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Fact-Checking Euranet

O discurso machista online está a ameaçar as políticas de igualdade?

31 dez, 2025 - 09:30 • Hugo Monteiro com equipa de verificação de dados da Euranet

Os progressos em matéria de direitos das mulheres estão a enfrentar uma crescente contestação online. A equipa de verificação de dados da Euranet Plus analisou alguns dos principais argumentos.

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O discurso machista e misógino online tem vindo a crescer na última década, com uma retórica por vezes violenta. Alimentadas pela desinformação e pela Inteligência Artificial, as narrativas misógenas estão a espalhar-se nas redes sociais, especialmente entre os jovens, numa altura em que, cada vez mais, as políticas da União Europeia têm vindo a abordar a desigualdade de género.

Séries como a "Adolescência" ou o escândalo com o influenciador Andrew Tate, chamaram a atenção do público para o fenómeno.

É neste quadro que a equipa de verificação de dados da Euranet Plus, a rede europeia de rádios de que a Renascença faz parte, decidiu analisar as narrativas que surgem de forma mais persistente nas redes sociais e que atacam os atuais desenvolvimentos políticos na União Europeia (UE). Uma afirmação generalizada e comum é que os homens estão a ser oprimidos ou desfavorecidos em comparação com as mulheres na sociedade ocidental moderna.

No entanto, uma análise dos números relativos, por exemplo, às vítimas de violência, participação na força de trabalho e rendimentos, bem como ao trabalho não remunerado no lar, desmente grande parte dessa narrativa.

Políticas europeias estão a promover uma agenda anti-masculina?

Num ano em que a União Europeia lançou um roteiro para os direitos das mulheres, com o objetivo de reforçar a igualdade na sociedade europeia, a equipa de verificação de dados da Euranet Plus conclui que "as políticas que apoiam as mulheres não lhes estão a dar uma vantagem injusta, mas sim a ajudá-las a alcançar os homens em áreas como o local de trabalho e cargos de poder", que continuam a ser dominadas pelo sexo masculino.

Como tal, é falso que, como circula nas redes sociais, as mesmas políticas da União Europeia, respondam a uma agenda anti-masculina.

Nesse sentido, esta equipa aponta que, de acordo com um relatório de 2025 sobre a igualdade de género na UE, a taxa de emprego dos homens era de 80% em 2023, enquanto a das mulheres era de 70%. Em média, as mulheres também ganhavam cerca de 12% menos do que os seus homólogos masculinos em 2023, de acordo com dados provisórios da UE.

A diferença continua a ser notória também nos cargos de poder. Um relatório de 2021 conclui que as mulheres representavam apenas cerca de um terço - 32% - dos lugares nos parlamentos nacionais da UE em 2020.

A equipa da Euranet sublinha, ainda, que as mulheres não serão as únicas a beneficiar de uma força de trabalho mais igualitária: "A Comissão Europeia concluiu que a perda económica devido à disparidade de género no emprego ascende a 370 mil milhões de euros por ano", pode ler-se num relatório de 2022.

Maior presença das mulheres no mercado de trabalho é responsável pelo declínio da taxa de natalidade?

Ao analisar o discurso que defende um regresso a um quadro familiar em que a mulher não trabalha, a equipa de verificação de dados da Euranet recusa que o crescente peso das mulheres no mercado de trabalho seja responsável por uma queda na taxa de natalidade.

Em contrapartida lembra que "um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) conclui que as taxas de desemprego - para ambos os sexos - e os custos de habitação são os principais fatores que contribuem para uma diminuição no número de nascimentos".

O mesmo relatório também constatou que os jovens adultos entre 20 e 29 anos têm cada vez menos independência financeira, com 50% deles ainda a viver com os pais em 2023, em comparação com apenas 45% em 2006. "Isto significa que eles estão a ter de adiar a constituição das suas próprias famílias", sublinha a Euranet.

Os homens trabalham mais?

Este documento da equipa de verificação de dados destaca, ainda, que o desequilíbrio entre os dois sexos não se limita à força de trabalho. Ao comparar como passam o dia, "as mulheres têm muito menos tempo de lazer e fazem mais trabalho não remunerado do que os homens". De acordo com a OCDE, em Portugal, as mulheres realizam, em média, 328 minutos diários de trabalho não remunerado, enquanto os homens gastam, em mádia, 96 minutos diários nessas tarefas.

Já na Grécia, as mulheres realizam em média 259 minutos de trabalho não remunerado - como tarefas domésticas ou cuidados infantis - por dia, enquanto os homens realizam apenas 95 minutos de trabalho não remunerado. Mesmo na Dinamarca, onde os homens contribuem com 186 minutos de trabalho não remunerado por dia, as mulheres ainda os superam com 243 minutos.

De acordo com o Instituto Europeu para a Igualdade de Género, colmatar estas lacunas no mercado de trabalho traria benefícios económicos significativos para todos. Até 2050, isso poderia fazer aumentar o PIB per capita da UE entre 6,1% a 9,6%, o que equivale a 1,95 a 3,15 biliões de euros.

Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus

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