Ferrovia
IP estuda "eventual subida" da Linha do Norte para evitar inundações em Alfarelos
19 mar, 2026 - 11:04 • João Pedro Quesado
Gestora da rede ferroviária quer "integrar, no futuro, soluções avançadas que permitam às infraestruturas rodoviárias e ferroviárias maior resiliência climática". Já o objetivo de subir a linha na obra de quadruplicação entre Alverca e Castanheira do Ribatejo ficou limitado pela "existência de muitos pontos fixos" como edifícios próximos da linha, "nomeadamente na zona urbana de Vila Franca de Xira".
A Infraestruturas de Portugal (IP) está a estudar uma "eventual subida" do troço da Linha do Norte entre Alfarelos e Pampilhosa, para evitar a repetição das inundações durante as tempestades de janeiro e fevereiro.
O corte resultante destas inundações parou, por vários dias, os comboios Alfa Pendular e Intercidades entre Porto e Lisboa, criando dificuldades nas deslocações a milhares de passageiros.
"Uma eventual subida de rasante neste troço, atendendo aos condicionamentos existentes", aponta a IP, "exigirá soluções técnicas significativamente complexas de estabilização da plataforma e dos aterros e um plano de intervenção geográfico substancialmente mais amplo e complexo para toda a zona geográfica envolvente à estação de Alfarelos".
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"Esta análise encontra-se em estudo", afirma a IP em resposta a perguntas enviadas pela Renascença a 10 de fevereiro, "visando integrar, no futuro, soluções avançadas que permitam às infraestruturas rodoviárias e ferroviárias maior resiliência climática e mitigação dos riscos associados à respetiva geolocalização".
Entre os condicionamentos à obra estão, segundo a gestora da rede ferroviária portuguesa, "a extensão da zona de aluvião" — isto é, dos sedimentos depositados pelo leito do rio Mondego — e "as características dos solos de fundação". O ex-secretário de Estado das Infraestruturas, Frederico Francisco, admitiu em fevereiro à Renascença que o problema das inundações não se resolve "com um simples alteamento da linha", e que "muito provavelmente seria preciso construir uma linha inteiramente nova naquele troço".
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A Linha do Norte sofreu várias inundações nas margens do rio Mondego entre o final de janeiro e meados de fevereiro, principalmente entre as estações de Granja do Ulmeiro-Alfarelos e Formoselha-Santo Varão. Isso provocou vários dias de cortes naquela zona da Linha do Norte, e da suspensão dos serviços de longo curso da CP.
A Renascença também questionou a IP sobre a remoção do alteamento da linha no projeto de renovação da via entre Alfarelos e Pampilhosa, do Ferrovia 2020. A empresa afirma que, na sequência dessa obra, "foi lançado um investimento complementar destinado a concretizar um conjunto de ações que visam melhorar os atuais constrangimentos de capacidade na estação de Alfarelos", atirando a subida da linha para o futuro que agora estuda.
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"Nesta fase de intervenção na Linha do Norte, mantém-se a altimetria das vias gerais na Estação de Alfarelos e no troço até à Pampilhosa, devido aos condicionamentos impostos por pontos fixos da infraestrutura existente", esclarece a IP sobre a "intervenção complementar atualmente em curso".
"No âmbito deste investimento recente, não foi incluído o estudo de intervenções destinadas à eliminação ou mitigação da vulnerabilidade da Linha do Norte a situações de cheias", diz a IP. "A dimensão e o impacto dessas intervenções — que afetariam infraestruturas ferroviárias, rodoviárias e outras, existentes e adjacentes ao longo da Linha do Norte — extravasam largamente o âmbito desta intervenção complementar".
A nova linha de alta velocidade, cujo troço na zona de Coimbra foi colocado pela segunda vez em concurso público, não terá o mesmo problema que a Linha do Norte, já que atravessa a zona do rio Mondego sempre em ponte. Os comboios de alta velocidade que param em Coimbra também não vão passar em Alfarelos, já que a reentrada na linha de alta velocidade se faz em Taveiro, cerca de 14km a este da estação de Alfarelos.
"Limitações" também condicionam alteamento entre Alverca e Castanheira do Ribatejo
A Renascença questionou ainda a IP sobre o projeto de modernização da Linha do Norte já nas margens do rio Tejo. O documento, então em consulta pública, não prevê o alteamento da plataforma da Linha do Norte entre Alverca e Castanheira do Ribatejo (troço que esteve inundado a 2 de fevereiro), referindo que "não é possível subi-la muito mais".
"Este projeto tem por âmbito a modernização de uma linha existente (e não a construção de uma nova infraestrutura), envolvendo desta forma desafios técnicos muito relevantes" associados "ao alargamento da atual plataforma da via" para passar de duas para quatro linhas, refere a IP. A empresa acrescenta depois que "desde a fase inicial do desenvolvimento do projeto existiu o objetivo de subida da rasante (cota altimétrica) da linha, aumentando também a secção das passagens hidráulicas para restabelecimento das linhas de água atravessadas, para evitar danos causados por cheias e inundações".
A IP detalha ainda que o projeto sobe a linha "sempre que tal se revelou tecnicamente viável", sublinhando vários pontos referidos no estudo de impacte ambiental, referentes a atravessamentos de cursos de água. Nesses, a linha é subida entre 45 e 77 centímetros.
Como "condicionantes que impediram que este princípio tivesse sido concretizado em todo o troço", a IP aponta "a existência de muitos pontos fixos" no atual traçado, como as "estações de início e fim do troço", os ramais ferroviários em Alhandra (da Cimpor e Iberol), as passagens superiores rodoviárias e pedonais, e as "edificações e infraestruturas existentes muito próximas do atual canal ferroviário, nomeadamente na zona urbana de Vila Franca de Xira".
O projeto de modernização e quadruplicação da Linha do Norte prevê a construção de uma nova estação em Vila Franca de Xira, dando ao edifício atual "outros usos, nomeadamente de natureza cultural", lê-se no estudo de impacte ambiental — que também coloca essa intervenção sob responsabilidade do município de Vila Franca de Xira. Vai ainda ser construída uma nova interface rodoferroviária, enquanto a construção das duas novas vias é feita do lado do rio.
Esta zona da Linha do Norte vai ver passar comboios de alta velocidade, que saem da linha dedicada no Carregado, imediatamente antes da estação de Castanheira do Ribatejo. A quadruplicação permite à Linha do Norte ter capacidade para absorver o aumento de tráfego, e possibilita adiar a construção de um troço da linha de alta velocidade entre Carregado e Lisboa pela margem norte do rio Tejo — enquanto a construção do novo aeroporto de Lisboa pode levar à construção de uma ligação direta da linha de alta velocidade a esta infraestrutura.
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