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Depressão Kristin: efeitos nas empresas

João viu o telhado da fábrica e milhões a voarem, mas não desiste. "Dos fracos não reza a história"

05 mar, 2026 - 06:00 • João Carlos Malta (texto e fotos)

Nas empresas da região Centro, um mês depois da tempestade Kristin ainda se limpam destroços e fazem-se contas aos prejuízos. Entre o esforço para manter trabalhadores e não recorrer a lay-offs, há negócios concorrentes que se juntaram para conseguir responder a clientes de peso, como a Autoeuropa.

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Um mês depois de o vento ter levado o telhado de um pavilhão da fábrica de moldes que tem há 40 anos, João Faustino já só olha em frente. E tem uma certeza: não é uma tempestade que o vai derrubar. Sintetiza tudo num lema: “Dos fracos não reza a história. Não queremos pertencer aos fracos.”, conta à Renascença.

Para Faustino não foi apenas o telhado que voou, foram vários milhões de euros - valor que ainda não consegue contabilizar - que desapareceram em horas. Duas das quatro unidades da TJ Moldes, empresa da Marinha Grande que faz moldes para várias indústrias, estão destruídas. E, dentro delas, máquinas de alta precisão, no valor de centenas de milhares de euros, que ainda não se sabe se serão recuperávies.

Depois do choque inicial - “Se não morri ali, vou durar mais uns anos” -, João e os 112 trabalhadores só pensaram numa coisa: “Salvar o que é possível."

Todos quiseram ajudar, mas não havia trabalho para tanta gente na zona de produção. Ainda assim, havia muito que fazer. E os que ficaram sem máquinas para operar, quiseram começar a reconstrução: a arrastar e limpar máquinas, a remover escombros e a guiar plataformas giratórias ou autocargas.

“Temos alguns pilares da construção [dos edifícios] que estão torcidos, e vamos ver se conseguimos colocar apoios de ferro para tentar não deitar paredes abaixo. Se não tem de ser tudo reconstruído, tudo”, enfatiza o empresário.

Fevereiro foi um mês passado num lufa-lufa de limpezas, procura de soluções alternativas e um objetivo: tentar não perder o futuro. “Tem sido um mês de limpeza, de reparações e também de trabalho naquelas máquinas em que tem sido possível trabalhar, de modo a não comprometer os prazos e os compromissos que tínhamos com os clientes”, explica.

E vão conseguir? João Faustino responde com firmeza: “Sim, com sangue, suor e lágrimas. Ou seja, aquilo que nós não podemos é perder a confiança dos clientes.”

E tem sido essa a grande motivação dos que ali trabalham no dia-a-dia, como João ilustra em vários episódios. Quando a depressão Kristin passou por ali, no dia 28 de janeiro (quarta-feira), estava previsto que dois camiões saíssem na sexta-feira seguinte. “Não tínhamos os moldes prontos.”

O cliente visitou a fábrica, na segunda-feira seguinte, e teve a possibilidade de ver a “tentativa de trabalhar o máximo possível para minimizar o número de dias" que se iriam atrasar. “Conseguimos enviar os moldes na quarta-feira.”

Um dos processos que uma fábrica daquele setor faz antes de a mercadoria sair para entrega é o teste do produto. Uma das unidades da TJ Moldes que ficou destruída era, precisamente, a responsável por fazê-lo. O empresário teve de improvisar. O cliente era alemão.

"Tem sido um mês de limpeza, de reparações e também de trabalho naquelas máquinas em que tem sido possível trabalhar, de modo a não comprometer os prazos e os compromissos que tínhamos com os clientes". João Faustino, administrador da TJ Moldes.

“Corremos o risco, ele compreendeu e aceitou. Nós fizemos, trabalhámos, mas enviámos o molde para a Alemanha sem o respetivo teste. Na garantia de que ia o molde e ele ia tentar fazer peças para não o comprometer com os prazos que tinha com os seus clientes”, pormenoriza o administrador da TJ Moldes.

“Ganhar um cliente é muito difícil, mas para o perder é de um dia para o outro”, lembra João Faustino.

Mas nem todos os clientes tiveram esta reação. Houve quem lhe dissesse na cara que achava que, doravante, não tinha capacidade para continuar a fornecer material. “Nós temos capacidade. Nós desdobramo-nos para fazer aquilo que é possível e impossível”, respondeu Faustino.

Do outro lado ouviu: “Mas agora, nesta situação…” João retorquiu: “Isto aqui é muito simples. O senhor conduz? Conduz. Alguma vez bateu? Deu um toque em alguém? Ele respondeu: ‘Bati’. Deixou de andar de carro? 'Não’”.

O empresário avançou então com a conclusão: “Aqui é a mesma coisa. Nós conduzimos, tivemos um problema, mas não vamos desistir. Vamos continuar, com mais força do que aquela que tínhamos”.

Em Leiria, o presidente da NERLEI, Associação Empresarial da Região de Leiria que conta com cerca de mil associados, considera que não é ainda possível perceber o impacto que toda esta situação provocará nas exportações da região.

"Ganhar um cliente é muito difícil, mas para o perder é de um dia para o outro". João Faustino, administrador da TJ Moldes.

“O que conseguimos avaliar é o risco, porque com uma economia digitalizada e nós com problemas de comunicações, é fácil, num clique, ir buscar um fornecedor alternativo, o que se torna perigoso para a nossa economia”, explica o presidente Luís Febra, também ele líder de uma grande empresa da região, a SOCEM.

Acrescenta que serão necessários, em setores como o dos moldes, três a cinco meses para perceber o impacto do comboio de tempestades. “A rotatividade de fornecedores não é diária”, explica.

É possível manter todos a trabalhar?

Depois da resposta dos trabalhadores, o administrador da TJ Moldes, João Faustino, nem quer pensar em despedimentos. Vai tentar manter toda a gente, porque além dos que ali trabalham, também os familiares deles se envolveram na recuperação daquela unidade que exporta para dezenas de países e fatura uma média entre 10 e 12 milhões de euros por ano.

“Na medida do possível, enquanto nós tivermos força e tivermos capacidade para aguentar o barco, não vamos abandonar. E gostaria de manter os ordenados de todas as pessoas”, assume.

Olhando para o quadro mais amplo da situação, o presidente da NERLEI acredita que o desemprego não vai aumentar em Leiria, apesar dos avisos das centrais sindicais.

“Eu acredito que há riscos reais de perda de emprego. Não acredito no aumento do desemprego”, afirma.

O que é que isso quer dizer? “Quer dizer que há um déficit de empregados, portanto há um déficit de profissionais e os que perderem o trabalho vão-se encaixar. Há muita coisa para fazer. Leiria é muito dinâmica”, responde Febra.

Em relação a falências, o líder da NERLEI julga que “haverá algumas empresas que provavelmente não vão reativar a atividade”, “mais micro do que propriamente as médias e as grandes”. Mas acredita também “que facilmente haverá um ‘outplacement’ [serviço de apoio profissional, financiado por empresas, para recolocar colaboradores no mercado de trabalho após um despedimento, reestruturação ou layoff]”, identifica.

Como a solidariedade entre concorrentes manteve o T-Roc da Autoeuropa

Uma tragédia traz muitas desgraças, mas também é capaz de fazer vir à superfície momentos únicos de entreajuda. Na Marinha Grande, o administrador da TJ Moldes relata que foi a solidariedade de muitos concorrentes que em alguns casos evitou males maiores. “Sabendo que nós fomos uma das fábricas mais afetadas, disponibilizaram-se para fazermos parte dos trabalhos que tínhamos de operar nas suas fábricas”.

Mas este não é um caso isolado. A indústria da região Centro está muito ligada ao setor automóvel. É dali que saem muitos componentes para os grandes fabricantes. Um dos maiores clientes é mesmo a Autoeuropa.

“Eu acredito que há riscos reais de perda de emprego. Não acredito no aumento do desemprego”. Presidente da NERLEI, Luís Febra.

E nesta crise, para que o T-Roc da Volkswagen — que se produz na fábrica de Palmela — não parasse, foi necessário criar task-forces entre empresas locais.

“O risco de que a Autoeuropa falhasse, parasse, era grande. E o que nós fizemos foi, entre concorrentes, reorganizarmo-nos para nos entreajudarmos. Portanto, recebemos equipamento de outras empresas que não conseguiam laborar com eles”, relata Luís Febra, presidente da NERLEI.

Uma motosserra invisível atravessou o centro do país
Uma motosserra invisível atravessou o centro do país

“É de enaltecer esta capacidade solidária que Leiria tem de, entre concorrentes, em momentos de crise, passarem a ser parceiros”, remata.

Incerteza no futuro e apoios “só a fundo perdido”

Na TJ Moldes, a ideia de voltar à normalidade é ainda uma miragem. Demorará meses, se calhar anos. Até porque ainda não se sabe o que acontecerá no futuro a muitas das máquinas que fazem parte do processo produtivo.

João explica a incerteza: “Há equipamentos que foram fabricados por encomenda para nós. Na altura, tinham um prazo de fabrico de um ano. Aquilo que nós estamos a tentar fazer é secar toda a parte eletrónica, porque tem muita humidade, e se nós as ligarmos, é certo e sabido — e já nos aconteceu — que vamos ter ali grandes problemas, e eventualmente até irrecuperáveis”.

"Entre concorrentes, reorganizarmo-nos para nos entreajudarmos. Portanto, recebemos equipamento de outras empresas que não conseguiam laborar com eles". Presidente da NERLEI, Luís Febra.

Em relação a apoios, o empresário da Marinha Grande diz que conhece as medidas destinada às empresas, mas ainda não utilizou. Qual a razão? “Isso tem um preço.”

João Faustino diz que as únicas medidas que interessam são “as linhas que têm uma componente a fundo perdido”. Serão “um comprimido para aliviar uma doença grave", diz, mas "para uma doença muito grave pode não ser suficiente”.

O presidente da associação empresarial de Leiria esclarece que tem havido algumas dificuldades de compreensão e de aplicabilidade das medidas que foram, entretanto, anunciadas, sobretudo ao nível da Segurança Social e ao nível do IEFP.

No entanto, assegura que há um trabalho que está a ser feito. “Nós temo-nos desdobrado e o IAPMEI tem feito um trabalho notável. Já vão na oitava sessão de esclarecimento aqui”, assegura Luís Febra.

O mesmo responsável elogia ainda o Governo, assinalando que em situações comparáveis nunca teve "a oportunidade de perceber tanta proximidade, e, ao mesmo tempo, uma abertura para descomplexificar”.

E se voltar a acontecer?

As noites do último mês, marcadas pelas insónias, já fizeram com que Faustino andasse para trás e para a frente à procura do que teria feito mal para ter este destino. “Tento ver o que é que falhou e acho que não falhou nada, porque a força do vento e a força da natureza ninguém a conhece.”

“Se isto só nos tivesse acontecido a nós, eu diria que tinha sido má construção, mal calculada, mas, infelizmente, isto não nos aconteceu a nós, aconteceu a mais empresas”, lembra.

No entanto, se a solução for reerguer as unidades destruídas, assume que “tem de ser com outro tipo de cálculos”. “Tem de haver mais ferro, a estrutura tem de ser mais forte, mas, mesmo assim, não sabemos se a natureza a pode destruir”, remata.

A uns quilómetros dali, na Ribermold, uma empresa do mesmo setor, o CEO da unidade fala do “choque com a destruição” que encontrou no dia seguinte à catástrofe.

A prioridade nos cinco dias seguintes, conta Alberto Ribeiro, foi estancar a água e o vento, para que aquela empresa pudesse voltar a laborar. O maior ponto de fragilidade — apesar de estarmos a falar de estruturas visivelmente reforçadas e de grande envergadura — foram os portões.

A partir do momento em que o vento apanha os portões e destrói a estrutura, a chuva cai diretamente em cima de equipamentos, e nós olhamos e sentimo-nos impotentes para conseguir em tempo rápido estancar a água. Não havia meios e foi muito duro”, recorda.

Houve material que ficou danificado, matéria-prima e produto acabado que não se puderam usar, mas os prazos de entrega não pararam, e tinham de fazer os moldes, produzir as peças, para que as linhas de montagem não parassem. E conseguiram não incumprir.

Não falhámos com os nossos clientes, a nossa prioridade foi manter os clientes calmos, não falhar com aquilo que tínhamos programado. Conseguiu-se, mas estávamos no limite quando veio a luz, estávamos no limite com dificuldades”, recorda, lembrando que a prioridade foi a de colocar o maior número de máquinas a funcionar.

Ainda assim, se o regresso da eletricidade foi uma bênção, também teve alguns problemas colaterais. “A energia muito instável queimou as placas de máquinas, os estragos foram muitos”, concretiza. Tudo somado, a última contabilização aponta para prejuízos totais à volta dos 750 mil euros.

Passado um mês, já conseguem laborar a 100%, sem necessidade de recorrer a um lay-off. Isto numa unidade de 115 funcionários que fatura, em média, oito milhões ao ano.

Em relação a lay-off, o líder associativo, Luís Febra, diz que até ao momento foram apresentados 170 na região. Por isso, a discussão política sobre se este mecanismo deve ser pago a 100% ou em dois terços do salário do trabalhador, parece-lhe não ser a mais relevante.

“Entendemos que, no contexto geral do impacto desta catástrofe, terá uma relevância relativa”, afirma.

Na Ribermold, Alberto já olha para a frente. Para o futuro e para como estar mais preparado para este tipo de fenómenos. “Estou a trabalhar com técnicos de várias empresas fornecedoras. Há que repensar o tipo de construção que temos”, identifica.

Tal como aconteceu no seu caso, o empresário diz que “90% dos problemas das empresas têm a ver com os portões”. “Quando uma capacidade de pressão destas incide sobre um painel como um portão, destruindo-o, o vento entra pela fábrica adentro, e depois tem de sair”.

Por isso, “os portões têm que ser reforçados”. Outro ponto de fragilidade, que foi vastamente notado por aquela zona, é o dos telhados. Ter “as telhas fixadas simplesmente ao cimento não funciona. Têm de ser apertadas à estrutura. No passado, se calhar, punha-se meia dúzia de parafusos, pois agora que se ponham três vezes mais”, apela.

Para os próximos capítulos daquela empresa de moldes, no meio de tantas incertezas, Alberto Ribeiro aponta a direção. “Uma coisa que nos caracteriza é a resiliência, é a vontade de fazer coisas, é a vontade de ajudar o país a andar para a frente. Não é o ego de ser empresário por ser empresário”, realça.

É possível pensar o médio-longo prazo após uma catástrofe?

Também ainda a contabilizar prejuízos estava, em Leiria, a Marcolis — empresa distribuidora de equipamentos de climatização, canalização, redes de gás e tubagens. Carla Carreira, administradora do grupo, fala em meio milhão de euros.

Além da tempestade, passou mais duas semanas muito duras: o armazém, que ficou sem cobertura, foi fustigado dia e noite com chuvas que não pararam. “Temos aqui uma área de cerca de dois mil metros quadrados. Metade da cobertura, cerca de mil metros quadrados, ficou completamente destruída”, recorda.

“As telhas, fixadas simplesmente ao cimento, não funciona. Têm de ser apertadas à estrutura. No passado, se calhar, punha-se meia dúzia de parafusos, pois agora que se ponham três vezes mais”. CEO da Ribermold, Alberto Ribeiro.

No meio de perdas e falhas, num cataclismo desta dimensão, há coisas que Carla consegue compreender, há outras que não. Uma delas é o comportamento das empresas de telecomunicações.

“Ainda não estamos com as comunicações fixas e móveis estabilizadas. Neste momento, temos estado incontactáveis, temos perdido alguns contactos e alguns negócios com isso”, lamenta.

“Sabemos que há muitos danos e que há equipas no terreno. Isto foi uma situação regional, como é que não há uma resposta a nível nacional para este tipo de problemas?”

Uma situação também mencionada por Luís Febra, presidente da NERLEI, que assegura que o caso da Marcolis não é único. “Há uma série de zonas que ainda não têm internet. Num mundo digitalizado como o que temos, essa é hoje uma das preocupações principais das empresas. Algumas tiveram de comprar a Starlink e outras soluções que resolvem a comunicação, mas não resolvem o problema da própria empresa”, explica.

Na Marcolis, e falando das lições que esta situação trouxe, Carla Carreira garante que por ali sempre tiveram muito cuidado com a questão das infraestruturas, mas que “nunca se está preparado para uma situação destas”.

"Neste momento, temos estado incontactáveis, temos perdido alguns contactos e alguns negócios com isso". Administradora da Marcolis, Carla Carreira.

Isto apesar de o apagão de abril do ano passado já ter ajudado com as sequelas da tempestade Kristin. “O centro logístico esteve três dias sem eletricidade, mas a funcionar através do nosso sistema de autoconsumo, o sistema fotovoltaico. Como fazemos produção e temos baterias, conseguimos isso. Foi uma das melhorias que temos feito a nível energético”, explica a empresária.

Neste momento, e sendo a Marcolis fornecedora das empresas de construção, Carla garante que ainda não se sente uma maior preocupação com a segurança dos edifícios. Algo que a empresária considera normal no imediato. “As pessoas querem orçamentos para apresentar às seguradoras e não estão preocupadas com isso.

Ainda assim, diz que tem tentado “sensibilizar os clientes profissionais e os clientes finais" para a importância de se garantir "um futuro em que ficamos menos dependentes das energias [tradicionais]”.

Se vai ser esta catástrofe a levar as empresas a mudar comportamentos e a pensar mais a médio-longo prazo, esta empresária tem dúvidas. “Claro que vai ser difícil, temos de ser realistas.”

Isto porque, afirma, a cultura empresarial que temos em Portugal de médio-longo prazo é pensada numa lógica de “depois se vê”.

“Mas quero acreditar que desta vez o abanão foi tão grande, que pelo menos aos poucos, gradualmente, haja um bocadinho essa preocupação, porque todos nós temos de nos preocupar com o médio-longo prazo e estarmos minimamente preparados para estas catástrofes naturais, que vão acontecer com maior frequência”, remata.

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