11 nov, 2024 - 13:40 • Daniela Espírito Santo , Isabel Pacheco
"Há uma dependência excessiva dos apoios públicos" às empresas, mas isso acontece porque "não há, muitas vezes, alternativas". Quem o defende é o vice-presidente da Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES) que participou, esta segunda-feira, num painel sobre o papel das políticas públicas para a indústria e os desafios da industrialização, na conferência "A Reindustrialização de Portugal", promovida pela Renascença com o apoio da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia.
Carlos Alves lamenta o facto de, na Europa, o "sistema financeiro ser muito baseado nos bancos" pois, defende, o "mercado de capitais é absolutamente crucial para a reindustrialização".
Carlos Alves defende, por isso, a criação de mecanismos de financiamento alternativos das empresas para além dos públicos. O vice-presidente da SEDES aponta como exemplo a subversão por parte dos bancos da figura das empresas de responsabilidade limitada (que permite separação da esfera da propriedade do empreendedor e do seu negócio).
"Precisamos na Europa de criar instrumentos que permitam aos empreendedores obterem financiamentos. Também há espaço para os apoios públicos, mas tem de haver um financiamento de mercado", defende o especialista, criticando o Banco do Fomento, criado para "resolver falhas de mercado" mas que, para quem, "não é patente que esse papel esteja a ser devidamente cumprido".
Quem também criticou a atuação do Banco de Fomento foi António Miguel Castro, presidente da InovaGaia, para quem este organismo deveria ajudar a melhorar a "falta de maturidade" existente em Portugal sobre "o que é capital de risco", mas que "não está a funcionar com olhos que se vejam", levando as empresas a "procurarem investimento noutros sítios".
Mesmo assim, o responsável gaiense acredita que "estamos muito melhores" a perceber que, apesar da tradução de "venture capitalism" para "capital de risco", o nome não é para assustar. "Há uma consciencialização, uma capacitação e uma liderança cada vez melhores das nossas empresas para o fazer. Está cada vez melhor", celebra.
No campo do que não funciona a favor da reindustrialização, o vice-presidente da SEDES aponta o dedo ao facto de ainda não termos um "mercado único de energia" na Europa. "Causa-me um bocadinho de confusão termos sido capazes de comprar vacinas em conjunto [na pandemia] e continuarmos a não comprar gás ou petróleo em conjunto. Se queremos ter indústria temos de ter energia barata", declara.
Tal é, sobretudo, necessário num país "com a energia elétrica mais cara da Europa", fruto de um "défice tarifário" causado pela aposta precoce na energia eólica, "um custo colocado às costas do país".
Para não cometermos o mesmo erro com o investimento na energia marítima, defende o especialista, é necessário estratégia. "Não faz sentido nenhum estarmos a investir numa capacidade de produção que supera em três vezes as necessidades do país se não tivermos onde armazenar essa energia e como a escoarmos para o resto da Europa", declara.
Para além disso, Portugal precisa de "apostar na economia do conhecimento" para fazer frente a um problema que é, para Carlos Alves, uma palavra-chave: a produtividade. "Se queremos viver melhor temos de vender uma hora de trabalho mais cara", diz, acreditando que, para isso acontecer, temos de apostar nos segmentos onde "possamos criar maior valor acrescentado", o que "implica apostar em produtos mais complexos para serem vendidos mais caros".
Opinião similar tem o professor José Reis, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, que também participou nesta reflexão. Para o especialista, o problema não é tanto termos uma economia onde predominam os serviços, mas sim a baixa produtividade. "Temos três quartos da nossa população empregada em setores cuja produtividade é inferior à média", lamenta, pedindo, igualmente, especialização e atenção às "cadeias de valor". "Por cada euro que exportamos só acrescentamos a esse euro valor em 55 cêntimos. Os outros 45 são resultado de importações prévias", explica.´
O turismo - vilanizado por alguns - não precisa de o ser, mas "não pode ser, com certeza, a prioridade", diz José Reis. "Partilho da convicção de que uma economia é forte na medida em que é diversificada. Não se trata de priorizar isto ou aquilo. A ecologia económica só é ecologia se for diversa", entende.
Também o presidente da InovaGaia acredita que, no futuro, todos os setores vão ser precisos no "canivete suíço" da indústria portuguesa, que deve apostar onde o país "está melhor colocado", aproveitando as "gerações mais qualificadas que apostam valor". "O ecossistema não pode estar assente num único 'cluster'", admite.
Por isso mesmo, e antes de olharmos para a indústria, admite António Miguel Castro, temos de investir "nas crianças", porque os estudos provam que "se investirmos um euro" nelas", "esse euro vai-se traduzir em sete ou oito euros no futuro". "É preciso olharmos para a indústria, mas também para antes da indústria. Temos muito a ganhar em conjunto", defende, otimista quando ao "caminho acelerado" que o país está a fazer, mas admitindo que há "potencial para muito mais".
Pelo caminho, defende por sua vez Carlos Alves, também é preciso que quem contribui para a economia tenha "segurança na relação com o Estado", num país onde "temos muitos incentivos fiscais e alguns contradizem-se uns aos outros". Paradoxalmente, podemos precisar de mais burocracia, mas não para travar, mas sim para dar "mais estabilidade e segurança aos agentes económicos". "Definam-se as regras do jogo, tornem-se as regras claras e deixem os agentes económicos fazerem a sua parte", pede.
Já para o professor José Reis as questões fiscais não serão o fator mais importante, pelo menos no que diz respeito ao investimento estrangeiro. Mais importante é como isso acontece: por exemplo, agora o investimento é imobiliário, o que não ajuda a resolver a "crise gravíssima da habitação" e nos deve "fazer refletir".
Outro motivo de reflexão, concordam José Reis e Carlos Alves, deve ser a reorganização da economia em paralelo da reorganização do país. Nesse capítulo, o professor de economia pede que se falem "em todas as cidades do país". "Olhemos para o país no seu conjunto", pede, por sua vez, Carlos Alves, para quem a reindustrialização deve acontecer de uma forma que possa "aproveitar todo o país". Até porque, como defende o vice-presidente da SEDES, o crescimento económico "tem de originar inclusão social".
"Que a reindustrialização seja um motivo e uma oportunidade para colocar vida no interior", remata Carlos Alves.