Faixa de Gaza
Soldados de Israel com ordem para disparar contra palestinianos perto de centros de ajuda
27 jun, 2025 - 15:18 • João Pedro Quesado
“A nossa forma de comunicação são tiros”, descreve um soldado. Casos estão a ser investigados internamente pelo exército israelita.
Os soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF) têm ordem para disparar contra os palestinianos perto dos centros de distribuição de ajuda humanitária. A notícia é avançada pelo jornal israelita Haaretz, que cita conversas com responsáveis e soldados israelitas.
Os quatro centros em causa são operados pela Fundação Humanitária de Gaza, e começaram a operação na Faixa de Gaza no final de maio. A fundação terá sido criada por Israel, em conjunto com grupos evangélicos dos Estados Unidos da América (EUA) e empresas privadas de segurança, e vai receber financiamento norte-americano.
De acordo com o jornal Haaretz, os centros abrem durante uma hora em cada manhã, e os soldados disparam contra os palestinianos antes da hora de abertura para impedir a aproximação, assim como depois do encerramento.
“São tratados como uma força hostil — não há medidas de controlo de multidão, não há gás lacrimogéneo, apenas munições reais com tudo o que se imagina: metralhadoras pesadas, lançadores de granadas, morteiros”, descreve um soldado da Israel, acrescentando que “a nossa forma de comunicação são tiros”.
“Abrimos fogo de manhã cedo a algumas centenas de metros de distância se alguém tenta chegar à fila, e às vezes simplesmente disparamos contra eles de perto. Mas não há perigo para as forças”, diz o mesmo soldado, que não tem “conhecimento de uma única ocasião de tiros em resposta”. “Não há inimigo, não há armas”, diz.
Médio Oriente
Palestinianos morrem à procura de alimentos. EUA vão financiar fundação polémica na Faixa de Gaza
O Gabinete das Nações Unidas para os Direitos Huma(...)
“Gaza já não interessa a ninguém. Tornou-se num lugar com as suas próprias regras”, afirma outro soldado, acabado de regressar de um destacamento na parte norte da Faixa de Gaza, que sente que “a perda de vida humana não significa nada. Não é sequer um ‘incidente infeliz’, como eles costumavam dizer”.
Responsáveis das Forças de Defesa de Israel dizem ainda ao Haaretz que o exército está satisfeito com a forma como a operação da Fundação Humanitária de Gaza tem evitado o colapso da legitimidade internacional para a continuação da guerra.
Outro problema apontado com os centros de distribuição é a falta de consistência. “Houve casos em que fomos notificados do envio de uma mensagem a dizer que o centro ia abrir de tarde, e as pessoas aparecem de manhã cedo para serem as primeiras na fila”, conta um responsável do exército. “Porque chegaram demasiado cedo, a distribuição foi cancelada naquele dia”.
O Haaretz avança ainda, citando um soldado veterano, que os empreiteiros a trabalhar em Gaza com equipamento de engenharia “recebem 5.000 shekels [mais de 1.200 euros] por cada casa que demolem”, fazendo-o “onde quer que seja que querem”. O exército, ao ter de “assegurar o trabalho deles”, acaba por disparar em “áreas onde é permitido aos palestinianos estar”.
Alerta da ONU
Usar ajuda alimentar como arma em Gaza "é crime de guerra"
Mais de 410 pessoas terão sido mortas a tiro ou at(...)
“Para um empreiteiro ganhar outros 5 mil shekels e demolir uma casa, é considerado aceitável matar pessoas que só estão à procura de comida”, disse o mesmo soldado.
O exército israelita tem ainda utilizado artilharia para dispersar as multidões. Segundo uma fonte militar presente numa reunião em que o tema foi discutido, “o que preocupa toda a gente é se vai prejudicar a nossa legitimidade para continuar a operar em Gaza”.
“O aspeto moral é praticamente não-existente”, conta. “Ninguém pára para questionar porque uma dúzia de civis à procura de comida são mortos todos os dias”.
Segundo o Haaretz, os casos de disparos contra civis estão a ser investigados internamente nas Forças de Defesa de Israel, para avaliar a potencial violação das leis da guerra.
- Noticiário das 5h
- 06 jun, 2026










