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​50 anos da Independência Moçambique

Bispo de Tete diz que terrorismo “ganhou raízes” em Cabo Delgado

25 jun, 2025 - 09:00 • Henrique Cunha

Numa entrevista em que percorre os últimos 50 anos da realidade de Moçambique, o bispo de Tete descreve à Renascença um quadro geral de pacificação, embora lamente que na região norte do país, sobretudo em Cabo Delgado, permaneçam focos de enorme estabilidade. D. Diamantino Antunes refere que o “esforço militar” não tem sido suficiente para se encontrar uma resolução para o problema que já provocou mais de um milhão de deslocados.

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O bispo de Tete, D. Diamantino Antunes, diz que o terrorismo “ganhou raízes” em Cabo Delgado.

“Aquilo que sabemos é que, apesar do esforço militar e da tentativa de resolução de algumas das causas que estão na génese e no prolongamento do conflito, a insurgência, infelizmente, continua. Continua ativa e está longe de ser vencida. Os ataques verificados ultimamente na província de Niassa também são prova disso. Portanto, o problema, sem dúvida, não está resolvido”, diz o prelado em entrevista à Renascença.

“Estamos, de facto, perante um fenómeno que parece que ganhou raízes naquela região e que, sem dúvida, é alimentado por vários interesses e por várias causas”, reforça D. Diamantino.

Encontrar uma solução para acabar com esta insurgência não é fácil, pois não conhecemos quem está por detrás dela, quem a apoia ou quem beneficia dela”.

De acordo com D. Diamantino Antunes, as situações mais dramáticas de fome são precisamente registadas em Cabo Delgado, a par com o problema “endémico” relacionado com a seca e com as alterações climáticas.

A fome em Moçambique é endémica em algumas regiões, devido à falta de chuva. E sabemos que também com as mudanças climáticas a situação está-se agravando”, contextualiza.

”Cabo Delgado é aquela stuação mais dramática, devido ao grande número de deslocados internos que não têm aquela assistência material que lhes permite ter uma dignidade que merecem. A situação dos deslocados é muito grave, porque falta a devida assistência, sobretudo da parte das organizações internacionais, que têm os seus cursos muito limitados. Há um número desproporcionado de deslocados”, acrescenta.

Não fora a instabilidade registada em Cabo Delgado e D. Diamantino Antunes descreveria um cenário de tranquilidade no país, depois da agitação vivida aquando das últimas eleições gerais. "Nos últimos meses, depois da tomada de posse do Presidente da República e também dos primeiros encontros com a oposição, em particular com o líder principal da oposição, o doutor Venâncio Mondlan, a situação normalizou-se e temos menos sinais de violência”.

“O país voltou a ter aquela tranquilidade que é necessária para poder não só celebrar os 50 anos de independência de modo pacífico, mas, sobretudo, perspetivar um futuro mais risonho e completar aquilo que os 50 anos de independência ainda não conseguiram realizar”, assinala.

"Enorme contributo" da Igreja para a paz

Nestas declarações à Renascença, o bispo de Tete sublinha o importante papel da Igreja Católica na ajuda às populações e nos esforços de paz para Moçambique, ao longo dos últimos 50 anos, lembrando que a sua “presença capilar em todo o território permite, de facto, uma ajuda e, sobretudo, uma capacidade de escutar as pessoas e tentar juntos resolver os problemas mais graves”.

“A Igreja Católica, sobretudo através dos bispos, da Conferência Episcopal, tem apoiado não só o esforço de desenvolvimento, mas também e sobretudo o esforço que se está fazendo para que a paz seja a norma de vida e a reconciliação o melhor caminho para enfrentar as dificuldades e resolver os problemas”, acrescenta.

D. Diamantino lembra que a Igreja Católica deu um “enorme contributo ao esforço comum para colocar um fim na Guerra Civil”, recordando o seu papel “determinante na obtenção dos acordos de paz em Roma, e que colocaram fim a uma guerra fratricida”.

O bispo não esquece também a relevância que a comunidade de Santo Egídio, ligada aos padres Agostinianos (congregação de origem do Papa Leão XIV), teve no acordo geral de paz, assinado em Roma, a 4 de outubro de outubro de 1992.

“Não esqueço, claro, que o contributo da paz em Moçambique, o esforço e o resultado da paz em Moçambique, que sem dúvida é o resultado de muitas forças conjugadas, da Igreja Católica, dos bispos, da oração e do sacrifício do povo de Deus, e da mediação e do papel determinante que teve na fase final do processo a comunidade de Santo Egídio. Nós olhamos para o Papa Agostiniano, Leão XIV com muita esperança”.

“Os Agostinianos tiveram uma presença muito antiga aqui, em Moçambique. Hoje não estão presentes, não temos por cá os Padres Agostinianos, mas nós olhamos para o Papa Leão XIV com muita esperança, porque é um Papa missionário e se o Papa Francisco nos falou da missão, e muito bem, nós temos agora um Papa missionário que vem da missão, e eu penso que poderá compreender muito melhor aquilo que são os nossos desafios, a nossa realidade, e nos ajudar a crescer e a consolidar a Igreja em Moçambique”, defende

Por último, o bispo de Tete que é originário de Albergaria dos Doze, no concelho de Pombal, e pertence aos missionários da Consolata, destaca o crescimento da Igreja Católica em Moçambique, num esforço onde “os leigos continuam a ter um papel muito importante”.

“A Igreja moçambicana é fundamentalmente uma igreja ministerial, laical, de pequenas comunidades, onde, de facto, os leigos são protagonistas e levam eles mesmos à igreja. Hoje os católicos em Moçambique são cerca de 25, a 27% da população”, remata.

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