Bruno Cardoso Reis
"Será que a França não tem interesse numa presença aérea nos Açores, até com dimensão nuclear?"
05 mar, 2026 - 23:15 • Pedro Mesquita
Emmanuel Macron garante que não terá dúvidas em utilizar armamento nuclear, em caso de ameaça aos interesses vitais da França e ordenou, até, o reforço do seu arsenal. Na leitura de Bruno Cardoso Reis, professor do ISCTE, doutorado em Estudos de Segurança pelo King's College e que foi, também, adjunto do antigo ministro da Defesa João Gomes Cravinho, "o recado" do Presidente francês é dirigido sobretudo à Rússia, mas também aos EUA.
A nova estratégia nuclear francesa foi anunciada ao mundo nos últimos dias e promete envolver diversos parceiros europeus. O Presidente Emmanuel Macron fez saber que a França já iniciou contactos, nomeadamente com a Alemanha, a Polónia, a Suécia e a Grécia.
O que poderá isto significar? Irá Portugal envolver-se na chamada "dissuasão avançada", formulada por Paris?
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Bruno Cardoso Reis sublinha, em entrevista à Renascença, que "estes países, a começar pela França e Alemanha, deixaram todos muito claro que a intenção não é substituir os Estados Unidos, que as duas coisas são complementares".
Este especialista em segurança considera que "Portugal devia estar muito mais presente nestas movimentações" e acrescenta: "Parece-me que essa passividade não é a melhor resposta, acho que pelo menos devemos explorar estas possibilidades. Acho, por exemplo, que seria muito interessante explorar com a França uma possibilidade: Será que a França não tem interesse numa presença aérea nos Açores, por exemplo? Até com esta dimensão, também, do nuclear?"
Já depois do ataque dos EUA e Israel ao Irão, e da resposta de Teerão, Emmanuel Macron assumiu que não terá dúvidas em utilizar armamento nuclear, em caso de ameaça aos interesses vitais de França. Ordenou, de resto, o reforço do arsenal nuclear do seu país. Do seu ponto de vista, esta mensagem do Presidente francês também se dirige aos EUA?
Sim. Ou seja, é uma mensagem para amigos e aliados. A França sempre fez questão, desde os anos 60, da própria origem desta capacidade nuclear francesa, de ter armas nucleares que são plenamente autónomas, por exemplo.
Ao contrário da Grã-Bretanha, que está dependente da cooperação com os Estados Unidos para manter o seu arsenal nuclear – precisa de mísseis americanos – a França sempre fez questão de ter um programa completamente autónomo, desde o tempo de [Charles] de Gaulle, e o objetivo era exatamente esse: passar, também, a mensagem de que a França é um aliado que não pode ser dado como adquirido, que tem margem para dizer que sim, mas também para dizer que não.
E com que intuito é que Macron vem agora dizer isto também a Donald Trump?
Bem, o aliado americano é, neste momento, bastante menos fiável. Inclusivamente, chegou ao ponto de ameaçar até abertamente, com algum tipo de ação militar, um aliado europeu, a Gronelândia. Não é por acaso que a França foi dos países que mais chegou à frente na defesa da Dinamarca, e a dizer que isso era inaceitável... a enviar até também tropas para a Gronelândia a certo momento.
Portanto isso é um fator, depois há um outro fator, que é a existência de uma nova corrida aos armamentos. Há uma nova tendência para a proliferação nuclear, que tem a ver com o facto de estarmos num mundo muito mais inseguro, em que houve a invasão da Ucrânia. Pela primeira vez, desde a Segunda Guerra Mundial, que a Europa foi o continente onde houve mais baixas em combate em todo o mundo. Há uma série de potências que estão a investir mais por causa disso em armamento nuclear e também a aumentar e a modernizar os seus arsenais, em particular a China e, por exemplo a Rússia. A França, no fundo, dá aqui um sinal de que está atenta a essas tendências e que vai responder aumentando o seu investimento, que já é muito significativo.
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Quando refere, concretamente, a Gronelândia, imagina Macron a dizer a Trump: "atenção que a Gronelândia é uma linha vermelha, nós temos armamento nuclear e defenderemos também, se for necessário, com recurso a todos os meios, incluindo o nuclear"?
Eu espero que não se chegue a esse ponto, mas foi muito importante, por exemplo, dar este sinal de enviar tropas europeias para a Gronelândia e o reforço da presença militar dinamarquesa. Foi muito importante, no fundo, passar esta ideia de que, se for para entrar à força, à partida vão ter de dar tiros a aliados.
Eu, aliás, li uma sondagem há uns tempos transmitindo a ideia de que entrar à força na Gronelândia é mais impopular nos Estados Unidos do que qualquer coisa que tenha a ver com o caso Epstein. Um comentador, especialista em sondagens, dizia que não há nada mais impopular nos Estados Unidos, entre toda a gente, inclusive republicanos, do que a ideia de invadir um país aliado.
Portanto, apesar de tudo, vamos contar que isso vale alguma coisa. Ao mesmo tempo é importante passar uma mensagem: "estas ilhas não estão abandonadas à sua sorte, há uma presença militar". É um bocadinho um princípio geral, que é esta ideia da dissuasão, um conceito central, aliás, na questão das armas nucleares, na estratégia nuclear, mas também pode ser com armas convencionais. É, no fundo, a ideia de que ter tropas, inclusivamente de vários países num determinado território, obriga qualquer potencial agressor a assumir que vai entrar num conflito armado com todos esses países e não apenas com um, ou que não vai correr esse risco.
Será a pensar nisso que a França já iniciou conversações com a Alemanha, Polónia, Países Baixos, Bélgica, Grécia, Suécia? A França poderá vir a tornar-se num futuro "guarda-chuva" na defesa dos países da União Europeia?
...e aí há outros dois países muito relevantes: um deles é a Dinamarca, precisamente. Certamente que não aparece aqui por acaso. E também a Grã-Bretanha, que tem as suas próprias armas nucleares, mas a ideia aí é coordenar, estrategicamente, os dois arsenais. Mas enfim, isto foi apresentado com um novo conceito, a que eles chamam de "dissuasão avançada", e não o conceito mais clássico quando se fala desta ideia de um "guarda-chuva nuclear", por proteger aliados, que se chama "dissuasão extensível", a ideia de que há realmente um "guarda-chuva nuclear americano" explícito, a cobrir os seus aliados europeus.
Eu diria, apesar de tudo, que depois, na prática, não sei muito bem qual será, na verdade, a distinção, porque no fundo a mensagem que se passa é: vamos colocar meios nucleares. E em particular, do que se está a falar, para já, é de meios aéreos, de bases aéreas, nestes países, que poderiam acolher aviões franceses com a capacidade de ter armamento nuclear. No fundo, a ideia é que existindo um ataque a estes países, isso atingiria também estes meios franceses, e seria uma razão muito forte para usar todo o tipo de meios, potencialmente também os nucleares. [A ideia], portanto seria criar esta ambiguidade, que também existe na "dissuasão extensível".
Mas essa seria uma "dissuasão avançada" que poderia também funcionar como um recado para os Estados Unidos?
Bem, aqui parece-me que o recado é sobretudo para a Rússia. Agora, acho que também, no fundo, há esta mensagem: "nós não estamos inteiramente dependentes dos Estados Unidos, nem sequer na questão nuclear".
E Portugal, em que posição é que se deveria colocar? Abrigar-se "neste guarda-chuva", neste processo de "dissuasão avançada" proposto por Macron? Porque é que ainda não está em negociações? Deveria estar, ou o facto de apostarmos tanto nas relações transatlânticas nos impede de fazer isso?
Eu não vejo que uma coisa impeça a outra. Aliás, estes países deixaram todos muito claro, a começar pela França e pela Alemanha, que a intenção não é substituir os Estados Unidos. As duas coisas são complementares.
Mas nesse cenário, o que é que Portugal deveria fazer? Já deveria ter entrado em negociações?
Ainda ontem estava a ouvir um dos secretários norte-americanos da Defesa - Elbridge Colby - a dizer também exatamente a mesma coisa, que os Estados Unidos não viam isto como um ato hostil, mas complementar. Portanto, acho que para Portugal, esse argumento para não fazer parte ou envolver-se, não existe. Essa razão não faz sentido. Eu acho que sim, acho que Portugal devia de facto estar muito mais presente nestas movimentações.
Nós estamos a ver emergir coligações de potências europeias, nesta área da defesa, e Portugal parece estar à margem de todas essas movimentações. Parece-me que essa passividade não é a melhor resposta, acho que pelo menos devemos explorar estas possibilidades. Acho, por exemplo, que seria muito interessante explorar com a França uma possibilidade: Será que a França não tem interesse numa presença aérea nos Açores, por exemplo? Até com esta dimensão, também, do nuclear?
A ideia do lado francês é que isto dispersa as forças francesas e, portanto, torna muito mais difícil também o cálculo do adversário e uma resposta eficaz do adversário ao arsenal nuclear francês. Bem, é difícil dispersar mais ficando na Europa do que, de facto, com alguma presença nos Açores. Portanto, acho que isso poderia ser interessante de explorar. Vamos ver se há aqui implicações financeiras, mas à partida parece que não. Para já, aparentemente, a França não está sequer a pedir dinheiro. Em termos do arsenal propriamente tido, é um custo francês e muito significativo. Só para lhe dar uma ideia, a França gasta mais de 5 mil milhões de euros, por ano, no seu arsenal nuclear... e isso é, mais ou menos, o orçamento da defesa inteira de Portugal.
Este conteúdo é feito no âmbito da parceria Renascença/Euranet Plus – Rede Europeia de Rádios. Veja todos os conteúdos Renascença/Euranet Plus.
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