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Médio Oriente

Milhares de palestinianos abandonam Cidade de Gaza com receio de ofensiva israelita

18 ago, 2025 - 15:34 • Reuters

Israel prepara ofensiva terrestre sobre a maior cidade de Gaza. Residentes alarmados apelam a protestos. Mediadores no Cairo reúnem-se com o Hamas numa nova tentativa de acordo de cessar-fogo.

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Temendo uma ofensiva terrestre iminente de Israel, milhares de palestinianos abandonaram as suas casas em bairros orientais da Cidade de Gaza, alvo de bombardeamentos constantes, deslocando-se para zonas a oeste e sul do território devastado.

O plano de Israel para tomar a Cidade de Gaza gerou alarme dentro e fora do país. Dezenas de milhares de israelitas realizaram alguns dos maiores protestos desde o início da guerra, exigindo um acordo que ponha fim aos combates e permita a libertação dos 50 reféns que permanecem detidos por militantes palestinianos desde 7 de Outubro de 2023.

A iminente ofensiva levou mediadores egípcios e catarenses a intensificar esforços para alcançar um cessar-fogo. Uma fonte próxima das negociações com o Hamas, no Cairo, descreveu esta ronda como “a última tentativa”.

O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, considera a Cidade de Gaza o último grande bastião urbano do Hamas. Porém, com 75% do território já sob controlo israelita, o exército advertiu que expandir a ofensiva poderá pôr em risco a vida dos reféns e arrastar as tropas para uma prolongada e sangrenta guerra de guerrilha.

Pai de refém: “Tenho medo que o meu filho seja ferido”

Dani Miran, cujo filho Omri foi sequestrado a 7 de Outubro, afirmou recear as consequências de uma invasão terrestre: “Tenho medo que o meu filho seja ferido”, disse em entrevista à Reuters, em Telavive.

Na Cidade de Gaza, multiplicam-se também os apelos a protestos para exigir o fim de uma guerra que devastou grande parte do território e provocou uma catástrofe humanitária, bem como para pressionar o Hamas a intensificar as negociações de modo a evitar a ofensiva israelita.

Uma incursão blindada poderá deslocar centenas de milhares de pessoas, muitas delas já forçadas a fugir várias vezes desde o início do conflito.

Ahmed Mheisen, responsável por abrigos em Beit Lahiya, nos arredores orientais da Cidade de Gaza, relatou que 995 famílias abandonaram a zona nos últimos dias rumo ao sul.

Com a ofensiva à vista, Mheisen estima serem necessárias 1,5 milhões de tendas para alojamento de emergência, recordando que Israel permitiu apenas a entrada de 120 mil tendas durante a trégua de Janeiro a Março.

O gabinete humanitário da ONU indicou, na semana passada, que 1,35 milhões de pessoas já necessitam de abrigos de emergência em Gaza.

“O povo da Cidade de Gaza é como alguém que recebeu uma sentença de morte e aguarda execução”, disse Tamer Burai, empresário local. “Vou levar os meus pais e a família para o sul hoje ou amanhã. Não posso arriscar perder ninguém caso haja uma invasão súbita”, acrescentou via aplicação de mensagens.

Um protesto sindical está agendado para quinta-feira na Cidade de Gaza, com muitos a anunciarem nas redes sociais a sua participação, aumentando assim a pressão sobre o Hamas.

A última ronda de negociações indiretas terminou no final de julho sem acordo, com ambas as partes a trocarem acusações pelo impasse.

Fontes próximas das conversações no Cairo referem que mediadores egípcios e catarenses se reuniram com líderes do Hamas, da Jihad Islâmica e de outras fações, mas sem avanços significativos.

Segundo um responsável do Hamas, o movimento estaria disposto a retomar as discussões sobre uma trégua de 60 dias, proposta pelos EUA, que incluiria a libertação de metade dos reféns. Mas insiste também num acordo mais amplo que ponha termo definitivo à guerra.

Impasse diplomático

Israel afirma que só aceitará cessar-fogo caso todos os reféns sejam libertados e o Hamas depunha as armas – exigência que o grupo islamista rejeita até que seja criado um Estado palestiniano. Um dirigente do Hamas reiterou esta segunda-feira à Reuters que a organização rejeita as condições de desarmamento ou do fim da sua liderança em Gaza.

Mantêm-se igualmente divergências sobre a extensão da retirada israelita e a forma como a ajuda humanitária será distribuída na faixa, onde a desnutrição é generalizada e organizações alertam para o risco de fome.

Sublinhando o impasse, o presidente dos EUA, Donald Trump, escreveu na sua rede social: “Só veremos o regresso dos reféns quando o Hamas for confrontado e destruído!!! Quanto mais cedo isso acontecer, maiores serão as hipóteses de sucesso.”


No sábado, o exército israelita declarou estar a preparar-se para fornecer tendas e outros equipamentos antes de deslocar civis das zonas de combate para o sul do enclave. Não foram, contudo, avançados detalhes sobre quantidades nem prazos de entrega.

“As tendas existentes no sul já estão degradadas e não protegem da chuva. Não há novas tendas em Gaza devido às restrições israelitas nas fronteiras”, afirmou o economista palestiniano Mohammad Abu Jayyab. Disse ainda que algumas famílias da Cidade de Gaza começaram a alugar casas no sul e a transferir os seus pertences: “Algumas pessoas aprenderam com experiências anteriores e não querem ser apanhadas de surpresa. Outras acham melhor mudar já para garantir espaço.”

A guerra começou quando militantes liderados pelo Hamas atravessaram a fronteira para o sul de Israel, matando 1.200 pessoas e sequestrando 251, segundo dados israelitas, a 7 de outubro.

Desde então, mais de 61 mil palestinianos foram mortos pela campanha aérea e terrestre israelita, segundo as autoridades de saúde locais, que não distinguem entre combatentes e civis.

Nas últimas 24 horas, mais cinco palestinianos morreram de desnutrição e fome, elevando para 263 o número de mortes por essas causas, incluindo 112 crianças, desde o início do conflito, de acordo com o Ministério da Saúde em Gaza.

Israel contesta os números divulgados pelas autoridades da Faixa, controlada pelo Hamas.

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