08 set, 2025 - 11:00 • Hugo Monteiro com equipa de verificação de dados da Euranet
O apagão em Portugal e Espanha, a 28 de abril de 2025, desencadeou uma onda de desinformação, incluindo alegações de um ciberataque russo, notícias falsas sobre erupções solares e declarações atribuídas incorretamente a fornecedores de energia e a autoridades públicas, como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.
A equipa de verificação de dados da Euranet Plus, a rede europeia de rádios de que a Renascença faz parte, analisou as notícias e o que foi escrito nas redes sociais acerca do apagão de abril na Península Ibérica e concluiu que é "possivelmente verdadeira" a afirmação de que "as energias renováveis aumentam a vulnerabilidade cibernética" dos Estados.
À medida que as redes elétricas incorporam mais fontes renováveis conectadas digitalmente e dependentes da Internet, passam a fornecer um número maior de eventuais pontos de entrada para "invasões cibernéticas". A natureza descentralizada dessas redes também significa que uma falha em uma parte da rede pode desencadear uma cascata de problemas em outros lugares, se a questão não for gerida adequadamente.No entanto, a equipa de verificação de dados da Euranet sublinha que a principal vulnerabilidade não reside nas energias renováveis em si, mas antes na forma como os operadores gerem este risco.
O número de tentativas de ataques cibernéticos a fornecedores de energia aumentou drasticamente nos últimos anos, com as empresas que prestam este serviço público a sofrerem uma média de 1.500 violações por semana em 2024, de acordo com a Agência Internacional de Energia. No entanto, também é verdade que os ciberataques estão a aumentar em todo o setor energético, afetando também empresas de petróleo e gás e até do setor nuclear. De acordo com observadores, a União Europeia está atrás da América do Norte e da Ásia em termos de investimento em cibersegurança. Numa altura em que estas ameaças estão a tornar-se mais comuns, é, por isso, "fundamental um reforço das medidas europeias para garantir a proteção das fontes de energia renováveis e não só", defende o relatório divulgado por esta equipa de verificação de dados da Euranet Plus.
É em grande parte falso que as energias renováveis aumentam o risco de apagões
As energias renováveis, como indicaram as investigações do Governo espanhol e do operador da rede espanhola, não foram as responsáveis pelo incidente de 28 de abril. Ambas as investigações atribuíram a falha à má gestão operacional e ao controlo insuficiente da tensão elétrica. Como concluiu o Centro de Análise de Políticas Europeias, "o apagão em Espanha foi uma falha de gestão, não de tecnologia".
Já em Portugal, a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos divulgou o balanço da reunião do grupo de peritos da Rede Europeia de Operadores de Transporte de Eletricidade, que concluiu que o apagão teve como causa mais provável um aumento de tensão em cascata, um fenómeno técnico inédito na Europa, que levou os peritos a admitir a necessidade de análise aprofundada e medidas para reforçar a defesa do sistema elétrico europeu.
"As energias renováveis, como a hidrelétrica e a geotérmica, utilizam geradores rotativos convencionais, que fornecem o que é chamado de inércia rotacional inerente. Isso significa que, mesmo quando a entrada mecânica para uma turbina é reduzida, essa turbina continua a girar momentaneamente, resistindo assim a mudanças repentinas e ajudando a estabilizar a frequência da rede. Contudo, se a frequência da rede cair muito abaixo dos limites de segurança, os sistemas de proteção desligam automaticamente os geradores afetados para evitar danos ao equipamento", explica a Euranet Plus.
"No entanto, as energias solar e eólica não fornecem inércia rotacional inerente. Estes geradores requerem inversores para funcionar nas redes existentes com a frequência correta. Como as entradas eólicas e solares flutuam por natureza — elas produzem eletricidade quando o vento sopra ou o sol brilha, não necessariamente quando a demanda atinge o pico —, as redes que utilizam essas fontes podem ser mais sensíveis a interrupções, tornando o gerenciamento cuidadoso especialmente crucial para o seu funcionamento contínuo.
Essa vulnerabilidade não é inerente às energias renováveis, mas sim à forma como são geridas". Por isso, no documento, a equipa de fact-checking da Euranet Plus conclui que é em grande parte falso que as energias renováveis aumentem o risco de apagões. Lembra, mesmo, uma expressão usada pela organização de verificação de factos Science Feedback: "Culpar os painéis solares ou as turbinas eólicas é semelhante a culpar a água por um cano com fuga".
Já existem muitas soluções em uso para garantir o bom funcionamento da energia eólica e solar. Recursos de armazenamento de energia, como baterias, desempenham um papel fundamental na estabilização da rede. A monitorização em tempo real e a melhoria das previsões podem ajudar a evitar futuras falhas de energia, e uma integração mais estreita entre as redes nacionais através de linhas de transmissão de alta tensão, denominadas interligações, também pode ajudar a evitar apagões. Analistas e especialistas do setor estão a apelar aos líderes europeus para que continuem a investir nessas soluções, e Espanha e Portugal comprometeram-se a adotar algumas dessas medidas nos meses que se seguiram ao apagão.
É em grande parte falso que as energias renováveis são incompatíveis com a energia nuclear
A energia nuclear recuperou força internacional nos últimos anos, com os Estados-Membros da União Europeia e instituições como o Banco Mundial a sinalizarem um apoio renovado ao seu papel na mitigação das alterações climáticas. Ainda assim, persistem tensões entre os defensores das energias renováveis e os defensores da energia nuclear. Os defensores da energia nuclear foram rápidos em culpar as políticas de zero emissões líquidas de Espanha pelo apagão, alegando que o aumento da energia nuclear teria evitado o incidente. Os defensores do incremento do uso da energia nuclear por vezes sugerem, ainda, que a energia nuclear e as energias renováveis têm uma relação de exclusividade. Apesar dessas divisões, vários países europeus - incluindo França, Finlândia e Países Baixos - estão a desenvolver a energia nuclear em conjunto com fontes renováveis. Por isso, "é em grande parte falso que as energias renováveis sejam incompatíveis com a energia nuclear".
No entanto, a energia nuclear pode ser lenta e cara de implementar, de acordo com o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas. Já o Gabinete Europeu do Ambiente argumenta que "construir novas centrais nucleares para descarbonizar a Europa a tempo é irrealista", mas que "a produção baseada em energias renováveis, a poupança de energia e as ferramentas de flexibilidade podem garantir uma segurança energética estável e substituir totalmente os combustíveis fósseis e a produção nuclear restante no mix energético".
Desafio: esclarecer os Europeus
Por último, a Euranet Plus sublinha como o mal-entendido sobre as tecnologias renováveis pode semear dúvidas sobre a transição energética. Por isso, dos muitos desafios que a Europa é agora obrigada a enfrentar, um dos principais é a necessidade de comunicar tanto os benefícios como os riscos da energia "limpa" a um público inundado com desinformação e informações erradas sobre as energias renováveis.