
De cajado na mão, Amaro Ribeiro conduz o gado rumo à serra do Gerês. Chegou da aldeia de Rio Caldo até à vila. Pela frente tem um longo caminho até ao pasto, lá no alto da serra.
“Trazemos as vacas para levar para a serra, vacas e vitelinhos e tudo. Devem estar à volta de 60 a 70. Fazemos isto todos os anos. É tradição antiga, trazer o gado para a serra”, conta o “geresiano” de 50 anos — pastor toda a sua vida.
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“É preciso lavrar a terra e nos campos elas não dão muito jeito. Agora vão passar férias lá para cima”, brinca Amaro, enquanto vai dando “ordens de comando” às vacas – galegas e barrosãs –, impacientes, à espera para continuarem caminho.
“Oah! Oah! É para elas pararem”. “Eih! Eih! É para andar”, explica-nos, fazendo até parecer fácil o manejo dos animais.
Conta-nos que tem 27 cabeças de gado. Conhece-as a todas pelo nome. “E elas a mim”, acrescenta, apontando uma a uma com o cajado.
“Esta é a Morena, a Dourada, a Richa, Linda, Laranja, Roseira, Arredonda”, enumera Amaro, enquanto desencanta do bolso uma corriqueira saca plástica. “Se a abanar elas vêm atrás de mim”. “Temos que ganhar manhas”, atira o pastor, que se prepara para dez noites na serra.
“É uma noite por cada duas vacas”, explica. “Depois anda sempre à roda. Começa num lugar [aldeia] e corremos a freguesia”. Durante o pastoreio – também conhecido por "vezeira" – cada pastor pernoita numa cabana da serra.
“Lá em cima temos o que chamamos de forno, que é uma casinha, e ficamos lá dentro."
“Sozinho?”, perguntamos. “Sozinho, sozinho, não. Nós, o lobo e os bichos selvagens. Temos sempre companhia de alguma coisa”, remata.
Mas, para que o gado não se confunda na imensidão do pasto – que é a serra do Geres – são pintadas listas nos cornos de cada vaca. Cada aldeia tem a sua própria cor.




“Esta aqui é uma vaca de corno azul, sabe-se que é nossa [de Rio Caldo]. Se virmos uma de vermelho, sabemos que é deles [de Vilar da Veiga]”, explica Amaro, que se faz acompanhar pela filha adolescente, a Rosinha.
“Eu digo-lhe que não ganhe gosto a isto, que não vale a pena. Quem faz isto são todos malucos. É, é. Olhe, para o que eu lhe digo. E eu sou um deles, também”.
Até porque é preciso gosto e coragem para lidar com os imprevistos e enfrentar os perigos que a serra esconde. E são alguns.
“É o lobo que aparece, as vacas que vêm da serra sozinhas ter a casa. Outras vão sozinhas ter à serra. Já lá está uma. Veio sozinha de casa e subiu para o monte”, conta.
“No ano passado deixei-a lá em baixo na corte [da aldeia]. Ela veio sozinha. Foi à serra, andou lá oito dias e tornou para casa. E depois dizem que não há vacas inteligentes. [risos] Não é verdade?”.
Subimos até ao alto da serra do Gerês ao ritmo dos passos das 150 cabeças de gado que chegaram das freguesias de Rio Caldo e de Vilar da Veiga para se juntarem na Vila do Gerês, antes de seguirem para o pasto.
Parte do caminho é feito de trilhos inacessíveis a qualquer carro e – parcialmente – interditos pelo Instituto de Conservação da Natureza e Fauna (ICNF). A viagem é feita a pé ou de jipe até ao curral das Espinheiras junto ao miradouro da Pedra Bela, em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês.
Aqui, a mais de 800 metros de altitude, vão ficar mais de 60 cabeças de gado da aldeia de Vilar da Veiga. Mas à chegada há logo um percalço: “Foi azar. Não é que me fugiram duas cabeças de gado”, conta preocupado Pedro Lobo.
À espera pelo gado está António Pimenta. É o pastor – o vezeiro – de serviço na primeira noite. Vai cuidar do gado nas próximas 24 horas. Recorda que começou nestas andanças ainda antes de ter animais. Fá-lo por gosto, uma vez que este ano não trouxe gado para o pasto. Ainda assim, vai dar noites por quem não pode.
Ao lume, na cabana da serra, uma espécie de pequena casa-abrigo feita de pedra, está a carne e o pote preto de ferro fundido da sopa.
António faz-nos as honras da casa e mostra-nos os recantos dos escassos metros quadrados da cabana. À porta está a “cozinha tradicional”, que não é mais do que “pedras, lume e carne para a brasa”. “E uma sopinha tradicional da serra”, acrescenta.




Dois passos ao lado temos “a parte da estadia”, onde mal cabe o colchão insuflável. “O colchão é por estrear, mas já está furado. Aqui é a parte do repouso, onde vamos descansar, pernoitar durante a noite”.
Pedro Lobo, o juiz da "vezeira" deste ano, é o responsável por fazer cumprir as regras – que podem não estar escritas, mas são lei.
“Os animais à noite vão para dentro do curral por causa do ataque do lobo, que é uma ameaça. No passado tivemos azar. Esperemos bem que este ano não haja nenhum ataque”, conta o pastor. As regras ditam que a “vamos passando as palavras uns aos outros para revezar”. “Passo sempre ao meu vizinho os dias dele e assim sucessivamente”, explica Pedro Lobo.
“Depois também temos a roda de serviço pelos outros currais”, acrescenta, para “confirmar se está tudo em ordem”. Porque "ao longo do verão vamos passar os animais de curral em curral pela serra acima”.
Mas engana-se quem pensa que a prática da “vezeira” é uma tradição que só passa de pais para filhos. Pedro é um dos exemplos de que isso nem sempre acontece. “Em casa não tínhamos gado. Fui através dos vizinhos. E depois, mais tarde, os meus sogros também tinham animais e, então, juntou-se a fome com a vontade de comer”, brinca.
“É que eu sempre gostei disto. Eu amo isto”, confidencia.
Tiago Pires, 34 anos, tem oito cabeças de gado. De acordo com as regras teria de pernoitar quatro noites na serra. Mas, conta-nos que só vai "botar duas”. A vida não lhe permite mais. Tem a mulher grávida em casa. O funcionário de hotelaria é o único da família a participar na tradição.
“Sou o único. Foi o gosto pelos animais, basicamente”, simplifica o jovem, que começou há três anos a vida de agricultor e de pastor com as vacas da raça galega.
“Isto é um gosto. Quem não gostar, não vale a pena. E são cada vez mais os jovens a aderir. Há oportunidade para toda a gente”, remata.
E quem já ajuda a cuidar do gado é Rui Lobo, nove anos. Conhecemo-lo de cajado na mão a acompanhar o pai, o juiz Pedro Lobo.
“Já há muito que tenho este cajado. E uso sempre quando vou às vacas – ou aos outros animais”, acrescenta. “A maioria das vezes é nos fins de semana”, revela o menino – que sonha primeiro ser jogador de futebol e só depois pastor.
“Ele adora andar aqui”, confirma o pai Pedro, lembrando que a vezeira é uma tradição “com mais de 200 anos que vai passando de geração em geração”.




“As crianças são o futuro, são a gente de amanhã, não é?”, atira António, o pastor que ainda vai ter de ir procurar as duas vacas que se perderem à chegada ao curral. Mas nada que o aflija.
“Pode haver uma cabeça ou outra que nos fuja. Mas pronto, temos de dar conhecimento e procurar no dia seguinte. Se fizer falta, alguém vem ajudar a procurar. É como tudo”.
"A festa é hoje. Amanhã é o dia de trabalhar”, remata.
Deixamos agora para trás o Curral da Espinheira e descemos até à vila do Gerês, ao encontro de Miguel Teixeira. É criador de gado e o fundador da Associação Lírio do Gerês que, desde 2006, faz do dia da subida da “vezeira” uma festa.
O técnico de turismo conta que são “cada vez mais os jovens que se interessam pela 'vezeira'. Na verdade, temos aumentado o número efetivo de animais”, afirma. “Há pessoas a comprar animais para que a tradição não termine.”
A pratica do pastoreio comunitário é secular. Não é exclusiva da região do Gerês, mas é uma das poucas que ainda sobrevive no país. Valeu a classificação de património cultural imaterial há três anos. “Um orgulho”, conta-nos o autarca de Terras de Bouro, Manuel Tibo.
“Para o município é uma das referências maiores", assegura. "Temos muito orgulho nesta tradição”.
Regressamos à serra do Gerês. Vamos ao encontro do gado que, nos últimos dias, deixou o prado da Espinheira e já mudou de pasto. Há um novo vezeiro – Filipe Pires – que o guarda num novo curral.
“Estamos aqui na Carvalha das Éguas. O que é? É o paraíso de Vilar da Veiga”, diz-nos com um sorriso rasgado, mas sereno. E não veio sozinho. “Venho em família: os meus filhos e a minha mulher. Sozinho já tinha abandonado. Não dava. Em família é que fica porreiro.”
Rosa, a mulher de Filipe Pires, vai abanando a cabeça em sinal de aprovação, enquanto dá as voltas ao lume para cozinhar o feijão com couves e o pernil para o almoço. Atenta à conversa, intromete-se: “É assim, o quinhão [gado] é meu, mas ele é que está a gerir”.
Foi Rosa quem herdou o gado do pai há 10 anos. Desde então que a subida à serra é feita em família. “Os meus filhos antes querem vir aqui do que ir para o Algarve”, atira a mãe orgulhosa, garantindo que na família tudo se faz em equipa. ”Nós quando vimos, vimos os quatro”. ”Tiramos estes dias, falamos aos patrões e avisamos que temos de vir guardar [o gado]”.
O dia a dia no prado da Espinheira é feito em torno de uma cabana, quarto e meia cozinha, abraçada por dois carvalhos centenários que dão a sombra às gentes e aos animais. Não há eletricidade, a água chega de uma pequena fonte, apenas para o essencial. Não há banhos, nem rede de telemóvel.
“Não há. A rede é muito fraquinha”, diz-nos Rosa. “Temos de andar por cima de uns penedos à procura”. É uma vantagem ou desvantagem? “É bom”, reconhece, porque “há alturas que dá vontade de espetar com o telemóvel na parede”, diz prontamente, esquecendo-se do microfone da reportagem. “Você não gravou isto?”, pergunta bem disposta. Respondemos que sim.
Só não gravamos os filhos – Dinis e Tomás – a cantarem ao desafio. Diz-se que são uma das melhores duplas da terra, mas a concertina ficou em casa. Aliás, como tudo o resto. Dinis é o mais novo. Tem 12 anos e muitas certezas.

Conta-nos que já decidiu o futuro. Quer ser engenheiro agrónomo. "É uma profissão que tem a ver com animais. E é o que eu gosto e é por isso que vou seguir.”
“Desde os 6, 7 anos acompanho a minha mãe, o meu pai e o meu irmão. Às vezes, até sou eu que digo para virmos até aqui, mesmo que não seja o nosso dia de guardar, para ver os animais”, assegura. “E espero continuar, se Deus quiser”.
“É incrível estar cá em cima. Estás todo o dia sossegado. Só passam às vezes uns turistas, mas isso não tem nada. Estou aqui encantado da vida, aqui em cima.”
A conversa é interrompida pela Pinheira – a vaca da família –, que chegou mais cedo do pasto. Na montanha ficaram as restantes, irão voltar ao curral mais à tardinha.
É Tomás, 16 anos, quem nos apresenta à Pinheira, mas o jovem pastor garante que poderia ser qualquer outra cabeça de gado, que saberia reconhecer.
“Por acaso esta aqui é a nossa. Conheço quase tudo. Se chegar aqui uma vaca vejo logo de quem é. Se de Pedro, de João. Se chegar ali à frente e faltarem 10 vacas sei de quem são”.
Aos poucos o gado vai regressando ao curral da Carvalha das Éguas para se acomodar à sombra dos carvalhos, junto à cabana e a uma pia de água, que não é mais do que uma velha banheira incrustada nas pedras.
Após três dias na serra, falta pouco para a família Pires regressar a casa. Filipe confessa que até lhe “custa um pouco ir embora”, mas tem de ser. Até porque há banhos para pôr em dia.
“Deus me livre. Vão ser três horas de banho, no mínimo.”
Agora é a vez de um novo vezeiro assumir a guarda dos animais. É assim até ao final do verão. O gado ainda vai subir mais na serra, mudar de novo de curral e de pasto, montanha fora. Regressa às aldeias no fim de setembro.