Montenegro em situação de “potencial guerra civil”
15 mai, 2020 - 23:02 • Filipe d'Avillez
O conflito entre a Igreja Ortodoxa Sérvia e as autoridades montenegrinas continua a subir de tom. Um bispo e vários padres foram detidos por liderar uma procissão em tempo de confinamento.
A situação no Montenegro continua muito tensa e pode mesmo chegar a um estado de guerra civil, opondo os cidadãos que se consideram sérvios contra os nacionalistas montenegrinos e membros de minorias étnicas e religiosas.
No mais recente desenvolvimento um bispo e vários padres da Igreja Ortodoxa Sérvia foram detidos pela polícia montenegrina depois de terem participado numa procissão. As autoridades dizem que se trata de um caso de violação das regras de confinamento por causa da pandemia, mas os fiéis acreditam que se trata de mais um ato hostil contra a sua comunidade.
Milhares de pró-sérvios juntaram-se em vários pontos do país para se manifestarem contra o Governo e os protestos degeneraram várias vezes em violência, com os manifestantes a queixar-se de força excessiva por parte da polícia.
O Montenegro separou-se da Sérvia em 2006, num referendo em que os independentistas venceram por uma pequena diferença e num cenário em que parecia mais provável o território conseguir entrar para a União Europeia sem a Sérvia.
Uma grande percentagem da população, porém, continua a considerar-se etnicamente sérvia e a esmagadora maioria dos montenegrinos pertence à Igreja Ortodoxa Sérvia. Existe uma Igreja Ortodoxa Montenegrina, mas não é reconhecida por mais nenhuma comunidade ortodoxa e reúne apenas 30% da população do país.
O espetro de um conflito armado é real, numa região que ainda tem presente na memória a terrível guerra na ex-Jugoslávia.
“O Montenegro é historicamente um território sérvio. O Reino do Montenegro era um estado etnicamente sérvio, tal como o Reino da Sérvia, não havia diferença de identidade”, explica Aleksandar Rakovic, historiador no Instituto de História Moderna em Belgrado.
“Hoje a identidade dos montenegrinos ortodoxos está dividida em três: sérvios, montenegrinos que falam sérvio e montenegrinos que falam a chamada língua montenegrina”, acrescenta o historiador.
Infelizmente existe o potencial para uma guerra civil entre defensores do regime montenegrino e minorias etno-religiosas, por um lado e crentes da Igreja Ortodoxa Sérvia, por outro. Isto não é algo que a população sérvia deseja pois só beneficiaria a ala dura da liderança montenegrina, como o Presidente Milo Djukanovic, que tem um longo historial de causar divisão”, conclui.
Irmãos de sangue
O atual estado de conflito foi espoletado por uma lei passada pelo Governo montenegrino que decreta que todas as comunidades religiosas têm de comprovar que já eram donas dos seus terrenos e propriedades antes de 1918, caso contrário o Governo pode nacionalizá-los.
A questão é que até 1918 existia uma Igreja montenegrina, mas esta foi dissolvida e passou a incorporar a Igreja Ortodoxa da Sérvia a partir da unificação dos reinos. Em 1993 um monge que tinha sido expulso da Igreja Sérvia fundou a Igreja Ortodoxa de Montenegro, que reclama agora ser sucessora da Igreja de 1918.
Caso o Governo entenda que essa reivindicação é correta, fica com mão livre para passar igrejas, mosteiros e terrenos da Igreja Sérvia para a Igreja de Montenegro. A Igreja montenegrina tem pretendido fazer isso mesmo ao longo dos últimos anos. O Governo, entretanto, nega que seja essa a sua intenção, mas a oposição, pela voz do partido pró-sérvio Frente Democrática, diz que é precisamente isso que está a acontecer.
“Com esta lei o Estado de Montenegro quer confiscar a propriedade da Igreja Ortodoxa Sérvia no Montenegro (mosteiros, igrejas e artefactos). Assim, pretende roubar os rendimentos que a Igreja Sérvia recebe regularmente das centenas de milhares de peregrinos que costumam visitar a partir de toda a antiga Jugoslávia”, explica Rakovic.
- Noticiário das 6h
- 12 jul, 2026







