Portugal precisa de uma mudança de mentalidade para apostar mais na robustez de infraestruturas, perante a inevitabilidade de eventos climatéricos extremos.
“O desafio não é técnico, é de custos”, alerta na Renascença.
O docente do Instituto Superior Técnico sublinha que as infraestruturas, desde a A1 às linhas de alta tensão na região Oeste, afetadas pela tempestade Kristin, foram projetadas para condições que já não correspondem à realidade climática atual.
“Talvez pela primeira vez, estamos a ver em Portugal o efeito direto das alterações climáticas” e não um mero acaso meteorológico.
Carlos Oliveira Cruz reconhece que as infraestruturas foram desenhadas para resistir a “determinado caudal, determinada intensidade de vento”.
Mas, a partir de agora, “vamos ter de subir a exigência relativamente ao desempenho destas infraestruturas”.
Admitindo ser inevitável uma comparação com a derrocada de um pilar na A1 em Coimbra e o acidente de Entre-os-Rios, em março de 2001, Carlos Oliveira Cruz sublinha as diferenças.
“No caso da A1, não estamos perante um colapso estrutural da infraestrutura principal. Foi o dique que rompeu, levando consigo as terras de suporte da autoestrada. Na ponte de Entre-os-Rios, o colapso foi direto sobre a própria ponte”, explica.
Mas a principal diferença “está no facto de a A1 ser uma infraestrutura altamente monitorizada” em que a Brisa acompanha em permanência o que se passa.
“Ao início da tarde, já se tinha decidido fechar a via, porque as medições do caudal do Mondego indicavam risco. Isso permitiu salvaguardar a segurança dos utilizadores”, acrescenta.
O problema são as vias secundárias espalhadas por zonas isoladas: “são essas que nos devem preocupar, porque os municípios, muitas vezes, não têm a capacidade técnica, nem financeira para as monitorizar.”
Reparar agora, reforçar depois
Nas últimas horas, o ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, admitiu que a reposição da circulação demorará várias semanas.
Carlos Oliveira Marques diz que essa será a prioridade: “repor o que existia”, porque, diz, “não é possível, em poucas semanas, fazer um reforço estrutural profundo. O problema primário são os diques do Mondego. E reforçar os diques é uma obra de muitos anos e de dezenas ou centenas de milhões de euros”.
Ainda assim, este especialista em gestão de transportes reconhece que vai ser necessário perceber se aquele troço da A1 deverá ter maior proteção no futuro, tal como outros pontos onde a Autoestrada do Norte se cruza com cursos de água.
“O país investiu muito pouco na manutenção”
E é essa fotografia mais abrangente que cria uma inevitabilidade e um problema. Carlos Oliveira Marques lembra que Portugal tem sido historicamente frágil na manutenção das suas infraestruturas.
“Nos últimos 15 anos, sobretudo desde o período da troika, o investimento em manutenção foi muito baixo. Só agora, com o PRR, se começou a recuperar.”
Ainda assim, o país não tem capacidade para reforçar tudo ao mesmo tempo.
“Será preciso hierarquizar, numa ótica de risco, onde é mais urgente intervir. Mas, no final do dia, tudo se resume a escolhas políticas e disponibilidade orçamental.”