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“O alvo é toda a população”

Organizações israelitas denunciam genocídio em Gaza

28 jul, 2025 - 17:49 • Miguel Marques Ribeiro

A B’Tselem e a Médicos pelos Direitos Humanos apresentaram relatórios que sustentam a existência um genocídio no território, situação já defendida pelas Nações Unidas e diversas organizações internacionais. Há um “ataque coordenado a todos os aspetos da vida dos palestinianos".

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Ação coordenada, deliberada, que visa “destruir a sociedade palestiniana na Faixa de Gaza”. A B’Tselem e a Médicos pelos Direitos Humanos (MDH), duas importantes organizações não-governamentais israelitas, não têm dúvidas: “Israel está a cometer genocídio contra os palestinianos na Faixa de Gaza.”

Num relatório apresentado esta segunda-feira e intitulado “Our genocide” [“O nosso genocídio”], a B’Tselem – Centro Israelita de Informação sobre Direitos Humanos nos Territórios Ocupados, acusa a administração liderada por Benjamin Netanyahu de estar a desenvolver uma guerra a toda a população do território.

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“Aos olhos de Israel, o alvo é toda a população da Faixa de Gaza”, declara o documento. O país desenvolve um “ataque coordenado a todos os aspetos da vida dos palestinianos”, numa “tentativa clara e explícita de destruir a sociedade palestiniana em Gaza”.

Convenção das Nações Unidas sobre genocídio

O relatório dos Médicos pelos Direitos Humanos, intitulado "Destruição das condições de vida: Uma análise sanitária ao genocídio de Gaza", centra-se de forma mais pormenorizada no impacto das ações do exército israelita sobre o sistema de saúde no território.

Samah tem seis filhos e é mais um dos rostos da crise de fome em Gaza
Samah tem seis filhos e é mais um dos rostos da crise de fome em Gaza

A MDH sublinha que a simples destruição da rede de hospitais e unidades de saúde do território constitui, por si só, crime de genocídio à luz da Convenção da Prevenção e Punição do Crime de Genocídio das Nações Unidas (CPPCG), adotada em 1948.

Contudo, o objetivo de Israel é ainda mais vasto, segundo a B’Tselem. Procura “criar condições de vida catastróficas que impeçam a continuidade da sociedade em Gaza. Essa é precisamente a definição de genocídio.”

Esta organização sublinha os efeitos devastadores da intervenção israelita no território: “Cidades inteiras foram dizimadas, o sistema de saúde foi destruído, instituições educacionais, religiosas e culturais foram destruídas, mais de 2 milhões de pessoas foram deslocadas à força e multidões foram mortas e passam fome.”

Cumplicidade dos países ocidentais

“O termo genocídio refere-se a um fenómeno sócio-histórico e político que envolve atos cometidos com a intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso”, lembra a B’Tselem, socorrendo-se da CPPCG.

Esta condição, prossegue a organização, já se verifica em Gaza, sendo possível aferi-lo através de “documentos e declarações dos decisores políticos, bem como do padrão de conduta das forças perpetradoras [Forças de Defesa de Israel]”.

Aliás, a intenção genocida pode ser inferida de um padrão de comportamento, e não apenas pelos seus resultados, sublinha a MDH, situação que tem precedente no genocídio do Ruanda.

A existência de uma extensa prova documental joga claramente contra Israel, na medida em que as autoridades israelitas tiveram tempo para se aperceber das consequências das suas ações e nada fizeram. “Houve momentos e oportunidades suficientes para Israel travar este ataque gradual e sistemático", declarou o diretor da MDH, Guy Shalev, citado pelo The Guardian.

Estas organizações destacam a existência de um incintamento ao genocídio pelos líderes israelitas. "Falaram de animais humanos. Falaram de não haver civis em Gaza ou de haver uma nação inteira responsável pelo 7 de Outubro", aponta Shalev.

Os relatórios das duas organizações comprometem também os países ocidentais. Yuli Novak, director da B’Tselem, em declarações citadas pelo The Guardian, garante que as ações do Exército israelita não poderiam “acontecer sem o apoio do mundo ocidental".

Os países ocidentais, argumenta, "não estão a fazer tudo o que podiam para travar este horror", que é aquilo que as convenções internacionais exigem.

Organizações internacionais defendem a existência de genocídio

Nas últimas semanas, a relatora especial das Nações Unidas, Francesca Albanese, voltou a acusar Israel de estar a cometer um genocídio na Faixa de Gaza, apelando ao embargo à venda de armas ao país e acusando os israelitas de terem criado uma “economia do genocídio” nos territórios ocupados desde 1967 (que incluem, para além de Gaza, a Cisjordânia).

Num relatório recente, a jurista italiana e académica identificou mais de 60 empresas envolvidas no apoio a colonatos israelitas e operações militares em Gaza. O documento valeu-lhe a imposição de sanções pelos Estados Unidos da América.

Outras instituições internacionais, como a Amnistia Internacional e a Human Rights Watch acusaram recentemente Israel de “atos de genocídio” e de “limpeza étnica”.

Em novembro de 2024, o Tribunal Penal Internacional TPI emitiu mandados de captura contra o primeiro-ministro Netanyahu, o ex-ministro da Defesa israelita, Yoav Gallant, e o líder do Hamas, Mohammed Deif, por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

"Fome em massa provocada pelo homem", diz OMS

Agora foi a vez de duas organizações israelitas defenderem a existência de um genocídio em curso no enclave que faz fronteira com o sul de Israel e é gerido pelo Hamas, grupo terrorista responsável pelos massacres do 7 de outubro que mataram mais de 1200 israelitas e estrangeiros e raptaram 251 pessoas, das quais 24 ainda estão vivos e na posse da organização islâmica.

Em resposta, Israel iniciou uma guerra que levou ao bloqueio da entrada de ajuda humanitária no território, o que está a provocar, segundo o chefe da Organização Mundial de Saúde (OMS), Tedros Ghebreyesus, uma “fome em massa” que “é provocada pelo homem”.

Ainda segundo a OMS, os níveis de subnutrição no território atingiram níveis “catastróficos” nas últimas semanas.

Israel acusou, sem provas, o Hamas de roubar ajuda humanitária e implementou um sistema privado de ajuda humanitária. Mais de mil civis morreram depois de serem baleados quando procuram ajuda nos centros que foram criados para distribuição alimentar pela Gaza Humanitarian Foundation.

Já esta segunda-feira, Netanyahu afirmou que “não há fome” na Faixa de Gaza e acusou um vídeo recente da agência Reuters que mostra o corpo de uma bebé de cinco meses que morreu devido à malnutrição de ser uma "mentira descarada".

Numa entrevista recente à Renascença, o embaixador de Israel em Portugal afirmou que falar de genocídio em Gaza "é uma vergonha".

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