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Banco de Portugal

BdP pede “cabeça fria” depois de rever crescimento em baixa e inflação em alta

25 mar, 2026 - 15:39 • Sandra Afonso

As tempestades e a guerra no Irão deverão afetar a economia em 2026 e 2027. As novas projeções do Banco de Portugal cortam o crescimento este ano para 1,8% e aumentam a inflação para 2,8%.

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A subida da fatura energética, sobretudo com o aumento do barril de petróleo, forçou o banco central a rever as estimativas para a economia. Os novos números são uma consequência da invasão do Iraque, mas também incluem o impacto das tempestades registadas entre o final de janeiro e início de fevereiro. As novas projeções do Banco de Portugal cortam o crescimento deste ano para 1,8% e aumentam a inflação para 2,8%.

“A duração do conflito vai ter um impacto enorme ao nível da inflação, com subida de preços dos bens alimentares, energéticos e do dia a dia. Também vai implicar um menor crescimento económico nos próximos tempos”, avisa o governador, Álvaro Santos Pereira.

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Assim, o Boletim Económico de primavera antecipa agora um aumento de 1,8% do produto interno bruto (PIB) em 2026, de 1,6% em 2027 e de 1,8% no ano seguinte.

Estas projeções cortam o crescimento para este ano e o próximo, se compararmos com os números de dezembro, quando a instituição previa crescimentos de 2,3%, 1,7% e 1,8%, para 2026, 2027 e 2028, respetivamente. Para este ano o governo espera um crescimento de 2,3%.

Nos preços, o banco central reviu em forte alta a inflação este ano, de 2,1% para 2,8%. Para 2027 foi corrigida de 2% para 2,3%.

O banco central estima que a economia tenha ficado estagnada no primeiro trimestre e siga agora em abrandamento.

O impacto das tempestades é temporário e deverá dissolver-se a partir de março, ainda com efeitos positivos associado ao investimento em reconstrução, mas com “grande incerteza” sobre a dimensão dos prejuízos e as respostas do governo.

As estimativas do BdP estão também rodeadas de “grande incerteza”, tudo vai depender da duração e da intensidade do conflito no Médio Oriente. Ainda assim, face às perspetivas de um aumento das taxas de juro, já se antecipa a retração do consumo e do investimento. A propensão para gastar é agora mais cautelosa.

"Um aumento mais pronunciado ou permanente do preço do petróleo acentuaria os impactos adversos sobre a atividade — reduzindo o poder de compra das famílias e aumentando os custos de produção das empresas, com efeitos negativos sobre o consumo e o investimento — e reforçaria as pressões inflacionistas", diz o Banco de Portugal.

Nestas contas, a instituição admite que o preço do barril de petróleo fique em média, este ano, nos 70 dólares. Um valor que ultrapassa os 54 dólares, a média anual para o preço antes do ataque ao Irão. Ainda assim, o BCE já está mais pessimista, e na última semana antecipou que o valor médio anual poderá chegar aos 84 dólares.

Questionado sobre as próximas decisões do Banco Central Europeu em matéria de juros, Álvaro Santos Pereira não se compromete com uma resposta, mas defende que “é preciso ter cabeça fria”, uma expressão que repete durante a apresentação do Boletim Económico. "Vai depender de como o conflito evoluir e de como os preços vão evoluir. Temos de manter a cabeça fria, aprender as lições do passado, ver o que se passou noutras circunstâncias."

Uma mensagem que também vale para os apoios do Governo, para aliviar o impacto dos preços. Álvaro Santos Pereira pede que se aprenda com a invasão da Ucrânia em 2022 e que as medidas sejam temporárias, dirigidas às famílias e empresas que verdadeiramente precisam e que não alterem os preços de mercado.

“Os imigrantes estão cá para trabalhar”

Um relatório publicado esta quarta-feira pelo Banco de Portugal, que analisa o mercado de trabalho entre 2010 e 2025, conclui que os estrangeiros passaram cerca de 86% do tempo de permanência no país a trabalhar por conta de outrem e cerca de 5% por conta própria. Ou seja, estiveram ativos durante 91% do tempo que passaram em Portugal.

“A grande conclusão é que os trabalhadores estrangeiros que estão cá em Portugal estão cá para trabalhar”, defende Álvaro Santos Pereira.

Este estudo revela ainda que entre 2010 e 2024 entraram no país cerca de 1,4 milhões de imigrantes: perto de 38% têm nacionalidade brasileira, seguindo-se os indivíduos dos países do sul da Ásia — Índia, Bangladesh, Nepal e Paquistão — que representam 19%, enquanto dos países de língua oficial portuguesa (PALOP) entraram 14%.

Independentemente da nacionalidade, passam o tempo a trabalhar e “praticamente não recebem pensões e recebem muito pouco subsídio de desemprego”, garante o governador. “Em relação aos nacionais, até neste tipo de permanência há menos prestações sociais e menos pensões do que acontece com os nacionais”, acrescenta.

Por tipo de atividade, cerca de 20% dos trabalhadores estrangeiros exerceram atividades administrativas e serviços de apoio, 18% foram para o alojamento e restauração, 15% ficaram na agricultura e pescas e 14% na construção.

Nos últimos dois anos, a entrada de imigrantes tem diminuído, o que já reflete a nova política de imigração, segundo o Banco de Portugal.

“Temos de criar condições para saírem da instituição”

Álvaro Santos Pereira defende a criação de um mecanismo que facilite a saída de altos cargos do Banco de Portugal, sem que para isso passem pelo cargo de consultor.

A saída mais recente, e que está a gerar polémica, é a do ex-governador Mário Centeno, que se reformou com pensão completa nas últimas semanas, embora não tenha a idade mínima legal nem 35 anos de serviço. Uma situação que Álvaro Santos Pereira ainda vai ter de explicar na Assembleia da República em comissão parlamentar.

Esta quarta-feira, o novo governador garantiu não estar preocupado com a contratação futura de administradores.

“Se me preocupa que vamos ter problemas de preencher lugares no Conselho de Administração com pessoas que trabalham no Banco de Portugal? Não tenho o mínimo de preocupação sobre essa questão. Chegar ao Conselho de Administração do Banco de Portugal é chegar ao topo da carreira no Banco de Portugal” diz.

Álvaro Santos Pereira defende a extinção dos consultores, um cargo ocupado por antigos administradores. Defende que depois de atingirem o topo do Banco de Portugal, deve haver um mecanismo que garanta a transição de saída da instituição. “É isso que se passa em muitos reguladores e bancos centrais, é isso que eu vou defender. Vai ter de haver um debate interno, obviamente, mas é isso que eu vou defender”, acrescenta.

O governador não vê nenhuma incongruência na ascensão ao topo da carreira, com a certeza de que depois abandonam a instituição.

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