O presidente do Instituto de Plasmas e Fusão, Bruno Soares Gonçalves, considera que Portugal poderá vir a integrar a energia nuclear no seu sistema elétrico, com um peso na ordem dos 20%, de modo a garantir resiliência, estabilidade e controlo de custos.
“Portugal está atrasado na análise estrutural do seu modelo energético e devia estar a fazer esse estudo para perceber qual o caminho", diz à Renascença este especialista, também professor do Instituto Superior Técnico, neste domingo em que passam 40 anos do acidente de Chernobyl.
Para Bruno Soares Gonçalves, a discussão sobre energia nuclear deve sair do plano ideológico e assentar numa avaliação técnica dos custos totais do sistema, um conceito que inclui não apenas o investimento inicial, mas também todos os encargos associados ao funcionamento do sistema elétrico. "Deve ser um estudo agnóstico que considere as várias opções possíveis e os custos globais totais", aponta.
Entre esses custos, o especialista destaca a necessidade de garantir capacidade de resposta quando as fontes renováveis não produzem, o que implica manter centrais de "backup" e investir em armazenamento e reforço da rede. "Todos esses custos têm que ser contabilizados. Manter centrais em gás à espera e garantir a estabilidade da rede", diz
É neste enquadramento que surge a estimativa de que o nuclear poderá representar cerca de 20% da produção elétrica nacional, funcionando como complemento às energias renováveis. Este cenário poderia traduzir-se na construção de "duas centrais nucleares de grande dimensão, com cerca de um gigawatt cada", ou na aposta em "pequenos reatores modulares", uma tecnologia mais recente que permite investimentos faseados, embora ainda com algum risco associado.
Soares Gonçalves lembra que decisões deste tipo exigem tempo e planeamento, sublinhando que países que hoje têm forte presença nuclear começaram a investir há várias décadas, muitas vezes motivados por crises energéticas. “Não é algo que possa ser de feito imediato, estamos a falar de uma estratégia a médio e longo prazo", adverte.
Apesar de o Governo português já ter anunciado a intenção de avançar com um estudo sobre o tema, o processo ainda não saiu do papel, o que, segundo Bruno Soares Gonçalves, pode comprometer a definição de uma estratégia energética sólida: “Não podemos ir adiando as decisões, o futuro constrói-se hoje.”
Para o presidente do Instituto de Plasmas e Fusão, a energia nuclear não deve ser vista como solução única, mas como parte de um portfólio diversificado que permita responder às necessidades de crescimento económico e, ao mesmo tempo, reduzir os custos da eletricidade para empresas e famílias.