Ainda não sabem se farão uma segunda edição e em que moldes, mas a primeira edição do Festival Babell, que arranca esta quarta-feira no Porto, tem um cartaz de peso, com um orçamento à medida.

À parte dos apoios, a Fundação Livraria Lello investiu no Babel mais de 3 milhões de euros”, responde Rui Couceiro à Renascença quando questionado sobre o orçamento deste evento que leva à cidade invicta alguns dos maiores nomes da literatura mundial.

A autarquia do Porto é a coprodutora do festival. Nas palavras do vereador da Cultura da câmara municipal, a ideia foi “pôr mais Porto dentro do evento”. Jorge Sobrado diz à Renascença que o investimento “é reduzido". "Até 100 mil euros”, acrescenta. Nas suas palavras, o “festival tem um papel estratégico para a cidade”.

Isso traduz-se na programação da responsabilidade da autarquia que pretende chegar “a público que estava excluído, como o público infantojuvenil”. Além da programação para os mais novos, promovida no fim-de-semana de 26 e 27 nos jardins do Palácio de Cristal, a câmara é também responsável pela promoção de quatro cursos nas áreas da música, história, literatura e arquitetura.

O Babell, que coincide com a celebração dos 25 anos da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura e dos 30 anos da classificação do Centro Histórico do Porto como Património Mundial da Humanidade pela UNESCO, contará também com um “assalto poético” à autarquia, uma ação que leva a arte poética às ruas da cidade pelas mãos de Rui Spranger e João Gesta.

Uma plateia com 1600 lugares com sessões esgotadas

Salman Rushdie, Margaret Atwood, Julian Barnes, Javier Cercas, Hector Abad-Faciolince ou os dois prémios Nobel da Literatura Olga Tokarczuk e László Krasznahorkai são alguns dos convidados mais sonantes da primeira edição do Festival Babell.

O evento literário tem epicentro junto às imediações da Livraria Lello, a praça Gomes Teixeira. Rui Couceiro, comissário do evento explica: “A praça principal do Babel é a Praça dos Leões, no centro do Porto, em frente à Reitoria, junto à Livraria Lello e ao mítico Café Piolho. Tem uma plateia para 1600 pessoas, mas em algumas sessões ela já esgotou, como por exemplo, no caso da Margareth Atwood”.

Este que é o primeiro festival de carácter literário em Portugal, no qual o público tem de pagar para participar e implementou uma fórmula diferente para o acesso às sessões.

“Aquilo que as pessoas têm de fazer é comprar um livro numa das livrarias aderentes à rede Babell, na cidade do Porto. São mais de 50 livrarias e pode ser um livro a qualquer preço, um livro de bolso por 5 euros ou um livro por 2 euros comprado num alfarrabista. Todos esses livros dão uma senha e essa senha tem um código alfanumérico que se insere em site do Babell e aí podemos escolher a sessão a que queremos assistir”, explica Couceiro

O festival, que conta também com uma rede de parceiros institucionais como as autarquias de Vila Nova de Gaia e Matosinhos, o Turismo de Portugal e o Turismo do Norte, explica que, apesar dos lugares sentados estarem esgotados em algumas sessões, não impedem “ninguém de assistir de pé”.

Além dos cabeça de cartaz, o Babell contará com a presença dos “maiores escritores de língua portuguesa”, refere o comissário.

“Lídia Jorge, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, Dulce Maria Cardoso, Ana Paula Tavares, Conceição Evaristo, Milton Hatoum e os grandes nomes das novas gerações, como o Bruno Vieira Amaral, a Filipa Martins, a Djaimilia Pereira de Almeida, o Rafael Gallo”, elenca Rui Couceiro.

“Aqueles nomes que nos habituámos desde sempre, como o João de Melo vai fazer uma sessão com a Isabel Rio Novo em relação ao qual tenho muita expectativa”, diz também o comissário.

A sessão de abertura, no Jardim do Pensamento, no Mosteiro de Leça do Balio, está a cargo de Byung-Chul Han, o filósofo e ensaísta de origem sul-coreana radicado na Alemanha e autor de obras como “Conversas sobre Deus” ou “A Sociedade do Cansaço”.

Também pelo Porto estarão, no domingo, o britânico Julian Barnes, que venceu recentemente o Prémio Príncipe das Astúrias e que será entrevistado pelo escritor Richard Zimler, e o poeta Reginald Dwayne Betts, uma das vozes da literatura norte-americana contemporânea cuja obra não está traduzida para português.

Música e um espetáculo sobre o Rio Douro

“A força do Babell é um encontro de natureza literária e cultural que cruza uma série de outras formas de expressão artística com a literatura”, afirma Rui Couceiro que programou, além das sessões com escritores, outros momentos de música, artes plásticas, fotografia e artes de rua.

O Centro Português de Fotografia vai acolher uma exposição de Daniel Mordzinski. “O fotógrafo dos escritores vem aqui fazer não só uma retrospectiva da sua carreira, mas também expor no local onde esteve preso o Camilo Castelo Branco, a Cadeia da Relação, que hoje é o Centro Português de Fotografia, retratos de escritores de todo o mundo que estiveram presos, ou seja, é uma exposição sobre a liberdade de expressão”, diz Rui Couceiro.

Também relacionada com a escrita do autor portuense Camilo Castelo Branco, no Museu Nacional Soares dos Reis a artista Ana Vidigal vai inaugurar dia 25 a exposição “Desenhos do Cinismo e Melancolia”, com a curadoria da escritora Patrícia Reis. São apresentadas “22 peças de pequenas dimensões que se oferecem ao olhar como páginas abertas, objetos de leitura dupla, trabalhados nas duas faces com colagem, desenho e pintura”, indica o programa do festival.

Mas o cartaz conta também com momentos musicais, desde logo um encontro inédito em palco entre os GNR e Pedro Abrunhosa, na quinta-feira à noite, na Avenida do Aliados. Haverá também um concerto com Carminho e Bárbara Bandeira na sexta-feira, no mesmo local.

Um dos pontos altos está marcado para sábado. O Rio Douro será o palco de uma performance de Cai Guo-Quiang, o artista responsável pelo espetáculo de fogo de artificio na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim.