma população mais jovem, ali até à casa dos 50 anos. É muito fácil através dos nossos telemóveis. É quase impossível que não haja aqui algum tipo de facilitismo neste sentido. Está tudo disponível, nem é preciso dinheiro físico”, aponta.

Maria tem 43 anos. No seu caso, primeiro foram as apostas físicas, em cafés, papelarias e bombas de gasolina. De tudo um pouco. Raspadinhas e apostas de futebol, de equipas que nem sabia que existiam. Mas era preciso jogar e jogar, sempre mais.

Depois, veio a pandemia. Deixou de poder beber e jogar em espaços físicos. Surgiram então os casinos online.


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“É destruidor, porque que eu era noites e noites e noites e noites e noites e noites e noites e dias [a jogar]. E foi o fim da linha. Investes, perdes, ganhas ali qualquer coisa no meio, voltas a perder no minuto a seguir, porque o que se ganha fica lá. Não se tem o bom senso de parar. Ganhava e posso dizer que cinco minutos depois já não tinha nada”

Maria perdeu a noção dos valores. Era mais um vício a tomar conta da sua vida, uma “falsa companhia” durante dois anos, de 2020 a 2022. Não conseguia dormir e, quando conseguia, eram sonos com muitos sobressaltos. Também pouco comia e a comida que ingeria servia apenas para sobreviver.

Apostava dez euros, que se multiplicavam por outros dez e mais dez. “Acabamos por nos perder na nossa própria loucura. Perdemos a noção”, lamenta.

O jogo online foi o seu "fundo do poço” e surge, precisamente, mais tarde, numa recaída, depois do primeiro tratamento em Villa Ramadas. “Eu quando venho para aqui, venho por um uso obsessivo, compulsivo, de drogas e álcool e jogo. O jogo andou ali, lado a lado, sempre com as outras duas coisas. Ainda antes, durante muito tempo, quando saía e depois via um símbolo dos Jogos Santa Casa, aquilo criava-me ansiedade, porque aquilo está permanentemente a chamar por ti”.


"Eu de adita funcional tinha muito pouco, porque estava completamente isolada de toda a gente e só funcionava para aquilo", recorda Maria. Foto: Rita Gonçalves/Renascença
"Eu de adita funcional tinha muito pouco, porque estava completamente isolada de toda a gente e só funcionava para aquilo", recorda Maria. Foto: Rita Gonçalves/Renascença

A Maria, durante todo esse tempo, não faltou dinheiro para apostar. Pediu vários créditos aos bancos e ajuda a pessoas para “idas ao supermercado” ou porque “o carro se estragou”. Um rol de mentiras que iam, a pouco e pouco, fazendo com que as portas à sua volta se fossem fechando. O próprio ordenado, admite, acabava logo ao terceiro dia do mês.

“Eu fugia de mim, eu fugia daquilo que sentia, não queria sentir nada do bom e do mal. Eu estava em fuga permanente dos meus sentimentos e das minhas emoções. Já não conseguia distinguir o bom e o mau. Para mim já valia tudo. Ao longo dos anos, fui acumulando muitas frustrações, muitas dores que eu própria criei. A adição é uma doença de sentimentos e emoções, com os quais eu nunca soube lidar”, reconhece.

Segundo a psicóloga e diretora terapêutica do Villa Ramadas, o vício do jogo é semelhante a qualquer tipo de adição. “O jogo não é diferente de beberes álcool ou consumires as drogas. O jogo vai atuar no teu cérebro exatamente da mesma maneira”. E este vício, explica Filipa Oliveira, pode surgir por diversas razões. “Há fatores individuais, como a impulsividade, a procura pela adrenalina e a necessidade de fuga emocional e fuga da solidão.”

Maria chegou a um ponto de rotura. Os pais estavam desesperados e a gota de água aconteceu quando sofreu um acidente de carro. Era altura de voltar ao tratamento e fechar os olhos ao jogo.

“Eles desconstroem, desconstroem ainda mais e quando nós estamos desconstruídos, começam a construir uma nova pessoa. Entramos aqui num cenário muito negro e deixamos de ter o controlo das nossas vidas, mas é importante porque, quando vemos a nossa família destroçada, sabemos que temos de fazer alguma coisa”.

Duas semanas antes de sair do tratamento, há mais de um ano, lembra-se de sentir medo pela vida que a esperava cá fora. Se seria ou não capaz de voltar à realidade e deixar os vícios para trás. E quando saiu, regressou à casa dos pais. Entregou-lhes a sua vida, desde os cartões bancários às chaves de casa, e ficou sem acesso a dinheiro durante um ano. Hoje, sente-se totalmente recuperada.

“Estou ótima. Agora sinto que fiz o que nunca tinha feito. É uma escolha não usar drogas, é uma escolha não beber e também é uma escolha não jogar, porque o jogo traz exatamente o mesmo tipo de sentimento como outro vício qualquer. É uma compulsão como outra qualquer. Destrói porque implica perder não só dinheiro”, assume.

Mas como é que o jogo se torna tão facilmente um vício? A nível psicológico, que mecanismos desencadeia? “Quando uma pessoa aposta, o cérebro ativa circuitos de recompensa associados à dopamina, ligados à sensação de prazer, expectativa e motivação. Este mecanismo é semelhante ao que acontece nas dependências de substâncias. O cérebro passa a associar aquele comportamento a uma recompensa, a um alívio, a uma fuga emocional. Com o tempo, pode surgir intolerância, necessidade de apostar mais vezes ou valores mais elevados e há uma perda progressiva do controlo, mesmo perante as consequências negativas”, explica Filipa Oliveira. Segundo a psicóloga, é “precisamente por estes mecanismos neurobiológicos e comportamentais que o jogo patológico é reconhecido oficialmente como uma perturbação aditiva”.


De volta ao mundo real, fora das quatro paredes da clínica, Maria percebeu que também a nível económico os vícios fizeram “uma grande mossa”, mas hoje já conseguiu liquidar tudo e reconstruir a sua vida. “É um novo modo de vida. Porque se pensarmos que são muitos anos a consumir e a viver uma vida louca, é preciso reaprender bons hábitos.”

Um dos primeiros passos nesse sentido foi a auto-exclusão dos casinos. “Desinstalei as aplicações e auto-excluí-me dos casinos. Ainda agora em janeiro, recebi mesmo um email a confirmar a minha não utilização da plataforma durante X tempo”, afirma.

Quando requerido, este mecanismo de proibição de acesso a sites de jogo online é ativado em todas as plataformas licenciadas em Portugal, através do Serviço de Regulação e Inspecção de Jogos (SRIJ) — ficando de fora, claro, os jogos ilegais. É possível pedir a auto-exclusão nas próprias plataformas de jogos, mas só ficará ativa para aquele site em concreto. A auto-exclusão através do SRIJ pode ser feita por um período definido, com um mínimo de três meses, ou por tempo indeterminado.

Além deste serviço, existe também a linha SOS Jogador 1414, gratuita, anónima e confidencial, que está disponível todos os dias úteis das 10 às 18 horas. Também a Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online (APAJO) disponibilizou uma linha de apoio que se destina a jogadores, familiares, amigos ou qualquer pessoa que necessite de orientação. A linha de suporte inclui o atendimento com psicólogos especializados, que estão disponíveis todos os dias úteis entre as 16h e as 20h, através do número 214 193 748 ou via email (jogaremseguranca@iajpt.eu). Plataformas com a Betano, Betclic, ESC Online e Solverde divulgam estes apoios nos seus sites.

Segundo um relatório do SRIJ, no quarto trimestre de 2025 existiam cerca de cinco milhões de perfis de apostadores online, o que resulta do acréscimo de 231,4 mil novos registos e da dedução de 239,2 mil registos cancelados. Este número não equivale a cinco milhões de portugueses. Por norma, cada pessoa tem mais do que um registo.

Os jogadores com idade inferior a 45 anos, nas datas analisadas, representavam 77,1% do total de registos. 33,1% tinham entre 25 e 34 anos e 21,6% tinham entre 18 e 24 anos.


Já no fim do ano, a 31 de dezembro de 2025, encontravam-se auto-excluídos da prática de jogos e apostas online 361,4 mil registos de jogadores — mais 19,2 mil do que no final do trimestre anterior. Entre eles estão as várias contas de Francisco.


O jogo "foi o meu companheiro, foi a minha fuga"

Francisco tem 34 anos. Esteve duas vezes em Villas Ramadas e está atualmente “sóbrio” do jogo. Contrariamente a Maria e Carlos, não foram as drogas e o álcool os seus primeiros vícios. Sempre foi o jogo, desde os 16 anos.

Experimentou todos os jogos possíveis, desde as raspadinhas ao poker e às “slots machines”. Às apostas online em jogos de basquetebol, voleibol, andebol, ping pong, badminton. De jogos nos Estados Unidos, México, África do Sul, Japão, China, Austrália. Rodou por tudo.

“A minha primeira aposta acontece aos 16 anos, com o meu irmão mais velho. Tínhamos boas condições de vida. Os meus pais nunca foram ricos, mas sempre fomos uma família estável e equilibrada. E aos 16 anos eu faço uma aposta de valores de loucos, logo 12 mil euros num jogo”, recorda.

Francisco, também nome fictício, foi durante muitos anos jogador de futebol. À medida que o tempo foi avançando, sempre viu o seu sucesso futebolístico a aumentar e, com ele, as expectativas. Sonhava ser rico, ter uma casa com piscina, e queria sempre mais e mais e mais. Tudo parecia correr bem, mas sabia, no fundo, que tinha falta de autoestima e que as inseguranças, sobretudo relacionadas com o aspeto físico, iam crescendo.

Depois da grande aposta de 12 mil euros, e da perda desse dinheiro, a notícia cai como uma bomba na família. Para o pai de Francisco, era um erro muito difícil de perdoar. Mas é-lhe dada uma segunda oportunidade. Começou aí aquela que diz ser a sua “espiral de destruição”.

“Quem é que está ali para ti quando tu precisas? É o jogo. O jogo, durante muitos anos, foi o meu companheiro, foi a minha fuga. Foi onde eu encontrei o sítio perfeito para me esconder de tudo o que estava cá, o que estava mal resolvido. E naquela altura eu não tinha consciência nenhuma disto. A vida foi avançando, o futebol foi crescendo — ou seja, cada vez eu auferia salários maiores, comecei a ter mais dinheiro e com isso a ter comportamentos mais autodestrutivos. A adição destruiu a minha essência”, reconhece Francisco.

A dependência do jogo levou-o a fazer de tudo. A mentir, a roubar, a vender tudo o que encontrava, seu e dos outros. Tudo valia para alimentar a adição. “Na minha cabeça, eu estava sempre no controlo da situação, ou seja, eu jogava, tudo bem, mas se eu quisesse parar, parava.” Mas não era isso que acontecia.


"Eu não consigo jogar, eu não sei jogar, eu não posso jogar e tenho de aceitar que há pessoas à minha volta que o podem fazer de forma saudável", aponta Francisco. Foto: Rita Gonçalves/Renascença
"Eu não consigo jogar, eu não sei jogar, eu não posso jogar e tenho de aceitar que há pessoas à minha volta que o podem fazer de forma saudável", aponta Francisco. Foto: Rita Gonçalves/Renascença
Francisco admite que continua a precisar da "adrenalina" que o jogo lhe trazia. Agora quer obtê-la através da prática de desportos radicais. Foto: Rita Gonçalves/Renascença
Francisco admite que continua a precisar da "adrenalina" que o jogo lhe trazia. Agora quer obtê-la através da prática de desportos radicais. Foto: Rita Gonçalves/Renascença


Ao seu redor, a família entrava em desespero. “Acredito que os meus pais são pessoas diferentes pela minha adição, porque eu sofri muito durante todos estes anos. Eu consegui destruir-me interiormente e destruir todos à minha volta. O único responsável fui eu. Hoje eu sou pai e penso que nenhuns pais merecem ter um filho como eu. Tornei-me um animal, no sentido de que não via nada à frente. Só via jogo. Valia mesmo tudo para jogar”.

O pai expulsou-o de casa. Francisco, jogador profissional de futebol, viveu no carro durante um mês, à base de bolachas e snacks. Nesse período de tempo, nunca reconheceu que necessitava de ajuda e que era doente. Mesmo quando os ordenados que recebia do futebol, de dois e três mil euros, eram gastos em dois dias.

Chegou, por isso, a Villa Ramadas, contrariado e quase por obrigação da família, em 2017. Sentia-se diferente do restante grupo, porque não conseguia comparar o seu vício com o dos outros colegas, aditos a drogas ou álcool.

Saiu ao fim de um mês. Sentia-se melhor, mas o problema continuava lá. A namorada da época — e mulher atual — foi “quem mais sofreu”.


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"Naquele tempo eu era impulsivo, manipulador, agressivo, aproveitava tudo para alimentar a minha doença. Era doentio. A minha mulher escondia-me o dinheiro todo porque eu tirava tudo, todo o dinheiro. Se ela tivesse dois euros no bolso para um café, na minha cabeça, aquele dinheiro tinha de ser meu”.

Esteve três, quatro, cinco meses sem jogar, mas “não havia um propósito”. Francisco sentia que tinha ido para tratamento pelos outros, porque não se via doente. Via-se, aliás, “mais inteligente do que os outros”. Pedia emprestado a um amigo e a outro e os 500 euros que ficava a dever dobravam em segundos. Já devia 500 a um e outros mil a outro amigo. As dívidas foram-se acumulando.

Desenvolveu estratégias para o pai pagar o seu vício, sem se aperceber. “Arranjava entidades e referências para pagar como se fossem das contas de luz ou da água. Mas eram de sites de apostas. Ou seja, muitas vezes o meu pai pensava que estava a pagar uma conta de água e estava a pagar as minhas apostas. Depois vêm os cortes porque as contas não eram pagas. É uma loucura total.”

Ao todo, Francisco admite ter gastado entre 500 e 600 mil euros ao longo dos anos. Porque gastar mil ou 100 euros era igual. Tudo o que tinha servia um único propósito. “Se eu tinha dois mil euros, eu já não me contentava com uma aposta de dez ou 20 euros. Aquilo já não me alimentava. E as raspadinhas e o casino nunca me iludiram tanto como os jogos online”, confessa.


Em 2023, aceita novamente ir para Villa Ramadas. É quando se entrega ao apoio e se agarra “de unhas e dentes” ao tratamento. Aprende cinco princípios, que não esquece: “O primeiro é a verdade. Tenho de ser verdadeiro com os outros e comigo mesmo. O segundo é a aceitação. Ou seja, tenho de aceitar que tenho uma adição para o resto da vida. O terceiro é a gratidão, é ser grato por ter tudo. O quarto é o amor, porque durante muitos anos vivi numa mentira e esqueci-me de viver com amor. E o último é o princípio da responsabilidade. Ou seja, é reconhecer que sou responsável pelas situações”, explica.

“E também aprendi o exercício de fazer o filme até ao fim. É pensar: ‘Ok, quero apostar 100 euros, mas depois perco e vou ter vontade de gastar 500. Depois vou ter dívidas, vou ter de pedir dinheiro emprestado, os meus pais vão saber e toda a gente se vai afastar de mim’. É neste exercício mental que eu rapidamente percebo se é melhor ou não jogar.”

Frequentou reuniões de jogadores anónimos, dedicou-se ao exercício físico, deixou de olhar para o pai como um inimigo. Precisou não só de deixar de jogar, mas de fazer um "reset" total à vida, aos pensamentos, às relações com os pares à sua volta. Fez a auto-exclusão de todos os jogos para a sua conta e para a que criou com os dados da mulher. “Aprendi que jogar é só uma consequência, foi o que me desgovernou, mas o jogo não é o problema da minha vida. O problema sou eu. São estes conflitos interiores que eu tinha mal resolvidos. Eu não consigo jogar, eu não sei jogar, eu não posso jogar e tenho de aceitar que há pessoas à minha volta que o podem fazer de forma saudável.”

Tal como Carlos, chegou a considerar pôr termo à vida. Na sua perspetiva, só havia três caminhos possíveis: “Ou acabava preso (porque tudo o que eu fazia para alimentar a minha doença... chegava à parte em que eu mereço ser preso); ou ia matar-me (porque não estou a conseguir lidar com a situação e o caminho mais fácil é fugir, pôr fim àquele sofrimento) e o terceiro caminho era a loucura”.

"A adição é uma doença muito silenciosa. Ou seja, enquanto que no álcool, se eu me embebedar as pessoas percebem logo os sinais, o jogo é uma doença que eu consigo esconder.”

Hoje, recuperado, Francisco já não está na clínica. Veio de visita e reencontrou-se com alguns dos colegas da altura. Uns mais novos, outros mais velhos, como Carlos. Há jovens de 15 anos que vão para tratamento e pessoas com mais de 70 também. Muitos vêm mais do que uma vez, como é o caso de Carlos, Maria e Francisco. Todos recaíram e precisaram de voltar a pedir ajuda.

“Aqui dentro, durante este tempo, há uma bolha de proteção. Quando chegam lá fora, há um enfrentar da vida a 100%, ou seja, com todas as dificuldades. Pode haver uma recaída e está tudo bem se isso acontecer. É quando pedimos ajuda e voltamos para o tratamento e enfrentamos as coisas de uma forma diferente”, sublinha Filipa Oliveira.


Filipa Oliveira é psicóloga clínica e diretora terapêutica do Villa Ramadas. Acompanhou os três casos ao longo dos anos. Foto: Rita Gonçalves/Renascença
Filipa Oliveira é psicóloga clínica e diretora terapêutica do Villa Ramadas. Acompanhou os três casos ao longo dos anos. Foto: Rita Gonçalves/Renascença

Para a psicóloga, estas três histórias representam um “ato de valentia”. “É um ato de coragem, porque não é fácil sair e voltar a recair. Lembrares-te de tudo aquilo que já passaste, aquilo que vais passar novamente e teres de lidar com a vergonha de admitir às pessoas — e com a tua própria frustração de teres falhado”.

O estímulo que está em todo o lado, a todas as horas

Carlos, Maria e Francisco recaíram. No mundo real, os gatilhos são muitos e as ofertas também. O segredo, dizem os três, é manter o medo.

“Lá fora, um adito grato e feliz jamais recai, mas há medo. Mas medo positivo, porque é importante”, garante Carlos. Maria partilha a mesma opinião. “Enquanto houver medo, estamos bem. Quando se perde o medo é que a coisa começa a ser um sinal. Temos de estar atentos permanentemente, porque o álcool está em todo o lado e o jogo está em todo o lado.”

Mesmo feita a auto-exclusão das plataformas de jogos, existem os casinos ilegais, onde qualquer um, de qualquer idade, pode entrar.

“Teoricamente, entras num site legal de apostas online e só podes com 18 anos, porque tens que dar os teus documentos. Mas num casino ilegal, com 16 anos fazes um depósito e eles não te pedem nada”, aponta Francisco.


Segundo um estudo da Associação Europeia de Casinos, estima-se que os sites de casinos ilegais representem cerca de 71% do mercado de jogos de azar online da União Europeia. Em Portugal, de acordo com Associação Portuguesa de Apostas e Jogos Online (APAJO), quatro em cada 10 jogadores online usa plataformas ilegais.

Desde a entrada em vigor do Regime Jurídico dos Jogos e Apostas Online (RJO), em 2015, e até ao fim do ano passado, foram enviadas 1633 notificações a operadores ilegais de jogo online para encerrarem a sua atividade em Portugal — 58 durante o 4º trimestre de 2025. E no total, neste período, foram efetuadas 57 participações junto do Ministério Público para efeitos de instauração dos correspondentes processos-crime. Em 2025, o Ministério Público já tinha arquivado dez casos de jogo ilegal online por "dificuldades na investigação".

O acesso ao jogo é fácil, rápido e grátis. A ideia é exposta em todos os cantos: em anúncios na televisão, nas redes sociais, na voz de influenciadores e celebridades. Gera dinheiro para quem promove e “destrói a vida” a quem se deixa levar pelo vício.

“'Agora regista-te e ganha. Agora regista-te e ganha mais não sei quanto'. E no meio daquilo tudo, vamo-nos registando em todo o lado e mais algum e começam a ser plataformas acessíveis a toda a gente. Havendo dinheiro, não há nada nem ninguém que nos proíbe de lá andar”, sublinha Maria.

Já Carlos sabe que, quando sair cá para fora, não quer nenhuma aplicação no seu telemóvel. Não quer ter nada a ver com o jogo, mas os estímulos estão em todo lado, “parecem cogumelos a crescer”.


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“Eu pensei em suicidar-me por causa do jogo. E como eu, neste momento estão aditos a matarem-se por causa do jogo, mas isso pouco importa para quem está a ganhar dinheiro, porque o que interessa a quem ganha é a ganância. (...) Muita gente precisa de patrocínios e eles são os maiores patrocinadores no mundo."

De acordo com os dados do Serviço de Regulação e Inspecção de Jogos, a atividade de jogos e apostas online gerou 337,6 milhões de euros em receita bruta no último trimestre de 2025 e permitiu que o Estado arrecadasse, através do Imposto Especial de Jogo Online (IEJO), 99,3 milhões de euros — um crescimento de 11,3% face ao mesmo período do ano anterior.

“É uma vergonha tudo o que tem acontecido nos últimos tempos em Portugal. Eu, como já jogo há bastante tempo, não foi muito com os anúncios, porque a publicidade que havia na altura não é como existe hoje, mas hoje acaba por ser uma loucura”, afirma Francisco.


É o tópico que mais lhe causa revolta. Lembra-se de quando chegou pela primeira vez a Villa Ramadas e de como estar fechado na clínica lhe permitiu estar longe dos estímulos exteriores. A doença transformou o jogo na sua maior obsessão, que ainda hoje diz que “ama”, porque é o que lhe traz a “adrenalina” de que precisa.

“Mas como é que eu me quero tratar se eu ligo a TV ou vejo futebol e a todo o momento há publicidade para casas de apostas? Eu também vejo pessoas desesperadas, que chegam a grupos de autoajuda porque são bombardeados por e-mails de casas de apostas a incentivá-los a regressar”.

Francisco é peremptório: “Isto não pode continuar. As pessoas enriquecem a incentivar outras pessoas a jogar. Passam uma mensagem que é mentira, porque os influencers, através da publicidade aos casinos legais e ilegais, principalmente ilegais, partilham os ganhos, mas aquilo não é verdade, porque eles não estão a jogar. Mostram uma coisa que não é real”.

Na verdade, muitos dos ganhos de influenciadores surgem dos novos registos, mas também de comissões das perdas dos jogadores reais.

Mas as críticas de Francisco estendem-se aos próprios casinos licenciados, que partilham anúncios de apostas nas ruas, nas televisões, nas redes sociais. Betclic, Bwin, ESCOnline, Pokestars, Casino Portugal, Casino Solverde, Nossa Aposta, Placard.pt, Luckia, 888, Betano, Moosh, Betway, Versus, Bacanaplay, LeBull, GoldenPark e Yobingo são as entidades autorizadas a explorar jogos e apostas online em Portugal e que usam caras conhecidas para promover os jogos.

“A Cristina Ferreira, por exemplo, ela faz propaganda a uma casa de apostas. E quem é o público alvo da Cristina Ferreira, que apresenta o programa das manhãs? Ou reformados ou pessoas que estão sozinhas em casa, que têm muito tempo morto, que precisam de muita companhia e que não têm bem noção desta realidade e vão na aventura. As máquinas, os barulhos, os shows, está tudo muito esquematizado para o vício e para agarrar as pessoas e acaba por ser triste isto continuar a acontecer”, lamenta Francisco.

“O facto de haver pessoas de renome a validarem este tipo de comportamento, às vezes não é por mal, mas por um bocadinho de falta de consciencialização social e de perceberem que efetivamente há pessoas que têm dificuldades em parar e de não seguir com esse comportamento até uma consequência catastrófica. Isso acaba por normalizar um comportamento que não deve ser normalizado”, defende a psicóloga Filipa Oliveira. “Da mesma forma que o tabaco deixou de ser promovido nas televisões por trazer consequências negativas, quero acreditar que um dia vamos chegar à parte do jogo patológico também, destes jogos e casinos não serem promovidos”.

Em breve, Carlos terá de enfrentar o mundo lá fora, de novo. Acredita que está “grato e feliz” e isso basta-lhe para se manter saudável junto da família, mesmo que a vida real “seja uma selva”. Longe da “tranquilidade, paz e felicidade” que a clínica lhe deu, Carlos sabe que o jogo vai estar lá sempre, a chamar por si. Mas garante que desta vez é mesmo o fim da sua adição.


Se precisa de ajuda ou tem dúvidas sobre questões de saúde mental, contacte um médico especialista, ou um dos vários serviços e linhas de apoio gratuitas, como o SNS 24 (808 24 24 24), a Linha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico (1411), o SOS Voz Amiga (800 209 899/213 544 545), o SOS Criança (116 111), a Linha Jovem (800 208 020) ou o SOS Adolescente (800 202 484).




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