31 mai, 2025 - 09:35 • Redação
Uma mulher do estado norte-americano de Washington está a processar sete empresas de gás e petróleo, alegando que as mesmas contribuíram para um dia extremamente quente que, consequentemente, levou à morte da sua mãe.
A 28 de junho de 2021, uma vaga de calor culminou num dia com 42ºC (108ºF) - o mais quente registado no Estado, de acordo com o processo. Este foi o terceiro dia consecutivo em que as temperaturas ultrapassavam os 38ºC (100ºF)
Juliana Leon, de 65 anos, teria feito uma viagem de 160km de Ferndale, Washington, até Seattle, para uma consulta médica. No regresso, por ter o ar condicionado avariado, Juliana abriu os vidros e pouco depois encostou o carro numa zona residencial, relata o jornal The New York Times. A mulher foi encontrada horas depois, inconsciente, ao volante, com uma temperatura corporal a 44ºC (110ºF).
Misti, a filha de Leon, afirma ter falado com a mãe nessa manhã, mas ficou preocupada quando não conseguiu falar com ela mais tarde.
Depois de ligar à polícia local, soube que a mãe havia falecido. "Nunca na minha vida teria adivinhado que uma onda de calor e a mudança climática teriam sido a causa da morte da minha mãe", disse numa entrevista. "Não há maneira de compreender isto e até de o racionalizar", acrescentou.
A filha de Juliana Leon apresentou, esta semana, no tribunal estadual de Washington, um processo às sete empresas (Exxon Mobil, Chevron, Shell, BP e a sua subsidiária, Olympic Pipeline Company, ConocoPhillips e a Phillips 66) , alegando ter sido uma morte injusta.
De acordo com o jornal The New York Times, os advogados de Misti alegam que as empresas sabiam que os seus produtos estavam a alterar o clima e não avisaram o público sobre os riscos.
De referir, que, nos últimos anos, cidades e estados têm apresentado processos judiciais climáticos contra grandes produtores de petróleo e gás, alegando que se envolveram em marketing enganoso, fraude e até extorsão. O caso representa ainda um esforço crescente para responsabilizar as empresas de combustíveis fósseis sobre o aquecimento global.
Especialistas disseram que este caso foi o primeiro em que as empresas estiveram envolvidas devido à morte de um indivíduo, como resultado de condições derivadas de alterações climáticas, induzidas pelo homem.
Theodore J. Boutrous, Jr., advogado da Chevron, disse, através de um comunicado, que o tribunal "deveria adicionar esta alegação fantasiosa à crescente lista de processos judiciais sem mérito relacionados com o clima que os tribunais estaduais e federais já rejeitaram".
A empresa Phillips 66 veio a público dizer que não iria tecer comentários sobre os litígios pendentes. As demais companhias acusadas não responderam a pedidos de comentários. Em casos anteriores a este, as empresas afirmaram que não poderiam ser responsabilizadas pelos danos monetários causados pelo aquecimento global.
Segundo o jornal diário norte-americano, na queixa, os advogados de Leon argumentam que "as empresas de petróleo e gás sabiam há décadas que os seus produtos alterariam perigosamente a atmosfera do planeta", que "continuaram a produzir esses produtos apesar de conhecerem os riscos" e que "trabalharam para suprimir a conscientização pública sobre estes perigos".
Investigadores concordam, em grande parte, que as emissões de combustíveis fósseis causaram um aquecimento do planeta significativo, nas últimas décadas.
Embora a queixa de Misti Leon seja civil e não criminal, segue uma lógica semelhante. Cindy Chon, antiga procuradora federal e atual professora de direito na Universidade de Indiana Bloomington, afirmou haver "uma estrutura razoável para uma queixa". Não estando envolvida no caso, Cindy disse: "Tens uma cadeia de casualidade e sim, tens que respeitá-la com essa evidência. Mas as alegações, tomadas pelo valor nominal, são razoáveis".
Ainda, de acordo com investigadores do World Weather Attribution, um grupo internacional de cientistas e meteorologistas, o calor que atingiu o Noroeste Pacífico, em 2021, teria sido "virtualmente impossível" se não fosse pela mudança climática provocada pelo homem.
O The New York Times referiu ainda que morreram cerca de 600 pessoas a mais do que seria normal para uma semana de final de junho, em Washington e Oregon.
Misti Leon está a pedir uma indemnização, mas a sua queixa não contém um valor específico em dinheiro.