Os votos das eleições legislativas de 2025 estão contados e, no final das contas, quase um em cada cinco não serviram para eleger deputados ou atribuir mandatos.
Seja por a cruzinha ter sido num partido que não elegeu naquele distrito em particular ou porque o partido já não precisava daquele voto em particular para eleger no círculo eleitoral, mais de 1,1 milhões de votos não tiveram qualquer representatividade.
Isso quer dizer que, entre os mais de 6,3 milhões de votos nas legislativas - a segunda maior participação de sempre em eleições em Portugal - quase um em cada cinco votos foram "para o lixo", não servindo para eleger qualquer deputado.
Uma análise da Renascença ao número de votos nas últimas legislativas verifica que os círculos de Europa, Portalegre, Fora da Europa e Guarda foram os mais prejudicados. Em cada um destes círculos eleitorais, os que elegem o menor número de deputados para o Parlamento, mais de 40% das pessoas que votaram não contribuíram para atribuir nenhum dos mandatos correspondentes.
Há dois tipos de votos desperdiçados. O primeiro é o que não elege deputados. Todos os votos atribuídos a um partido sem assento são automaticamente desperdiçados. Mas isso também acontece quando um partido recebe votos num determinado círculo eleitoral, mas não elege, como aconteceu com a AD em Bragança ou ao Bloco de Esquerda em todos os distritos menos Lisboa.
O segundo tipo de voto desperdiçado é aquele que sobra quando estão eleitos todos os mandatos. Ou seja, se um partido precisa de cinco deputados para eleger um deputado, mas recebe oito, então, três votos serão desperdiçados por serem sobrantes ao necessário.
Quando falamos em votos desperdiçados, falamos da soma destes dois tipos de voto.
Do lado contrário, em Lisboa - o círculo eleitoral com mais deputados (48) -, apenas 10% dos votos foram considerados "desperdiçados" ou "sobrantes". No Porto e em Viseu, a percentagem é de 12%, e em Braga está nos 14%.
Em relação ao ano passado, o número de votos desperdiçados caiu - de 760 mil em 2024 para 656 mil este ano -, enquanto o número de votos sobrantes é praticamente o mesmo - passou de 502 mil nas legislativas do ano passado para 485 mil este ano.
"Um voto de Portalegre tem menos liberdade de escolha do que um voto de Lisboa. O voto não é todo igual", como explicou no início do mês de maio à Renascença o professor Henrique Oliveira, coordenador do agregador de sondagens do Instituto Superior Técnico, que também fez esta análise matemática aos votos desperdiçadas nestas eleições.
PS é o partido com mais votos sem representatividade
Entre todos as forças políticas a votos no dia 18 de maio, o PS foi o partido que teve mais votos que não serviram para eleger qualquer deputado: foram mais de 207 mil - cerca de 47 mil nos dois círculos onde os socialistas não elegeram, os da emigração (Europa e Fora da Europa) e mais 159 mil nos distritos onde elegeram pelo menos um deputado, mas sobraram votos após a aplicação do método d'Hondt, o sistema eleitoral português.
Depois do PS, o partido com mais votos desperdiçados ou sobrantes foi o Chega, com mais de 154 mil, a grande maioria deles em círculos onde o partido elegeu, mas não conseguiu chegar a mais um deputado.
A diferença entre o desperdício de votos entre PS e Chega explica o porquê do Partido Socialista ter conseguido mais votos, mas menos deputados - o PS tem 58 e o Chega 60 -, com os socialistas a terem sido o último partido a eleger em apenas um círculo eleitoral, enquanto o Chega foi o último partido a eleger em quatro círculos eleitorais.
Em contrapartida, em dez círculos eleitorais, o PS teve o primeiro deputado a ficar de fora, enquanto esse azar só coube ao Chega por três vezes.
O Bloco de Esquerda foi o partido com mais votos desperdiçados, ou seja, em círculos eleitorais em que o partido não elegeu qualquer deputado - todos menos Lisboa, já que Mariana Mortágua foi a única deputada eleita nas legislativas. Assim, os 102 mil votos que o partido teve em todos os círculos eleitorais à exceção de Lisboa foram desperdiçados.
O PAN, por exemplo, que também só elegeu em Lisboa, não tem votos sobrantes, já que Inês Sousa Real foi a última deputada eleita no círculo eleitroral. E é por isso que o partido tem menos votos desperdiçados que o ADN, que não elegeu em nenhum distrito.
A AD tem menos votos desperdiçados que todos os partidos que elegeram, à exceção de PAN e JPP: foram cerca de 91 mil, uma vez que a coligação de PSD e CDS apenas não elegeu em Portalegre e em 14 dos 22 círculos eleitorais foi a força política que conseguiu o último deputado em disputa.
Assim, Luís Montenegro conseguiu ser o mais eficiente de todas as forças políticas, com apenas 4,6% dos quase 2 milhões de votos a não terem servido para eleger qualquer deputado.
Já o Chega foi o segundo partido mais eficiente entre os que elegeram: quase 90% dos votos serviram para eleger um deputado.
O estreante JPP arrancou a sua carreira parlamentar com uma eficiência de voto semelhante à da AD. Na Madeira, onde elegeu o único deputado, foi o partido mais eficiente, ou seja, aquele que precisou de menos votos para garantir um assento parlamentar. Assim, desperdiçou zero votos nesse círculo eleitoral. Já no resto dos círculos por onde concorreu, recebeu 3011 votos que não se converteram em mandatos.
Em sentido contrário, o Bloco de Esquerda foi o partido menos eficiente: mais de 80% dos eleitores no domingo de 18 de maio não conseguiram ajudar o partido a eleger um deputado. O PAN e a CDU foram os outros dois partidos menos aproveitadores, com uma taxa de eficiência abaixo dos 50%.